O Projeto Dragão

O Projeto Dragão

Rubens Teixeira Scavone
Editora Scipione
94 páginas
Lançado em 1988

Nos anos 80, a ficção científica voltada para o público infanto-juvenil era escassa. No entanto, a editora Scipione, com sua série Diálogo, lançou uma novela de autoria de um dos mais profícuos escritores de FC do Brasil: Rubens Teixeira Scavone. Intitulada O Projeto Dragão, a história é uma adaptação de um conto escrito pelo próprio Scavone para o público adulto, intitulado O diálogo dos mundos.

Cientistas e jornalistas do mundo todo são convocados pelo professor John D. Stanley para uma importante conferência, que será realizada na região dos Grandes Lagos, nos Estados Unidos, onde localiza-se um radiotelescópio: um prato imenso que capta sinais do universo. Ninguém ao certo sabe o teor da grande demonstração que será feita, mas todos atendem ao chamado devido à importância do professor.

Embora esses personagens tenham nomes próprios e profissões relacionadas às diversas especialidades na área de ciências, são apenas secundários. Inclusive, dentre os convidados, o narrador faz questão de destacar um escritor de ficção científica, cuja presença é incompreensível para os demais profissionais.

O artifício que Scavone usa para atrair o público leitor jovem é simples: um dos cientistas convocados é brasileiro e vai acompanhado de seus dois filhos, Ana Paola, de onze anos, e James, de catorze. Embora as crianças não tenham sido convidadas para o evento, vão para a viagem, pois estão passando as férias com o pai.

Durante a estadia, as crianças ficam hospedadas em um alojamento onde se ostentam gravuras de extraterrestres famosos da literatura. Essa é a parte didática da obra: Scavone apresenta aqui uma série de livros e filmes de FC que se tornaram clássicos, aguçando a curiosidade do leitor em conhecer mais do gênero. Outros conceitos astronômicos são trabalhados de forma bastante simples, como o da magnitude das estrelas ou o de ano-luz, facilitando o entendimento do enredo.

O ponto central da obra é o recebimento de sinais da estrela Sigma, da constelação do Dragão. Segundo o professor Stanley, após o que os convidados ouviriam na conferência, estaria inaugurada uma nova era: “a era das comunicações cósmicas!”

O professor Stanley acredita que o que vai comunicar é a coroação de todos os seus sacrifícios, pois em um breve flashback lembra-se de sua infância difícil, de como amava ler livros de ficção científica, de como devorava a biblioteca pública para poder ler tudo de graça. Agora, ele está no apogeu e será para sempre lembrado como um pioneiro: “ele, John D. Stanley, será o primeiro a provar a existência de outros mundos habitados. Mais do que isso, o primeiro a comunicar-se com extraterrestres”.

Nas palavras do próprio professor:

− Meus amigos, este é um grande dia. Nossa missão obteve sucesso. Trata-se de uma notícia inacreditável para a humanidade. − Fez uma breve pausa, correu os olhos pelo recinto e aumentou a intensidade da voz. − Não estamos sós no universo. Das profundidades cósmicas alguém nos envia sinais, certamente alguém inteligente, talvez com inteligência superior à nossa. Uma nova era tem aqui, hoje, seu início. Todos sabem que há bem mais de vinte anos centenas de cientistas procuram obter sinais do espaço. Mas nós, só nós, obtivemos o triunfo. Certa estrela, na constelação do Dragão, revela que tem em sua órbita pelo menos um planeta, sem dúvida a origem dos sinais que estamos recebendo há alguns meses. Mantivemos o acontecimento em segredo, pois queríamos ter absoluta certeza dos fatos. Não poderíamos correr o risco de divulgar inverdades, fantasias, como já aconteceu por mais de uma vez.

A obra tem um final que surpreende, e Scavone escreve no posfácio que o argumento que criou, como veio a saber décadas depois, aconteceu de verdade.

O Projeto Dragão é uma obra de fácil leitura e excelente para introduzir os adolescentes no universo da FC.

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Elaine Valeria é educadora e escritora, tendo participado de dois volumes da coletânea Hiperconexões: realidade expandida.

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A telepatia são os outros

A telepatia são os outros

Ana Rüsche
Monomito Editorial
120 páginas
Lançado em 2019

A ficção científica é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro, é verdade, mas também é verdade que essa não é a sua principal função. Sua principal função é puramente estética, ou seja, a mesma de qualquer outra criação literária e artística. Apesar disso, ó meus irmãos, verificar nas obras-primas da FC seus acertos futurológicos não é realmente um passatempo superdivertido? E, se prestarmos bastante atenção, não há uma só tecnologia moderna − da bomba atômica à world wide web, da engenharia genética à inteligência artificial − que não tenha sido prevista pela FC.

