Aprende com tua nêmese

Yin Yang

Vira e mexe, voltamos a falar do embate antigo entre as duas tradições literárias antagônicas: a poética clássica e a poética barroca, entendendo a palavra poética como programa de arte, modo de fazer. (Quem sugeriu que existem apenas duas tradições antagônicas, que vão se desdobrando ao longo dos séculos, foi o teórico Ernst Robert Curtius, em seu célebre Literatura europeia e Idade Média latina.)

Os contos e os romances pensados segundo a orientação clássica (fiquemos apenas na prosa de ficção) são os de linguagem clara e objetiva, enquanto os contos e romances pensados segundo a orientação barroca são os de linguagem obscura e subjetiva. O movimento modernista brasileiro, por exemplo, representou o triunfo da poética barroca, ao valorizar a literatura fragmentária, retorcida, transtornada, propositadamente estranha e hermética.

Passado o tsunami modernista, certo equilíbrio se estabeleceu em nosso cenário cultural (a inevitável paz armada) e hoje convivemos com os mais diferentes exemplos das duas poéticas antagônicas. Há até autores que, em sua produção literária, oscilam de uma para a outra com a maior segurança.

Nessa contenda de tradições, a ficção de gênero (policial, sobrenatural, erótica, científica etc.) nunca escondeu sua preferência.

A praia que costumo habitar, a ficção científica, está tão fortemente ligada à poética clássica, que ainda é difícil pra maioria das pessoas sequer imaginar uma ficção científica de natureza barroca. Essa dificuldade foi parcialmente anulada pelo movimento New Wave, que durante algum tempo promoveu a comunhão (moderada) entre forma modernista e conteúdo futurístico. Mas a escola New Wave jamais se tornou hegemônica. Tampouco a escola New Weird, nossa contemporânea. O que testemunhamos ainda hoje, principalmente nos contos e nos romances de maior sucesso comercial (best-sellers), é o triunfo da linguagem clara e objetiva.

Distante da ficção de gênero, também chamada pejorativamente de literatura de entretenimento, está a praia da ficção erudita, também chamada elogiosamente de alta literatura. Nesse território administrado por especialistas diplomados, a poética modernista sempre foi apreciada e divulgada. Graças à universidade o modernismo se tornou, no Brasil, a corrente dominante, o principal modelo de nossa literatura.

Os especialistas da ficção erudita (de modo geral, pesquisadores acadêmicos e jornalistas com pós-graduação) gabam-se de pensar em alto nível uma literatura de alto nível, para poucos. Já a galera da literatura de gênero gaba-se de produzir e fazer circular em larga escala uma literatura acessível e prazerosa. De um lado o sucesso estético, do outro o sucesso comercial.

A poética da abstração e da fragmentação sintática (às vezes elitista demais), tão apreciada pela comunidade erudita, e a poética do fotorrealismo e da clareza sintática (às vezes popular demais), tão apreciada pela comunidade de gênero, estão sempre discordando. São duas elites que levam muito a sério a divergência. Cada lado só enxerga as fraquezas do adversário, evitando assim qualquer tipo de convergência criativa.

Nesse confronto, perdem os dois lados.

Tanto a ficção erudita quanto a ficção de gênero já esgotaram há muito tempo seus recursos naturais. O problema da ficção erudita é a falta de conteúdos novos e o problema da ficção científica é a pouca diversidade formal. A ficção erudita só voltará a pensar em alto nível conceitual quando começar a expressar as questões do pós-humano, por exemplo. E a ficção científica só se tornará um gênero também de alto nível estético quando reconhecer na poética barroca uma aliada, não uma adversária.

Certa vez eu ponderei, num convite ao mainstream, que a corrente principal de nossa literatura ganharia muito se absorvesse e reelaborasse certos temas próprios da ficção científica contemporânea. Hoje vejo que esse movimento não pode ser unilateral. A ficção científica também tem muito que aprender, principalmente no campo da forma literária, com a grande ficção erudita do século 20, ligada às vanguardas artísticas.

