Dom Casmurro e os discos voadores

Dom Casmurro e os discos voadores

Lúcio Manfredi
Editora Leya
264 páginas
Lançado em 2010

Desde o lançamento de Orgulho e preconceito e zumbis, de Seth Grahame-Smith, o mundo literário tem sido sacudido por uma onda de mashups de clássicos da literatura com elementos fantásticos; na sequência vieram: Razão e sensibilidade e monstros marinhos, Android Karenina, Jane Slayre e outros títulos. O sucesso foi tão grande que, até o término desta resenha, soube que Orgulho e preconceito e zumbis estava ganhando uma adaptação cinematográfica!

A proposta dessa novíssima – se é que já dá para chamá-la assim: – vanguarda é, segundo o próprio Grahame-Smith: “Transformar o clássico da literatura em algo que você gostaria de ler!” O conceito do mashup é conservar parte do texto original e misturar com outros elementos, dando uma nova roupagem à história. Por isso o mashup pode ser classificado dentro do gênero ficção alternativa. Essa onda chegou ao Brasil e, em 2010, a editora Leya lançou o selo Lua de Papel de clássicos fantásticos escritos por brasileiros, entre eles Dom Casmurro e os discos voadores. Na minha opinião, uma das melhores obras dessa safra.

Lúcio Manfredi é roteirista de televisão e nos últimos anos trabalhou no roteiro de seriados e novelas da rede Globo, como Ciranda de pedra e A casa das sete mulheres. Não é preciso dizer que ele sabe escrever cenas memoráveis, Machado de Assis não poderia ter encontrado melhor co-autor.

O romance não é literalmente um mashup, porque pouquíssimo do texto original foi mantido. Lúcio reescreveu a saga inteira de Dom Casmurro na sua própria linguagem leve e graciosa. Exatamente como no clássico de Machado, em Dom Casmurro e os discos voadores o jovem Bentinho está predestinado desde o útero a seguir a carreira de padre − uma promessa feita por sua mãe, dona Glória −, sendo que o menino não está nem um pouco inclinado ao sacerdócio, seja por vontade ou vocação, e acrescente ainda que ele está enfeitiçado pelos “olhos de ressaca” de sua amiga de infância e protonamorada, Capitu.

As diferenças do romance original começam com a caracterização dos personagens: José Dias, o agregado, é um homem muito preciso, com engrenagens e articulações mecânicas; Capitu tem defeitos de nascença e atitudes esquisitas; e o tio Cosme não sai da frente do telescópio e diz ver coisas inexplicáveis no céu. Bentinho testemunha uma sequência de acontecimentos estranhos que o acompanham desde a infância na casa da rua de Matacavalos até os seus estudos no seminário; vê-se pivô de uma conspiração estranhíssima da qual participam todas as pessoas que o cercam, mas que ele não compreende e, de início, nem desconfia que os seus problemas, na verdade, vêm de Sirius…

Respeitando a tradição das ironias machadianas, não poderia faltar uma boa dose de humor, o que torna a leitura desse livro simplesmente deliciosa. E para quem é bom em captar referências, ele ainda reserva uma homenagem implícita ao autor preferido do Lúcio.

Cristina Lasaitis é biomédica e ficcionista, autora de Fábulas do tempo e da eternidade.

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