De tudo o que as obras de ficção científica previram, mas ainda não se realizaram − por ofender as leis da física (viagem no tempo e teletransporte) ou por falta de oportunidade (civilização alienígena e colonização de Marte) −, atualmente me interessam sobremaneira o upload mental e a telepatia. Das duas tecnologias, o upload mental foi a que mais atenção recebeu dos autores talentosos, nesses duzentos anos de FC moderna. Menos comum, a comunicação direta e à distância entre duas ou mais mentes, batizada pelo consenso de telepatia, surgiu primeiro em contos obscuros dos anos 50 − segundo o saite Technovelgy − e depois esporadicamente na obra de Philip K. Dick e em alguns mangás cyberpunks, tipo Ghost in the shell. Mas nunca na condição de protagonista. E esse foi o primeiro grande acerto do romance breve de Ana Rüsche: trazer a telepatia para o centro do palco brasuca.

O segundo grande acerto foi desvincular a origem da telepatia de qualquer avançada tecnologia eletrônica. No romance, a telepatia é uma tecnologia orgânica, de origem vegetal. É um fermentado ancestral de sabor forte e enjoativo, que as camponesas do Chile preparam secretamente há séculos. Essa escolha literária intensificou na trama a mitologia dos povos ameríndios, reivindicando pra si parte do protagonismo do conceito de brain-net, esse mais novo clichê da FC anglófona. Não é por acaso que o conflito que impulsiona a narrativa − e pega de surpresa a brasileira Irene − acontece justamente no mitológico Chile, primeiro numa esotérica comunidade rural, depois na frenética e cosmopolita Santiago.

A tecnologia eletrônica entra na segunda etapa da história, quando Irene e os novos amigos já estão treinados na arte da telepatia, mas em pequena escala. O objetivo agora é expandir a capacidade humana de comunicação mental, transformando-a, com a ajuda da internet, numa atividade planetária. Nem todos são a favor dessa disseminação global. Porém um empresário ianque roubou a fórmula do fermentado, tempos atrás, a fim de patenteá-la, tornando inevitável a corrida pela conexão mente-bebida-internet.

Visto que a ficção científica ainda é um território predominantemente masculino − e machista −, também gostei de encontrar, nessa narrativa escrita por uma mulher, personagens femininas fortes e carismáticas. Os três personagens masculinos, por outro lado, são um ladrão ianque, um amigo vingativo e um amigo boa-praça mas impotente (não no sentido sexual, mas de alguém que não consegue se conectar telepaticamente). Aliás, neste livro breve, tão importante quanto o enredo (substantivo masculino) é a linguagem (substantivo feminino) que expande a subjetividade-fêmea do texto e da telepatia. Recursos da melhor prosa modernista, emprestados da poesia primeiramente pelos grandes ficcionistas do século 20, fortalecem a narrativa, criando uma atmosfera onírica, às vezes fantasmagórica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

 

Matando gigantes

Matando gigantes

Claudia Dugim
Patuá Editora
336 páginas
Lançado em 2019

Num estudo publicado em 2005, sobre o personagem do romance brasileiro contemporâneo, pesquisadores da UnB demostraram estatisticamente que no romance brasileiro do período analisado − entre 1990 e 2004 − os personagens são, em sua maioria, do sexo masculino, brancos, heterossexuais, de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade. De lá pra cá a situação melhorou um pouco, mas ainda é visível o desequilíbrio, a falta de diversidade social em nossa literatura contemporânea. Esse fenômeno reflete perfeitamente a histórica crise de representatividade na própria sociedade brasileira. Nossas elites patriarcais sempre reprimiram e silenciaram a multiplicidade de vozes das minorias e dos marginalizados.

A principal qualidade do romance Matando gigantes, de Claudia Dugim, é a diversidade social e cultural. Nessa narrativa ambientada no ano 2127, numa astronave que acaba de alcançar seu destino, o homem branco hetero de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade, também aparece, mas agora ele não é hegemônico. A romancista obrigou-o a dividir o palco não somente com indivíduos de outros gêneros e etnias, mas também com minúsculos humanoides com antenas, de pele azul-marinho ou verde-água, muito carismáticos e vingativos.

