O alienado

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Cirilo S. Lemos
Editora Draco
240 páginas
Lançado em 2012

Primeiro romance de Cirilo S. Lemos, O alienado é uma FC sobre realidades sintéticas, que faz um bom uso das lições do pai da matéria, Philip K. Dick. Particularmente no clima de paranoia, de opressão e de inconstância do real, além do fundo filosófico das suas especulações. Esse romance pelo jeito fez muito para sedimentar a reputação de Lemos como uma das revelações da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira.

No livro, o protagonista Cosmo Kant, operário e romancista frustrado, perde o emprego e passa por uma crise que o faz sair de casa e entrar num labirinto de situações que envolvem sua internação em uma instituição na qual é tratado por AM013 e o contato com uma sociedade secreta de metafilósofos. Surgem também um software de psicanálise e a revelação de uma personalidade cindida por um acidente de carro e um trauma familiar envolvendo uma paixão homossexual feminina.

O romance abre com o primeiro de vários flashbacks em que o protagonista vive situações na infância, com Virgílio, seu amigo imaginativo e inquieto, um aspirante a desenhista de histórias em quadrinhos. As histórias curtas de Lemos já dão conta da importância das relações familiares e da infância na sua obra. Em O alienado, esses flashbacks também expressam a importância da figura paterna no passado do personagem.

As páginas do livro cedem espaço a uma HQ que narra um acidente com um Opala vermelho, uma das muitas imagens recorrentes no enredo. Também contribuindo para a abordagem pós-modernista do texto, com recursos de montagem compondo uma estética do fragmento, têm-se além dos flashbacks, a HQ e o fio central da narrativa, trechos do romance inacabado que vinha sendo escrito por Cosmo Kant, narrando uma investigação e os percalços sentimentais do violento Inspetor Carvalho.

Essas diversas linhas e esses muitos recursos não marcham em separado, mas se entretecem e se completam em torno de momentos-chave, conduzidos por uma figura feminina recorrente, tudo bem marcado ao longo do romance.

Em O alienado, os temas de Dick encontram os contextos kafkianos da burocracia brasileira e são transformados por um ethos menos californiano e mais característico da realidade suburbana fluminense, sem dúvida um bem-vindo tempero, e numa prosa às vezes dotada de uma aspereza e um sensacionalismo pulps.

A ambientação é freqüentemente obscura e indistinta – os flashbacks da infância parecem ocorrer em épocas bem anteriores ao que a linha narrativa no presente dá a entender, as cenas no sanatório são coloridas pelo delírio e pelo exagero sensorial, enquanto a trama investigativa remete ao período da ditadura. A atmosfera sombria foi habilmente reforçada pela diagramação de Erick Sama (que também enfatiza o aspecto retrô com truques gráficos de impressora matricial).

Mas o romance teria se beneficiado mais de uma edição que atenuasse algo dos seus excessos expressivos e tornasse o texto mais agudo e seus efeitos um pouco menos diluídos. Complexo e intrincado, O alienado é, mesmo assim, uma leitura tensa que também funciona no plano narrativo. Um dos melhores romances da FC brasileira dos últimos anos, obra que torna Lemos um autor a se observar.

Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

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