Ninguém na Praia Brava

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Ademir Assunção
Patuá Editora
192 páginas
Lançado em 2016

Poeta, ficcionista e letrista, Ademir Assunção é um dos poucos autores do nosso mainstream que passeiam prazerosamente por territórios esnobados pela crítica especializada, entre eles a ficção erótica e a científica. Notei esse detalhe duas décadas atrás, ao ler sua estreia na prosa, o volume de contos A máquina peluda, lançado pela Ateliê Editorial.

As treze porra-louquices da coletânea oferecem fortes doses de libertinagem carnal e ficcional. Não são poucas as paródias e as colagens orbitando o sistema binário linguagem-metalinguagem. Referências da alta e da baixa cultura alimentam um redemoinho pós-moderno. Meus contos prediletos são justamente os de ficção científica: o sacana No futuro a gente se encontra e o nefasto Quinze minutos, posteriormente incluído por Braulio Tavares na antologia Páginas do futuro, da editora Casa da Palavra.

A ficção erótica e a científica também estão presentes no segundo romance de Ademir, Ninguém na Praia Brava, escrito em forma de diário de viagem. Nada ortodoxo, é claro. O sistema binário linguagem-metalinguagem é novamente o centro gravitacional, agora dessa narrativa movida principalmente pela potência do tropicalismo e de outras contraculturas.

O protagonista do romance, e alter ego do autor, chama-se Ninguém. Igual a muitos outros antes dele, Ninguém pede demissão do emprego árido em São Paulo, reúne livros e CDs, bebidas e um laptop e vai morar numa casa no litoral norte, em busca de liberdade e iluminação. Cansado da crônica crise financeira, ele planeja escrever um romance de sucesso que renderá sete milhões de dólares quando for filmado por Sean Penn ou Coppola, quem topar primeiro.

Se fosse mais um exemplo de autoficção protagonizada por um escritor branco, hetero, de classe média, dissertando sobre o próprio umbigo, não seria um romance de Ademir Assunção. Escritores célebres − Dante, Joyce, Gertrude Stein e Haroldo de Campos − não visitariam o herói. Não haveria personagens femininas chamadas Nada e Nunca. Jeová e Lúcifer não jogariam xadrez no pontão da Praia da Fortaleza. Talvez mais importante que tudo isso: Kurt Vonnegut e Billy Pilgrim não teriam um papel fundamental na trama.

Abduzida do cânone ianque, a dupla Kurt & Billy, muito amiga do povo alienígena de Tralfamador, contamina todo o romance com uma bem-vinda radioatividade sci-fi. Portais se abrem no tempo, mitologias ganham corpo, sonhos eróticos e delírios pagãos expandem a consciência… Sempre com humor. A sátira e a leveza marcam essa prosa avessa ao realismo-naturalismo. O texto flui com facilidade. A leitura cabe, com folga, numa tarde e numa noite. Com direito à acidez do melhor ácido. Numa das melhores cenas ocorre uma reconfiguração alucinógena da realidade, ou seja, um diálogo com O congresso futurista, romance de Stanislaw Lem, filme de Ari Folman.

Do mesmo modo que Fausto Fawcett e Ronaldo Bressane − pra ficarmos apenas na geração 90 −, Ademir também aposta na ficção não mimética, que trata da realidade sem imitar objetivamente a realidade. Não escreve prosa prosaica, não faz sociologia ou historiografia de segunda mão. Aventura-se nas dobras do passado-presente-futuro. É por esse motivo que A máquina peluda, Adorável criatura Frankenstein (seu primeiro romance, lançado pela Ateliê Editorial em 2003) e Ninguém na Praia Brava mereciam mais e melhores leitores.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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