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Luiz Bras

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O velocista

O velocista

Walter Cavalcanti Costa
Cepe Editora
216 páginas
Lançado em 2018

Esse não é um romance de ficção científica.

− Então, Luiz, o que ele está fazendo no blogue FCB?

Esse é um romance de ficção científica.

− Não estou entendendo. Tá parecendo mais o gato de Schrödinger, vivo e morto ao mesmo tempo…

Exatamente: esse é e não é um romance de FC. Vou tentar explicar. Sabe os desenhos ambíguos que iludem nossos olhos? O famoso pato que é coelho que é pato que é coelho? Então… O premiado romance O velocista, de Walter Cavalcanti Costa, é do mesmo tipo.

Dialogando com a melhor tradição de nosso modernismo futurista − estou pensando nos clássicos fragmentários de Oswald de Andrade: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933) −, a narrativa vencedora do Quinto Prêmio Pernambuco de Literatura é composta de trezentos e dez estilhaços, divididos em nove seções.

Os estilhaços são, aparentemente, uma coleção desordenada de memórias e reflexões de Jô Tadeu Tábua, o protagonista da história. E de fato há uma história, um enredo, nessa coleção esquizofrênica de breves diálogos, rápidas descrições e intermitentes digressões. Um leitor paciente e perspicaz, afinado com as vanguardas artísticas e seus jogos poéticos, consegue montar o quebra-cabeça que a cabeça de Jô Tadeu irradia sem descanso.

Pra facilitar um pouco o trabalho, há um estilhaço que esclarece quem é quem no vaivém de personagens que brincam de esconde-esconde ao longo do romance.

96

Explicativo

Eu sou Jô Tadeu Tábua, sou astronauta. Sou filho da estilista Carolina Vásquez e do professor de ciências contábeis João Tábua. Sou casado com Beyita Samana, a governadora do Estado de Pernambuco, no Nordeste da República Federativa do Brasil, e sou irmão do artista plástico Von O’Val, que é casado com a bibliotecária Valbuena Sales, que fala sete línguas ocidentais. Sales trabalhou com meu pai, João Tábua, no local onde hoje é a biblioteca que recebeu o nome dele.
Tenho um filho chamado João Tadeu. Uma filha que está para nascer. Nasceu.
Estou a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

Duas considerações me ocorrem, após a leitura de O velocista.

Trata-se, é óbvio, de uma obra pertencente à tradição modernista da prosa obscura, subjetiva, caótica e às vezes hermética, produzida por rebeldes − Joyce, Beckett, Raul Brandão, Clarice, Leminski, Hilda Hilst e outros − hoje canonizados e estudados no ensino médio e nas faculdades de Letras. Essa tradição da obra-aberta (Umberto Eco) ainda fortalece a corrente dominante da literatura e dos estudos literários.

Confesso, porém, que se não fosse por um detalhe, o romance de Walter Cavalcanti Costa não teria me interessado tanto. Afinal, justamente por pertencer à corrente dominante da literatura e dos estudos literários, a fragmentação romanesca já deixou de ser novidade há muito tempo. O detalhe que me prendeu a atenção foi a profissão de Jô Tadeu: astronauta. E o fato de ele estar a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

É a primeira vez que um astronauta entra em cena, no campo da literatura erudita brasileira. Porque, de Joyce aos dias atuais, os romances fragmentários do mainstream costumam expressar a consciência caótica do corriqueiro cidadão comum: gente simples da periferia, operários e comerciantes, escritores em crise, artistas sem talento, donas de casa entediadas, jovens sem amor nem futuro, delírios da classe média etc.

As questões práticas da rotina de um astronauta brasuca aparecem muito pouco em O velocista. Nessa narrativa predominam o cotidiano doméstico e afetivo do protagonista, próprio da tradição mainstream. Mas a brevíssima menção à figura do astronauta me permitiu extrapolar a alucinante fragmentação discursiva. Durante a leitura, consegui enxergar Jô Tadeu atravessando um portal fractal, sua nave em alta velocidade capturada por uma distorção do espaçotempo, o passado-presente-futuro do protagonista pipocando no ontem-hoje-amanhã, sua consciência elaborando e reelaborando encontros e desencontros de uma causalidade alternativa.

