Até que a brisa da manhã necrose teu sistema

Ricardo Celestino
Clube de Autores
208 páginas
Lançado em 2021

Antes de mergulhar na leitura, a primeira coisa que eu observo num conto, novela ou romance é a forma literária. Ao começar a ler Até que a brisa da manhã necrose teu sistema, levei um susto. A disposição do texto ora em linhas quebradas e desalinhadas, ora em parágrafos italizados (alguns longuíssimos), disposição típica da melhor poesia modernista, foi uma bem-vinda injeção de adrenalina. Fiquei com a curiosidade atiçada.

O autor foi bastante atrevido ao compor um romance inteiro de maneira profundamente transgressora. Com um agravante: estamos falando de um romance de ficção futurista, gênero que raramente aceita uma linguagem experimental. Bravo!

Logo nas primeiras páginas, ficou bem claro que a fratura das linhas e de certos parágrafos, mesclada com a prosa dos parágrafos italizados, não é gratuita, não é um maneirismo estilístico apenas pra parecer moderninho, na verdade essa estratégia visual reflete e intensifica a fratura discursiva da própria narrativa.

No plano narrativo, os labirintos-arabescos hipertrofiados do ciberbarroco potencializam o estranhamento da criatura ostranenie, cujos tentáculos transformam em arte tudo o que tocam (ao menos era nisso que acreditavam Viktor Chklovski e os formalistas russos). Bravíssimo!

Ricardo Celestino concebeu uma história potente, uma distopia tupinipunk criativa e agressiva. Sempre que leio um romance eu procuro identificar rapidinho a família literária a qual ele pertence. No plano do enredo sci-fi, um dos tios de Até que a brisa da manhã necrose teu sistema é certamente Santa Clara Poltergeist, a obra-prima de Fausto Fawcett. Outro parente próximo, quem sabe um primo, é Favelost, do mesmo autor.

Mas o primeiro romance de Ricardo Celestino extrapola o nicho sci-fi. Essa narrativa é um excelente espécime da melhor ficção brasileira experimental. Um bom leitor não sentirá a menor dificuldade em incluí-lo na restrita família dos transgressores, ao lado de Galáxias, de Haroldo de Campos, Catatau, de Paulo Leminski, A obscena senhora D, de Hilda Hilst, No coração dos boatos, de Uilcon Pereira, Panteros, de Decio Pignatari, e O peso do pássaro morto, de Aline Bei.

Isso significa que o romance de Ricardo Celestino não terá muitos leitores. Uma das leis da Teoria da Informação assegura que, quanto mais sofisticada uma obra de arte for, menos apreciadores ela terá. Mas tenho certeza de que os poucos leitores capacitados que aceitarem o desafio de atravessar Até que a brisa da manhã necrose teu sistema no final da jornada se sentirão profundamente recompensados.

O romancista criou um Complexo Comunitário assustador, típico dos filmes trash. O simples fato de os cidadãos se alimentarem de carne humana processada em açougues credenciados pelo Estado alternativo já diz tudo sobre essa horripilante sociedade futura.

O cotidiano no Orbe Norte já é dramático para os felizardos que receberam do governo a nova civilidade. Mas quando me dei conta de que o canibalismo se tornou prática comum no dia a dia dessa comunidade, de que a fonte da proteína consumida por esses indivíduos de terceira categoria é o corpo dos párias que não conseguiram a nova civilidade…  Karalho! Isso, sim, é levar a sério a divisa do cyberpunk: high tech, low life.

Na realidade narrativa, a tecnociência já tornou possível as inteligências artificiais e os devices orgânico-sintéticos. Todos os cidadãos são ciborgues, ou seja, seres humanos aperfeiçoados. No entanto, a miséria moral e política é tamanha, que nem mesmo a altíssima tecnologia conseguiu libertar os humanos de sua abjeta prisão social. Civilidade, sabedoria, filantropia e justiça simplesmente não existem, dentro e fora dos Orbes. Apesar de todo o progresso tecnocientífico, o homem continua sendo o lobo do homem (Thomas Hobbes) e o Estado continua detendo o monopólio da violência ilegítima (mais do que da violência legítima, como dizia Max Weber).

Durante a leitura do romance, eu anotei em meu diário: “O humano não controla a História (principal sintoma do cosmos). O humano é no máximo testemunha e ferramenta das ações dessa força maior, cega e ingovernável, sem causa final, que segue revolucionando sociedades e mundos. Uma força irresistível, totalmente indiferente à nossa vontade.”

Como evitar essa visão pessimista da História, diante dos descalabros políticos e sociais que estamos vivendo, em tempos de pandemia de covid-19? Não é à toa que nos últimos anos o gênero distopia voltou a ocupar os primeiros lugares nas listas de livros mais vendidos no Ocidente. A organização sociopolítica de Até que a brisa da manhã necrose confirma e denuncia a verdade trágica de que o humano − lobo do humano −, mesmo provido das ferramentas mais sensacionais, não controla a História. Ele não é o sujeito, mas o vassalo da História.

O protagonista M4594 − rebatizado Mário Augusto da Silva − é uma típica marionete no jogo sociopolítico. Logo no início da narrativa, um agente de segurança − um milico-ianque − derruba-o com uma descarga elétrica, permitindo que um vírus danifique sua mente. A sucessão de infortúnios está apenas começando. Lutando dia após dia contra todo o tipo de condições adversas, esse anti-herói é um indivíduo menor do que o mundo, semelhante aos personagens alienados de Graciliano Ramos, em Vidas secas, e de outras obras dessa onda tão recorrente e necessária, batizada de literatura social brasileira, que reúne muitos pesos-pesados: o velho Graça, Érico Veríssimo, Antônio Callado, Paulo Lins, Luiz Ruffato, Ferréz e tantos outros.

Três inteligências artificiais também dividem o palco: Pátria Amada é o sistema nervoso central do Estado, mas não há conexão com esse banco de dados no Complexo Comunitário; Salvador Diógenes é uma matriz esotérica, centro de um culto religioso que ambiciona tomar o poder; e Mariga-O-Todo é uma IA descentralizada, manipuladora, terrorista, que hostiliza Salvador Diógenes e seu culto, e também busca derrubar o governo e o capitalismo. A interação caótica dessas criaturas sintéticas com Mário e os outros humanos-máquinas reproduz nos menores detalhes o caos geral de toda a sociedade. A vida no Orbe Norte − aparentemente em todo o país − é um circo de horrores tão grotesco, tão peçonhento, que nem mesmo as inteligências sintéticas conseguem escapar de seus tentáculos pegajosos.

