O grito do sol sobre a cabeça

O grito do sol sobre a cabeça

Brontops Baruq
Terracota Editora
168 páginas
Lançado em 2012

Em um total de dezenove contos, Brontops Baruq explora nossas mais profundas angústias, em futuros hipotéticos. Qualquer tentativa de sintetizar a beleza dialética e polifônica dessa obra está fadada à triste generalização de pontos urgentes contemplados no ato da leitura.

Não comentarei as dezenove histórias, para não ser enfadonho e também para preservar a experiência dos leitores. Destacarei alguns aspectos daquelas que me geraram constantes explosões epifânicas e me acompanharam em alguns momentos da vida cotidiana, indo e voltando em minha memória.

O conto Hipocampo enuncia uma questão filosófica que julgo essencial: estou aqui, não sei como, não sei por quê, movido às demandas de um Outro. A complexidade dessa afirmação, na voz de um humano heterossexual que se apronta para uma experiência sexual com uma raça alienígena desconhecida, configura uma marca autoral desse existencialismo da vida moderna. Carregamos conceitos, valores, fundamentos éticos e muitas vezes não nos questionamos e nem nos importamos com os porquês.

No conto Quereres, o autor se debruça com maestria sobre o tema da manipulação genética. Ter filhos nesse futuro hipotético se assemelha à criação de um avatar em um RPG eletrônico. Quem nunca desfrutou de pelo menos uns vinte ou trinta minutos selecionando o melhor tipo de cabelo, a melhor cicatriz facial e a cara mais carrancuda para seu Redguard, em Skyrim? Pois no futuro, essa experiência é potencializada, ao ser migrada para o planejamento de um@ primeir@ filh@ in vitro.

Em Rebobinados, somos apresentados à tecnologia experimental de cronogenia, que implica na capacidade de rebobinarmos nosso tempo de vida para aguentarmos longas viagens espaciais. Como efeito colateral dessa experiência, o autor explora a subjetividade de dois tripulantes voluntários, ex-detentos de Presidente Bernardes, que não conseguem conviver um com o outro em uma viagem espacial que durará mais de mil e oitocentos anos.

O conto Pausa me despertou uma vontade gritante de desejar mais experiências de leitura como essa. Muito justificada pelo meu vício em videogames, minha queda por esse conto se deve ao fato dele me remeter o tempo inteiro a uma distopia que lembra muito a série Fallout, somado ao ritmo road movie com temperos de um mundo social inspirado em Mad Max. As descrições étnicas, misturadas com a dualidade ideológica de grupos fortemente armados que defendem o criacionismo e o evolucionismo, são o ponto de partida para um mundo caótico, onde se manter vivo pressupõe pegar em armas e encarnar um personagem de Quentin Tarantino.

Em Ficção especulativa, tomamos contato com a angustiante tecnologia do Campo de Dinac, que propõe a condição existencial de podermos vislumbrar as experiências passadas quantas vezes quisermos, modificando nossas ações, sem alterar um único instante do tempo presente. Esse foi um dos contos que me despertou muita reflexão, pois sempre tive interesse − e dificuldade − em histórias que lidam com o tema da viagem no tempo.

O último conto que destaco é o Sésamo, bananas & kung fu. Em uma sociedade com muitos problemas de convivência, o advento do teletransporte sinaliza a sua ruína. Humanos preparam seu plano de fuga para deixar a Terra. Enfim, Brontops observa o teletransporte como uma tecnologia de um futuro hipotético, tão revolucionária quanto a internet ou a pistola do Rick, que abre fendas dimensionais, em Rick & Morty.

De leitura leve e muito rápida, O grito do sol sobre a cabeça é uma dessas obras que você consegue saborear em poucas sentadas. Depois, fica a estanha sensação de querer encontrar mais produções literárias do autor e se deliciar com mais genialidades e mundos distópicos. A Boa notícia é que Brontops Baruq costuma compartilhar suas produções em seu blog Toca do Brontops, mas esperamos que uma próxima obra esteja nos planos desse novo nome da literatura nacional.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com mestrado em Linguística.

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O caçador cibernético da Rua 13

O caçador cibernético da Rua 13

Fabio Kabral
Malê Editora
208 páginas
Lançado em 2017

Comprar e vender favores políticos e financeiros sempre foi uma atividade rotineira em todos os escalões do poder. Deem uma boa olhada nos livros de história. Não existe Estado ou economia livres da corrupção. Tanto a democracia quanto o totalitarismo jamais conseguiram extirpar esse câncer. Onde há dinheiro há tentação.

