9225

9225

Regina Sylvia
Edição da autora
112 páginas
Lançado em 1989

Esse é um dos livros mais estranhos e originais dos que eu tenho lido. Ressente-se de, digamos, um amadorismo de estilo que reflete a extrema juventude da autora, mas em nenhum momento se pode afirmar que a história se perca, seja mal conduzida ou não desperte interesse.

A edição é independente e, surpreendentemente, o exemplar que possuo (achado num sebo de rua) é da segunda edição, de 1990. A técnica ficcional é ousada, sem divisão em capítulos, mas não tudo de uma enfiada como em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, pois há alternância de voz narrativa, ora na terceira pessoa, ora na primeira, com o ponto de vista da protagonista, a soldado 9225.

A autora só explica de forma perfunctória como a humanidade chegou àquela distopia, de um mundo unificado sob a ditadura de Eunuco, um estranho personagem que estabeleceu o mal como ideal de vida: os homens eram maus por natureza, e deviam assumir a sua maldade. O medo passou a ser encarado como um crime, o mundo passou a ser conhecido como Inferno. O alienígena Pedra Escura é chamado de extrainfernal.

O enredo dessa ficção científica esotérica possui uma riqueza que a autora não consegue administrar. Passa uma mensagem de valorização do amor humano, de retorno às fontes, mas com um entremeio extravagante de concepções hippies ou contraculturais, e alguma coisa da doutrina espírita kardecista e da mística oriental. Fica um texto desequilibrado mas com uma certa desenvoltura, e personagens bem delineados, além da fina ironia do mapa-múndi que supõe alguma catástrofe modificadora da configuração dos continentes.

Alguns são continentes atômicos: os Estados Unidos das Usinas Atômicas, a União das Usinas Atômicas e a Índia Atômica. Os demais são o Primeiro Mundo (Europa), o Segundo Mundo (Austrália) e o Terceiro Mundo (América do Sul e África, unidas num só continente). É um mapa muito engraçado, onde aparecem Brasilha, Rio de Fevereiro, Aires Poluídos, a Hidrelétrica de Paraguaias Afundadas, o Rio da Zona (Amazonas!), o Cabo sem Esperanças e por aí afora.

Em suma, é um livro divertido, polêmico, bizarro, como poucos das letras nacionais. Nas entrelinhas ou abertamente aparecem conceitos da autora que eu julgo questionáveis, mas que não tiram a qualidade da obra − sinalizadora de uma novelista que merece atenção.

Uma observação: Regina Sylvia consegue criar uma heroína simpática, a Dhyana ou 9225 (esse número simboliza, esotericamente, nossa Terra animada por um mau espírito), que de seguidora devotada do extravagante ditador vai aos poucos valorizando coisas como o amor, a amizade, a natureza e – detalhe importante – a maternidade.

Outro detalhe importante: através da invenção apelidada videograma, a autora previu simplesmente… a internet! Uma façanha que os mais conhecidos autores de ficção científica não conseguiram.

Miguel Carqueija é ficcionista e ensaísta, autor de Farei meu destino, entre outros livros.

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