Resumindo: esse não é um romance de ficção científica, mas é do tipo que pode ser lido também como um romance de ficção científica.

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Reflexão relacionada: Aprende com tua nêmese

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Paraíso líquido

Paraiso liquido

Luiz Bras
Terracota Editora
304 páginas
Lançado em 2010

Em tempos como estes, em que a política nos enoja, as pessoas nos decepcionam, a realidade começa a ficar insuportável e a vontade é de sumir do mapa, costumo recorrer à literatura que, afinal, sempre nos salva. Em momentos assim, procuro ler coisas que me tirem do eixo e me joguem muito além no tempo, ainda que esse futuro possa soar triste, cruel e melancólico.

Foi com esse estado de espírito que busquei na estante o Paraíso líquido, contemplado pelo ProAC 2010 e lançado nesse mesmo ano − meu exemplar com um autógrafo carinhoso de Luiz Bras. Embora a maior parte dos treze contos, na época, já tivesse sido impressa em coletâneas variadas, foi um imenso prazer lê-las, agrupadas, nesta obra de grande importância na carreira de Bras. E o que é melhor: editadas de forma que o leitor sente-se caminhando no tempo que gradualmente vai se tornando aterrador.

A edição se abre com Primeiro contato, texto primoroso e pungente – o meu preferido – sobre uma brincadeira entre crianças que, aos poucos e dosadamente, revela preconceito e crueldade. E segue nessa linha de alguém brincando com o destino dos outros em Memórias. Por sua vez, Nuvens de cães-cavalos nos estapeia com uma existência que pode estar na duração de um último cigarro, um show de forma e estrutura textual.

Provocador como sempre em suas antevisões distópicas, Luiz Bras fala de crianças e brinquedos assassinos em Daimons, e segue com Déjà vu, que, como ele próprio explica na orelha, pode ser lido de trás para a frente ou vice-versa, já que trata de uma máquina do tempo. São Paulo, 31 de julho de 2013 é literatura epistolar da maior qualidade em forma de um vaticínio que debocha de tudo, da política à religião e a personagens de desenhos animados – que bem poderia ser uma homenagem a Ray Bradburry. Em Nostalgia, o autor faz um alerta bastante sinistro: “Para o espírito do homem, o paraíso não pode ser parcelado.”

A obra se encerra com o conto que dá nome à coletânea, num cenário mais radical “onde não há mais Brasil, nem Ocidente nem o planeta Terra. Há apenas a paisagem, um espaço estranho e delicado, habitado por seres maravilhosos e assombrados por uma entidade chamada Nuvem”, nos dizeres de Rebecca O’Brien, da The Ohio State University, talvez mais um personagem criado por Bras, ele mesmo detentor de pelo menos cinco identidades.

A literatura futurista brasileira, mesmo que muito lentamente, está ganhando novos autores e adeptos, basta ver a recente multiplicação de lançamento de antologias com os melhores de todos os tempos. Luiz Bras faz parte desse movimento, e, mais do que produzir obras importantes na cena literária, ele tem sido mestre e fonte de inspiração para toda uma nova leva de autores preocupados em ficcionar o futuro.

Por sua iniciativa, por três anos (2008-2011) convidou quarenta e quatro escritores para produzirem textos, organizou e lançou o Projeto Portal, uma revista de ficção científica editada no sistema de cooperativa, destinada não ao grande público, mas em suas palavras “a esse pequeno grupo de aficionados mais refinados”. Foram seis números dessa publicação cujos títulos homenageavam os grandes mestres da ficção científica (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit), num total de 2.450 exemplares.

