Aprende com tua nêmese

Yin Yang

Vira e mexe, voltamos a falar do embate antigo entre as duas tradições literárias antagônicas: a poética clássica e a poética barroca, entendendo a palavra poética como programa de arte, modo de fazer. (Quem sugeriu que existem apenas duas tradições antagônicas, que vão se desdobrando ao longo dos séculos, foi o teórico Ernst Robert Curtius, em seu célebre Literatura europeia e Idade Média latina.)

Os contos e os romances pensados segundo a orientação clássica (fiquemos apenas na prosa de ficção) são os de linguagem clara e objetiva, enquanto os contos e romances pensados segundo a orientação barroca são os de linguagem obscura e subjetiva. O movimento modernista brasileiro, por exemplo, representou o triunfo da poética barroca, ao valorizar a literatura fragmentária, retorcida, transtornada, propositadamente estranha e hermética.

Passado o tsunami modernista, certo equilíbrio se estabeleceu em nosso cenário cultural (a inevitável paz armada) e hoje convivemos com os mais diferentes exemplos das duas poéticas antagônicas. Há até autores que, em sua produção literária, oscilam de uma para a outra com a maior segurança.

Nessa contenda de tradições, a ficção de gênero (policial, sobrenatural, erótica, científica etc.) nunca escondeu sua preferência.

A praia que costumo habitar, a ficção científica, está tão fortemente ligada à poética clássica, que ainda é difícil pra maioria das pessoas sequer imaginar uma ficção científica de natureza barroca. Essa dificuldade foi parcialmente anulada pelo movimento New Wave, que durante algum tempo promoveu a comunhão (moderada) entre forma modernista e conteúdo futurístico. Mas a escola New Wave jamais se tornou hegemônica. Tampouco a escola New Weird, nossa contemporânea. O que testemunhamos ainda hoje, principalmente nos contos e nos romances de maior sucesso comercial (best-sellers), é o triunfo da linguagem clara e objetiva.

Distante da ficção de gênero, também chamada pejorativamente de literatura de entretenimento, está a praia da ficção erudita, também chamada elogiosamente de alta literatura. Nesse território administrado por especialistas diplomados, a poética modernista sempre foi apreciada e divulgada. Graças à universidade o modernismo se tornou, no Brasil, a corrente dominante, o principal modelo de nossa literatura.

Os especialistas da ficção erudita (de modo geral, pesquisadores acadêmicos e jornalistas com pós-graduação) gabam-se de pensar em alto nível uma literatura de alto nível, para poucos. Já a galera da literatura de gênero gaba-se de produzir e fazer circular em larga escala uma literatura acessível e prazerosa. De um lado o sucesso estético, do outro o sucesso comercial.

A poética da abstração e da fragmentação sintática (às vezes elitista demais), tão apreciada pela comunidade erudita, e a poética do fotorrealismo e da clareza sintática (às vezes popular demais), tão apreciada pela comunidade de gênero, estão sempre discordando. São duas elites que levam muito a sério a divergência. Cada lado só enxerga as fraquezas do adversário, evitando assim qualquer tipo de convergência criativa.

Nesse confronto, perdem os dois lados.

Tanto a ficção erudita quanto a ficção de gênero já esgotaram há muito tempo seus recursos naturais. O problema da ficção erudita é a falta de conteúdos novos e o problema da ficção científica é a pouca diversidade formal. A ficção erudita só voltará a pensar em alto nível conceitual quando começar a expressar as questões do pós-humano, por exemplo. E a ficção científica só se tornará um gênero também de alto nível estético quando reconhecer na poética barroca uma aliada, não uma adversária.

Certa vez eu ponderei, num convite ao mainstream, que a corrente principal de nossa literatura ganharia muito se absorvesse e reelaborasse certos temas próprios da ficção científica contemporânea. Hoje vejo que esse movimento não pode ser unilateral. A ficção científica também tem muito que aprender, principalmente no campo da forma literária, com a grande ficção erudita do século 20, ligada às vanguardas artísticas.

+   +   +

Luiz Bras

Anúncios