Ora, direis… Ouvir “orelhas” que falam de livros, homens e ideias

ora-direis

Gumercindo Rocha Dorea
Edições GRD
128 páginas
Lançado em 2002

Publicado para comemorar os quarenta e seis anos de existência das Edições GRD, empresa fundada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea em 1956, essa coletânea reúne as famosas “orelhas” escritas por Gumercindo para vários livros lançados por ele. São textos que demonstram o cuidado e a cumplicidade assertiva que um editor pode ter com seus autores e livros.

Na introdução escrita por Hernâni Donato (1922 -2012), escritor, historiador e membro da Academia Paulista de Letras, o leitor descobre que Gumercindo foi responsável por popularizar, desde 1956, as tais “orelhas” dos livros no Brasil. Sem intenção ou apelo comercial, Gumercindo sempre primou pelo apreço editorial extraordinário, já que era fundamental para ele, enquanto editor, tornar-se um cúmplice ativo e muito comprometido com seus autores e suas edições.

Desse modo é possível constatar que, muito mais que um editor de livros, Gumercindo sempre foi um motivador consciente, apaixonado e determinado em explicar as suas próprias razões e escolhas editoriais aos seus leitores.

Responsável por lançar mais de trezentos títulos, as Edições GRD se especializaram em desafiar o leitor para novas descobertas. Afinal, segundo o escritor V.S. Naipul, “o escritor que não provoca hostilidade está morto”. Essa é a frase escolhida por Gumercindo para abrir a orelha dessa coletânea, e nada poderia ser mais sugestivo, já que reflete o seu próprio comportamento editorial singular.

Ora, direis… Ouvir “orelhas” traz orelhas escritas para livros de C.S. Lewis, Robert Heinlein, Ray Bradbury, Theodore Sturgeon, Samuel Rawet e Rubem Fonseca, entre muitos outros.

Infelizmente, dessa imensa produção editorial, poucos exemplares das edições originais ainda estão disponíveis. Costuma ser um golpe de sorte encontrá-los em sebos. Já as edições mais recentes estão praticamente esgotadas − porque, não se engane, Gumercindo nunca parou de editar –, elas foram comprometidas pela tiragem bastante limitada e pela exclusiva falta de recursos.

Apelidado de Dom Quixote da indústria do livro no Brasil, não vejo melhor definição para o editor Gumercindo Rocha Dorea. Desde o nosso primeiro encontro, ele sempre assim me apareceu: um eterno fazedor de livros, movido por uma paixão incessante, talvez no intuito de cativar com palavras o significado da vida.

Em um de nossos encontros eu disse isso a ele, que apenas sorriu e perguntou:

− E os escritores não fazem o mesmo?

Foi então que, após terminar meu café em seu apartamento, ganhei de presente um raro exemplar dessa preciosa coleção de “orelhas”.

Destaco aqui a comovente orelha escrita por Gumercindo para o romance Linha terminal, lançado em 1991, que completa a trilogia Padrões de contato:

É inclemente a crítica de Jorge Luiz Calife aos tempos difíceis de então, e aos que ainda atravessamos − em decorrência daqueles dias −, paralelamente às aventuras onde os golfinhos, as amazonas de Vega e os seres humanos mortais têm participação complementar, mas importante. Ao mundo de sonhos e realidades, portanto, meta essencialmente humana, e certamente de outros seres que ainda não foram localizados pela ciência, mas na ficção científica têm morada permanente.

Enfim, fica a minha pergunta para os leitores e escritores brasileiros de ficção científica: como não amar as Edições GRD e a figura tão quixotesca de Gumercindo Rocha Dorea?

Márcia Olivieri é ficcionista e ensaísta, autora de O portal de Capricórnio, entre outros livros.

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