O caçador cibernético da Rua 13

O caçador cibernético da Rua 13

Fabio Kabral
Malê Editora
208 páginas
Lançado em 2017

Comprar e vender favores políticos e financeiros sempre foi uma atividade rotineira em todos os escalões do poder. Deem uma boa olhada nos livros de história. Não existe Estado ou economia livres da corrupção. Tanto a democracia quanto o totalitarismo jamais conseguiram extirpar esse câncer. Onde há dinheiro há tentação.

A diferença é que agora os grandes escândalos se tornaram o folhetim do século 21, recebendo detalhada cobertura da imprensa e repercutindo explosivamente nas redes sociais. Esse cenário justifica o aparecimento, na literatura e nos quadrinhos, de justiceiros cuja principal atividade é executar políticos e empresários corruptos.

O justiceiro mais conhecido no planeta é certamente o Codinome V, do clássico britânico V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd, lançado em 1982. No Brasil, conheço pelo menos três protagonistas aparentados: o Doutrinador, criado pelo designer gráfico e quadrinista Luciano Cunha em 2010; o curupira-ciborgue de minha rapsódia Distrito federal, lançada em 2014, e mais recentemente o ciborgue-mutante João Arolê, do romance O caçador cibernético da Rua 13, de Fabio Kabral. Os três realizam no plano da ficção o desejo inconsciente de boa parte da população brasileira: caçar o predador mais sanguinário de qualquer ecossistema, executar o corrupto bem-sucedido e insaciável.

O romance de Fabio Kabral se passa em Ketu Três, a Cidade das Alturas localizada no Mundo Novo, e a importante e movimentada Rua 13 atravessa os treze círculos concêntricos da metrópole. É nesse cenário afrofuturista, em que religião e alta tecnologia se penetram e alimentam, que acompanhamos o drama de João Arolê, um mutante cibernético treinado pra eliminar cidadãos corrompidos da elite de Ketu Três.

Ainda criança, Arolê manifestou habilidades especiais, entre as quais a do teletransporte instantâneo. Isso definiu seu destino. O menino foi separado dos pais e levado a um centro de treinamento paramilitar, mantido pelas poderosas Corporações Ibualama. Anos depois, Arolê e outros três jovens são reunidos numa equipe de supressão e partem para o ataque. Mas esse arranjo não dura muito. As missões são rápidas e sangrentas, não poupando nem crianças. Nosso protagonista, ao perceber a perversidade da milícia de supressão, decide desertar. Agora ele é um caçador de aluguel, um outsider meio homem meio máquina que vive de combater espíritos malignos.

Por meio de flashbacks, vamos conhecendo paralelamente detalhes das três etapas da vida de João Arolê: a infância com os pais amorosos, o período traumático no grupo secreto de extermínio e a angustiada rotina de um desertor assombrado pelo espírito dos mortos.

O aspecto mais saboroso do romance é a vibração veloz e extravagante típica dos quadrinhos, dos animes, dos RPGs, dos games e do cinema de ação. Algo que nossa crítica especializada, de orientação acadêmica, abomina. Mas tenho fé que um dia isso mudará.

A cultura, as crenças, as cores e o ritmo africanos e afro-americanos dão sustentação a uma narrativa jovem e pulsante. O caçador cibernético da Rua 13 marcou território, disso tenho certeza. Oxalá o tabuleiro mágico e tecnológico de Ketu Três, a Cidade das Alturas, volte a ser o cenário de novas histórias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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