Há oitenta e cinco anos no espaço, o cruzador Frontier é a única nave que sobrou de um grupo de quatro astronaves colonizadoras. Em seu interior, trezentas e cinqüenta mil pessoas se acotovelam, reproduzindo as mesmas injustiças sociais e a mesma perversa luta de classes do planeta de origem, a Terra. Quando o Frontier finalmente alcança seu destino, Terra 2, os ânimos desse pessoal já estão bastante acirrados. Nesse momento tem início uma série de assassinatos estranhíssimos, que acaba jogando os cidadãos de segunda classe − latinos, índios, negros, amarelos, mulheres, comunidade LGBTQ+ etc. −, oprimidos desde sempre, contra a elite branquela que comanda a nave também desde sempre.

Os assassinatos são cometidos pelos minúsculos humanoides com antenas − autodenominados de povo das Estrelas Caminhantes −, em retaliação a um genocídio provocado involuntariamente pelos gigantes − os seres humanos − tempos atrás. Ignorantes desse fato, os cidadãos oprimidos se revoltam, pois acreditam que as mortes foram provocadas secretamente pela elite branquela, que estaria planejando uma manobra política às vésperas do desembarque. Formam-se então três núcleos antagônicos: o dos rebeldes haitianos, comandados por Mama Bá e Alfonsine, o dos privilegiados conselheiros da nave, defendido por Martina e Juan, e o dos pequeninos que vivem numa tubulação, comandados por Cherv, Uor e Gus.

Claudia Dugim planejou esse romance para o leitor jovem adulto, entre catorze e vinte e um anos. Mas é verdade que os bons livros escritos pra esse público costumam encantar também o público adulto. (Aliás, até mesmo a boa literatura infanto-juvenil beneficia-se desse fenômeno. “Uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”, dizia C.S. Lewis.). Em Matando gigantes, a liberdade e a fraternidade anarquistas − macunaímicas − do povo das Estrelas Caminhantes desativaram meu racionalismo, camada após camada, e me afetaram emocionalmente. Voltei a ser um jovem adulto. Voltei a sentir um pouco daquele prazer antigo, do meu primeiro contato com a literatura fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

2084: mundos cyberpunks

2084 mundos cyberpunks

Lidia Zuin (organização)
Lendari Editora
224 páginas
Lançado em 2019

As obras-primas inaugurais do cyberpunk surgiram na primeira metade dos anos 80, mas a atmosfera sombria dessa poética transgressora − muito mais sombria e transgressora na literatura do que nos quadrinhos, nos filmes, nas séries, nos games e nos clipes − continua fascinando autores e leitores do mundo todo. A constante renovação do gênero parece acompanhar uma contagem regressiva… Como se nossa sólida realidade empírica realmente estivesse se modificando na direção dessa insólita irrealidade fantástica, de altíssima tecnologia e baixíssima qualidade de vida.

Na verdade, todos os indícios garantem que nosso cenário está de fato cada vez mais parecido com esse cenário povoado de inteligências artificiais, conexões cérebro-computador, piratas de dados, apocalipses políticos e ecológicos, ciborgues e híbridos, androides e ginoides, memórias implantadas, megacorporações controlando o Estado e muito mais. E é exatamente isso o que tem mantido vivo o interesse de tantos escritores e leitores: a percepção de que a cada ano estamos um pouco mais perto de realizar na sociedade inteira o que a poética cyberpunk vem realizando há um tempão na arte e na literatura.

A coletânea organizada por Lidia Zuin traz trinta e cinco narrativas curtas ambientadas em 2084. Passando os olhos pelo sumário, o leitor logo percebe que se trata de uma seleção de jovens autores, quem sabe de um espontâneo movimento de renovação. O único veterano da FC brasuca é Roberto de Sousa Causo, um dos expoentes da Segunda Onda, que comparece com um conto intitulado A luta do Cangaceiro Jedi, sobre um pixador anarquista cheio de ginga e suas ações solitárias contra o sistema.

Também dão um show de criatividade, os autores mais jovens. Por mais que a novidade-realmente-nova seja quase impossível no esgotado território do cyberpunk, ao menos metade dos autores reunidos na coletânea surpreende com ficções muito acima da média. Meia dúzia desses contos até extrapola as referências anglófonas ao expressar temas tipicamente tropicais e brasileiros, podendo ser classificada de ficção tupinipunk, uma sugestão de Roberto de Sousa Causo.

