Zitz e a rede etérea

Zitz e a rede etérea

Giovanna Picillo
Editora Scortecci
224 páginas
Lançado em 2016

Giovanna Picillo estreia na literatura e na ficção futurista com um romance conduzido por nossas principais inquietações existenciais, sempre incômodas, distribuídas no difuso cruzamento geométrico em que a ciência, a filosofia e a religião se encontram por um minuto, sem se repelir. Nessa narrativa genuinamente otimista, a autora projeta em seus personagens os medos e as incertezas que a civilização humana vem tentando resolver há milênios, sem sucesso.

Vitimados por uma catástrofe ecológica, num futuro indeterminado os países, as cidades, as florestas e os rios foram reduzidos a escombros. O que sobrou da civilização agora vive em dois núcleos isolados: a Tecnourbe, uma metrópole-fortaleza altamente tecnológica, protegida por uma bolha eletromagnética, e a distante Newrbe, instalada nos subterrâneos de um antigo centro urbano, pra se proteger do clima perigoso que castiga a superfície.

O protagonista do romance, Zitz, é um eficiente funcionário da Tecnourbe comandada pelo pragmático e racionalista Conselho diretor. Conectado ao complexo sistema de comunicação da metrópole-fortaleza, o pesquisador dedica todo o seu tempo à procura de soluções técnicas e científicas, auxiliado apenas por sua assistente pessoal, uma I.A. chamada Diuly. Tudo segue o extenuante protocolo imposto pelo Conselho e administrado pelo Sistema, até que a rotina de trabalho é perturbada por sabotagens e mensagens misteriosas, que empurram Zitz na direção da Newrbe.

E se o pensamento tiver dupla natureza, semelhante à luz: ora sequência de ondas, ora feixe de partículas? A principal pesquisa de Zitz, no momento, é a teletemática, uma forma total de comunicação, que permitiria às pessoas trocar não somente dados da linguagem (verbal, matemática, musical etc.), mas experiências emocionais profundas, em duplas e até em grupos. Esse também é o eixo filosófico do romance: a comunicação mental, ou telepatia, tão desejava por místicos, artistas, alquimistas e cientistas − estes também! − de todas as épocas.

A busca de Zitz está alinhadíssima com a do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que escreveu no livro Muito além do nosso eu:

Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.

Na verdade, os escritores de FC de nosso tempo estão se atrevendo a conceber e descrever, pois a rede etérea investigada por Zitz, antes dos atentados e das mensagens misteriosas, era exatamente esse colosso de consciência coletiva de que fala Miguel Nicolelis com tanto entusiasmo.

O romance é narrado basicamente por Zitz, mas o foco narrativo também acolhe a voz de outros personagens. Outra característica que me fascinou, nessa obra de estreia, foi a atmosfera humanista, o espírito francamente otimista do enredo e dos personagens. Em todos os níveis: político, social e pessoal. Confesso que aprecio mais as narrativas sombrias, sobre Estados opressores e indivíduos dominados pelo sistema. Talvez por isso mesmo me fez tão bem ler uma história em que a força dos seres humanos e dos seres sintéticos está na empatia e na generosidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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