Mnemomáquina

mnemomaquina

Ronaldo Bressane
Selo Demônio Negro
340 páginas
Lançado em 2014

Mnemomáquina abre com uma palavra que pode sintetizar a reação do leitor ao navegar pelas narrativas desse romance-mosaico, tentando organizá-lo numa estrutura coerente: “Fodeu”. É a fala de um entrevistado ao alter-ego do autor, o jornalista e escritor Ronaldo Bressane. Na sequência somos mergulhados em uma São Paulo futurista tomada pelas águas no ano 2054: “Você veio entrevistar um ex-Big Brother e agora vai ter que ouvir tudo. Estou praticamente me transformando em um peixe abissal! Bem, tudo começou quando eu caí no Buraco Quente… Olha. Calma. Eu explico. Marluce, a água está subindo! O Plano B! Essa chuva do inferno… vem cá, você não deveria estar lá embaixo, cobrindo as enchentes pra tua emissora?”

O alter-ego reaparece em alguns dos outros quarenta e cinco capítulos do livro, junto de uma pletora de personagens tão irreverentes e múltiplos como a cidade que os abriga, onde trocas de identidade, implantes robóticos, órgãos artificiais, mutação genética, animais falantes e premonição são lugar-comum.

A Divisão dos Não-Lineares, um grupo de espiões (entre outras finalidades nebulosas), que tem em sua linha de frente os reanimados Philip K. Dick e J. D. Salinger, puxa o enredo. A Divisão é abastecida pelas leituras que o agente Fabrizio Fabrizzianni faz do sol refletido na pele do tubarão-tigre hermafrodita e telepata Hannah durante os crepúsculos, dentro de um grande aquário no topo do edifício Copan. Zed Stein, um agente desmemoriado, tenta relembrar qual é afinal a sua missão. Baby Gasoline (na verdade sua sexta identidade, comprada no Neverland Institute, símbolo corporativo contra o qual se coloca o subversivo Butthole Kongo, que planeja uma invasão à Cidade-Olho) se envolve com Zed e o auxilia. Adavilsom, designer da TXT e criador do FutCuca, em que os Coisos, humanos desprivilegiados que vivem além das fronteiras da Cidade-Olho, controlam os jogadores durante as partidas de futebol, tenta não ser despedido. Luk e Iza, irmãos que vivem numa palafita no pântano, vão à procura do amigo imaginário Sandiliche.

É em meio a esse caos que Bressane se revela um artesão hábil, guiando o leitor com segurança por um terreno esburacado, destilando devaneios estilísticos impressionantes. Além da fluência entre as muitas formas de narrar, com uma oralidade sempre marcada e convincente (ler o livro em voz alta é um barato), há trechos em portunhol e até inglês; há uma riqueza de referências pop; há as contrações de quem se articula com as migalhas de linguagem onde tudo foi pras caralhas; e há trechos convencionais igualmente bem executados, como na viagem que Adavilsom faz à família fora da Cidade-Olho, no capítulo Morumbigo, onde você é mais você.

O preço a se pagar numa narrativa tão fragmentada, experimental e com tamanha amplitude de vozes é a confusão, contornada pelo leitor mais maduro ou persistente. É para esse leitor, claramente, que Bressane escreve. O que não é demérito; narrativas lineares e com linguagem mais acessível existem aos montes. Para o leitor que chega ao fim do Mnemomáquina, há a recompensa, para além do próprio percurso (em si um jogo literário rico): as narrativas entrecruzadas revelam um esqueleto que não é tão fragmentado quanto se imaginava.

O selo Demônio Negro caprichou na produção do livro. A capa de um vermelho chapado, com fonte sóbria, traz no centro um pequeno tubarão que parece feito em estêncil. É um modelo dos desenhos que surgem na abertura de cada capítulo, feitos pela artista Eva Uviedo, um charme à parte. O tamanho, a parrudez e a própria mancha de leitura lembram bastante as obras da Alfaguara. Infelizmente, não são apenas elogios: o livro carece de maior apuro na revisão para acertar errinhos gramaticais, alterações de tempo narrativo e uma ou outra lombada (Adavilsom grafado Adavilson, por exemplo). Mesmo assim, nada tão recorrente que prejudique a leitura.

Santiago Santos é escritor, tradutor e publica drops no flashfiction.com.br

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