A diferença é que agora os grandes escândalos se tornaram o folhetim do século 21, recebendo detalhada cobertura da imprensa e repercutindo explosivamente nas redes sociais. Esse cenário justifica o aparecimento, na literatura e nos quadrinhos, de justiceiros cuja principal atividade é executar políticos e empresários corruptos.

O justiceiro mais conhecido no planeta é certamente o Codinome V, do clássico britânico V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd, lançado em 1982. No Brasil, conheço pelo menos três protagonistas aparentados: o Doutrinador, criado pelo designer gráfico e quadrinista Luciano Cunha em 2010; o curupira-ciborgue de minha rapsódia Distrito federal, lançada em 2014, e mais recentemente o ciborgue-mutante João Arolê, do romance O caçador cibernético da Rua 13, de Fabio Kabral. Os três realizam no plano da ficção o desejo inconsciente de boa parte da população brasileira: caçar o predador mais sanguinário de qualquer ecossistema, executar o corrupto bem-sucedido e insaciável.

O romance de Fabio Kabral se passa em Ketu Três, a Cidade das Alturas localizada no Mundo Novo, e a importante e movimentada Rua 13 atravessa os treze círculos concêntricos da metrópole. É nesse cenário afrofuturista, em que religião e alta tecnologia se penetram e alimentam, que acompanhamos o drama de João Arolê, um mutante cibernético treinado pra eliminar cidadãos corrompidos da elite de Ketu Três.

Ainda criança, Arolê manifestou habilidades especiais, entre as quais a do teletransporte instantâneo. Isso definiu seu destino. O menino foi separado dos pais e levado a um centro de treinamento paramilitar, mantido pelas poderosas Corporações Ibualama. Anos depois, Arolê e outros três jovens são reunidos numa equipe de supressão e partem para o ataque. Mas esse arranjo não dura muito. As missões são rápidas e sangrentas, não poupando nem crianças. Nosso protagonista, ao perceber a perversidade da milícia de supressão, decide desertar. Agora ele é um caçador de aluguel, um outsider meio homem meio máquina que vive de combater espíritos malignos.

Por meio de flashbacks, vamos conhecendo paralelamente detalhes das três etapas da vida de João Arolê: a infância com os pais amorosos, o período traumático no grupo secreto de extermínio e a angustiada rotina de um desertor assombrado pelo espírito dos mortos.

O aspecto mais saboroso do romance é a vibração veloz e extravagante típica dos quadrinhos, dos animes, dos RPGs, dos games e do cinema de ação. Algo que nossa crítica especializada, de orientação acadêmica, abomina. Mas tenho fé que um dia isso mudará.

A cultura, as crenças, as cores e o ritmo africanos e afro-americanos dão sustentação a uma narrativa jovem e pulsante. O caçador cibernético da Rua 13 marcou território, disso tenho certeza. Oxalá o tabuleiro mágico e tecnológico de Ketu Três, a Cidade das Alturas, volte a ser o cenário de novas histórias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Não verás país nenhum

Não verás país algum

Ignácio de Loyola Brandão
Global Editora
384 páginas
Lançado em 1981

Um dos mecanismos da composição dos sonhos, segundo Freud, é a condensação: vários elementos se aglutinando em um só, lotando essa imagem de significados que resumem vários conteúdos reprimidos. Assim, eu diria sem medo de errar que Não verás país nenhum é um sonho premonitório de Ignácio de Loyola Brandão sobre o final do século 20 e o começo do 21.

Durante muito tempo, o autor colecionou nas redações onde trabalhava pedaços de matérias jornalísticas, propagandas etc. censurados pela Ditadura Militar. Foi a base para o romance Zero, uma colagem absurda de coisas reais. Mas esse material, somado às matérias a que tinha acesso na revista Planeta, são a base também deste romance de 1981.

O enredo se passa em uma São Paulo distópica do século 21. A distopia aqui se dá tanto na esfera político-social quanto na da, e principalmente, ecologia. O protagonista, Souza, e sua esposa, Adelaide, vivem em um mundo onde um breve período democrático foi seguido pela locupletação, o que resultou em um sistema totalitário mantido por um esquema forte de propaganda, controle da imprensa e contenção das massas. Só é possível viver, e viver bem, fora do passado ou do futuro. O que ironicamente leva Souza, ex-professor de História, a ser forçado pelo Estado a se aposentar.