O comportamento predatório dessas inteligências artificias deixou em mim uma impressão muito forte de desamparo e melancolia. Quer dizer que a selvageria da evolução biológica, a guerra sem fim das espécies vegetais e animais, ecoará também no universo eletrônico?

O milico-ianque é um personagem-fantasma, uma assombração ora onírica ora empírica que persegue e espanca Mário o romance inteiro. Como se um avatar de Freddy Krueger fosse convocado para celebrar em tom de paródia a hiperviolência mais sacana, mais sádica, na forma de um trauma incurável, no ritmo de um coturno etéreo chutando, chutando, sempre chutando.

Cada um a seu modo, os outros coadjuvantes − seu Carmo, Josias, Helena, Catarina, doutora Manuela, dona Silmara, a carniceira e seu assistente etc. − só atrapalham. Alguns são, sem querer, bem-intencionados miniantagonistas. A maioria tenta ajudar Mário a recobrar a sanidade roubada pelo vírus, mas tudo o que dizem e fazem acaba desaparecendo numa espiral fractal sem salvação. No inferno do Orbe Norte, todo e qualquer impulso de empatia e altruísmo se perde na realidade prismática de “um mundo exponencialmente fracassado” (que expressão verdadeira!).

Durante a leitura do romance, eu recorrentemente refleti sobre o conceito poético de grotesco, conforme a definição apresentada por Wolfgang Kayser em seu célebre estudo sobre o assunto.

Segundo o pesquisador alemão, o grotesco promove o mais absoluto estranhamento da realidade − “o mundo grotesco sempre causa a impressão de ser a imagem das coisas e dos seres vista pelo olhar da loucura” − e uma de suas principais ferramentas é a fusão dos reinos mineral, vegetal, animal e maquínico, fusão antinatural que sempre gera criaturas insólitas e assustadoras (veja, por exemplo, a escola surrealista).

Nas páginas de Até que a brisa da manhã necrose teu sistema, absolutamente tudo está contaminado pela angústia do grotesco, não apenas a mente danificada do homem-máquina Mário (“atinge-se o estranhamento pela união do heterogêneo”, diz Kayser). O romance inteiro é mais um exemplo perfeito do novo grotesco: o grotesco pós-humano, ciberbarroco, inaugurado no Brasil pelo Fausto Fawcett.

Jargão tecnofuturista: ciborgues quadrúpedes, redes algorítmicas inteligentes, implantes de leds no antebraço, vírus de memórias traumáticas, devices orgânico-sintéticos, drones-assistentes, experiências de média e alta imersão, upload mental, vida humana em nanoescala (nanoconsciência), matrizes-contratantes, centrais de gerenciamento sintético-orgânico, mosaicos fractais… No romance, a tecnociência aloprada é eficiente e verossímil.

O melhor momento dessa ficção demolidora? Há dezenas de melhores momentos. Difícil escolher um.

Todos os acontecimentos ao longo da narrativa expressam violência, em graus diferentes de intensidade. Mas em minha opinião o ponto alto do romance é o capítulo 7, em que a violência racionalista-capitalista atinge o grau máximo da escatologia literária. No Matadouro 45 (ótima referência ao Matadouro 5 do Vonnegut), situado no bairro de Clemência, o processo industrial de abate de seres humanos é limpo e eficiente: “nível cinco de humanização”. Esse capítulo me lembrou não só as práticas nazistas e stalinistas, mas também as melhores páginas − justamente as que narram as cenas mais abomináveis − de dois livros terríveis: Os cantos de Maldoror, de Lautréamont, e Almoço nu, de William Burroughs (uma das influências mais visíveis na obra de Fausto Fawcett).

Tão impactante quanto esse capítulo é o desenlace do romance, em que é narrada a transformação-redução do protagonista em milhares de nanorrobôs conectados em rede, que por sua vez serão injetados nos sashimis congelados da rede Salvador Diógenes, que por sua vez serão consumidos pela equipe gestora do Governo do Estado de São Paulo, permitindo que Mário finalmente saia do Complexo e volte à Capital. Putaquipariu. Humor bizarro de altíssima qualidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Viajantes do abismo

Nikelen Witter
AVEC Editora
304 páginas
Lançado em 2019

“Quando o caos tomou conta de tudo o que conhecia, Elissa Faina Till passou a acreditar que o prenúncio do desastre estivera encerrado em um minúsculo grão de areia. Aquele mesmo que ela havia retirado das dobras da saia de seu vestido de casamento numa terça-feira, quando o experimentou pela primeira e única vez.”

Assim começa a primeira parte do romance Viajantes do abismo, uma ficção científica steampunk escrita pela historiadora gaúcha Nikelen Witter. Já conversamos sobre outra obra da autora − Guanabara Real: a alcova da morte − que Nikelen escreveu junto com Enéias Tavares e A.Z. Cordenonsi, mas aqui ela brilha sozinha em outra obra steampunk. Desta vez, ao invés do tom aventureiro predominante no subgênero e da abundância da estética neovitoriana, temos uma abordagem mais voltada à reflexão sobre o meio-ambiente, ao mesmo tempo em que a autora faz um trabalho mais profundo de construção de sua protagonista.

Acompanhamos a história de Elissa, que vive na cidade de Alva Drão e está prestes a se casar com Larius Grey, um político em ascensão dentro do partido governista que está no poder da Tríplice República, quando é abandonada no altar. Passado algum tempo, Elissa tenta seguir sua vida como curandeira, quando a guerra entre governistas e independentistas chega a sua família. Obrigada a fugir, Elissa encontra a amizade de Tyla, dona de um bordel na cidade de Alephas, de uma menina misteriosa que aparece e desaparece como uma alucinação e de um andarilho que sempre traz o caos por onde passa.

Nesse mundo steampunk, a estética das tecnologias a vapor aparece em detalhes, e há pouca menção à estética neovitoriana, o que pode descontentar o leitor mais apegado a essas convenções do subgênero. Elissa evolui de moça submissa até se afirmar em um mundo completamente desfavorável, ao mesmo tempo em que a guerra logo se relaciona à degradação das áreas verdes, pelos desertos que se expandem em grande velocidade. A amizade com Tyla e com a irmã cientista, Teodora, tem forte papel nessa transformação. Infelizmente as duas personagens receberam pouco espaço. A história pedia uma relevância maior delas, ainda mais por se tratar de uma obra extensa, que se permitiu a abertura de alguns arcos secundários.

