As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

Aline Valek fez uma aposta ousada em sua estreia como romancista. As águas-vivas não sabem de si é uma obra de ficção científica com o apuro da chamada alta literatura.

Corina é uma mergulhadora experiente, contratada por uma empresa para testar trajes no mar profundo. Na estação Auris, ela se junta a uma equipe formada por outro mergulhador e pesquisadores. Durante o confinamento, Corina desconfia que há uma missão maior em curso. Ao mesmo tempo, ela também tem algo a esconder.

Logo nas primeiras páginas é inevitável lembrar de filmes como O segredo do abismo e Esfera: os mistérios do oceano ampliados por uma assustadora presença além da compreensão humana. O fundo do mar é um universo em si, ainda bastante inexplorado. Causa tanto fascínio quanto o espaço sideral. Muitas vezes, sua fauna e flora são vistas como coisas de outro mundo.

A ideia do romance não é original, mas Aline Valek quer seduzir o leitor pela maneira de contar a história. Sua intenção é bem-sucedida, em parte. Ao escrever o livro, ela tinha nas mãos um cenário com muito potencial para criar uma ficção cativante. Aproveitando a escuridão e a luminescência, essa atmosfera seria perfeita para elaborar uma leitura imersiva, em que cada linha, cada parágrafo, transmitisse a beleza e o perigo daquele lugar.

Essa tensão deveria ser predominante. Porém, os conflitos pessoais e com o ambiente perdem força em certos trechos. Páginas e páginas são preenchidas com digressões dos personagens, estendendo-se além do necessário. Outro recurso que quebra o ritmo da leitura é dar a alguns animais a condução da narrativa, mostrar o ponto de vista deles, suas observações da ação humana.

Ao longo do romance, há uma oscilação entre um texto maduro e outro, descuidado. Os melhores momentos são quando a interação dos personagens funciona, os pensamentos de cada um têm algo relevante a manifestar e o desenvolvimento da trama convence. A prosa, quando está afiada, cada frase tão bem construída, soa como poesia. Geralmente, a pesquisa da autora passa verossimilhança da rotina dos personagens, mergulhadores e cientistas.

Pelo fato do cenário ser muito recortado − a estação Auris e o entorno dela − e do pequeno número de personagens, as possibilidades de enredo são reduzidas. Um texto mais curto poderia reunir apenas o que houvesse de melhor no romance.

A editora Rocco caprichou na edição física. É um dos livros mais bonitos lançados em 2016. Capa e miolo excelentes.

Ao final da leitura, fica a certeza de que As águas-vivas não sabem de si é um livro corajoso e pioneiro. É um romance que traz algo novo à ficção científica nacional e, ao mesmo tempo, procura se comunicar com um contexto literário mais amplo. A autora já revelou que é leitora tanto de FC (Margaret Atwood, Octavia E. Butler, Emilia Freitas e outros) quanto de literatura mainstream.

Podemos considerar As águas-vivas não sabem de si como uma tentativa de ponte entre o fandom e o leitor em geral. O romance é uma ótima porta de entrada para quem deseja se aventurar no fascinante e pouco explorado universo da ficção científica brasileira.

Ricardo Santos é escritor e organizador da coletânea Estranha Bahia.

[ Resenha publicada originalmente no blogue RicardoEscreve ]

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