Santa Clara Poltergeist

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Fausto Fawcett
Editora Eco
184 páginas
Lançado em 1991

Não é segredo: considero Santa Clara Poltergeist o romance brasileiro mais importante da década de 90. Não conheço outro mais fascinante ou original (exatamente: original, no contexto tupiniquim) que o romance de estreia de Fausto Fawcett, lançado no despontar da década. Ainda não tenho a nova edição, da Arte & Letra. Então releio regularmente a primeira, da obscura editora Eco, cheia de gralhas e sustos ortográficos e sintáticos.

O mais viciante nesse transe tecnopornô pós-sapiens do Fawcett é a fusão de enredo estapafúrdio, circense mesmo, e linguagem delirante, formando um casal em perfeito equilíbrio amoroso: o enredo excitando a linguagem, a linguagem excitando o enredo, ambos gozando juntos num vaivém sadomasoquista. Conjunção que não acontece nos discos do músico performático, não de maneira tão orgânica e intensa. Santa Clara Poltergeist é um soco certeiro na cara chata do nosso proverbial realismo-naturalismo.

Esse transe tecnopornô pós-sapiens narra as desventuras escatológicas do paulista Mateus, um eletroblack (eletricista negro), e da catarinense Verinha Blumenau, reencarnação da europeia Santa Clara Poltergeist, numa Copacabana alterada por uma “falha magnética baixa”, fenômeno eletromagnético de natureza física e metafísica.

Dizer que o negão Mateus e a loirinha Verinha − arranjo clássico dos filmes de sacanagem − são ciborgues paranormais num pesadelo tupinipunk (o ciberpunk brasileiro, segundo Roberto de Sousa Causo) é simplificar demais sua condição. Na verdade, tentar resumir os personagens excêntricos e o enredo mirabolante seria perda de tempo, porque eles escapam feito um fractal mediúnico, repetindo e se multiplicando em todas as direções visíveis e invisíveis.

Fausto não é do tipo mais comum de escritor de ficção fantástica ou científica, que primeiramente constrói um cenário reconhecível, no qual o leitor possa se instalar confortavelmente, para em seguida injetar o elemento insólito que arrastará esse leitor pra fora de sua zona de conforto. Nada é reconhecível ou confortável em Santa Clara Poltergeist. Não existe zona de conforto na jornada parapsicológica de Mateus e Verinha. Tudo é bizarro o tempo todo, em alta velocidade. Tudo é Sodoma e Gomorra.

O romance é narrado no tempo presente, meu tempo predileto, menos comum em nossa ficção que o tempo passado. É narrado em terceira pessoa por uma voz onisciente, mas descontraída, às vezes desleixada, que se desvia constantemente da linha narrativa principal. Todo o encanto do estilo único do Fausto emana desse narrador volúvel, cuja atenção explicativa escorrega de uma história a outra, depois a outra, antes de voltar à avenida principal e passar a outra história, depois a outra…

Creditado ao designer Jorge Cassol, a edição da editora Eco oferece um projeto gráfico bastante audacioso pra época em que o livro foi lançado. O fluxo de texto é pressionado por tarjas verticais e cinco dezenas de fotogravuras em meio-tom. As fotogravuras compõem uma espécie de fotonovela subjetiva expressionista. São imagens fragmentárias em baixa definição (pontos grandes, baixa densidade), em preto e branco, tiradas de catálogos, manuais e revistas vagabundas (a maioria pornô).

Essa fotonovela fragmentária não ilustra nem traduz visualmente a pujança futurista do romance. Mas a justaposição causa um efeito drástico eficiente. De uma maneira inesperada, a poética verbal e a não verbal se influenciam positivamente.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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