A decisão de concluir a história em um único livro agrada muito em um mercado empanturrado de narrativas divididas em trilogias, ou em séries, com primeiros volumes meramente introdutórios. Desta forma, as trezentos e quatro páginas de Viajantes do abismo fluem bem, pois a escrita é atraente, com reflexões maduras. Outra coisa que agrada é a trama rica em acontecimentos relevantes, que conectam os elementos construídos minuciosamente na primeira metade do livro. Isso não deixa que os acontecimentos soem forçados, por mais malucos que sejam. O leitor que ao abrir o livro espera encontrar uma mera aventura steampunk para admirar a estética elegante terá uma grata surpresa ao encontrar uma jornada de autoconhecimento e também da valorização do mundo.

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Davenir Viganon é ficcionista e resenhista, autor do conto O odu de Marte, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no blogue Wilbur D. ]

Cartas do fim do mundo

Cartas do fim do mundo

Claudio Brites & Nelson de Oliveira (organização)
Terracota Editora
160 páginas
Lançado em 2009

A coletânea organizada por Claudio Brites e Nelson de Oliveira parte de uma premissa que considero excelente. Imagine que o mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013 (bem no dia do meu aniversário) e você decide escrever uma carta para alguém, seja um familiar, amigo, conhecido, desconhecido ou para ninguém, apenas um relato solitário e histórico dos momentos angustiantes que precedem o fim.

Celeiro de ideias incríveis, o mote nos suscita argumentos variados.

Até preferia que autores reconhecidamente realistas mantivessem o foco no gênero em que se estabeleceram e consagraram. Não sei se a sugestão de adentrarem o terreno da FC foi objetiva ou subjetiva. Se houve uma sugestão direta ou se isso ficou no ar, meio que uma proposição vaga e não obrigatória…

O que aconteceu foi que autores chapinharam no inverossímil ao tentarem acrescentar uma especulação científica qualquer às narrativas que, sem ela, evoluiriam muito bem. De qualquer maneira, os textos são bons. Aconselho aos leitores da literatura de gênero que ignorem sugestões de naves-mães conduzindo um êxodo de humanos para planetas distantes em pleno ano 2013. Ou essas sugestões se ancoram numa realidade alternativa muito mal sugerida, ou são um arroubo fantasioso, talvez motivado pela angústia provocada pelo fim do mundo iminente.

Há, é claro, narrativas de FC genuína. E essas, escritas por quem entende do assunto, graças aos deuses!

Segue abaixo um por um dos contos, alguns com meus comentários:

1. Raimundo Carrero: Entre fogo e gelo – 31 de julho de 2013. Um desolado relato do que restou do mundo, entremeado das reminiscências do protagonista. Texto condoído que revela muito da insensibilidade humana diante do inevitável.

2. Marcio Souza: Ipanoré Cachoeira, 31 de julho de 2013. Lenda indígena explica o fim do mundo.

3. Braulio Tavares: Campina Grande, Agosto de 2014. Presente e futuro (ou passado e futuro) ligados por um comunicador quântico. Fim do mundo anunciado, improrrogável e inevitável.

4. Moacyr Scliar: Porto Alegre, 10 de agosto de 2013. Conto que relata o fim do mundo para um e não para todos. Homem que crê em novo dilúvio universal refugia-se em local que acredita seguro. Mas o fim sempre nos encontra onde quer que nos escondamos.

5. Marcelino Freire: Sertânia, 31 di Julio di 2013. Homem do sertão narra o fim do próprio mundo onde o mundo acaba todos os dias. Marcelino insere uma viagem à lua perfeitamente dispensável. A realidade concreta de um homem habituado à luta diária pela sobrevivência sequer cogita viagens espaciais.

6. Xico Sá: São Paulo, 31 de julho de 2013. Crônica cotidiana, reclamações e constatações. Fim do mundo aguardado com festividade e desdém num botequim.

7. Menalton Braff: Terra, 30 de junho de 2013. Distopia revela um planeta completamente esgotado. Humanidade regride às suas condições mais primitivas. Especulação inverossímil. Muito pouco tempo para que tal magnitude de degradação nos atingisse.

8. Luis Dill: Londres, 31 de julho de 2013. Nova droga psicotrópica demonstra poder muito acima das expectativas. Viagem no tempo e o fim do mundo explicado de maneira muito convincente.

9. Marne Lucio Guedes: Mundo, 31 de julho de 2013. Conto intenso. Homem liberto da fé a que se entregou avidamente ao tomar conhecimento do fim do mundo mergulha no vício e na degradação. Texto forte e muito bem trabalhado.

10 Moacyr Godoy Moreira: São Paulo, 31 de julho de 2013. Criminoso em penitenciária se penitencia ao irmão pio. Alusão ao êxodo humano em busca de novos planetas põe o conto em xeque. Inverossímil, embora pungente.

11. Brontops Baruq: Metrópolis, 30 de julho de 2013. Já publicado num dos volumes do Projeto Portal. Conto cru, pragmático e pungente. Lamento ter sido alterado. Provavelmente uma exigência editorial que não esconde a sombra pútrida da censura, mesmo que razões internas tentem justificar.

12. Claudio Brites: Cidade desconhecida, 3 de agosto de 2013. Conto narrando um final de mundo que me faz lembrar vagamente de Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva, e A escuridão, de André Carneiro. Junte alguns gigantes e voilá! Uma narrativa enlouquecida do último homem (zumbi?) sobre a Terra.

13. Luiz Bras: São Paulo, 31 de julho de 2013. Homem do futuro envia carta a homem do passado. Pequeno detalhe: trata-se do mesmo homem. Fim do mundo prenuncia revolta de cupins, baratas e (trecho ilegível). Construa uma (trecho ilegível) ou morra dolorosamente.

14. Fausto Fawcett: 31 de julho de 2013. Firma promotora de apocalipses mata o leitor desavisado com verborragia intensa e coordenada e deixa o senhor Armageddon em maus lençóis. Os polos magnéticos continuam numa boa, os ventos solares também, mas acho que precisarei passar uma temporada numa câmara hiperbárica.

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Tibor Moricz é escritor, autor de Fome e O Peregrino.

