A desintegração da morte

A desintegração da morte

Orígenes Lessa
Editora Moderna
112 páginas
Lançado em 1948

Esta resenha é uma homenagem a Orígenes Lessa, autor que foi lido e reeditado inúmeras vezes, mas tem uma fortuna crítica bastante escassa. Já em 1948, publicou A desintegração da Morte, uma novela infantojuvenil de ficção científica.

O professor Klepstein trabalha arduamente em seu laboratório e consegue, finalmente, desintegrar a morte. A princípio, podemos considerar Klepstein o herói típico do futuro de consenso, pois compreende que seu feito será um benefício para a humanidade.

Mas quem quer mesmo viver para sempre?

Em capítulos breves, começam a surgir interessantes personagens e situações irônicas, que refletem críticas às relações sociais, políticas, religiosas e econômicas fomentadas por interesses pessoais em detrimento do bem comum: apesar de todos estarem livres da morte, um pequeno e poderoso grupo de empresários quer se valer do fato para proveito próprio.

Dobson, fabricante de munições, considerado um competidor elegante e leal, age por meio de cartel. Mister Fairchild, seu concorrente, é um patrocinador de guerras.

O pastor Warren subitamente passa a admirar a obra de Klepstein e, em segredo, escreve uma biografia romanceada do cientista, com a qual tenciona fazer fortuna em direitos autorais.

Monsenhor Piscatelli é um reverendo que manipula fiéis. Gladliver é dono da maior cadeia de funeral homes do mundo e gosta de lembrar que floristas também lucram com a morte.

Mister Drugstone, o maior fabricante de produtos medicinais do mundo, apresenta falas racistas e é diácono de uma igreja batista. Mister Sweetboy, seu concorrente, afirma que há mais vantagens em se vender remédios do que comida, pois o limite do alimento é a barriga cheia e os medicamentos têm horizontes quase ilimitados.

Sabemos que o tema da ausência da morte também foi explorado por José Saramago em As intermitências da Morte, de 2005. Na trama, é a própria Morte quem deixa de assumir as suas funções. A Morte é sujeito, e não objeto da ação humana, como em Orígenes Lessa. Outra notável diferença é a estrutura dos parágrafos: enquanto o Nobel pode causar estranheza com seus parágrafos longos e não pontuados de maneira tradicional, Lessa opta por frases e capítulos curtos, que ditam um ritmo veloz para a narrativa.

Depois de apresentadas as personagens principais, ocorre um processo metonímico no qual surgem personagens secundárias que possuem nome e sobrenome, idade, profissão, estado civil, etc., aproximando ainda mais o leitor dos acontecimentos narrados.

A humanidade vai percebendo que a morte acabou, mas permanecem a miséria, a dor, a doença… O ser humano precisa continuar enfrentando seus mais diversos problemas. Só que agora não há mais fuga.

Com a desintegração da morte ocorre a desintegração das instituições (família, casamento, escola, religião). A vida vai ficando cada vez mais insuportável e, com o passar do tempo, as pessoas tornam a venerar a morte.

E há também os milhões de céticos, que não acreditam em uma morte após a vida.

Leitura recomendada para quem quer introduzir a FC brasileira na vida dos adolescentes!

Elaine Valeria é educadora e escritora, tendo participado de dois volumes da coletânea Hiperconexões: realidade expandida.

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