Réquiem: sonhos proibidos

Réquim

Petê Rissatti
Terracota Editora
208 páginas
Lançado em 2012

O romance de estreia do escritor e tradutor Petê Rissatti, intitulado Réquiem: sonhos proibidos, me permitiu revisitar um gênero que há tempos estava esquecido na estante, o da ficção científica, que inclui títulos como 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Com o espírito desses clássicos, Rissatti prevê para o futuro uma sociedade globalizada, controlada por um governo central, cujo exercício político consiste em massacrar a subjetividade do ser humano, impondo o uso de uma droga, o Réquiem (Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada), que impede a pessoa de sonhar.

O conflito central se dá entre a polícia do governo, a PolGOM, e um grupo rebelde que se insurge contra o Réquiem e se identifica como Sonhadores. O caráter épico da história é aglutinado no personagem de Ivan, um trabalhador do governo central, que é sequestrado pelos rebeldes por ser filho de um importante guerreiro do movimento, que Ivan pensava ter se suicidado. Assim, de posse da verdade sobre o pai, Ivan também emerge como figura central no movimento.

Na metáfora construída por Rissatti, achei interessante a existência de ligações entre futuro e presente, o que pode ser lido em alguns momentos do texto: “As pessoas, com o passar das décadas, cada vez menos compravam livros físicos, que deram lugar aos livros digitais. Isso quando eram comprados, pois os atrativos das minitelas eram muito maiores. Lia-se tão pouco que o Governo Mundial conseguia direcionar com tranquilidade a leitura daquelas pessoas que ainda se divertiam com esse hábito.”

Esse diálogo entre tempos diferentes percorre boa parte das obras de ficção científica, que apenas aparentemente falam do futuro em suas metáforas. Lembro, por exemplo, do filme 2001: uma odisseia no espaço, do genial diretor inglês Stanley Kubrick, em parceria com o escritor Arthur C. Clarke, igualmente genial. Na abertura do filme há um conflito entre primatas pré-históricos, portanto, voltando a um passado provável, que chama a atenção para a capacidade que temos de simbolizar, ou seja, transformar em linguagem questões que nos permitem trilhar o caminho da civilização.

Na distopia, ou avesso da utopia, criada por George Orwell, no romance 1984, o totalitarismo do futuro é claramente inspirado nas ditaduras que foram notícia no presente do escritor, sobretudo a ditadura que permeou a história recente da hoje extinta União Soviética.

A supressão da individualidade no livro de Rissatti é um dado do presente, mesmo que a cultura pareça facilitar a realização do indivíduo. Mais do que ter pessoas que efetivamente realizam seu desejo, o tempo de hoje propõe a troca desse desejo por algo que é representado por mercadorias, colocando a vida mais no clichê de existir do que nas reais necessidades que temos.

Helder Lima é especialista em semiótica psicanalítica pela PUC-SP e criador do blogue Livros e Ideias.

[ Resenha publicada originalmente na Folha Metropolitana. ]

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