[ Resenha originalmente publicada em É Só Outro Blogue ]

Era de Aquária

Era de Aquária

Coletivo KriptoKaipora (organização)
Editora Oito e Meio
232 páginas
Lançado em 2019

Era de Aquária é um livro bem diferente e divertido. Trata-se de um universo compartilhado, a Grande Inundação, criado pelo coletivo KriptoKaipora. Às vezes as histórias se tocam de maneira bem sutil, outras vezes uma serve de pano de fundo para a outra. Esse formato não é estranho, além de ser muito empregado nos RPGs. Se eu for comparar a algo na linha da literatura de gênero, posso citar Wild cards, organizado por George R.R. Martin e Melinda M. Snodgrass.

De um modo geral, as narrativas se passam nas décadas de 2050 e 2060, apesar de haver duas que se passam quase um século depois da Grande Inundação. Coincidentemente, são as duas primeiras histórias. Ambas servem mais como contextualização, falando como o mundo ficou e se desenvolveu no pós-catástrofe. Apesar de terem méritos narrativos próprios, eu as encarei mais como um preâmbulo para os demais contos.

Como em qualquer coletânea, há narrativas com que nos identificamos mais e outras que vamos curtir menos. Totalmente esperado. Nesta resenha vou falar sobre quatro contos que me chamaram a atenção, fazendo o máximo para não entregar muita coisa sobre eles.

Nathalie Lourenço escreveu um conto muito bom para entendermos a dinâmica desse mundo. Chama-se Uiara e mostra um grupo de crianças que vivem buscando objetos nos prédios que ficaram no fundo do mar. A ambientação é boa e mostra como esse mundo ainda procura se recordar daquilo que ficou para trás. Essa dinâmica é vista tanto na narrativa das crianças quanto na das pessoas que buscam o que elas fazem. Objetos bobos, tipo uma bola ou um telefone, servem de marcos para colecionadores.

Com tudo o que aconteceu, a sociedade que sobreviveu acabou precisando se virar para se adequar a esse novo mundo. Com pouco espaço para realizar atividades produtivas, a alimentação se tornou algo difícil de administrar. E logo a reprodução começou a ser vigiada, no sentido de que não pode haver muitos nascimentos. Despedida, escrito por Gastão Moreira, explora o tema de uma forma especial. Os protagonistas são duas pessoas que se apaixonaram à primeira vista. Ambos são jovens e poéticos em um mundo selvagem. Isso daria uma linda história de amor, se não houvesse o controle de natalidade. E este chegou a uma situação tão crítica que mesmo o relacionamento a dois passou a ser proibido. As pessoas não podem mais se amar porque isso é parte do ritual que leva à reprodução. Mesmo relacionamentos homossexuais são desestimulados, já que todos precisam ter direitos iguais.

Temos até a oportunidade de ver uma história satírica inspirada em parte (acredito eu) nos romances de Jules Verne. Fábio Mariano conseguiu me fazer dar boas gargalhadas com o plot completamente bizarro de Porque és o avesso do avesso. Nele, o velho Laurindo tem um sonho estranho envolvendo uma privada, a descarga e ser sugado pela privada. Esse sonho o fez pensar que a Grande Inundação na verdade seria como a água acumulada na privada: bastaria tirar o tampão (ou dar uma descarga) para que pudesse baixar e tudo voltaria ao normal. O pior é que ele acaba arrastando Gervásio em seu périplo para encontrar o tampão do mundo. Fábio consegue manter o equilíbrio perfeito entre o bizarro, o engraçado e o correto dentro do universo que eles criaram.

A última narrativa que eu gostaria de mencionar chama-se Três pedidos, escrita por Sonia Nabarrete. É uma história emocionante de um menino descrevendo para seu amigo o mundo virado do avesso. Comentando como era antes da Grande Inundação, quando ele era apenas mais um adolescente fazendo pixações por São Paulo. Sua vida era muito mais simples e sem grandes responsabilidades. Me pareceu que o menino fazia apenas um relato do quanto não foi capaz de aproveitar o que ele tinha na época. Subitamente ele se vê sozinho neste mundo, quando seu amigo parece não mais responder. É aí que a gente se dá conta do quanto o mundo se perdeu definitivamente.

Era de Aquária é boa literatura com autores que eu realmente não conhecia. Tirando o Luiz Bras e o Paulo Lai Werneck, não tinha lido nada de nenhum dos outros. Foi uma boa introdução ao que eles podem fazer.

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Paulo Vinicius é professor de História e apreciador de livros e séries de ficção fantástica, sobrenatural e científica.

[ Versão condensada da resenha publicada originalmente no portal Ficções humanas ]

Pantokrátor

Pantokrátor

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
314 páginas
Lançado em 2020

Ricardo Labuto Gondim surpreende em sua segunda experiência com a ficção científica. O romance Pantokrátor reúne tudo o que mais aprecio no gênero: especulação científica contundente, criatividade estética, diálogos ácidos e corrosivos com nossa prática social, e muita identidade autoral.

Tudo o que eu relatar aqui sobre o tema e o enredo será uma forma de usurpar a experiência que o leitor deve ter com o texto. Nesse sentido, serei cuidadoso em afirmar que Felipe Parente, protagonista do romance, foi inserido em uma trama de conflitos no bom estilo noir. Contudo, não pense você que esse é um romance clássico de história de detetive. Nada disso. A atmosfera Philip Marlowe é somente a ponta do iceberg de uma narrativa metafísica, que trafega entre futuro, presente e passado sem recorrer ao clichê da tradicional viagem do tempo.

Não precisamos de super-heróis da Marvel nem sequer do panteão da DC, quando contamos com o panteão de personagens proposto por Gondim. A especulação tecnológica está a serviço de um visual tupinipunk de primeira mão. Roberto de Sousa Causo é assertivo quando observa que a experiência literária ciberpunk no Brasil implica uma antropofagia estética toda nossa. Identifico na caracterização dos personagens, no upload tecnológico para habilidades trans-humanas e nas identificações étnica e ética com o carioca da gema o tom de brasilidade necessário para delinear esse jeito todo nosso de produzir as variações punk.