Além do conto de Causo, esses foram os que mais me agradaram, na ordem em que aparecem no livro:

O evangelho de fósforo branco, de Yago Cury
O canto do galo gaulês, de Bruno Bianchi
A diretora-analista de mídias oníricas, de Fabio Kabral
Mil e um usos para um desfibrilador cefalorraquidiano, de Thiago Loriggio
Do nada para a escuridão, de Gabriel Ferreira
Um bom momento para abrir mão de seu plano de saúde premium, de Ricardo Celestino
O pajemancer, de Mario Bentes
A verdade em 2084, de Dante Saboia
Sinal verde, de Rodrigo Ortiz Vinholo
Imagem, de Rodrigo Ortiz Vinholo

E são os contos que mais me agradaram principalmente pela sua força literária, fundada no estranhamento do normal, na remoção meticulosa da película de familiaridade que reveste nossa sociedade. Tradição que se nutre bastante do conceito de ostranênie dos formalistas russos, de unheimlich de Freud e de epifania de Joyce.

A principal função da ficção científica não é prever o futuro, como pensa o senso comum. A ficção científica é, antes de tudo, ficção. Ela responde primeiro às leis da criação literária e artística, e sua força vem da qualidade estética de suas obras-primas. Mas também é verdade que a FC é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro.

E os autores contemporâneos − da coletânea 2084: mundos cyberpunks e de outras obras igualmente inquietantes − estão fazendo previsões assustadoras… A dúvida não é mais se esses eventos e inovações acontecerão ou não. A dúvida é quando acontecerão.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Intergalático

Intergalático

Guilherme Gerais
Avalanche Editora
176 páginas
Lançado em 2014

Os apreciadores da sétima arte ganharam mais uma fascinante obra-prima quando o genial Andrei Tarkovski levou para as telas o romance Piquenique na estrada, dos irmãos − não menos geniais − Arkadi e Boris Strugatski. Não se trata de adaptação, mas de recriação. Stalker é mais um exemplo de filme que não segue à risca o roteiro do romance de origem. As demoradas e introspectivas imagens das ruínas e da natureza, típicas da linguagem do cineasta russo, não nasceram de trechos análogos da obra literária, mas são elas que impulsionam a poesia mística do longa-metragem.

Durante minha leitura do livro Intergalático, ambicioso trabalho do fotógrafo paranaense Guilherme Gerais, senti-me um solitário stalker de Tarkovski, deambulando por uma zona misteriosa. Uma zona-experiência desabitada, mas fisicamente conectada de algum modo a outros pontos do universo. A ausência da figura humana e das cores − todas as fotos são em preto e branco − intensifica mais ainda essa solidão viajante. (Muitas páginas-imagens do livro podem ser apreciadas online em guilhermegerais.com/Intergalatico)

São paisagens áridas e semiáridas, imagens granuladas em que o traçado de vales e montanhas, a pouca vegetação e o vasto céu parecem adormecidos, à espera da próxima era geológica. São também construções em desconstrução, além de muitos artefatos e objetos abandonados, denunciando grandes ausências e pequenos esquecimentos, como se a humanidade tivesse subitamente desaparecido. Permeando tudo isso há uma série de sinais e diagramas deixados aqui e ali, símbolos astronômicos que evocam os tradicionais enredos de visitação alienígena.

Há também elementos que sugerem um jogo extraordinário, entre eles a capa-tabuleiro do livro. No blogue Entretempos, Daigo Oliva escreveu sobre esse detalhe:

O livro de Guilherme Gerais, ainda que contrarie minhas inclinações, é uma viagem fantástica. Todo em preto e branco, retrata uma jornada mística, misturada a ilustrações que remetem a jogos de tabuleiro. As imagens parecem flertar com algum tipo de bruxaria e, mais do que uma história contada com começo, meio e fim, representa um estado de espírito sombrio e estranho.

Jogo extraordinário. Viagem fantástica. Bruxaria. Criação do mundo… No blogue Hotel Berlim, Rodrigo Grota reforça essa percepção multifacetada:

Com ilustrações do artista gráfico Arthur Duarte, e projeto gráfico do próprio fotógrafo, Intergalático também parte do pressuposto de que qualquer narrativa visual oferece sempre um segredo, um desejo que não se revela por inteiro, mas está sempre presente. Dessa forma, a abertura para um imaginário espacial, repleto de tecnologias já abandonadas, reforça essa tese de que o mundo em que se vive é sempre o mundo em que se cria: estar vivo sendo algo próximo de estar em constante fabulação.

