Amorquia

amorquia

André Carneiro
Editora Aleph
200 páginas
Lançado em 1991

O quase esquecido Antônio Fraga, autor do iconoclasta Desabrigo, lançado em 1945, colocou na boca de uma de suas personagens mais interessantes − a Ana Tereza do miniconto Equívocos ou A natureza de Ana Tereza, de 1946 − a seguinte consideração: “Complexo de Édipo é besteira, papai. A única razão que encontraram pra justificar o repúdio aos amores consangüíneos é mendeliana: filhos hereditariamente monstruosos.” Logo vem a conclusão óbvia: em nossa época, Édipo, munido de um preservativo ou um anticoncepcional, poderia amar sem culpa qualquer parenta: mãe, irmã, tia, sobrinha…

Sempre me lembro dessa passagem, quando penso no igualmente transgressor Amorquia, do mestre André Carneiro. Publicada em 1991, essa utopia anarco-erótica, sobre uma sociedade futura em que a morte e o trabalho foram abolidos, e a dedicação total às sutilezas do sexo representa o grau máximo de civilidade e civilização, é um dos melhores romances brasileiros dos anos 90. Tão importante quanto o cultuado Não verás país nenhum, da década anterior.

Em Amorquia, André Carneiro oferece um narrador em terceira pessoa descomplicado, que simplesmente registra, de maneira transparente e objetiva, o que viu e ouviu dos personagens. Mas esse narrador impessoal habita um sistema complexo: o contraponto, também chamado de polifonia. O romance é feito de dezenas de capítulos curtos e a maioria são quase minicontos autônomos. Esses capítulos reúnem-se em poucos núcleos de personagens (aparentemente) imortais. Por ordem de entrada: Túnia, Pércus, Karlow, Marta, Játera, Philte e Philomene.

Na sociedade hedonista de Amorquia as crianças têm aulas de prática sexual desde pequenas e a religião reforça o tempo todo, de modo até agressivo, o sentido sagrado do prazer carnal. Além da morte e do trabalho, também foram abolidos o amor, o casamento e a fidelidade. Semelhante ao Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, a promiscuidade (anarquia amorosa) é a regra. Todos transam sistematicamente com todos, em duplas, trios ou grupos, sem se importarem com qualquer laço de sangue.

O toque de humor fica por conta da inversão dos papeis: agora as mulheres são as caçadoras insaciáveis, enquanto os homens se queixam da cobrança absurda que a nova cultura impõe, de fazer sexo várias vezes por dia. Essa ditadura da vagina (expressão de um dos personagens, Karlow) cria muitos momentos de tensão.

Reforçando a polifonia, há certos capítulos aparentemente desconectados da trama principal, que abrem uma brecha nessa realidade futura, levando o leitor a outro tempo e espaço. São capítulos que citam livros bastante conhecidos (O antigo testamento, Robinson Crusoé, Teresa filósofa) ou voltam no tempo (Idade Média, Renascimento, anos 60) pra avaliar como a morte e o sexo eram encarados em outras sociedades.

O narrador do romance é descomplicado e transparente, mas não sabe tudo. A onisciência não é seu ponto forte. Caráter marcado pela crise modernista da epistemologia, ele sabe tanto quanto os personagens e o leitor. A trama é cheia de elipses e segredos, cuja soma revela, mais para o final, a sombra perversa da distopia (tortura, corrupção, morte) no coração da utopia (imortalidade, prazer, sabedoria).

O desenlace é puro André Carneiro: surpreendente, lírico, subjetivo, hermético, ao mesmo tempo belo e terrível. Tudo isso faz de Amorquia um clássico não apenas de nossa ficção científica, mas da literatura brasileira.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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