O 31º peregrino

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Rubens Teixeira Scavone
Editora Estação Liberdade
64 páginas
Lançado em 1993

Rubens Teixeira Scavone foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no país. Foi o autor do romance O homem que viu o disco voador, de 1958, possivelmente o mais bem-sucedido livro da FC brasileira, e da coletânea de contos O diálogo dos mundos, de 1963, entre outros trabalhos.

Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone buscou inspiração no clássico Os contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer, obra escrita há mais de seiscentos anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino.

Trata-se de uma história extremamente significativa em termos humanos. Uma narrativa tocante, de estilo incomum, que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da FC convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras hoje em desuso. Esse estilo, com um quê de barroco, estranho ao leitor moderno, se deve à escolha do autor, que se fez passar pelo próprio Chaucer.

Os contos de Canterbury reúnem as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, no sul de Londres. Cada romeiro assume um arquétipo social e é por ele batizado. Os personagens não têm nome, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro e assim por diante.

Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone), que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo, que justifica perfeitamente a releitura que Scavone faz da obra de Chaucer.

Chaucer-Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os supersticiosos peregrinos católicos.

A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma joia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.

Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de ficção científica. O componente explícito do gênero surge quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer-Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor-personagem.

A novela ainda guarda muitas outras qualidades. É uma narrativa que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou rejeita, fica a cargo do leitor decidir.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira

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