O camarada O’Brien

O camarada O'Brien

Roberval Barcellos
Agbook
150 páginas
Lançado em 2002 pela Edições Hiperespaço

Faz alguns anos, o advogado e escritor Roberval Barcellos, residente no Rio de Janeiro, publicou em formato de bolso, pelas Edições Hiperespaço (livros amadores lançados por Cesar Silva), a noveleta O camarada O’Brien, uma continuação livre do monumental romance 1984, de George Orwell. Por força das circunstâncias (a limitação de tamanho), Roberval teve de condensar um pouco a história. Em 2016, pela editora virtual e de demanda Agbook, o autor republicou a obra agora com o tamanho que deveria ter.

Para quem não conhece o livro de Orwell, 1984 é um romance de fôlego escrito pouco antes da morte do autor britânico, ocorrida em 1950. É um verdadeiro alerta à consciência moral da humanidade, mostrando o que seria o mundo onde não houvesse mais nenhuma espécie de democracia e todos vivessem sob um regime totalitário e sujeitos à constante espionagem do Deus-Estado. Por toda parte as teletelas vigiam a intimidade dos cidadãos, não há lugar para a alegria, a espontaneidade, vivem todos sob tensão e em clima de mútua desconfiança. Os que caem em desgraça tornam-se impessoas, são presos, submetidos a torturas e vaporizados (eliminados). Isso na Oceânia, uma das três grandes potências que dividem o mundo e o mantém sob controle através da guerra permanente. Apesar do nome Oceânia, a potência pega a Inglaterra, as Américas e outras terras. As outras potências são Eurásia e Lestásia.

A Oceânia é governada pelo misterioso Grande Irmão, um ditador que ninguém vê, mas está sempre supostamente velando pelo país.

Nessa continuação livre de Roberval há uma reviravolta no affair entre Winston, protagonista do livro de Orwell, e O’Brien, seu algoz. Quem leu o romance 1984 sabe que Winston Smith, cidadão da Inglaterra, na Oceânia, era um funcionário do Partido Externo. Levado pelas lembranças do passado recente − que o duplipensar do regime vigente e sua manipulação dos fatos tendiam a fazer esquecer − e pelas suas próprias reflexões, Winston ainda mantinha certas noções da realidade e se tornou secretamente um rebelde, um dissidente desse regime. Preso junto com sua amante Julia, sofreu uma lavagem cerebral nas mãos de O’Brien, agente do Partido Interno, e por fim passou a amar o Grande Irmão, após trair Julia.

Como explica Roberval em sua sequência:

“O’Brien era um produto da ala mais radical e intolerante do Partido, e estava entre aqueles que propunham uma pureza quase doentia, uma fé inabalável na Revolução e cujas atitudes extremadas levaram o mundo a toda sorte de golpes de Estado e contra-revoluções.”

Há, em O camarada O’Brien, uma perfeita consonância com o clima opressivo e insuportável de 1984. Um bom exemplo é uma viagem de avião para Nova York, com O’Brien e os demais delegados viajando num alucinante silêncio, ainda que se conhecessem. O regime totalitário acaba com a naturalidade entre as pessoas.

Também excelente, o achado de imaginar um golpe efetuado pela Polícia do Pensamento e a cooptação de Winston pelo movimento. Eis que, já pervertido e convertido ao sistema, ele se torna o agente ideal da nova ordem (mais uma) que será imposta.

A narrativa é sóbria, sem espaço para o humor, e respeitosa em relação à obra-prima de George Orwell.

Leitura recomendada.

Miguel Carqueija é ficcionista e ensaísta, autor de Farei meu destino, entre outros livros.

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