Hiperconexões: realidade expandida

hiperconexoes

Luiz Bras (organização)
Editora Terracota
96 páginas
Lançado em 2013

Hiperconexões: realidade expandida, antologia poética organizada por Luiz Bras, é bastante incomum: reúne poemas afins à ficção científica. Como é recorrente nas narrativas desse gênero, os poemas compilados tratam das particularidades científicas e tecnológicas contemporâneas e de seu impacto no humano. Obviamente, há um pequeno conflito taxionômico no uso da categoria, conflito que, longe de invalidar a proposta, sinaliza mais uma limitação do termo ficção científica.

Há alguns precedentes na literatura brasileira. Um exemplo conhecido de nossa comunidade de autores e leitores de ficção científica é André Carneiro − um dos poemas do seu Espaçopleno, de 1963, tem inclusive o título Ficção científica. Carlos Drummond de Andrade é mais um precedente: entre outros poemas, A máquina do mundo merece um estudo cuidadoso que o avalie à luz dos paradigmas próprios da ficção científica. Augusto dos Anjos é outro caso a ser pensado, em sua frequente exploração poética de termos e conceitos científicos.

Hiperconexões trata do pós-humano, promovendo no leitor um olhar distanciado acerca do humano que perdeu os referenciais antigos e abarca os novos com assombro, desdém ou maravilha. Nesse ponto a antologia evoca a tradição literária da ficção científica: desde seus primórdios, esta é uma das recorrências temáticas do gênero.

A lista de autores é ampla e expressiva, são trinta e um: Ademir Assunção, Amarildo Anzolin, Ana Peluso, Andréa Catrópa, Braulio Tavares, Claudio Brites, Daniel Lopes, Edson Cruz, Elisa Andrade Buzzo, Fabrício Marques, Fausto Fawcett, Gerusa Leal, Ivan Hegen, Jane Sprenger Bodnar, Luci Collin, Luiz Bras, Marcelo Finholdt, Márcia Barbieri, Marco A. de Araújo Bueno, Mariana Teixeira, Marilia Kubota, Marize Castro, Ninil Gonçalves, Patricia Chmielewski, Renato Rezende, Rodrigo Garcia Lopes, Ronaldo Bressane, Sérgio Alcides, Thiago Sá, Valerio Oliveira e Victor Del Franco.

Graças à provocativa e coesa proposta do organizador, o volume alcança uma unidade temática pouco vista. Contribui nisso a ausência do indicativo de autoria poema a poema – é preciso recorrer ao índice para saber quem escreveu cada. Opção nada usual, traz à mente a diluição do conceito tradicional de autoria, diluição tão presente em tempos de uma poética acentuadamente apropriativa – uma arte que explicitamente se constrói com base na referência e na colagem de trabalhos alheios. Os poemas são como que misturados em uma espécie de autoria compartilhada, em hiperconexão.

Tematicamente homogênea, a antologia é heterogênea quanto às diferentes expressões poéticas. Da sobrecarga sensorial de Fausto Fawcett à economia expressiva de Claudio Brites, é cumprido o papel de uma antologia: ilustrar diversas facetas de um objeto comum.

Hiperconexões constitui, ainda, mais uma etapa no projeto de enriquecer a literatura “mainstream” (aspas enfáticas) com paradigmas próprios da literatura de gênero, projeto iniciado pelo antecessor de Luiz Bras, Nelson de Oliveira. Isso pode ser observado já na lista dos participantes da antologia: há autores conhecidos por sua ficção científica e autores à primeira vista estranhos a ela. Hiperconexões pode ser compreendida assim: uma conexão entre mundos que não devem permanecer à parte.

Cabe assinalar que, bem-sucedido, o volume originou uma série de antologias poéticas: seu terceiro volume está em produção no momento, dando continuidade ao projeto de Luiz Bras.

Ramiro Giroldo é crítico literário, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia.

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