Cidadãos são vigiados o tempo todo. Não apenas a liberdade de ir e vir foi cerceada – só há autorização pra se viver nos chamados Círculos Oficiais Permitidos, cidades são distribuídas em distritos, que só podem ser acessados com autorização prévia –, mas também a liberdade de pensar sobre a realidade opressora circundante. Para ter uma vida razoável, ou você é um militar, burocrata ou militecno. Contudo, não são apenas os contratados do Estado que controlam a obediência civil. Ao seu lado pode estar um cilviltar, funcionário informal do regime, que muitas vezes realiza uma denúncia do que considera fora da linha, em troca de uma conta de água a mais.

A produção de lixo é impossível de ser recolhida, o que faz com que Zeladores precisem negociar com os Catadores. A produção de mortos é enorme, principalmente além dos Círculos, nos Acampamentos Paupérrimos, tornando impossível enterrar ou cremar todos. A pestilência invade, os ratos só são afastados com equipamentos modernos como o Sônico Anti-Ratos – a ciência e a tecnologia são bizarras, e usadas em geral para reduzir os danos causados pelo fim da natureza. A urina é reciclada para consumo, a água só vem pelos Fornecedores Oficiais. O aroma de algo fresco só pode ser acessado em frascos para consumo rápido. Nada mais é orgânico, as mulheres são estéreis. O Brasil Potência abraçou o plano nuclear de grandes construções industriais, o projeto higienista não se dá apenas no controle didático da higiene, a limpeza nacional de populações determinou quem poderia viver nos Círculos Oficiais. O país foi loteado e alugado para nações estrangeiras, a Amazônia agora é um deserto.

Aposentado à força, o narrador ressentido atua como um burocrata metódico. Um dia, na condução, surge uma coceira em sua mão, que dá lugar a um furo perfeito no centro da palma. O espanto o levará para longe de seu itinerário, o tirará da rotina e o colocará diante dos que estão à margem. Isso chamará a atenção de seu sobrinho, um milico que invade sua vida com seus comparsas, tomando conta do apartamento e de seu casamento. Sem parar aí, Adelaide desaparece. O furo, a invasão de sua vida e o sumiço da esposa farão Souza sair da apatia e rememorar, refletir profundamente, como ele e o mundo que o cerca vieram parar ali.

Não verás país nenhum reúne vários elementos da ficção especulativa, mas não é um pastiche, pois faz isso de forma poderosa, meditando sobre a realidade brasileira. Absurdamente atual, grande parte das reflexões e dos temores de Loyola se fazem realmente presentes em nosso século 21, como realidade ou metáfora. Leitura fundamental para a contemplação do absurdo no qual estamos nos metendo, mesmo que em uma velocidade um pouco menor do que a condensada pelo autor.

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Claudio Brites é psicólogo, editor e ficcionista, autor do romance Talvez.

Metanfetaedro

MetanfetaedroAlliah
Tarja Editorial
232 páginas
Lançado em 2012

Beleza e tristeza, prazer e dor se alternam, às vezes se confundem, formando uma liga fascinante. As narrativas reunidas na primeira coletânea de Alliah são hiperjanelas grotescas para os muitos tipos históricos de pressão, repressão e opressão articulados por nossa espécie predadora. Das oito ficções, apenas a última, justamente a que dá título ao volume, não soca o nariz do leitor com cenas explícitas de machismo, racismo, fascismo e outros ismos abjetos.

Metanfetaedro (conto escolhido pra integrar a antologia Ficções fractais, da Sesi-SP Editora), apresenta um explorador solitário chamado Luca − um alter ego new weird do matemático Luca Pacioli, amigo de Leonardo da Vinci −, que passa de uma dimensão surreal a outra, geométrico-onírica. Sua jornada meio abstrata meio poética segue das artes plásticas para a geometria não euclidiana, depois retorna, arrastando referências dessas duas esferas.

Nessa narrativa o leitor pode apreciar a grande habilidade de Alliah na criação de analogias sensoriais metafísicas. Um ótimo exemplo é a droga pan-óptica capaz de expandir nossa percepção. Tempos atrás, antes de sua aventura no interior de um rombicuboctaedro fantástico, o narrador-explorador inventou uma chave pra manipular a mente humana:

Chamava-se metanfetaedro, e era uma droga não convencional. Não se tratava de uma substância química para ser engolida ou injetada, mas de uma droga visual construída por nossas noções espaciais através de um mapa matemático de projeção, que alterava nossa percepção em níveis nunca antes alcançados.

