Futuro presente

Futuro presente

Nelson de Oliveira (organização)
Editora Record
416 páginas
Lançado em 2009

O espaço é curto. O livro é longo (416 páginas); os contos e autores são muitos (dezoito autores com uma ficção cada). Futuro presente é uma coletânea de contos (alguns curtos, outros nem tanto) de ficção científica, organizada pelo famigerado Nelson de Oliveira, coordenador de outras tantas antologias e projetos célebres e desbravadores, como o Projeto Portal, também de FC e fantasia.

A escolha dos autores privilegiou a mistura de gerações e estilos – desde autores consagrados, como Márcio de Souza (cuja obra Mad Maria se tornou minissérie da Globo), a autores desconhecidos, com certa predominância de ficcionistas que nasceram no estado de São Paulo (dez dos dezoito). Problemas de logística, provavelmente, porque em outros estados não representados no livro devem, sim, existir ficções sobre o futuro.

Após a leitura de livros como esse, surgem as questões: por que nós, brasileiros, lemos tantas obras estrangeiras? Por que assistimos a tantos filmes vindos dos Estados Unidos, inclusive àqueles futuristas com a irritante mania de tentar convencer o resto do mundo de que os ianques salvarão o mundo do apocalipse, como bons heróis que são?

Os antropólogos e historiadores responderiam: dentre alguns traços característicos da cultura brasileira, um dos mais perceptíveis é a valorização do estrangeiro em detrimento do nacional. Os sociólogos mais radicais responderiam: o capitalismo é selvagem e privilegia os que possuem mais poder, mais condições, mais ferramentas em mãos (dentre as quais as da publicidade e propaganda), realidade que vale também para o mercado cinematográfico e editorial. Outros responderiam: por pura diversão ou por necessidade de entretenimento e fruição. Cada qual com sua opinião, todos têm razão.

Um trecho da orelha do livro escrita por Fábio Fernandes: “Temos contos passados em outros planetas, raças estrangeiras em futuros distantes, alienígenas entre nós, experiências genéticas loucas, telepatia, viajantes descendo em maelströms interestelares. Enfim, tudo tem”. Sim, leitor, conteúdo diverso (dentro da temática proposta) com linguagens diversas, desde as mais tradicionais, que cumprem a única função de contar uma história, até as mais (mas nem tanto assim) experimentais. Experimentalismos linguísticos em ficção científica funcionam, funcionariam? Existe (surgirá?) o Guimarães Rosa da FC?

Um dos requisitos básicos de uma boa obra literária é conseguir, astutamente, que o leitor entre em um novo plano, de maneira que ele esqueça, naquele momento da leitura, de todos os percalços da vida e se preocupe com os percalços da ficção lida. Vários dos contos do Futuro presente conseguem essa proeza

Entregue-se, leitor. Não é necessário se basear nas listas dos mais vendidos de revistas não confiáveis nem de assistir a filmes saturados de clichês para buscar entretenimento, diversão e fruição de qualidade. Na literatura brasileira há muitos livros que conseguem, e bem, transportar o leitor para uma nova realidade e ser um meio interessante de investigação e imaginação. Em Futuro presente há várias realidades, umas mais outras menos convincentes, umas mais outras menos cativantes. De algumas delas é impossível sair intacto, tamanha é sua capacidade de maravilhar o leitor.

Experimente, leitor, trocar aquele livro estrangeiro sobre pipas, ou aquela superprodução estadunidense, ou aquele filme repetidíssimo da Sessão da Tarde, ou aquele videogame com gráficos impressionantes pela coletânea Futuro presente. Não sairá perdendo; ao contrário, só terá a ganhar. E ganhará muito.

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Sinvaldo Júnior é ficcionista e ensaísta, autor de Manicômio, assinado por seu alter ego Rogers Silva.

[ Resenha publicada originalmente no portal Textifique ]

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