Infinito em pó

infinito em pó

Luís Giffoni
Editora Pulsar
240 páginas
Lançado em 2004

O romance Infinito em pó propõe um debate sobre a (in)expressividade da vida humana. Dedicado a discutir, ao longo do desenvolvimento de cada personagem, a habilidade do homem em desenvolver tecnologias na busca de respostas para o que historicamente sempre tomamos como questões insólitas, Luís Giffoni apresenta uma (dis)topia social que dialoga com nossa contemporaneidade.

A espécie humana, em um futuro distante, paga um preço muito alto na tentativa de racionalizar o universo como um todo, uma vez que não encontra alternativas políticas que tornem as microrrelações sociais menos violentas. Oligarquias, disputas de poder, cobiça e vaidades estão presentes na vida social do homem do futuro apresentada pelo autor, e embora tais desencontros sociais não comprometam o projeto de exploração interestelar, tornam esse projeto uma grande experiência (dis)tópica. Dessa maneira, utopia e distopia caminham juntas ao longo da obra, com o intuito de traçar uma hipérbole do sapiens contemporâneo.

As habilidades de Giffoni em desenvolver as personagens e a narrativa também despertam atenção. Os personagens são influenciados por pelo menos duas angústias essenciais: a clausura de viver toda sua existência em uma nave e a responsabilidade de protagonizar uma missão que pode mudar significativamente o entendimento do ser humano como espécie. No entanto, essas sensações são reveladas ao leitor em doses homeopáticas, o que faz do autor um maestro que tem o controle da narrativa nas mãos, nos proporcionando uma experiência sinestésica do que significa estar em uma missão espacial de exploração interestelar.

O teórico Viktor Chklóvski compreende que uma das demandas do texto literário é o processo de singularização dos objetos, que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. Infinito em pó apresenta esses gestos em uma narrativa que revela, pouco a pouco, o que é viver um sonho utópico da humanidade cristã − desbravar galáxias, colonizar mundos, demarcar toda a grandeza do universo com o carimbo de domínio da humanidade − e a condição distópica do homem tão ínfimo, tão pequeno, tão singular, em meio a um cosmo gigantesco. Um cosmo infinito de um lado e, de outro, a humanidade na dimensão de pequenos grãos de areia com vaidades e muitas habilidades cognitivas.

A utopia e a distopia também estão presentes em Infinito em pó pela potência semântica da viagem espacial. Uma nave realiza uma das grandes empreitadas da humanidade: desbravar o espaço em uma longa jornada que permitirá ao homem colonizar o sistema Alpha Centauri. Gerações nascem, se desenvolvem e morrem ao longo da viagem, sem conhecer o que seria a vida na Terra e o que seria a vida fora da nave. Os personagens centrais da trama só conhecem a Terra por um conjunto de arquivos alimentados pela inteligência artificial da nave e por um sistema de realidade imersiva que simula ambientes da fauna e da flora.

O planeta Terra, por sua vez, está em colapso político-econômico, ao mesmo tempo que possui uma integração, fruto de um processo de globalização maduro que possibilita a missão acontecer. Personagens reúnem traços multiculturais, variando do hindu ao latino-americano, no entanto, as múltiplas ambientações da nave permitem que o leitor se identifique com uma vida limitada quase ao missionarismo cristão: todos os personagens tem um objetivo, uma vida traçada, uma expectativa em torno dos resultados adquiridos ou não adquiridos, e dos juízos morais polarizados no bem e no mal.

O novo Deus que direciona as escolhas das personagens em Infinito em Pó é o progresso e a superação do humano: a vaidade em marcar território, sem saber ao certo por quê, nem para quê. O autor não deixa de lançar um olhar crítico sobre a história colonial das Américas e a presunção antropocêntrica do homem moderno. Questiona a paradoxal necessidade desse homem moderno em racionalizar o que está além de suas competências naturais. O universo é imenso, é complexo, é irracional na lógica humana.

Assim como Lovecraft cria o universo de Cthulhu e propõe que o livre-arbítrio do sapiens seja uma brincadeira dos deuses, Infinito em pó apresenta um homem desproporcional às demandas do Universo, motivado pela vaidade infantil de um dia querer atingir a onisciência e a onipresença de um cobiçado Deus cristão.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com doutorado em Linguística.