A violência expressa nesse conto é epistemológica e ontológica (sujeito versus universo). Nossa trivial noção de causalidade desmancha no ar. Metanfetaedro reverbera no plano da ficção o moderníssimo princípio da incerteza que Nietzsche já defendia na coletânea de postagens mais provocativa da história da humanidade: “Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis. (…) Causa e efeito: essa dualidade não existe, jamais existiu ou existirá − na verdade, temos diante de nós um continuum do qual isolamos algumas partes.” (A gaia ciência)

Nos outros sete contos do livro a violência é física e psicológica (sujeito versus sujeito), gerando forte empatia. A autora projeta e denuncia, em realidades ora diabólicas ora sublimes, os conflitos de nossa própria realidade: fome, tortura, pilhagem, exploração sexual, escravidão, intolerância religiosa, dominação racial, genocídio, corrupção na política etc.

Moleque e Tupac Amaru III são os pesadelos lúcidos em que a velha máxima de Hobbes (atualizada) − o sujeito é o monstro metamorfo do sujeito − fica mais evidente.

A impressionante capacidade que os seres imaginários de Alliah têm de disseminar sofrimento é a mesma do primitivo sapiens. Na luta de todos contra todos, vencem os impulsos mais agressivos. São tensões e confrontos envolvendo sereias, geodroides, transaliens, cavernícolas, apolófilos, carniceiros, vermícolas, centáurides, bioconstrutos e crianças selvagens, em bolsões orgânicos de podridão, desertos vivos, jardins de nenúfares e metrópoles autofágicas.

Metanfetaedro (o livro) atualiza o catálogo de criaturas híbridas e bizarras de Bosch, Bruegel e Hoffmann, dos românticos e surrealistas, remoçando a tradição do grotesco. Se vivo fosse, Wolfgang Kayser certamente incluiria em seu célebre estudo sobre o tema um capítulo intitulado New weird, a respeito dessa escola artística e literária tão sinistra, da qual Alliah é um de nossos principais nomes.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Diário da nave perdida

Diário da nave perdida

André Carneiro
Editora EdArt
216 páginas
Lançado em 1963

Mais de cinco décadas após seu lançamento, a primeira coletânea de contos de André Carneiro continua aguardando a segunda edição. Consegui meu exemplar amarelado e malcheiroso há poucas semanas na Estante Virtual. Não custou caro, apesar da raridade. Não há dúvida de que foi sorte.

O volume reúne oito narrativas. Cinco de ficção científica: Zinga, o robô, Noite de amor na galáxia, O começo do fim, A prostituta e Diário da nave perdida. Três de ficção fantástica: A organização do doutor Labuzze, O homem que hipnotizava e A escuridão. (Minha definição particular de ficção fantástica, sobrenatural e científica pode ser conferida em Ficção fantástica: notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças.)

Não existe ponto baixo nesse livro. O conto mais fraco do conjunto, Zinga, o robô, justamente o primeiro da sequência, apesar de datado, é uma divertida sátira de costumes. Nele um pai de família compra pra esposa, em prestações, um serviçal de metal e plástico. Mas é claro que, interpretando literalmente os comandos − cheios de imprecisões − da patroa, a máquina quase põe a casa abaixo. No final tudo se resolve, como numa sitcom convencional.

Os melhores contos são, de um lado, os que expressam a angústia paranoica tão potente e tão presente na obra literária de André Carneiro e, de outro lado, os que expõem a insatisfação do indivíduo com seu contexto sempre insuficiente.

Em A organização do doutor Labuzze e O começo do fim, os protagonistas relatam por escrito − forma muito usada pela Velha Guarda do sobrenatural, do fantástico e da ficção científica pra conferir autenticidade aos fenômenos testemunhados − a experiência insólita que vivenciaram. A realidade modifica-se, mas a verdade insiste em se esconder, forçando os heróis (?) a lidar com a dúvida sufocante.

