Rio: Zona de Guerra

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Leo Lopes
AVEC Editora
204 páginas
Lançado em 2014

A cidade do Rio de Janeiro fornece uma ambientação privilegiada, dentro da FC brasileira. Muitos dos contos satíricos de Berilo Neves foram ambientados na cidade, durante as décadas de 1920 e 30 ou em futuros que transformaram a paisagem carioca. Essa paisagem passa por um processo semelhante nos romances e histórias de FC hard de Jorge Luiz Calife, quase como porta para o esplendor da Via Láctea. As várias noveletas de Ivanir Calado – entre elas o clássico tupinipunk O altar dos nossos corações, de 1991 – também se passam na Cidade Maravilhosa, assim como a maioria dos textos tupinipunks de Fausto Fawcett, incluindo a famosa novela Santa Clara Poltergeist, também de 1991.

Rio: Zona de Guerra é o romance de estreia de Leo Lopes. Publicado pela editora sulista AVEC, é uma FC cyberpunk ambientada num Rio de Janeiro dividido entre a cidade protegida por uma segurança corporativa violenta e os excluídos na tal Zona de Guerra dominada por gangues armadas. É a exacerbação da divisão entre morro e asfalto, que a prefeitura e as UPPs falharam em abolir.

O herói é o detetive particular Carlos Freitas, ex-policial privado que vive fora dos muros protetores da cidade. O assassinato da amante de um figurão das megacorporações leva Freitas, contratado por Vivian Ballesta, uma prostituta amiga da morta, a deixar a área excluída e peitar o clima paranoico e traiçoeiro da cidade, com a ajuda eventual de sua ex-amante, Renata Braga, na cidade, e de várias figuras do submundo, na Zona de Guerra. O herói é seguido, agredido e metralhado a cada passo do caminho.

Freitas é um gorducho que vive dizendo a si mesmo para fazer dieta e exercício, mas sabe se virar com sua Princesa, uma pistola automática computadorizada, que funciona apenas com o reconhecimento do DNA do dono. Às vezes bonachão, às vezes ensimesmado, sempre dividido entre as mulheres de sua vida, Freitas é inflexível em sua escolha ética, embora não saibamos exatamente por que ele escolheu abandonar mulher e trabalho, para aderir aos excluídos.

Os elementos hard-boiled de mulheres fatais, muitas traições e o trânsito do herói ético pelo submundo quase não mergulham abaixo do superficial, mas há uma eficiência de envolvimento na leitura que me fez ceder à surpreendente carga emocional construída em torno do sofrimento e das decisões tomadas por Freitas. Especialmente depois do clímax, em que acontece o confronto com uma figura híbrida de humano e máquina, inteligência artificial que se considera o novo estágio da evolução humana. É tema herdado diretamente de Neuromancer, de William Gibson, mas tratado aqui com uma naturalidade e honestidade que me pareceram bem brasileiras.

Escrito em terceira pessoa com narrador onisciente (o que marca o texto com uma série de violações do ponto de vista dos personagens), Rio: Zona de Guerra tem boas qualidades de enredo e impulso para a frente na leitura, algo que nem sempre encontramos na FC nacional. O seu maior problema está nos excessos expressivos juvenis – pontuação múltipla, palavras e frases em caixa alta –, e num texto que merecia uma preparação editorial maior. O romance virou um filme dirigido por Alexandre Klemperer.

Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

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