A lição de anatomia do temível Dr. Louison

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Enéias Tavares
Editora Casa da Palavra
320 páginas
Lançado em 2014

O romance de estreia de Enéias Tavares foi concebido como o primeiro de uma série e possuí duas premissas muito interessantes: a estética steampunk adaptada ao Brasil e a inserção de personagens já existentes da literatura brasileira da segunda metade do século 19 e do início do 20, combinadas com uma consistente trama policial.

No romance, o jornalista Isaías Caminha é enviado a Porto Alegre, para investigar o caso do assassino em série Antonie Louison, que está preso no Hospício São Pedro, com a data de execução marcada. Rapidamente nos vemos diante de um quebra-cabeças quando Louison escapa.

A obra se apresenta como um dossiê reunindo cartas e entrevistas, escritas e transcritas de gravações, além de trechos de processos jurídicos (nem um pouco maçantes). Todas datadas, indo e voltando no tempo. Cada parte adiciona explicações e perguntas ao caso.

Também somos apresentados a vários personagens que habitam esse mundo, alguns criados pelo autor e outros retirados da literatura brasileira. O protagonista, Dr. Louison (criação do autor), é o centro da narrativa e sua personalidade é montada e desmontada pelos diversos pontos de vista, contraditórios e cheios de segundas intenções.

A lição de anatomia do temível Dr. Louison não se prende às convenções da ficção científica, nem aos seus debates sobre tecnologia, embora eles sejam pincelados. É importante ter isso em mente para não se decepcionar, à espera de uma mera versão brasileira de A máquina diferencial. O que não significa que os personagens marginalizados e cheios de atitude não estejam lá. Eles aparecem, inclusive, de forma mais intensa e consciente que na obra seminal de Willian Gibson e Bruce Sterling − o Parthenon Místico exemplifica esse ponto.

Outro elemento do steampunk presente na obra é a inserção de personagens da nossa literatura numa história alternativa. Relembremos A máquina diferencial, que colocou Sybil Gerard e Mick Dandy, personagens de Benjamin Disraelli, levando vidas alternativas numa realidade histórica diferente. Tavares elevou essa experiência, como n’A Liga Extraordinária, de Alan Moore, usando personagens da literatura brasileira.

A leitura dos livros de origem dos personagens emprestados não é pré-requisito para compreender A lição de anatomia. Apesar de que reconhecer algum deles arranque um sorriso durante a leitura, acredito que o caminho da obra seja justamente o oposto: ela grita o tempo todo que a literatura brasileira não é necessariamente uma chatice obrigatória para provas de vestibular, demonstrando que em meio a esses livros abundantes, facilmente encontrados por menos de dez reais nas prateleiras de sebos e livrarias, e comumente ignorados em prol da literatura estrangeira, existem excelentes personagens e enredos.

A trama é complexa em fatos, formas e vozes (por vezes contraditórias) que se fecham como um livro e pedem mais histórias em virtude de tantos personagens inseridos em destinos alternativos. Talvez escapem detalhes e ironias em relação a Porto Alegre, que o autor colocou em forma de inversões, como o nome dos jornais. Porém, a maioria dos personagens é de fora do Rio Grande do Sul, ainda que contemos a própria cidade como um. Fora isso, os percalços são irrisórios durante a prazerosa leitura.

Davenir Viganon é ficcionista e resenhista, autor do conto O odu de Marte, entre outros.

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