Construída sem frases, períodos e parágrafos, a fotonarrativa de Guilherme Gerais também nos lembra da força descomunal da linguagem verbal. Uma única palavra − justamente a que dá título ao livro − contamina e direciona toda a nossa interpretação. Se o título fosse outro, tenho certeza de que a narrativa também seria outra. As mesmas fotos, na mesma sequência, contariam outra história. De mistério policial, ou sobrenatural, ou de viagem… Mas duvido que seria uma história mais potente − ao mesmo tempo esotérica e cósmica − do que essa Intergalático.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

Só o tempo pode confirmar essas coisas, mas a antologia Fractais tropicais tem tudo pra se tornar um verdadeiro marco da ficção científica brasileira.

Em escopo, creio se tratar da mais abrangente do gênero, selecionando trinta autores de todas as convencionadas Ondas da FCB, excetuando os precursores do início do século (a Primeira Onda acontece entre 1960 e 1980, em torno das Edições GRD de Gumercindo Rocha Dorea; a Segunda entre 1980 e 2000, época prolífica dos zines e do Clube de Leitores de Ficção Científica; a Terceira a partir dos anos 2000, com a popularização da internet).

Em design, o livro foge dos clichês do gênero, que ficou marcado pelas capas algo espalhafatosas das revistas pulp norte-americanas, que podem agradar os fãs mas fazem inúmeros leitores de fora da bolha torcer o nariz. É um catatau de quinhentas páginas com quase nada de erros de revisão (marca que assola um mercado dominado por edições sem o apuro necessário), com diagramação atraente, minibios espirituosas e uma introdução de respeito.

A principal reivindicação de Nelson de Oliveira, o organizador da antologia, é a libertação da imposta marginalidade do gênero no país, considerado inferior, ou o que é pior, invisível. Não é uma discussão nova e tampouco exclusiva do Brasil, mas aqui há uma singularidade: enquanto lá fora a ficção científica é um gênero sadio e lucrativo (vide o próprio sucesso das traduções do gênero em solo brasileiro), a produzida aqui é ainda tímida e inexpressiva em visibilidade e vendas. Para tentar alterar o status-quo, Oliveira aponta como exemplo as boas obras do campo, as que realmente se sustentam longe do seu reduto, e apresenta como argumento uma verdade incontornável: já vivemos em um mundo de ficção científica, indissociável da tecnologia, e negar isso é negar a realidade.

O surgimento da Fractais Tropicais no final de 2018 não é mero acidente de percurso. É uma culminação do movimento pelo reconhecimento, pela visibilidade, encabeçado por um agente numa posição única, cujo protagonismo e bagagem conferem peso e credibilidade à sua defesa crítica (importante lembrar que Oliveira não é o único defensor do gênero; há todo um coletivo — cada vez mais robusto — de pessoas lutando pela mesma causa, com diferentes históricos e contribuições). Essa retórica é, não por acaso, destrinchada na introdução da antologia, que carrega ainda o mérito de aclimatar um leitor que não tem intimidade com o gênero e sua miríade de subgêneros.

Os contos selecionados dão mostra convincente da nossa pluralidade de vozes. Das histórias mais tradicionais às mais experimentais e abertas. Do trato criativo com a linguagem à linguagem em sua funcionalidade básica. Do final apoteótico ao final sensível, sublime, anticatártico. Os maiores tropos dão sua cara: o ambiente virtual com avatares, o cenário distópico de terra arrasada, a imortalidade alcançada pela alquimia, a guerra cósmica, a viagem no tempo, os implantes neurais, o upload de consciência.

Tamanha é a amplitude, que é virtualmente impossível que todos agradem ao leitor, refém de suas próprias preferências. O nível, contudo, se mantém acima da média, com vários destaques:
Metanfetaedro, de Alliah
Menina bonita bordada de entropia, de Cirilo Lemos
Aníbal, de Andréa del Fuego
Visitante, de Carlos Orsi
Galimatar, de Fábio Fernandes
O dia em que Vesúvia descobriu o amor, de Octavio Aragão
Tempestade solar, de Roberto de Sousa Causo
Caro senhor Armagedom, de Fausto Fawcett
Los cibermonos de Locombia, de Ronaldo Bressane
As múltiplas existências de Áries, de Finisia Fideli
Quando Murgau A.M.A. Murgau e Acúmulo de Skinnot em Megamerc, de Ivan Carlos Regina
O elo perdido, de Jeronymo Monteiro
A ficcionista, de Dinah Silveira de Queiroz
Chamavam-me de monstro, de Fauto Cunha

Mas o destaque da antologia fica mesmo é com duas narrativas mais recentes:
A última árvore, de Luiz Bras
O molusco e o transatlântico, de Bráulio Tavares

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Santiago Santos é escritor e tradutor, autor de Algazarra e Na eternidade sempre é domingo.

