Corrosão

Corrosão

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
292 páginas
Lançado em 2018

Foi uma surpresa bastante prazerosa, este romance de FC hard do teólogo e ensaísta carioca Ricardo Labuto Gondim, também autor da coletânea de ficções e reflexões Deus no labirinto (2016) e do thriller policial B (2013). Talvez sua obra esteticamente mais ambiciosa, Corrosão é uma poderosa narrativa de confronto e descoberta, feita de camadas que vão se sobrepondo devagar, com vigorosa elegância.

O cargueiro Nikola Tesla, com duzentos e oitenta metros de casco, é o triunfo da engenharia espacial do século 22. Conduzido por uma sofisticada inteligência artificial, dezenas de robôs e apenas seis tripulantes humanos altamente treinados, sua primeira missão é viajar até as imediações de Plutão, interceptar um grande asteroide e extrair dele um óxido precioso inexistente na Terra, com propriedades supercondutoras.

Mas nas proximidades de Júpiter surge uma anomalia astronômica que chama a atenção primeiro do sistema de bordo do Nikola Tesla, depois de sua tripulação: uma vasta nuvem vermelha de hidrogênio, anelar, contendo uma nuvem verde de metano e enxofre, elíptica, por sua vez contendo nada mais nada menos que o lendário Titanic, duzentos e quarenta anos depois de seu naufrágio.

Obviamente a grande questão que impulsiona o enredo é: de que maneira o maior transatlântico de seu tempo se deslocou do fundo do oceano para as proximidades de Júpiter? Essa situação insólita mobiliza o controle da missão, na Terra, e os tripulantes do Nikola Tesla. O raríssimo óxido do asteroide não é mais prioridade.

Nas mãos de um ficcionista mediano, esse mistério seria, sozinho, o centro do sistema narrativo. Mas nas mãos de Ricardo Labuto Gondim ele é, digamos, uma das estrelas de um sistema estelar binário. Interagindo com o mistério do Titanic existe outra intensa força de atração literária: o drama humano. Na maior parte do romance, acompanhamos o atrito às vezes epidérmico, às vezes profundo, que aquece a coreografia da equipe do cargueiro espacial.

Os personagens − suas idiossincrasias, habilidades e inquietações − são muito bem desenhados pela mão segura do romancista, mas dois se destacam: o capitão Mravinsky e a inteligência artificial A.N.N.A. Fã confesso de Moby Dick e Vinte mil léguas submarinas, Ricardo Labuto Gondim, além de exercitar uma escrita minuciosa, rica em detalhes técnicos e psicológicos, muito apreciada pelos melhores escritores realistas do século 19, se inspirou em dois grandes capitães da literatura universal, Ahab e Nemo, para criar seu Mravinsky, um oficial enérgico e culto, apreciador de literatura e música eruditas.

A serviço da Corporação que investiu pesado em sua construção, o sistema neuromórfico A.N.N.A. e a espaçonave são uma coisa só, corpo e mente entrelaçados produzindo um magnífico veículo autoconsciente. O comportamento lógico da IA, nos momentos em que o comportamento biológico da tripulação humana é tingido por traços emocionais, produz um contraste muito bem-vindo. Onipresente, A.N.N.A. interage com os nanorrobôs na corrente sanguínea dos tripulantes, com o compartimento criogênico, com os grandes reatores e propulsores da nave etc.

Enquanto isso, lá fora… A carcaça do Titanic. Tão fantasmagórica quanto a baleia branca do romance de Melville. No decorrer da história, outros fenômenos até mais surpreendes farão o narrador onisciente, estarrecido, concluir que “a irracionalidade dos eventos implicava na ideia de que o absurdo era uma das muitas possibilidades do universo”.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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