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Piscina Livre

Piscina livre

André Carneiro
Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Publicado pouco antes da organização do movimento que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira, Piscina Livre apresenta características marcantes da proposta literária da onda na qual Carneiro se insere.

A começar pela apresentação formal do texto que, numa ousadia modernista, não observa os convencionais recuos dos parágrafos. Não se trata de um erro editorial, uma vez que tanto o autor quanto a editora tinham muita experiência na publicação de livros. A apresentação é proposital, mas surpreende os leitores acostumados aos textos da Segunda Onda, que tiveram uma postura conservadora em relação à forma e ao estilo, com pouca ou nenhuma experimentação nesse aspecto.

Também na prosa, Piscina Livre tem um toque de elegância e uma ousadia técnica pouco comuns na FCB, características que fizeram valer os elogios que o autor recebeu e ainda recebe de editores, leitores e teóricos.

O mundo desse romance é habitado por pessoas felizes e frívolas, que vivem em cidades confortáveis, ilhas de urbanidade cercadas pela natureza selvagem. A Piscina Livre é uma casa de prostituição, onde as mulheres encontram exemplares masculinos geneticamente desenvolvidos para o sexo. São os andrs, homens artificiais que não têm direitos de cidadão. O termo piscina livre refere-se à sua vitrine, que é um enorme aquário no qual andrs nus exibem-se para a clientela num erótico balé subaquático. Em nenhum momento o romance sugere que existam andrs fêmeas e, com efeito, o discurso feminista de Carneiro, presente em muitas de suas obras, aqui condena explicitamente a prostituição feminina.

A sociedade não vê a Piscina Livre como uma atividade moralmente condenável, ao contrário. Trata-se de um lugar elegante e bem frequentado, no qual as mais destacadas mulheres da sociedade encontram complementos para sua satisfação sexual, inclusive um gorila muito requisitado. De fato, essa comunidade futura trocou as religiões pelo sexo, que é praticado livremente por homens e mulheres de todas as idades, até crianças. O prazer erótico é a linha guia da sociedade, ensinado nas escolas por especialistas, com uma infinidade de práticas variantes. Não há ciúme ou vergonha e todos desfrutam de liberdade sexual absoluta.

Os andrs, contudo, não são felizes. Anseiam pela liberdade e buscam por ela fugindo para a selva, principalmente quando, depois de algum acidente, apresentam defeitos ou aleijumes. Os fugitivos acabam servindo como caça desportiva para homens que se divertem matando-os com rifles elétricos.

Nesse cenário, encontramos um casal jovem que, no princípio da narrativa, chamam-se Blanche e Kratz. Esses nomes não duram muito além das páginas iniciais, pois os cidadãos usam braceletes identificadores que lhes mudam o nome todos os dias. O que poderia tornar-se uma confusão é tratado de forma segura pelo autor e em momento algum o leitor perde a identidade dos personagens.

Apesar de ter uma vida confortável, Blanche não está plenamente feliz, embora não saiba disso. Em uma visita à Piscina Livre, ela desfruta do andrs Several (ao contrário dos cidadãos livres, os andrs nunca mudam de nome). Na Piscina Livre, a seleção dos andrs é aleatória, mas Blanche − que a essa altura já não se chama mais assim – desenvolve uma fixação por ele. Kratz não se importa que Blanche tenha relações com outros homens, sejam eles andrs ou cidadãos, mas fica abalado quando desconfia que ela entabula diálogos lógicos com Several, uma vez que considera os andrs mentalmente inferiores.

Conforme Blanche estreita seu relacionamento com Several, Kratz fica cada vez mais abalado emocionalmente, e isso vai levá-lo a adotar medidas drásticas na tentativa de recuperar o seu amor. Sendo conselheiro da cidade, Kratz dispõe de algum poder, e o que se segue é nada menos que um holocausto.

Interessante notar o final anticlimático da trama, depois do torvelinho de situações de crime e tragédia.

O moralismo que caracteriza o genoma da ficção científica internacional mais bem-sucedida não encontra eco em Piscina Livre, que, na mais pura tradição tupiniquim, termina literalmente em pizza, sem culpa ou punição. Desse modo, o autor deixa a conclusão aberta ao leitor: trata-se de uma alegoria à impunidade que assola o país; de uma parábola para o perdão cristão; de uma proposta para a redenção espiritual através do sexo ou de outras infinitas abordagens que se possa perceber.