Embora eu tenha destacado o tal panteão DC-Marvel de super-heróis que parecem deuses, os personagens em Pantokrátor são repletos de desvios morais, motivações egocêntricas, auxiliados pela sorte do acaso ao longo da jornada. Isso me fez aproximá-los mais a uma versão tupiniquim da cosmogonia da mitologia nórdica. Metalinguagem explícita na própria obra, contamos com eventos, personagens e episódios de O anel do nibelungo, explorado não só por Richard Wagner, mas pelo genial Peter Craig Russell, que registrou a história em formato de quadrinhos, com uma versão lindíssima traduzida e editada pela editora Pipoca & Nanquim, em 2018, flertando diretamente com a jornada de Felipe Parente.

O cuidado com o ritmo e a disposição dos enunciados que compõem o texto também é um grande atributo da narrativa criada por Gondim. O desencadeamento de sentenças, a sobreposição de acontecimentos, somada à riqueza dos detalhamentos nonsense em cada ambiente, podem suscitar uma pitada da estética que Guilherme Kujawski, em Piritas siderais, e Fausto Fawcett, em Favelost, desenvolvem com a etiqueta de ciberbarroco. Assim como na poesia barroca, em que contamos com o gesto engenhoso do encadeamento de versos que podem provocar o quevedismo conceptista e o gongorismo cultista, as descrições, as reflexões existenciais, as especulações tecnológicas concentram a dualidade luz e sombra, tecnologia e barbárie, digna de seres humanos e mundos complexos, com inúmeras variações de cinza.

Outra referência significativa na obra é a musicalidade. Cada capítulo de Pantokrátor refere-se a uma diferente composição clássica. Além de contarmos com uma experiência literária, também podemos desfrutar de uma degustação semiótica da obra. A música, enunciada como paráfrase em cada capítulo, é a cereja do bolo ou um convite que o autor nos faz para fortalecer ainda mais o pacto de imersão com esse mundo criado, que trafega entre linhas temporais distintas em uma mesma composição, em um mesmo tempo narrativo.

Por fim, não poderia deixar de mencionar o quanto a obra é sensível à nossa atual condição social e cultural. A trama carrega nas costas a bagagem de sermos sul-americanos. Em um país continental, Gondim dá conta de contemplar a subjetividade da vida nos centros urbanos Rio-São Paulo e faz isso muito bem. Conseguimos identificar, no decorrer da narrativa, a influência de políticas de morte na vida das pessoas. Necropolítica talvez seja a palavra do ano para a gestão da vida em terras tupiniquins. O romance contempla isso também e, em tempos de covid-19, vem como um abraço empático, frente a tantos desmandos sociais e culturais que presenciamos em tempos sombrios. Mas isso é prosa para outro momento…

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com doutorado em Linguística.

Realidades voláteis & vertigens radicais

RV + VR

Luiz Bras (organização)
Alink Editora
208 páginas
Lançado em 2019

Realidades voláteis & vertigens radicais é uma coletânea de contos organizada pelo super-ativo Luiz Bras − alter ego do escritor Nelson de Oliveira −, que promove uma verdadeira reunião de novos talentos da ficção científica BR, oferecendo muitos nomes para ficarmos de olho.

Os contos são divididos em dois grupos que parecem livros distintos. A primeira parte, Realidades voláteis, reúne narrativas que fazem especulações usando muita ironia (nos primeiros contos) em histórias que são bastante curtas, como em Inteligência (Laura Lin) e Acordos (Lígia Gomes), passando pelo escrachado Relações públicas (Petrônio de Tílio Neto) e pela alegoria política de Zé e as formiguinhas ilustradas (Ivan Carlos Regina) e vão elevando o tom de seriedade até o conto cheio de epístolas de um computador renegado, em Relato nº11 (André Argolo).

Essas narrativas são muito bem escritas e muitas delas bastante curtas (são catorze contos nas cem primeiras páginas), e o que é bem-vindo é o estilo bem brasileiro que corre solto nas páginas, não apenas na localização geográfica das histórias, mas na fluidez do uso de situações nossas e da linguagem coloquial que usamos por aqui.

A segunda metade do livro, Vertigens radicais, se mostra totalmente disposta a viajar a fundo no fantástico, sem a preocupação da especulação hard. Aqui há contos que tendem mais ao lisérgico e ao insólito, sem abandonar completamente as especulações que caracterizam a ficção científica soft, como em Lourdes (Lorena Ribeiro) e Pílulas de Einstein (Gisele Mirabai) em que o cérebro de Einstein viaja na mente de uma cientista brasileira. Em O lixão trans-espacial (Tadeu Sarmento), Novinha suscetível (Paulo Lai Werneck) e principalmente em O jardim das delícias não-terrenas (Dindi Coelho) o sexo e a FC são abordados de forma descontraída. Na primeira narrativa temos a rotina dos habitantes de um lixão que recebe visitas de alienígenas, na segunda temos uma pincelada de um atendimento num bordel de ginoides sexuais, e por fim, na terceira, o relacionamento de uma mulher com um ginoide que troca de forma ao gosto do cliente.

Expire, inspire (Belise Mofeoli) é uma pérola sobre a grande desigualdade que é a diferença existente entre a vida e a morte, e comprimidos não bastam… Temos o uso criativo dos computadores nos contos Buscador, de Luiz Bras (organizador do livro), em que o protagonista tem a chance de buscar o futuro ou uma profecia autorrealizável, e Invisible Tool (Gláuber Soares), em que um programador inventa um aplicativo de espionagem para vigiar a namorada. Também temos duas viagens ao inconsciente, em só restou eu (Toni Moraes) e no conto do saudoso Marco Aqueiva, Me and You, onde um piloto onírico está muito longe de estar no controle, sendo apenas um passageiro de uma mente criativa. E encerrando a segunda metade do volume, um conto com mais fôlego: Quinas (Tereza Yamashita), ficção que fecha o livro apresentando uma viagem maluca no tempo, transformações biológicas e uma fêmea traída.

O balanço final é de uma coletânea muito divertida e gostosa de ler, uma obra que mostra a ficção científica brasileira num momento muito prolífico, criativo e cheio de personalidade. Recomendo procurar Realidades voláteis & vertigens radicais e olhar com mais carinho para a ficção científica em terras tupiniquins.

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Davenir Viganon é ficcionista e resenhista, autor do conto O odu de Marte, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no blogue Wilbur D. ]

Pantokrátor

Pantokrátor

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
314 páginas
Lançado em 2020

Treze razões pra você ler Pantokrátor, de Ricardo Labuto Gondim:

Primeira > É uma narrativa cyberpunk com DNA nosso. O cenário é a Cidade Maravilhosa modificada pelo apocalipse digital. Não é uma repetição de Neuromancer ou Ghost in the shell ou Westworld ou Blade runner 2049. Vai além. Transcende essas referências já tão manjadas.

