Guerra justa

Guerra justa

Carlos Orsi
Editora Draco
150 páginas
Lançado em 2010

No futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das principais religiões, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas as religiões conhecidas. No vácuo desse cataclismo, emerge um novo profeta – o Pontífice –, que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica na órbita da Terra, numa estação espacial.

Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder graças à capacidade do Pontífice de prever o futuro. Sua igreja torna-se um governo mundial todo-poderoso, um estado policial teocrata que controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.

Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go. Com essa informação, Ma Go adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece outro polo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.

Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes ao qual sua irmã fazia parte. Ela é levada a Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu líder espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.

Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas coletâneas Medo, mistério e morte (1996) e Tempos de fúria (2006). Guerra justa é seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas cento e cinquenta páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto.

Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.

Apesar de ter apontado suas baterias contra as religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.

Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar pela premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, essas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaísmo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, à destruição de seus templos mais sagrados.

Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

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