O sorriso do lagarto

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João Ubaldo Ribeiro
Editora Alfaguara
344 páginas
Lançado em 1989 pela editora Record

O romance de João Ubaldo Ribeiro, O sorriso do lagarto, é ficção científica, sim, senhores. Sei que volta e meia encho o saco de todo o mundo com aforismos do tipo “Tudo é FC”, e outros, mas, analisando friamente, este livro é um romance inserido no subgênero.

Já desconfiava, apesar de não haver assistido à série homônima de tevê, produzida pela Rede Globo em 1991, que, ao se juntar temas tão caros à contemporaneidade como engenharia genética e experimentos biológicos em populações do terceiro mundo, o livro resultante não poderia escapar de ser, ao menos, um tipo de FC com afinidades (e, no caso, citações explícitas) com o Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

É bom, o livro? Sim, trata-se de um page turner. A história é boa? Não para mim. Trata-se de um apanhado de situações-clichê (tem até aquela cena clássica, imortalizada pelo cinemão hollywoodiano e pelas novelas da televisão, da queda da escadaria provocando um aborto providencial) muito bem encadeadas e recheadas de diálogos primorosos. A história, aqui, é um fiapo, uma desculpa para um desfile de opiniões do autor a respeito dos mais diversos assuntos, de racismo à política, de ecologia às drogas, por intermédio de seus personagens.

Por falar em personagens, as construções não me caíram muito bem. Como protagonistas, temos um biólogo fracassado transformado em peixeiro, um padre de vilarejo com crises de consciência e uma dondoca de sociedade com personalidade fraturada, espécie de mistura de Jacqueline Susann com alguma socialite da Barra da Tijuca. Os vilões, então, não ficam atrás: o político mau-caráter e homossexual enrustido, o cientista com trejeitos de Lex Luthor… um festival de dê-já-vi-isso apesar de, sempre, donos de vozes poderosas e convictas.

Há, porém, uma ressalva. Bará, o Santinho, pai-de-santo culto e descrente dos próprios poderes, com sua fala empolada e ética profissional é um coadjuvante que deixa saudades ao final da leitura.

O que deveria ser a trama central é uma versão tropical de A ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, onde um laboratório, com a supervisão sub-reptícia de empresas norte-americanas, faz experiências in vitro com mulheres da população de uma ilha no litoral do nordeste brasileiro, produzindo híbridos de homens e macacos. Na página 149, o padre fica sabendo da existência dos tais monstros até então nunca citados. Por volta da página 280, os protagonistas saem em ação para combater o que acreditam ser o mal. Na página 362 acaba o romance. O resto conta como quase todos os personagens, à exceção do padre, que meu olho mental insiste em ver na figura do ator Nelson Xavier, do pai-de-santo e mais uns poucos, se relacionam sexualmente uns com os outros. Creio que essa libertinagem talvez choque o leitor tradicional de FC, mais pudico, mas isso é um ponto positivo.

Vale a pena ler? Sem dúvida. João Ubaldo Ribeiro é um mestre da forma e, por mais que o leitor possa discordar de suas ideias, é impossível largar o livro antes do fim.

Octavio Aragão é designer gráfico e ficcionista, autor do romance A mão que cria, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente na revista E-nigma. ]

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