Segunda > O principal protagonista, Felipe Parente Pinto (avatar de Philip Kindred Dick), é um dos tipos mais interessantes da literatura brasileira contemporânea. Felipe é um golem. Ou seja, um androide. Ou seja, uma marionete dos acontecimentos. Mas uma marionete carismática, com senso de humor. O segundo protagonista, professor Carlos Capek (avatar de Karel Capek), é um pesquisador acadêmico que tenta defender sua privacidade da invasão invencível conduzida pelos algoritmos.

Terceira > O antagonista, cujo nome eu não posso revelar pra não roubar parte do prazer da leitura… Veja bem, o que a gente mais encontra por aí, na literatura e no cinema, são antagonistas chinfrins, que não honram seu salário. Por quê? Simplesmente porque não são astutos. Às vezes são poderosos (força física, superpoderes), mas jamais astutos. O antagonista criado por Ricardo Labuto Gondim é poderoso e astuto.

Quarta > No plano político há a opressão do nefasto Regime, essa conjuração massacrante orbitada pelos neo-ortodoxos e pela Milícia Maxila. As digressões de Felipe Parente sobre necropolítica e tecnofascismo são lúcidas e aterrorizantes. (Aviso importante do autor: “Não creio em distopia. O que existe em oposição à utopia é o que chamamos de realidade, não uma categoria literária.”)

Quinta > A citação intertextual e a alusão a figuras históricas e mitológicas colorem o enredo. A linguagem é elegante, inteligente e, repito, carismática e bem-humorada. Ricardo Labuto Gondim é nosso Rabelais tropical. Nosso Swift brasilis.

Sexta > Os personagens coadjuvantes são tão bons que mereciam protagonizar um romance cada um: Simão, o mago golem; Andvari, o anão hipergenético; Lisístrata, a lésbica solipsa solipsista; Laura II de Vison, rainha das technodrags; Kublai-chan, a diva do mercado financeiro; Alfred Jingle, o filósofo pós-metafísico. (Pensando bem, cada um dos coadjuvantes já representa mais uma boa razão pra você ler Pantokrátor).

Sétima > Os diálogos são sensacionais. As descrições são sensacionais. A hiperviolência é sensacional.

Oitava > Die Nibelheim. Um tecnoinferninho futuro, “materialização intangível de uma alucinação” assombrada pela genialidade audiovisual de Richard Wagner.

Nona > A imersão digital integral (IDI), oferecida pela companhia Kopf des Jochanaan, é imbatível. Além disso, as drogas sintéticas psicodélicas são absurdamente sedutoras. Se você procura o sentido da vida, junte as duas experiências e viva num paraíso artificial que deixaria Baudelaire orgulhoso e comovido.

Décima > A trilha musical do romance foi composta por uma galera peso-pesado: Stravinsky, Schönberg, Webern, Berg, Rachmaninov, Ravel e outros.

Décima primeira > O anel do nibelungo, a monumental tetralogia de Richard Wagner, tem um papel importante na trama. A ópera Parsifal também.

Décima segunda > Há os mediaones e a consciência algorítmica. Há o tecnopoder autotélico. Há a volição da consciência no tempo. Há um cemitério-ilha de navios naufragados e quase-naufragados. (Mas assim são quatro razões, certo?)

Décima terceira > Pantokrátor e Corrosão, romance anterior do escritor, ambientado nas cercanias de Júpiter (leia a resenha aqui), tornaram Ricardo Labuto Gondim um dos autores mais importantes de toda a ficção científica brasuca.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Vislumbres de um futuro amargo

Vislumbres

Gabriela Colicigno e Damaris Barradas (org.)
Ilustrações de Renata Aguiar, Deoxy Diamond, Estevão Ribeiro, Roberta Nunes, Stephanie Marino e Roberto de Sousa Causo

Magh Agência Literária
193 páginas
Lançado em 2020

“Esse é um livro para se ter.”

A frase acima, extraída de um texto compartilhado pelo autor Roberto Fideli durante as últimas semanas da campanha de financiamento coletivo para a publicação de Vislumbres de um futuro amargo, resume bem a sensação que fica após a leitura desta obra.

Os argumentos usados por Fideli são relevantes: seis contos escritos por autores nacionais (sendo ele mesmo um dos autores), doze ilustrações originais e exclusivas − duas para cada conto − numa edição muito caprichada preparada pela Agência Magh.

Ainda é possível acrescentar alguns atrativos à edição: a maioria dos envolvidos no projeto são autores relativamente jovens, com o potencial de trazer um fôlego novo à ficção científica produzida no Brasil. Um exemplo desse fôlego é mencionado pelo escritor Roberto de Sousa Causo, responsável pelo prefácio (outro ponto positivo no volume): “os autores parecem afirmar que não haverá um inevitável futuro negativo nos aguardando, mas sim a possibilidade de vidas individuais com um futuro ruim”. Essa observação é muito interessante, porque talvez a primeira expectativa que se tem sobre um livro cujo título fale de futuro amargo seja um conjunto de releituras de distopias, ou histórias pós-apocalípticas. Ao contrário, o que se vê aqui é um conjunto de histórias mostrando futuros possíveis e dramas − pessoais ou coletivos − que representam, acima de tudo, as visões e os anseios da geração que cresceu dentro do boom de tecnologia em que vivemos.

Antônio de outro continente, escrito por Anna Martino, abre o livro com uma história agradável e pitoresca, mostrando o choque de cultura entre um casal que vive numa colônia agrícola fora da Terra e seus parentes que nunca saíram do planeta. História envolvente, que ganha o leitor pela sua simplicidade.

Em seguida vem Corra, Alícia, corra, de Lady Sybylla, uma narrativa alucinante e desesperadora, mostrando a fuga da protagonista por uma instalação científico-militar. O leitor fica meio às cegas até quase o final do texto, apenas acompanhando o desespero da moça. Muito bem escrito.

Eletricidade em suas veias, de Waldson Sousa, apresenta ao leitor um androide praticamente perfeito, capaz de sentir, sofrer e aprender, colocado na Terra por uma cientista que faz parte de uma sociedade evoluída onde imortais podem observar a humanidade através dos séculos. O androide, podendo durar para sempre, é inserido em diversas épocas da história e, tendo sido criado com a pele negra (assim como sua criadora), vive o drama da escravidão em diferentes situações. Além disso, a relação entre o robô e sua criadora é convincente, trazendo questionamentos sobre ética e a interferência da ciência no cotidiano. É uma leitura forte e marcante.