Piscina Livre define um modelo pouco explorado de ficção científica, que exige do autor uma ampla capacidade abstrativa e estilística, além de uma maturidade moral e filosófica capaz de lidar com o tema do sexo sem cair no escracho, no machismo ou na grosseria. Autores com essa capacidade geralmente preferem não escrever FC, enquanto os autores de FC de alguma qualidade não ousam tocar nesses assuntos, por uma questão de protocolo do gênero. Ainda bem que tivemos a ventura de ter André Carneiro na ficção científica brasileira.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

Macacos e outros fragmentos ao acaso

Macacos

Jorge Moreira Nunes
Editora Differential
126 páginas
Lançado em 2007

Há muito tempo, queria ler um livro que falasse da minha cidade e, em pelo menos um de seus parágrafos, contemplasse uma ficção fértil em nome de um Rio de Janeiro que eu vivenciei, que não está no imaginário da mídia massiva, tão múltiplo e tão além da praia de Copacabana. Ironia ou não, esse livro existe, de certa forma, desde 1998, é um romance − feito de contos muito bem alinhavados − de ficção científica e o centro de irradiação de sua narrativa é Copacabana.

Seu primeiro conto-capítulo, Terraço, entra também na lista de ironias que experienciei para adotar Macacos e outros fragmentos ao acaso como aquele livro instigante e capaz de concentrar as experiências paradoxais e conjecturas de uma ficção que cabe na cidade que amo, expandindo-a para todos os tempos e possibilidades. É também uma viagem pelo inconsciente.

Um dos personagens mais bem elaborados por Jorge Moreira Nunes, o enxadrista Vlad, provoca o estranhamento e a empatia necessários para configurar o bairrismo ao avesso e a intelectualidade despretensiosa de botequim que dão o tom original do romance. Ganhamos um amigo, daqueles cuja amizade não entendemos por que cultivamos, mas não podemos jamais subestimar.

Os desconcertantes contos-capítulos denominados Macacos possuem o mérito inegável de brincar com o inconsciente semântico do leitor ou, numa visão menos otimista, tocar a superfície adormecida desse oceano de possibilidades cuja linguagem certamente deve diferir da lógica habitual. O projeto Macacos vai tendo sua significação e relevância esclarecidas pouco a pouco e, até as últimas páginas, parece não ter outra função que não seja incomodar o leitor, obrigando-o a improvisar um novo método de leitura lúdico e participativo, que dê conta de várias páginas de uma enorme sequência de associações livres demais ou – o leitor pode notar, desconfiado – nem tão livres assim.

O segundo conto-capítulo, Maelström, revaloriza o primeiro, mas dá também a impressão de que o todo do livro é uma obra caótica, formada apenas por fragmentos realmente ao acaso. A espinha dorsal do romance, no entanto, o refúgio seguro do La Granada – título dos capítulos que alinhavam com segurança os contos do livro – escancara ao leitor um único objetivo por trás de toda a narrativa.

As diferentes formas de realidade representadas em épocas e temporalidades distintas (que incluem também os contos-capítulos Presente de mãe, Saviana e Ourobouros) somam-se a uma desconstrução da linguagem cartesiana (Macacos) e a uma narrativa em primeira pessoa franca e intimista (La Granada), resultando num arsenal respeitável para a detonação de parâmetros mentais habituais, uma das funções mais nobres da boa ficção científica. Mas o caos furtivo é apenas o primeiro passo para a obra descomunal de construção do Inventário de todas as possibilidades humanas.

Jorge Moreira Nunes, seu alter ego ou a primeira pessoa de Macacos e outros fragmentos ao acaso, impressiona pela coragem, porque chega a um grau de vulnerabilidade ousado por poucos autores em plena narrativa literária. Que escritor não se sente tentado a incluir posfácios e prefácios no meio de sua história para torná-la menos temerária, menos solitária e – aí o grande perigo – mais indecisa? É preciso ler para entender e sentir como esse dilema se resolve.

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Ludimila Hashimoto é escritora e tradutora, especializada em ficção fantástica e ficção científica.