E em 2012, organizou e lançou como antologia o volume Todos os portais: realidades expandidas (também pela Terracota Editora), uma seleção de vinte e um contos dos seis números do Projeto Portal, com trabalhos de Roberto Sousa Causo, Fábio Fernandes, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Laura Fuentes, Brontops Baruq, Claudio Brites, Ana Cristina Rodrigues, Petê Rissatti, Ricardo Delfin entre outros.

O triste é saber que esses dois livros estão esgotados, idem os números dos Portais, podendo apenas ser encontrados com muita sorte em sebos. Quem sabe alguma editora esperta se interesse por relançá-los, uma vez que fazem parte da história da ficção científica brasileira contemporânea.

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Nanete Neves é jornalista e escritora, autora de De âmbar e trigo, entre outras obras.

As Quimeras da Guerra

As Quimeras da Guerra

Ricardo A. S. Santos
Editora PenDragon
440 páginas
Lançado em 2017

Como será a humanidade no ano de 2139? Quais serão os seus hábitos, sua cultura, sua forma de vida? Segundo Ricardo A. S. Santos no livro de ficção científica com salpicadas de terror As Quimeras da Guerra, os humanos tradicionais estarão condenados. A menos que você possua um bom rifle de plasma, sua vida vai se tornar uma fuga de abrigo em abrigo para se proteger dos monstros mutantes que se multiplicaram sem controle. Isso caso você já não tenha se tornado mais um deles, obviamente.

A história trata das consequências de uma guerra nuclear que no ano de 2098 devastou o mundo que nós conhecemos. A radiação se espalhou globalmente e se os contaminados não morrem pela sua ação, na maioria das vezes passam por mutações gritantes que os transformam em seres corpulentos e animalescos. Além de ficarem com uma marcante vontade de saborear carne humana.

Contudo, as explicações dessas contaminações ainda são muito sombrias. Principalmente porque, após 2098, o conceito de nação perdeu muito do seu valor logo que o exército se uniu em escala mundial para se tornar a mais importante instituição a governar a humanidade. Afinal, são eles que constituíram as bases onde os humanos podem viver com algum sossego graças à vigilância contra a invasão de hordas de monstros famintos. Estaria o exército realizando experiências premeditadas para aumentar o seu poder? Estaria criando mutantes mais avançados para manter a população cada vez mais acuada e dependente de uma milagrosa instituição protetora que produz o veneno para depois se vangloriar por criar o próprio antídoto?

Fato é que as feras estão evoluindo prodigiosamente. Essas novas espécies estão com cada vez mais força, agilidade e até a capacidade de regeneração de membros perdidos. E a esperança da população não está no exército e em suas ações duvidosas, mas num pequeno grupo rebelde que, mesmo com escassos recursos, vem atingindo importantes vitórias: são os chamados Dogs, que possuem como principal expoente o sargento ex-líder do pelotão da morte dos Coveiros, Marcus Sedric.

Marcus é um guerreiro que perdeu os pais ainda criança para a luta contra os monstros. Foi então que decidiu se alistar para o treinamento militar a fim de se tornar capaz de cumprir sua vingança pessoal contra essas aberrações. Isso o fez um líder frio, sem piedade. Até psicopata.

Afinal, Marcus não tem muita noção se suas atitudes auxiliam ou atrapalham a população. Mas o rapaz nem se preocupa com isso: ele segue seu próprio senso de justiça, simplesmente obedece aos seus instintos. Seu destino é guerrear e todos os seus sentidos se desenvolvem para isso. Mas as Quimeras da Guerra sabem bem o que fazem. Nada acontece por acaso. Não existem coincidências uma vez que as Quimeras é que oferecem o caminho e os recursos para que seus indicados cumpram uma missão ainda maior.

Num mundo distópico repleto de batalhas, propício ao desenvolvimento de personagens, o primeiro livro de Ricardo A. S. Santos nutre-se do interesse do autor por sagas japonesas como Dragon Ball, Gantz e Berserk para nos transportar ao coração de uma sociedade caótica em que matar se torna essencial para sobreviver.

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Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.

B9

B9

Simone Saueressig
Editora Clube de Autores
316 páginas
Lançado em 2011

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul.