“Eu, Algoritmo”, de Lu Ain-Zaila mostra a relação entre uma IA surgida na internet e hackers selecionados para cuidarem do futuro da humanidade. A narrativa coloca o cidadão comum como um mero espectador, vítima do jogo das grandes corporações. Os momentos em que o conto não ganha formas de teoria de conspiração são bons, e a trama vai crescendo em direção ao final, quase criando um gancho para a criação de um universo mais amplo.

O Pingente, de Cláudia Fusco, é um texto que vale totalmente a aquisição deste volume. Bem escrito, envolvente e emocionante, o conto mostra a relação entre uma robô-babá e a menina de quem ela deve tomar conta, desde seus primeiros meses até a vida adulta. As duas tornam-se melhores amigas e passam juntas pelas experiências que vão definir o caráter da garota. Dramas de infância, traumas e alegrias são compartilhados, moldando a relação entre as duas. Comovente, é uma história que precisa ser lida e relida e que vai emocionar sempre.

O livro fecha com SIA está esperando, de Roberto Fideli. Vê-se aqui uma ficção científica mais tradicional, mostrando o drama de uma tripulação que cai num planeta distante. Tudo é contado a partir da visão da inteligência artificial presente nos computadores da nave, SIA. Assim como nas FC clássicas, essa IA opera seguindo certos protocolos que não podem ser quebrados, o que de certo modo limita seu poder de atuação. Uma infeliz sucessão de catástrofes acaba por fornecer à inteligência artificial mais autonomia do que ela deveria ter, o que traz consequências surpreendentes. Muito bom.

Como mencionado no início desta resenha, esse realmente é um livro para se ter. Sem dúvida os contos de Cláudia Fusco e Roberto Fideli se destacam. São histórias escritas de maneira competente, que envolvem o leitor.

O conto de Waldson Souza também merece uma menção especial. O autor foi competente ao apresentar questões sociais e éticas mesclada a uma FC de excelente qualidade. As ilustrações de Estevão Ribeiro para essa narrativa são simplesmente espetaculares.

A experiência da leitura de Vislumbres de um futuro amargo é certeza de algumas horas muito bem investidas. Os leitores mais habituados à FC terão uma grata surpresa, tendo contato com novos vislumbres em temas que já haviam sido apresentados. Já os menos experientes serão apresentados a temas tradicionais dentro de uma óptica inovadora.

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Daniel Borba é escritor de ficção científica e criador do blogue Além das Estrelas.

Brasa 2000 e mais ficção científica

Brasa 2000

Roberto de Sousa Causo
Patuá Editora
204 páginas
Lançado em 2020

Roberto de Sousa Causo, sem dúvida um dos mais completos e competentes escritores brasileiros de literatura fantástica, tem uma obra extensa, que vai da fantasia urbana (A corrida do rinoceronte) à space opera (Shiroma, matadora ciborgue), passando pela fantasia heroica baseada nos romances de espada-e-feitiçaria (ou borduna-e-feitiçaria, como o autor se refere ao romance A sombra dos homens) e pelo horror (Mistério de Deus). Também merece destaque a sua obra de ficção científica militar, como os excelentes O par e Selva Brasil.

Mais recentemente, Causo vem recebendo atenção pelo seu projeto mais ambicioso: o Universo GalAxys, uma série de space opera ambientada quinhentos anos no futuro, prevendo uma época em que a humanidade teria dominado a viagem interestelar, aventurando-se pela galáxia e começando a manter contato com outras espécies inteligentes.

Sendo atuante na comunidade de FC brasileira desde o final dos anos 1980, Causo não contribui somente como autor, mas também como ilustrador, tradutor, crítico, pesquisador e, mais importante, defensor e divulgador incansável da literatura fantástica brasileira, com participações em eventos e diversos artigos publicados dentro e fora do país.

Raramente Causo decepciona seus leitores, e a chegada da coletânea Brasa 2000 e mais ficção científica é mais uma comprovação da qualidade de sua obra. O livro está dividido em quatro partes, totalizando onze textos que percorrem as diversas facetas da ficção científica do autor, mostrando sua versatilidade e capacidade criativa.

A primeira parte – Aqui, agora, futuro próximo – logo de início apresenta o surpreendente conto Infiltrado. Curto e escrito num ritmo alucinante, o texto é uma paulada que vai deixar muitos teóricos da conspiração com a pulga atrás da orelha. A mulher mais bela do mundo mostra o trabalho de um fotógrafo brasileiro em Nova York, trazendo à tona a questão da desigualdade e das diferenças socioculturais entre Brasil e Estados Unidos. Em seguida, vem O salvador da pátria, uma narrativa que mistura fantasia, ficção científica e esoterismo, num ambiente em que Causo parece se sentir extremamente à vontade para escrever: a selva brasileira, com seus perigos, mistérios e misticismos.

Pré-natal mistura elementos de distopias clássicas, fazendo menção clara à tendência do brasileiro de sempre procurar um herói para resolver seus problemas. Muito atual, apesar da primeira publicação já ter completado vinte anos. Para encerrar esta primeira parte, o texto que empresta o nome à coletânea: Brasa 2000. Numa São Paulo destroçada pela guerra entre Brasil e Argentina, um soldado precisa lutar pela sobrevivência ao mesmo tempo em que repensa sua existência e suas atitudes.

A luta do cangaceiro jedi abre a segunda parte do livro: Tupinipunk, um termo criado pelo próprio Causo para apresentar seu cyberpunk à moda brasileira. A escolha desse conto não poderia ser mais acertada: um pixador perito em artes marciais luta contra o sistema, nas ruas de um bairro da elite paulistana. O autor insere de forma competente um subgênero consagrado da FC mundial na realidade brasileira.

Em Para viver na barriga do monstro, vê-se que o fim do mundo tem diversas conotações, podendo ser individual ou coletivo, com implicações diferentes para cada realidade. Neste texto trágico e bonito, o leitor é convidado a refletir sobre quais valores realmente importam.