[ Trecho da resenha publicada originalmente no portal Cidadão Cultural. ]

A ficção científica brasileira e seus futuros possíveis

Laudromat+at+NightLaundromat at night, 2008, by Lori Nix

Senhor Arqueólogo do Futuro,

Antes de tudo, quero apresentar-me, pois sou (que eu saiba) a primeira participante do continente da América do Norte a colaborar nesta correspondência, o que eu faço com muita honra.

Já sei que você conhece o que é um livro de ficção, uma vez que o escritor Moacyr Scliar explicou a história dessa maravilhosa criação, em outra carta. Eu receio, como o senhor Scliar, que os livros estejam em perigo, que eles desapareçam em sua forma presente, ou que existam só em vias eletrônicas no futuro.

Já que são as palavras que nos proporcionam tanto prazer ao ler uma obra de ficção, talvez a forma pela qual elas serão transmitidas, se no papel ou na tela de computadores e seus derivados, não seja de tanta importância.

O que quero comunicar a você é a riqueza do gênero da ficção científica brasileira e seu poder sobre o imaginário. Hoje, o Brasil tem escritores maravilhosos do gênero, mas não tem um público tão grande quanto merece, por duas razões: pelo preconceito contra o gênero em si e, talvez, contra um gênero importado de países tecnologicamente avançados. Entretanto, celebro aqui o abrasileiramento do gênero, como se verá abaixo.

Esboçarei uns futuros retirados da ficção científica brasileira dos últimos trinta anos, desde 1975, para ver se eles são condizentes com a realidade dos seus dias futuros:

O escritor Ignácio de Loyola Brandão imagina um futuro em que a Amazônia já se converteu em deserto, e as pessoas são incineradas em bolsões de calor, enquanto o governo gaba-se de tudo isso como se fosse uma série de êxitos. Espero que esse não seja o seu mundo.

Outro ficcionista, Braulio Tavares, ambienta um de seus contos num Rio de Janeiro onde a cabeça do Cristo Redentor é decepada por uma gangue e a praia de Ipanema foi convertida num aterro até as ilhas do Atlântico. Será esse seu mundo?

Ivanir Calado escreve sobre a Cidade Maravilhosa dividida por uma muralha entre a Zona Norte e a Zona Sul, onde a abandonada ponte Rio-Niterói é uma grande favela.

Gerson Lodi-Ribeiro retrata um mundo futuro longínquo no planalto central brasileiro, no qual soldados ciborgues defendem a Terra numa guerra perpétua contra alienígenas não-orgânicos à procura de metais.

André Carneiro imagina experiências cerebrais em que as pessoas podem projetar seus sonhos em telas, ou até mudar de sexo para ter sempre novas experiências sexuais, intelectuais e psicológicas.

Jorge Luiz Calife criou um futuro em que as sociedades tecnologicamente avançadas vão morar no espaço sideral em comunidades de anéis, depois de uma guerra nuclear.

Roberto de Sousa Causo escreve sobre um mundo em que os animais, alterados geneticamente por extraterrestres, defendem o meio ambiente e outros animais de predadores humanos.

Algum desses será o seu mundo?

Só você, Arqueólogo do Futuro, saberá responder quais desses futuros são possíveis. Entretanto, penso que os escritores de ficção científica brasileira continuarão a escrever e a imaginar o futuro de uma forma criativa e inusitada, contribuindo significativamente com esse gênero global.

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Elizabeth Ginway é professora e pesquisadora de literatura brasileira da Universidade da Flórida, EUA.

Em 2005, o saite Carta Maior publicou uma série de cartas endereçadas a um desconhecido arqueólogo do futuro, escritas por Eduardo Galeano, Jorge Mautner, Nando Reis, Viviane Mosé e outros. A carta acima, de Libby Ginway, comenta a obra de alguns importantes autores brasileiros de ficção científica. Essa foi justamente a razão que me motivou a reproduzi-la no blogue FCB. Todas as outras cartas podem ser lidas aqui.