Em O homem que hipnotizava e Diário da nave perdida os protagonistas relatam seu desacordo com as regras do jogo social. Aceitar pacificamente a realidade imposta pelo sistema deixa de ser uma boa opção quando a possibilidade de mudança ganha força. No primeiro caso, por meio da auto-hipnose, que aperfeiçoa tudo ao redor, até mesmo a aparência das pessoas. No segundo, devido ao desligamento acidental da bolha civilizatória de uma espaçonave avariada. Subtexto psicanalítico: certos impulsos cuidadosamente domesticados sempre escapam da jaula quando o carcereiro tira um cochilo.

Fora da esfera da angústia paranoica e da subversão das normas sociais, o excêntrico Noite de amor na galáxia (péssimo título para um ótimo miniconto) e o naturalista (calma, estou pensando em Émile Zola) A prostituta tratam de outro tema recorrente na ficção do autor: o sexo.

Também está nesse volume inaugural o conto mais festejado de André Carneiro, A escuridão, sobre um fenômeno sem explicação, que rouba vagarosamente a luminosidade do sol e das estrelas, e de qualquer coisa que emita luz, fagulha e calor luminoso. O planeta fica às escuras. O fogo e a eletricidade deixam de aquecer a água e os alimentos.

Excelente exemplo de nossa ficção fantástica, esse conto já foi acolhido em antologias daqui e do exterior.

O que estaria provocando a escuridão? O narrador e os personagens hesitam entre três ou quatro suposições divergentes, físicas e metafísicas, sem chegar a uma conclusão definitiva, e é essa hesitação que caracteriza a boa ficção fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Não chore

Não chore

Luiz Bras
Editora Patuá
152 páginas
Lançado em 2016

É a lei do mais forte: não sendo capaz de resolver por si só os problemas que ele mesmo cria, o Estado transfere o fardo para a população em massa arcar com suas inerentes ingerências. Isso pode se dar no âmbito econômico, social, legal, cultural ou em qualquer outro. Os atores dominantes e dominados desse cenário também podem ser substituídos por muitos outros diferentes. O que não muda é a relação de imposição por bem ou por mal que flui como osmose do menos para o mais concentrado. É essa questão que é trabalhada além dos seus limites imagináveis no livro Não chore, de Luiz Bras.

Não se engane: não há personagens ou cenários centrais na história. Não há mocinhos ou vilões para se agarrar com unhas e dentes. Tudo é transitório, nada é muito exato. O Estado totalitário não entende o seu próprio sistema, então o povo acha que entende e só se perde mais na maionese. Desse jeito só quem vai se espalhando de verdade é o caos em ascensão:

Alô, Yasmine?
Primeira surpresa: a voz que atende o smartphone não é de Yasmine, é de sua filha.
Só um minuto, vou chamar minha mãe, a voz diz.
Mas a amiga não tem filhos…
Passam mil minutos, dez mil minutos, Yasmine atende, Jamil dá as boas-vindas, a mulher pergunta quem está falando.
Segunda surpresa: Yasmine não conhece Jamil algum. (pág.19)

Alguém está alterando a realidade. Pequenas mudanças agora, que geram colossais mudanças futuras. Como saber que alguma coisa mudou? Se hoje você tem olhos castanhos, como ter certeza de que ontem você não tinha olhos azuis? Uma reprogramação qualquer já basta. Inserções de memória nem deixariam você acreditar que já tivesse ostentado olhos claros algum dia, assim como seria muito simples você acreditar que é um elefante caso de repente esteja no corpo de um. O passado é modelável, o futuro é o que interessa. Mas interessa para quem?

O governo poderia ser uma boa resposta a essa questão. Afinal, quando o assunto é controle, o pessoal do poder se superou com o investimento em um reality show de tortura contra presidiários. Não há passatempo melhor para a família tradicional brasileira do que assistir a uma boa dose de pancadas em um marginal sem-vergonha, sem-educação, sem-saúde, sem-transporte. A sociedade adora ver a justiça sendo cumprida. Ainda mais quando o sangue da vingança escorre fresco pelos seus dedos calejados de tanto bater. Mas quem aplaude de verdade é o Estado, que, não se contentando em criar toda a torpe estrutura para a formação de marginais em massa, no final ainda paga de herói por destruir o monstro que ele mesmo originou.

Todavia, eu sinto informar: nem o Estado é capaz de controlar tudo. Também o governo está sendo feito de bobo. É só observar o estranho fenômeno que vem ocorrendo sem o seu pleno consentimento: pessoas de carne e osso (inclusive as da classe média-alta para cima) estão simplesmente desvanecendo no ar num piscar de olhos. Piscou, sumiu, pronto. Mas não precisa se desesperar, não são todas, não. Dizem as boas e as más línguas que isso só acontece com as pessoas que choram. Por isso é preciso ficar muito atento aos seus sentimentos. O amor salva, mas a paixão mata.