[ Resenha publicada originalmente no portal Overmundo. ]

Solarpunk

Solarpunk

Gerson Lodi-Ribeiro (organização)
Editora Draco
264 páginas
Lançado em 2013

Budistas e estoicos não se cansam de ensinar que na vida nada é fixo e permanente. Mas até mesmo essa luminosa verdade pode ser relativizada. Se comparados com o tempo brevíssimo de uma vida humana, certos fenômenos cósmicos costumam ser bastante fixos e permanentes. Nosso sol é um deles. Bonachão e constante, sempre esteve por perto, sem faltar um dia sequer.

Artigos de divulgação científica sobre a potência solar também não se cansam de dizer que a quantidade de energia que o sol envia anualmente ao nosso planetinha equivale a mais de dez mil vezes o consumo mundial registrado no mesmo período. Dez mil vezes! Não é o fabuloso moto-perpétuo dos doidivanas, mas, pra nossa fugaz mentalidade primata, chega perto. Só precisamos descobrir um jeito eficiente de mamar nessa tetona generosa e duradoura.

Enquanto os engenheiros e os cientistas não encontram esse jeitinho, nossos ficcionistas fantasiam possibilidades. Na coletânea de contos Solarpunk, vários autores imaginaram incríveis sociedades ecológicas. Exatamente: sociedades que deram um passo à frente e aboliram o uso das energias que provocam danos às pessoas e ao meio ambiente, em favor das energias limpas, principalmente a do astro rei.

De todos os contos reunidos, Sol no coração, de Roberta Spindler, foi o que abraçou com mais força a causa da energia solar. Numa sociedade futura, a luz irradiada pela distante fusão nuclear de nossa generosa e duradoura estrela não alimenta apenas as máquinas. Essa luz também alimenta e fortalece as pessoas, que logo na infância recebem no corpo finíssimas placas solares − implantes semelhantes a uma tatuagem − e injeções de nanomáquimas capazes de promover a revolucionária fotonutrição.

O confronto dos reinos, do português Telmo Marçal, também oferece humanos que se alimentam da luz solar. Humanos, não, pós-humanos, porque esses cidadãos solares já pertencem a outra espécie, a espécie das pessoas clorofilizadas. Um novo capítulo na história da evolução artificial leva ao limite a oposição violenta entre o reino animal e o vegetal. O conto de Telmo Marçal − uma sátira de investigação − é o mais irreverente da coletânea, graças à verve do autor e ao saboroso sotaque lusitano.

O conflito do conto de Gabriel Cantareira, intitulado Fuga, gira em torno da sabotagem de “um gigantesco sistema de satélites estacionários que captavam a energia solar e a transmitiam para a superfície terrestre usando micro-ondas”. A política das energias renováveis não é a protagonista, mas o pano de fundo de uma narrativa centrada no combate às maquinações maquiavélicas das grandes corporações.

O tema da grande conspiração totalitária também é o combustível que põe em movimento a bela ficção étnica de André S. Silva, Xibalba sonha com o oeste, ambientada num Rio de Janeiro alternativo. Curiosamente, essa sociedade retira sua energia não do sol nem do vento, mas das descargas elétricas atmosféricas, produzidas pelas tempestades. Esse sistema só não é mais surpreendente do que o sistema do conto de Daniel I. Dutra, intitulado Gary Johnson, sobre uma sociedade cuja principal fonte energética é… Melhor não revelar, pra não roubar dos leitores a surpresa bizarra.

A proposta editorial da coletânea Solarpunk é incomum. Somos convidados a imaginar um planeta sustentável, movido por energias limpas e renováveis. Convite maravilhoso. Quem não gosta de idealizar utopias energéticas? Mas os nove contos reunidos, muito sacanas, logo emporcalham nosso ingênuo devaneio de equilíbrio e felicidade. De que maneira? Introduzindo na harmoniosa equação uma variável desafinada: nós, humanos.

Não importa se no futuro ou numa realidade alternativa a sociedade abandonou as energias sujas em favor da energia solar, eólica, geotérmica, maremotriz, hidráulica, nuclear etc. Onde houver humanos, o selvagem desejo de dominação será a principal fonte dos transtornos sociais.

Veteranos da FC brasuca, Carlos Orsi, Romeu Martins, Antonio Luiz M.C. Costa e Gerson Lodi-Ribeiro completam o grupo de autores, comparecendo com pesadelos cativantes e igualmente reveladores da inclinação humana para o desastre.

