Favelost

Favelost

Fausto Fawcett
Editora Martins Fontes
248 páginas
Lançado em 2012

“Favelost é o contrário de Canudos, ou do Contestado, ou da Comuna de Paris, ou da Pedra do Reino, ou de Christiania na Dinamarca, ou qualquer outra utopia advinda dos sentimentos de pureza humana, do messianismo cristão celerado, da fantasia de que todos nascem bons e são deformados pela sociedade, mantra dos fofos existenciais e dos esquerdofrênicos cafajestes do imagine all the people em geral querendo a revolução que passa por cima do primado das leis.” (página 31)

Em Favelost deve-se entrar com os dois pés, e de sola. Nada da leitura estrutural, pausada e densa, como pedem os textos dos pensadores frankfurtianos que o autor, Fausto Fawcett, critica mais de uma vez na narrativa. Para alcançar a ascese que o livro constrói em seu ritmo frenético, é preciso fazer o trajeto entre Rio e São Paulo de um só fôlego.

Nessa distopia cínica e sexy, as duas cidades já não existem separadas, tornaram-se Rio Paulo de Janeiro São, ligadas por um conglomerado de casas paupérrimas, microindústrias clandestinas e pontos comerciais que tomaram a Via Dutra. É a Mancha Urbana. Ou a Favelost, território da hipérbole capitalista tecnológica por excelência.

Quase como um ritual alucinógeno, o romance rompe as sinapses coloquiais do leitor. Como um Bret Easton Ellis futurista brasileiro, Fawcett consegue esse efeito pela saturação estilística de sua verborragia pulsante, em mash-ups de referências pop; de períodos históricos; de gadgets; de práticas sexuais das mais comuns às mais bizarras; de correntes políticas, sociais, místicas e filosóficas; de cânones culturais; e uma infinidade mais de temas. Depois de tantas imagens bizarras maximizadas e perfiladas sem descanso uma após a outra, quem mergulha na aventura de Júpiter Alighieri e Eminência Paula sai num leve nirvana, em paz com o caos da existência diária.

Os protagonistas são membros de uma organização chamada Intensidade Vital, que deve manter a ordem entre a população de Favelost. Esse conglomerado urbano, meio clandestino, meio Eldorado do mal, não é aberto a qualquer um. Só às pessoas que buscam o Mefistófeles em cada entrada escondida, tentando arrefecer um desejo indefinido e angustiante para o qual as benesses da vida comum não bastam. E o casal humano, mas com um quê de ciborgues de Blade runner, tem vinte e quatro horas para se encontrar, fazer sexo e chegar ao orgasmo que vai desarmar o chip autodestrutivo implantado em seus corpos.

Com agudeza e sem dó, Fawcett desmonta as certezas atávicas da normatividade ao construir um caleidoscópio de imagens sedutoras e horripilantes, a exemplo de sua declarada inspiração, Hieronymus Bosch e seu Jardim das delícias terrenas (pintura que ilustra a capa do livro).

A cada instante o leitor é confrontado com suas próprias pulsões diante de cenas de vingança, sexo, fraqueza ou nostalgia. Assim é levado a questões complexas que o autor enxerta subliminarmente na ação. Se o niilismo anda à espreita a cada curva, há sempre o contato humano, coroado pelo sexo, para lembrar a graça da vida. Como Fawcett define, cria-se o território da disputopia.

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Luciana Pareja Norbiato é jornalista cultural, ensaísta e assessora de imprensa.

[ Resenha publicada originalmente na revista Select. ]

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