O romance B9 mostra uma nave de gerações chamada NCA 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave atinge um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave.

O palco para um bom romance hard de FC já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de B9. Mas quem é B9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comuns em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semiabandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando até mesmo sua morte. E assim nasce B9, nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.

Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a NCA para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente B9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Conduzida tanto pelo comandante quanto por sua neta, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é se possível tentar resgatá-lo.

O romance é intenso e com muito movimento. De saída chama a atenção, em suas primeiras páginas, a objetividade e o poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas esse é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.

Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere essas questões como leitmotiv da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges / B9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague a dor e a vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.

O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso, que sabem como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.

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Marcello Simão Branco é pesquisador de ficção científica e coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque de Arte Fantástica Brasileira. ]

QUAD 1

Quad

Diego Sanchez, Aluísio C. Santos, Eduardo Schaal e Eduardo Ferigato
Quad Comics
116 páginas
Lançado em 2013

Quadrinhos não são o foco principal do blogue Ficção Científica Brasileira, mas consegui convencer o Luiz Bras de que este excelente trabalho coletivo merecia um pouco mais da atenção de nossos leitores.

No final do século 21, o evento conhecido como A Tempestade eliminou toda a tecnologia do planeta e causou severas alterações climáticas. Nações deixaram de existir e a telecomunicação tornou-se passado. Os sobreviventes herdaram um ambiente inóspito, alguns fundando novas sociedades, outros buscando o isolamento. As quatro Naves-Arca, enviadas aos confins da galáxia por uma coalizão global de cientistas antes do cataclismo, fundaram colônias que agora vasculham o espaço a procura de um novo lar para a humanidade.

QUAD é uma antologia de quadrinhos financiada coletivamente através da plataforma Catarse, idealizada por Diego Sanchez, Aluísio Cervelle Santos, Eduardo Schaal e Eduardo Ferigato. As histórias são independentes, mas compartilham o mesmo universo ficcional pós-apocalíptico.

Em Terah & Elvis, de Schaal, uma técnica em manutenção é contratada para realizar um trabalho em uma região hostil, a Zona Sete. Terah e seu gato Elvis enfrentam mutados e a desolação para realizar reparos para uma cliente suspeita.

Santos apresenta ESP-Tret sobre um androide exorcista de softwares paranormais que investiga a violação das Três Leis da Robótica de Isaac Asimov, resultando na morte de duzentas pessoas, causada por construtores mecanizados na metrópole FZ-402, de onde ninguém entra e ninguém sai e a maioria dos humanos é castrada para manter o controle populacional.

Eko é um trabalhador em uma cidade regida por robôs em Muros, de Sanchez, onde a vida é dominada pela monotonia e a única ocupação é o trabalho. Ao encontrar uma gangue de motoqueiros conhecidos como os Lixeiros, ele tem o primeiro contato com o conceito de liberdade. A edição fecha com Sally, de Ferigato. A Explorer 202 está presa em um sistema solar distante devido a danos no sistema de dobra. O capitão Lucas e o imediato R. Daniel encontram em um planeta desconhecido os destroços de um cargueiro que pode conter as peças necessárias para o reparo de sua nave.

O projeto QUAD foi lançado no Catarse em 2013 e logo se tornou um sucesso de arrecadação. A meta de quinze mil reais foi ultrapassada, atingindo o impressionante valor de vinte e seis mil reais, oferecidos por quase seiscentos colaboradores. Outras duas edições foram financiadas entre 2014 e 2015, explorando os personagens e seu fascinante universo. Ainda foi lançado pelo selo Quad Comics o quadrinho Svalbard (2016) de Diego Sanchez, com uma história dos Lixeiros.

O volume ainda traz uma galeria com artes de André Toma, Marcelo Braga, Octavio Cariello, Roger Cruz, Julia Bax, Marcelo Campos e Mateus Santolouco.

As HQs da Quad Comics podem ser encontradas aqui.

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Ricardo Delfin é escritor, roteirista e – até onde se sabe – terráqueo.

Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.