Além de refletir de maneira excepcional sobre o perene drama humano, a ficção científica adora prender nossa atenção com promessas sedutoras. Terminada a leitura de Solarpunk, ainda estou cobiçando certos itens que não dá pra comprar na internet mas eu gostaria muito de adquirir: a terapia de reprogramação genética e o upload de consciência de Soylent green is people! (Orsi), um frasco do gás-do-ódio de E atenção: notícia urgente! (Martins), a capa da invisibilidade do divertido Era uma vez um mundo (Costa), e, mais que tudo, o supertraje biocibernético de Azul Cobalto e o Enigma (Lodi-Ribeiro).

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Anjos, mutantes e dragões

Anjos Mutantes e Dragões

Ivanir Calado
Editora Devir
296 páginas
Lançado em 2010

Essa antologia com as melhores ficções curtas de Ivanir Calado reúne quinze narrativas de ficção científica e fantasia escritas no final do século passado, anteriormente espalhadas por diversas coletâneas temáticas, incluindo uma coleção de livros sobre os sete pecados capitais.

Apesar de juntar contos produzidos em momentos diferentes, escritos sob encomenda para projetos contrastantes, o volume é regular e equilibrado, fato incomum nesse tipo de reunião.

Manipulando com competência certos elementos de psicologia, ecologia, mitologia, sociologia, política e História, a escrita de Ivanir Calado se destaca pela elegância e pela riqueza de pormenores. E o enredo de seus contos, ao buscar a clássica unidade de efeito proposta por Edgar Allan Poe, sempre surpreende.

Sylvio Gonçalves observa, na apresentação de Anjos, mutantes e dragões, que o contista explora muito bem uma capacidade exclusiva da ficção científica e da fantasia: denunciar as mazelas de nossa sociedade por meio da criação de realidades diferentes da nossa apenas na aparência.

Todos os contos me agradaram bastante, especialmente esses cinco:

Paradoxo de narciso, o próprio título já está insinuando, é uma narrativa que explora um dos possíveis paradoxos criados por uma viagem no tempo. A premissa não é nova na ficção científica, mas rendeu aqui uma variação interessante. O protagonista volta doze anos no passado, visita a si mesmo mais jovem e o encontro produz uma insólita dinâmica afetiva, algo que o viajante não havia previsto. (Esse conto também foi selecionado para a antologia Fractais tropicais: o melhor da ficção científica brasileira, da Sesi-SP Editora.)

Operação Lobo narra uma ação secreta pra libertar de uma fortaleza-prisão um químico romeno que decidiu passar para o lado dos adversários do regime do ditador Ceausescu. Um detalhe preocupante da estratégia de resgate é que não há plano de fuga. Uma vez encontrado o professor, ficará a cargo dele pensar num modo de escaparem da fortaleza-prisão. O aspecto científico desse conto − o uso de um gás paralisante − recebeu um bem-vindo tratamento cômico.

Kilumbo é uma ficção curta que transfere para o espaço um fragmento da história da escravidão no Brasil. Não há navios negreiros, mas naves igualmente insalubres que transportam os escravos kiluns até os asteroides-minas, onde trabalham até morrer. McZomb, líder de seu grupo, decide comandar uma revolta que, se bem-sucedida, libertará os kiluns, permitindo que fujam para um planeta distante.

Eleanor Rigby, inspirada numa de minhas canções favoritas dos Beatles, reapresenta o tema clássico da prostituta solitária e deprimida. A fim de escapar da rotina de objeto sexual, a protagonista compra numa loja um rosto novo, aumentando sua coleção. Durante um passeio, ela conhece um homem e se apaixonam. Nesse futuro indeterminado, “o casamento está de novo na moda”. A questão é se a opressora Companhia pra qual Eleanor trabalha aceitará pacificamente sua deserção…

O altar dos nossos corações é uma das narrativas mais longas da coletânea. Parece que a proverbial promiscuidade entre Estado corrupto e crime organizado, que conhecemos tão bem, ainda se prolongará por muito tempo. O governador do Rio de Janeiro é sequestrado por uma facção criminosa, isso põe em movimento a roda de trapaças e traições. Entre as assustadoras novidades dessa época está a ponte Rio-Niterói, que virou uma favelona fortificada, vigiada pelos urubus: garotos armados pilotando ultraleve.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Aprende com tua nêmese

Yin Yang

Vira e mexe, voltamos a falar do embate antigo entre as duas tradições literárias antagônicas: a poética clássica e a poética barroca, entendendo a palavra poética como programa de arte, modo de fazer. (Quem sugeriu que existem apenas duas tradições antagônicas, que vão se desdobrando ao longo dos séculos, foi o teórico Ernst Robert Curtius, em seu célebre Literatura europeia e Idade Média latina.)