O problema é que tudo isso estava fora da equação inicial: se essa pandemia não estava planejada, quem foi que a programou? Se o governo transforma o mundo todo em um presídio sem que a população perceba, por que também não pode ser manipulado por algo maior e não se dar conta das grades intransponíveis que o aprisionam?

Quem é a variável da equação de quem? Quem é o ratinho no labirinto de quem? Cadê o gerente dessa espelunca toda? As perguntas se multiplicam e mais infinitas se tornam as possibilidades. Mas uma certeza dá para ter na história de Luiz Bras: quem está cuidando dessa angustiante bagunça sabe bem o que está fazendo. Ou pelo menos deve imaginar saber.

Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.

Favelost

Favelost

Fausto Fawcett
Editora Martins Fontes
248 páginas
Lançado em 2012

“Favelost é o contrário de Canudos, ou do Contestado, ou da Comuna de Paris, ou da Pedra do Reino, ou de Christiania na Dinamarca, ou qualquer outra utopia advinda dos sentimentos de pureza humana, do messianismo cristão celerado, da fantasia de que todos nascem bons e são deformados pela sociedade, mantra dos fofos existenciais e dos esquerdofrênicos cafajestes do imagine all the people em geral querendo a revolução que passa por cima do primado das leis.” (página 31)

Em Favelost deve-se entrar com os dois pés, e de sola. Nada da leitura estrutural, pausada e densa, como pedem os textos dos pensadores frankfurtianos que o autor, Fausto Fawcett, critica mais de uma vez na narrativa. Para alcançar a ascese que o livro constrói em seu ritmo frenético, é preciso fazer o trajeto entre Rio e São Paulo de um só fôlego.

Nessa distopia cínica e sexy, as duas cidades já não existem separadas, tornaram-se Rio Paulo de Janeiro São, ligadas por um conglomerado de casas paupérrimas, microindústrias clandestinas e pontos comerciais que tomaram a Via Dutra. É a Mancha Urbana. Ou a Favelost, território da hipérbole capitalista tecnológica por excelência.

Quase como um ritual alucinógeno, o romance rompe as sinapses coloquiais do leitor. Como um Bret Easton Ellis futurista brasileiro, Fawcett consegue esse efeito pela saturação estilística de sua verborragia pulsante, em mash-ups de referências pop; de períodos históricos; de gadgets; de práticas sexuais das mais comuns às mais bizarras; de correntes políticas, sociais, místicas e filosóficas; de cânones culturais; e uma infinidade mais de temas. Depois de tantas imagens bizarras maximizadas e perfiladas sem descanso uma após a outra, quem mergulha na aventura de Júpiter Alighieri e Eminência Paula sai num leve nirvana, em paz com o caos da existência diária.

Os protagonistas são membros de uma organização chamada Intensidade Vital, que deve manter a ordem entre a população de Favelost. Esse conglomerado urbano, meio clandestino, meio Eldorado do mal, não é aberto a qualquer um. Só às pessoas que buscam o Mefistófeles em cada entrada escondida, tentando arrefecer um desejo indefinido e angustiante para o qual as benesses da vida comum não bastam. E o casal humano, mas com um quê de ciborgues de Blade runner, tem vinte e quatro horas para se encontrar, fazer sexo e chegar ao orgasmo que vai desarmar o chip autodestrutivo implantado em seus corpos.

Com agudeza e sem dó, Fawcett desmonta as certezas atávicas da normatividade ao construir um caleidoscópio de imagens sedutoras e horripilantes, a exemplo de sua declarada inspiração, Hieronymus Bosch e seu Jardim das delícias terrenas (pintura que ilustra a capa do livro).

A cada instante o leitor é confrontado com suas próprias pulsões diante de cenas de vingança, sexo, fraqueza ou nostalgia. Assim é levado a questões complexas que o autor enxerta subliminarmente na ação. Se o niilismo anda à espreita a cada curva, há sempre o contato humano, coroado pelo sexo, para lembrar a graça da vida. Como Fawcett define, cria-se o território da disputopia.

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Luciana Pareja Norbiato é jornalista cultural, ensaísta e assessora de imprensa.

[ Resenha publicada originalmente na revista Select. ]