A segunda parte do livro fecha com Vale-tudo, um dos melhores textos dessa coletânea e um cyberpunk clássico: sociedade degradada, megalópole caótica, catástrofe climática, megacorporações, complô para alterar a ordem mundial. Um ex-lutador de MMA com altas ambições políticas é investigado por uma das mais prestigiadas jornalistas do mundo, num conto praticamente irretocável recheado de tecnologia de ponta e conspirações.

A vitória dos minúsculos e Dactilomancia constituem a terceira parte do livro, Steampunk. O destaque vai para o primeiro, uma homenagem muito bem feita ao clássico A guerra dos mundos, de H.G. Wells. A escrita aos moldes do século 19 é agradável e chama a atenção pela fluidez.

A quarta e última parte do livro – Space opera – traz apenas um conto: Tengu e os assassinos. A única menção ao Universo GalAxis nesta coletânea é um texto brilhante. Nele, o leitor é apresentado a Jonas Peregrino e Shiroma, as duas personagens principais dessa ambiciosa série, em seu primeiro encontro. Passado num planeta distante com colonização japonesa, Tengu reúne estratégia militar com ficção científica, mesclando aventura e poesia.

A escolha de Tengu e os assassinos para fechar o livro é significativa. De modo consciente ou não, o texto é uma síntese da escrita competente de Causo. Seja pela pesquisa cuidadosa ou pela maneira sutil com que temas importantes como diferenças culturais e respeito à vida são inseridos num excelente conto de space opera, o texto merece ser lido mais de uma vez.

As onze ficções que compõem este volume formam um conjunto sólido e de alto padrão. Poucos autores brasileiros de ficção científica conseguem manter um nível tão alto de qualidade do início ao fim de uma coletânea. Nessas pouco mais de duzentas páginas, Causo apresenta um trabalho bem feito, mostrando uma FC rica e humanista, com preocupações reais, tocando em temas relevantes como o racismo, a desigualdade social e a preservação ambiental.

Brasa 2000 e mais ficção científica é leitura obrigatória para qualquer leitor que se considere apreciador de ficção científica, não só pela qualidade da obra, mas pela relevância do autor.

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Daniel Borba é escritor de ficção científica e criador do blogue Além das Estrelas.

Anacrônicos

Anacrônicos

Luiz Bras
Alink Editora
88 páginas
Lançado em 2017

O que o curta-metragem Tango, de 1981, do polonês Zbigniew Rybczyński, ganhador do Oscar de melhor animação em 1982, tem a ver com o conto Anacrônicos, de Luiz Bras?

No filme, personagens entram um a um numa sala e interagem com o espaço comum e com alguns dentre eles, sem atrapalharem o movimento dos outros, no ritmo cadenciado de um tango minimalista, quase um metrônomo, até atingirem em seu ápice a soma de trinta e seis personagens e seguirem para o posterior esvaziamento.

[ Assista ao curta-metragem clicando aqui: Tango ]

Não se preocupe, tua intenção de assistir ao filme de Zbigniew Rybczyński está longe de ser afetada por um spoiler, pois a descrição que fiz do enredo está distante demais da experiência que se tem ao acompanhar o curta-metragem. Como dizem, “aqui se respeita o gosto do freguês”, interaja na ordem que quiser.

Porém creio que o curta desencadeou a premissa do conto, ou no mínimo sugeriu ao autor como solucionar uma ideia pré-existente do tema do conto e. Ponto. Porque podemos eliminar especulações perguntando ao autor do Anacrônicos se essa ilação tem pertinência e, mais que isso, se tem relevância.

Caro Luiz Bras, o curta-metragem Tango, do Zibig (tomei a liberdade, pra ficar pronunciável), tem pertinência e/ou relevância com as minhas especulações acima? Se tiver, como se deu esse processo?

Enquanto aguardo a resposta, me adianto pra dizer que aqui o livro também está livre de spoiler, pois essa temporalidade e o desenrolar no espaço se dá literariamente. O nosso deleite está na linguagem, que, feito uma trepadeira, se enrosca na estrutura que cria o sentido da história, no interior de uma prosa que (ela mesma) se pergunta: “Você não sabe o que é mais perigoso? A desorganização do espaço ou a subversão do tempo?”

Enquanto no filme Tango se desenrola algumas historietas fechadas em looping, que se formam e se deformam com a proximidade ou o afastamento espacial e temporal dos personagens (entre si) e o espaço da sala, Luiz Bras nos brinda com o simbólico tema do retorno dos entes queridos que já se foram mas ainda povoam nossas lembranças, sejam estas alicerçadas por imagens (fotos ou vídeos) ou não, ressurgindo em materializações palpáveis, em anacrônicas presenças.

E vai além. Esse além é sua característica, ele explora essa volta ad infinitum, numa torrente lógica imersa numa ilógica volta materializada de entes queridos em inumanos emborrachados seres, e suas consequências. É uma história que tem uma protagonista que, não por acaso, é professora de História. Seria uma obsessão espaço-temporal? Seria mesmo um anacronismo, termo tão caro a nossa História universal, presente nos bate-bolas com os dias atuais? Essa História tão surrada que serpenteia como um chicote estalando cá e lá em ressignificadas histórias pessoais e na História dita social ou mesmo histórica? A resposta fica novamente ao seu gosto.

O que não fica ao gosto do freguês é descobrir aonde nos levará o próximo parágrafo. Nesse ponto Bras se aproxima do mecanismo do filme, porém o mecanismo de Bras leva a uma espiral que, embora possamos pressentir algo em seu vórtice, nunca será bem assim, ou bem assado, nem no final.

Essa minha insistência no sentido do gosto é porque a leitura de Anacrônicos nos remete a nossas lembranças, sensoriais lembranças. Quem não as tem, assim repetidas, insistentes e à nossa revelia, visão única, estática ou dinâmica de alguém próximo, na memória recheada de elementos sensórios?

Em Anacrônicos, Luiz Bras nos coloca essa, entre várias outras questões, sempre com humor, nonsense, ironia, perspicácia etc. Não repetirei nesta resenha as estratégias de que o autor lança mão na escrita ficcional de sua FC. Deixarei que você tire as próprias conclusões, que sejam elas ao seu gosto, ao seu olhar, à sua escuta, ao seu toque, ao seu perfume ou ainda da maneira como você as guarda e acessa, as caras lembranças acumuladas em seu tempo de vida, neste conto tão pleno de empilhados e expostos… sentidos.

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Paulo Lai Werneck é escritor e integrante do coletivo KriptoKaipora.