Os contos e os romances pensados segundo a orientação clássica (fiquemos apenas na prosa de ficção) são os de linguagem clara e objetiva, enquanto os contos e romances pensados segundo a orientação barroca são os de linguagem obscura e subjetiva. O movimento modernista brasileiro, por exemplo, representou o triunfo da poética barroca, ao valorizar a literatura fragmentária, retorcida, transtornada, propositadamente estranha e hermética.

Passado o tsunami modernista, certo equilíbrio se estabeleceu em nosso cenário cultural (a inevitável paz armada) e hoje convivemos com os mais diferentes exemplos das duas poéticas antagônicas. Há até autores que, em sua produção literária, oscilam de uma para a outra com a maior segurança.

Nessa contenda de tradições, a ficção de gênero (policial, sobrenatural, erótica, científica etc.) nunca escondeu sua preferência.

A praia que costumo habitar, a ficção científica, está tão fortemente ligada à poética clássica, que ainda é difícil pra maioria das pessoas sequer imaginar uma ficção científica de natureza barroca. Essa dificuldade foi parcialmente anulada pelo movimento New Wave, que durante algum tempo promoveu a comunhão (moderada) entre forma modernista e conteúdo futurístico. Mas a escola New Wave jamais se tornou hegemônica. Tampouco a escola New Weird, nossa contemporânea. O que testemunhamos ainda hoje, principalmente nos contos e nos romances de maior sucesso comercial (best-sellers), é o triunfo da linguagem clara e objetiva.

Distante da ficção de gênero, também chamada pejorativamente de literatura de entretenimento, está a praia da ficção erudita, também chamada elogiosamente de alta literatura. Nesse território administrado por especialistas diplomados, a poética modernista sempre foi apreciada e divulgada. Graças à universidade o modernismo se tornou, no Brasil, a corrente dominante, o principal modelo de nossa literatura.

Os especialistas da ficção erudita (de modo geral, pesquisadores acadêmicos e jornalistas com pós-graduação) gabam-se de pensar em alto nível uma literatura de alto nível, para poucos. Já a galera da literatura de gênero gaba-se de produzir e fazer circular em larga escala uma literatura acessível e prazerosa. De um lado o sucesso estético, do outro o sucesso comercial.

A poética da abstração e da fragmentação sintática (às vezes elitista demais), tão apreciada pela comunidade erudita, e a poética do fotorrealismo e da clareza sintática (às vezes popular demais), tão apreciada pela comunidade de gênero, estão sempre discordando. São duas elites que levam muito a sério a divergência. Cada lado só enxerga as fraquezas do adversário, evitando assim qualquer tipo de convergência criativa.

Nesse confronto, perdem os dois lados.

Tanto a ficção erudita quanto a ficção de gênero já esgotaram há muito tempo seus recursos naturais. O problema da ficção erudita é a falta de conteúdos novos e o problema da ficção científica é a pouca diversidade formal. A ficção erudita só voltará a pensar em alto nível conceitual quando começar a expressar as questões do pós-humano, por exemplo. E a ficção científica só se tornará um gênero também de alto nível estético quando reconhecer na poética barroca uma aliada, não uma adversária.

Certa vez eu ponderei, num convite ao mainstream, que a corrente principal de nossa literatura ganharia muito se absorvesse e reelaborasse certos temas próprios da ficção científica contemporânea. Hoje vejo que esse movimento não pode ser unilateral. A ficção científica também tem muito que aprender, principalmente no campo da forma literária, com a grande ficção erudita do século 20, ligada às vanguardas artísticas.

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Luiz Bras

O velocista

O velocista

Walter Cavalcanti Costa
Cepe Editora
216 páginas
Lançado em 2018

Esse não é um romance de ficção científica.

