A espinha dorsal da memória & Mundo fantasmo

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Braulio Tavares
Editora Rocco
256 páginas
Lançado em 1996

O trabalho de estreia de Braulio Tavares na ficção foi um pequeno texto chamado Os pensadores de São Tiago, publicado em 1986 no número 11 do fanzine Hiperespaço, uma edição especial de contos. Na sequência, Tavares tornou-se colaborador regular do Somnium, boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica, com contos que posteriormente formaram a coletânea A espinha dorsal da memória. Publicada em 1990 pela editora Caminho, de Portugal, essa reunião de ficções recebeu o Prêmio Nova de melhor livro de autor brasileiro naquele ano. A edição nacional saiu em 1996, pela editora Rocco, acrescida da coletânea inédita Mundo fantasmo.

A espinha dorsal da memória é formada por doze contos que ajudaram a consolidar a identidade da geração conhecida como Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, entre eles Sympathy for the devil, ganhador do Prêmio Nova em 1989, História de Maldum, o mensageiro, que deu origem ao romance A máquina voadora (Rocco, 1994), e Príncipe das sombras, história de invasão alienígena que vai da ficção científica hard à space opera e ao cyberpunk, num passeio completo pelo gênero. Sem esquecer de Mestre-de-armas, conto vencedor do Prêmio Nova em 1990, considerado por muitos seu melhor trabalho.

Destaque para o curtinho Mare tenebrarum, que relata um drama infelizmente muito comum no Brasil: um temporal, a água entrando pela casa, cobrindo móveis e destruindo a realidade de uma família pobre, mas… e se a enxurrada fosse forte demais?

Girando o livro de ponta-cabeça e lendo de trás para frente está Mundo fantasmo, que, abrindo com uma epígrafe tirada do Grande sertão: veredas (“E vi o mundo fantasmo”), apresenta mais sete histórias inéditas até então. Oh Lord, won’t you buy me é praticamente uma homenagem ao fã brasileiro de literatura fantástica, sempre em busca de mais e mais livros pelos sebos da cidade. É impossível não se identificar com o personagem que se encontra com Deus em pleno metrô paulistano.

Mais homenagens em Exame da obra de Giuseppe Sanz, história de um escritor de sucesso que produzia suas obras dissecando trabalhos alheios e revestindo-os com uma figuração moderna. E não é o que os autores fazem o tempo todo?

História de Cassim, o peregrino, e de um crime perfeito que Deus castigou é uma espécie de sequência à História de Maldun, o mensageiro, menos assustadora mas igualmente deliciosa, na qual um homem relata aos seus companheiros de bebida um intrigante conto de amor, traição e imortalidade.

Tavares também experimentou a forma literária em Expedição às profundezas do oceano, história de horror urbano contada no único parágrafo de um relatório policial. Mas o conto mais surpreendente dessa ótima coletânea é E assim destruímos o reino do mal, no qual um guerreiro obcecado pela destruição do mal sobre a Terra acaba por tornar-se o próprio coração da maldade.

Cada história é a passagem para uma realidade diferente, repleta de sense of wonder, que, no final das contas, é o que faz de todos nós fãs da ficção fantástica e científica.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

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