Glória sombria

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Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
176 páginas
Lançado em 2013

Jonas Peregrino, protagonista do romance de ficção científica militarista Glória sombria, já tem história. Cinco narrativas curtas do personagem vieram antes a público: Batalhas na memória, Descida no Maelstrom, Trunfo de campanha, A alma de um mundo e Tengu e os assassinos. Nelas, já nos deparamos com um protagonista experiente, calejado, alheio a dúvidas. Um herói pleno, capaz de solucionar conflitos de ordem moral, disposto a fazer valer o que considera justo. Nessas narrativas, seus parâmetros morais e de conduta já estão estabelecidos, e ele reage confiante aos conflitos.

Glória sombria, cronologicamente, é a primeira aventura de Jonas Peregrino. Causo caracteriza o personagem de forma inteligente: não extrai dele seu lado heroico, honrado, para apresentar sua inexperiência – mostrá-lo sem a fibra conhecida, afinal, o descaracterizaria sobremaneira. O protagonista hesita e se perturba com as consequências de seus atos, mas é tão incorruptível quanto o Peregrino mais velho das narrativas curtas.

Diz o marcador de página encartado na edição belamente ilustrada por Vagner Vargas:

No século 25 a humanidade já avança profundamente em direção ao núcleo da galáxia, a partir do seu berço, o Sistema Solar.
São quatro as Zonas de Expansão Humana, mas é na quarta − a mais rica e vasta, conhecida como A Esfera − que os diversos blocos políticos da Terra encontram o seu maior desafio: armadas de naves-robôs empenhadas em aniquilar todas as civilizações espaciais que cruzem o seu caminho, em nome da supremacia absoluta dos seus criadores.

Convocado pelo Almirante Túlio Ferreira, Peregrino tem a missão de criar uma nova unidade de combate. A relação com o Almirante é tensa e, a princípio, Peregrino antipatiza com sua postura. A relação entre ambos se dá em um crescendo. O que define os personagens e os torna reconhecíveis é o que vai provocar cada atrito (e cada sincronia).

Não apenas com os alienígenas Peregrino precisa se preocupar. Como que para compensar a falta de traços distintivos dos antagonistas tadais (cuja natureza é um mistério guardado para o futuro da série As lições do matador), há outros problemas para o protagonista, esses de rosto bem definido e até familiar. Há traições, inveja e intrigas entre os humanos. E Peregrino, para resolver os desafios ao seu comando e à humanidade, toma decisões amargas. Ao final do romance, já está com calos a mais.

Glória Sombria pode ser chamado de ficção científica brasileira, e não apenas de ficção científica do Brasil: consegue apresentar traços distintivos nacionais. A origem pantaneira de Peregrino não é o maior deles. O sense of wonder é dado pela incorporação de elementos brasileiros ao cenário de batalha: as descrições das espaçonaves de guerra com pinturas que remetem a animais de nossa fauna são um exemplo.

Causo promete dar continuidade à série. E mais: As lições do matador deve ter crossovers com outra série do autor, Shiroma: matadora ciborgue. Como isso vai se dar ainda está para ser contado, mas há um prenúncio em Glória sombria: a presença de personagens aumentados, ciborgues iguais a Shiroma. Que este primeiro romance de Jonas Peregrino seja apenas uma mostra do que está por vir.

Ramiro Giroldo é crítico literário, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia.

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