BioCyberDrama Saga

BioCyberDrama Saga

Edgar Franco (roteiro) Mozart Couto (arte)
Editora UFG
276 páginas
Lançado em 2013

Visões dentro de possessões. Transmutações dentro de revoluções. Música eletrônica, realidade aumentada, figurino exótico e imersão amorosa no corpo ancestral da natureza. Muitos ainda não sabem, mas um ciberpajé − o primeiro da Terra Brasilis − vive entre nós há quase uma década. Convergindo as habilidades mágicas e místicas de uma autoridade indígena e a curiosidade científica transformadora de um tecnoartista, nosso ciberpajé viaja no tempo e no espaço, investigando os impasses assombrosos da sociedade pós-humana que um dia substituirá a nossa.

Se você pesquisar na web, descobrirá que Edgar Franco, o Ciberpajé, é mineiro de Ituiutaba, graduado em arquitetura, mestre em multimeios pela Unicamp, doutor em artes pela USP, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB e professor da faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Mas essa é apenas sua persona acadêmica, sua identidade apolínea e civilizada. Amalgamado ao professor-pesquisador está o feiticeiro tropical, o tecnobruxo dionisíaco e delirante que organiza performances-rituais multimídias com a banda Posthuman Tantra e produz quadrinhos poético-filosóficos, sobre o evento por ele batizado de Aurora Pós-humana.

Parte importante desse projeto em progresso, BioCyberDrama Saga é uma novela gráfica produzida em parceria com o lendário quadrinista e ilustrador mineiro Mozart Couto. A saga é protagonizada por Antônio Euclides (batizado em homenagem a Antônio Conselheiro e Euclides da Cunha), um homem conservador, pertencente ao pequeno grupo dos resistentes, formado pelos poucos seres humanos que evitam qualquer aperfeiçoamento biotecnológico. Estamos no século 30 da era Cristã. Além dos resistentes, duas outras espécies disputam o domínio político do planeta: os extropianos e os tecnogenéticos.

Os extropianos são consciências humanas transferidas para máquinas de todos os tipos e complexidades, e representam sessenta por cento da população da Terra. Os tecnogenéticos são seres orgânicos híbridos − uma mistura biogenética de humano, animal e vegetal − e representam trinta e cinco por cento da população. Os cinco por cento restantes são representados pelos resistentes. As três espécies, não é preciso dizer, vivem em constante estado de tensão ideológica, sempre alimentada por ações terroristas e doutrinação radical. Esse estado de tensão compromete a vida emocional de Antônio, atrapalhando sua amizade com Orlane e Tetsuo, tecnogenéticos, e seu casamento com Michelle, uma resistente atraída pelos métodos extropianos.

O mais fascinante nessa segunda edição ampliada de BioCyberDrama Saga, lançada em 2016, e em toda a proposta multimídia da Aurora Pós-humana é a riqueza de detalhes culturais, científicos, religiosos, políticos, sociológicos, geográficos etc. Dialogando com o melhor da tecnoarte e da ficção científica contemporâneas, Edgar Franco, nosso Ciberpajé, criou uma rede densa de pormenores, que continua se expandindo e alimentando outros trabalhos individuais e coletivos.

Se a história em quadrinhos já é fascinante por si só, os paratextos que a acompanham enriquecem ainda mais a fruição estética. O prefácio de trinta e seis páginas fala da origem desse universo ficcional e apresenta uma lista de músicos, artistas, filósofos e ficcionistas do pós-humano, além de oferecer a descrição minuciosa das três espécies da nova Terra, incluindo os conflitos políticos e sociais. No posfácio, somos apresentados à galeria de personalidades da arte, da religião, da ciência e da literatura homenageadas nas entrelinhas do enredo.

Se a força poética da ficção científica, em qualquer meio de expressão, está em sua irresistível vocação pra desmascarar dogmas e quebrar paradigmas, não resta dúvida de que a novela gráfica de Edgar Franco e Mozart Couto honra corajosamente essa vocação demolidora, essa saudável força poética.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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