Delacroix escapa das chamas

Delacroix escapa das chamas

Edson Aran
Editora Record
176 páginas
Lançado em 2009

Que Brasil você quer para o futuro? Eis o questionamento direcionado a telespectadores, e para o qual conta-se com o envio de vídeo-resposta. Fosse eu responder à renomada emissora – você sabe qual – antes de ler Delacroix escapa das chamas, a minha resposta seria uma. Agora, é outra. Eu quero um Brasil com mais escritores feito Edson Aran, autor desse inusitado livro. O Brasil que ele imaginou para o futuro, uma São Paulo (ano 2068) refém do apartheid social, pode ser delirante mas, em muitos aspectos, é uma metáfora deliciosa e bem-humorada do nosso presente.

Essa mistura de ficção científica bem-sucedida com sátira e crítica social, que Aran prefere classificar como sátira política, é uma obra ágil, fértil em possibilidades (inúmeras associações e interpretações), e não flerta com a mesmice. Da leitura chata, o leitor está livre!

Um dos personagens, Ibr Barn Scrid, após sucessivas reeleições, decide transformar a França num califado. Ele, presidente aclamado califa, manda queimar todos os museus por violarem as leis do Alcorão ao exporem figuras humanas, mulheres peladas, deuses e deusas pagãos. Um quadro legítimo do pintor francês Eugène Delacroix escapa das chamas e vai parar em São Paulo. Eis o argumento que intitula o livro e presenteia o leitor com diferentes tramas, usando a arte como fio condutor do novelo imaginativo.

Nessa sua novela em quatro tempos (ou, para ficar mais claro, quatro contos interligados que, justapostos, podem ser denominadas de novela) a sociedade sofre brutal ruptura, de tal sorte que a classe alta repudia a baixa que, por sua vez, vive uma guerra civil.

Na distopia do autor, a high society concentra-se, na verdade, em redomas. Se no mundo atual as pessoas abastadas vivem em condomínios fechados, passeiam, consomem e se entretêm nos shoppings, na ficção de Aran, para se viver dignamente com segurança e desfrutar de tudo o que o crédito pode pagar (sem crédito você está excluído), só se for nas shopping cities. Estas separam a sociedade em dois mundos, os consumistas e os que não podem consumir, restando aos excluídos uma só alternativa, a barbárie.

Na Shopping City 22 vivem cinquenta mil consumidores, entre eles o protagonista: o crítico de arte Wagner Krupa. Shopping City 22 é o lugar onde o autor dá vida, não só a Wagner, mas a prostitutas cibernéticas, origamis assassinos, uma despachante sexy, padres inescrupulosos, obra de arte que come gente e até gente que usa a mutação genética para virar porco e tatuar o corpo. Sim, a arte nessa ficção é viva, orgânica. Ou, de acordo com o autor, é bioarte. “Você chama isso de arte? (…) Tatuar um porco?” “Não. (…) Arte é alterar geneticamente o seu corpo para parecer um porco. E depois ser tatuado com desenhos renascentistas…” (páginas 143-144).

Essa sociedade onde os sem crédito não podem entrar lembrou-me o filme Elysium. Quem conhece essa ficção científica sabe que a Terra, devastada, é o reduto da escória e da classe pobre. Elysium, o mundo perfeito, acima da Terra (redoma no céu) é habitado apenas pelos ricos.

Não dá para dizer que Aran bebeu da fonte de Elysium, claro que não. Delacroix escapa das chamas, afinal, é de 2009 e Neill Blomkamp escreveu e dirigiu o filme depois, em 2013. Coincidências à parte, não existe nada como essa ficção. “Edson Aran é diferente de tudo o que você já leu. Em qualquer língua”, escreveu Ivan Lessa.

Há quem diga que esse não é um livro profundo, desses de se levar a sério. Outros adoram. Alguns classificam a linguagem como confusa. Não importa qual opinião pese mais na balança, cada leitor, afinal, tem a sua. A minha é a de que essa ficção em que a França assumiu a forma islâmica de governar, e por isso mesmo queimou museus, traz ingredientes de leitura que vão além das palavras. Ler o não escrito, só para lembrar, é ler. E ler Delacroix escapa das chamas é entender que o delírio narrativo proposto, além de nos fazer pensar e rir, nos livra de um mundo cada vez mais chato.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

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