Não verás país nenhum

Não verás país algum

Ignácio de Loyola Brandão
Global Editora
384 páginas
Lançado em 1981

Um dos mecanismos da composição dos sonhos, segundo Freud, é a condensação: vários elementos se aglutinando em um só, lotando essa imagem de significados que resumem vários conteúdos reprimidos. Assim, eu diria sem medo de errar que Não verás país nenhum é um sonho premonitório de Ignácio de Loyola Brandão sobre o final do século 20 e o começo do 21.

Durante muito tempo, o autor colecionou nas redações onde trabalhava pedaços de matérias jornalísticas, propagandas etc. censurados pela Ditadura Militar. Foi a base para o romance Zero, uma colagem absurda de coisas reais. Mas esse material, somado às matérias a que tinha acesso na revista Planeta, são a base também deste romance de 1981.

O enredo se passa em uma São Paulo distópica do século 21. A distopia aqui se dá tanto na esfera político-social quanto na da, e principalmente, ecologia. O protagonista, Souza, e sua esposa, Adelaide, vivem em um mundo onde um breve período democrático foi seguido pela locupletação, o que resultou em um sistema totalitário mantido por um esquema forte de propaganda, controle da imprensa e contenção das massas. Só é possível viver, e viver bem, fora do passado ou do futuro. O que ironicamente leva Souza, ex-professor de História, a ser forçado pelo Estado a se aposentar.

Cidadãos são vigiados o tempo todo. Não apenas a liberdade de ir e vir foi cerceada – só há autorização pra se viver nos chamados Círculos Oficiais Permitidos, cidades são distribuídas em distritos, que só podem ser acessados com autorização prévia –, mas também a liberdade de pensar sobre a realidade opressora circundante. Para ter uma vida razoável, ou você é um militar, burocrata ou militecno. Contudo, não são apenas os contratados do Estado que controlam a obediência civil. Ao seu lado pode estar um cilviltar, funcionário informal do regime, que muitas vezes realiza uma denúncia do que considera fora da linha, em troca de uma conta de água a mais.

A produção de lixo é impossível de ser recolhida, o que faz com que Zeladores precisem negociar com os Catadores. A produção de mortos é enorme, principalmente além dos Círculos, nos Acampamentos Paupérrimos, tornando impossível enterrar ou cremar todos. A pestilência invade, os ratos só são afastados com equipamentos modernos como o Sônico Anti-Ratos – a ciência e a tecnologia são bizarras, e usadas em geral para reduzir os danos causados pelo fim da natureza. A urina é reciclada para consumo, a água só vem pelos Fornecedores Oficiais. O aroma de algo fresco só pode ser acessado em frascos para consumo rápido. Nada mais é orgânico, as mulheres são estéreis. O Brasil Potência abraçou o plano nuclear de grandes construções industriais, o projeto higienista não se dá apenas no controle didático da higiene, a limpeza nacional de populações determinou quem poderia viver nos Círculos Oficiais. O país foi loteado e alugado para nações estrangeiras, a Amazônia agora é um deserto.

Aposentado à força, o narrador ressentido atua como um burocrata metódico. Um dia, na condução, surge uma coceira em sua mão, que dá lugar a um furo perfeito no centro da palma. O espanto o levará para longe de seu itinerário, o tirará da rotina e o colocará diante dos que estão à margem. Isso chamará a atenção de seu sobrinho, um milico que invade sua vida com seus comparsas, tomando conta do apartamento e de seu casamento. Sem parar aí, Adelaide desaparece. O furo, a invasão de sua vida e o sumiço da esposa farão Souza sair da apatia e rememorar, refletir profundamente, como ele e o mundo que o cerca vieram parar ali.

Não verás país nenhum reúne vários elementos da ficção especulativa, mas não é um pastiche, pois faz isso de forma poderosa, meditando sobre a realidade brasileira. Absurdamente atual, grande parte das reflexões e dos temores de Loyola se fazem realmente presentes em nosso século 21, como realidade ou metáfora. Leitura fundamental para a contemplação do absurdo no qual estamos nos metendo, mesmo que em uma velocidade um pouco menor do que a condensada pelo autor.

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Claudio Brites é psicólogo, editor e ficcionista, autor do romance Talvez.

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