Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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