− Então, Luiz, o que ele está fazendo no blogue FCB?

Esse é um romance de ficção científica.

− Não estou entendendo. Tá parecendo mais o gato de Schrödinger, vivo e morto ao mesmo tempo…

Exatamente: esse é e não é um romance de FC. Vou tentar explicar. Sabe os desenhos ambíguos que iludem nossos olhos? O famoso pato que é coelho que é pato que é coelho? Então… O premiado romance O velocista, de Walter Cavalcanti Costa, é do mesmo tipo.

Dialogando com a melhor tradição de nosso modernismo futurista − estou pensando nos clássicos fragmentários de Oswald de Andrade: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933) −, a narrativa vencedora do Quinto Prêmio Pernambuco de Literatura é composta de trezentos e dez estilhaços, divididos em nove seções.

Os estilhaços são, aparentemente, uma coleção desordenada de memórias e reflexões de Jô Tadeu Tábua, o protagonista da história. E de fato há uma história, um enredo, nessa coleção esquizofrênica de breves diálogos, rápidas descrições e intermitentes digressões. Um leitor paciente e perspicaz, afinado com as vanguardas artísticas e seus jogos poéticos, consegue montar o quebra-cabeça que a cabeça de Jô Tadeu irradia sem descanso.

Pra facilitar um pouco o trabalho, há um estilhaço que esclarece quem é quem no vaivém de personagens que brincam de esconde-esconde ao longo do romance.

96

Explicativo

Eu sou Jô Tadeu Tábua, sou astronauta. Sou filho da estilista Carolina Vásquez e do professor de ciências contábeis João Tábua. Sou casado com Beyita Samana, a governadora do Estado de Pernambuco, no Nordeste da República Federativa do Brasil, e sou irmão do artista plástico Von O’Val, que é casado com a bibliotecária Valbuena Sales, que fala sete línguas ocidentais. Sales trabalhou com meu pai, João Tábua, no local onde hoje é a biblioteca que recebeu o nome dele.
Tenho um filho chamado João Tadeu. Uma filha que está para nascer. Nasceu.
Estou a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

Duas considerações me ocorrem, após a leitura de O velocista.

Trata-se, é óbvio, de uma obra pertencente à tradição modernista da prosa obscura, subjetiva, caótica e às vezes hermética, produzida por rebeldes − Joyce, Beckett, Raul Brandão, Clarice, Leminski, Hilda Hilst e outros − hoje canonizados e estudados no ensino médio e nas faculdades de Letras. Essa tradição da obra-aberta (Umberto Eco) ainda fortalece a corrente dominante da literatura e dos estudos literários.

Confesso, porém, que se não fosse por um detalhe, o romance de Walter Cavalcanti Costa não teria me interessado tanto. Afinal, justamente por pertencer à corrente dominante da literatura e dos estudos literários, a fragmentação romanesca já deixou de ser novidade há muito tempo. O detalhe que me prendeu a atenção foi a profissão de Jô Tadeu: astronauta. E o fato de ele estar a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

É a primeira vez que um astronauta entra em cena, no campo da literatura erudita brasileira. Porque, de Joyce aos dias atuais, os romances fragmentários do mainstream costumam expressar a consciência caótica do corriqueiro cidadão comum: gente simples da periferia, operários e comerciantes, escritores em crise, artistas sem talento, donas de casa entediadas, jovens sem amor nem futuro, delírios da classe média etc.

As questões práticas da rotina de um astronauta brasuca aparecem muito pouco em O velocista. Nessa narrativa predominam o cotidiano doméstico e afetivo do protagonista, próprio da tradição mainstream. Mas a brevíssima menção à figura do astronauta me permitiu extrapolar a alucinante fragmentação discursiva. Durante a leitura, consegui enxergar Jô Tadeu atravessando um portal fractal, sua nave em alta velocidade capturada por uma distorção do espaçotempo, o passado-presente-futuro do protagonista pipocando no ontem-hoje-amanhã, sua consciência elaborando e reelaborando encontros e desencontros de uma causalidade alternativa.

Resumindo: esse não é um romance de ficção científica, mas é do tipo que pode ser lido também como um romance de ficção científica.

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Reflexão relacionada: Aprende com tua nêmese

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.