Macacos e outros fragmentos ao acaso

Macacos

Jorge Moreira Nunes
Editora Differential
126 páginas
Lançado em 2007

Há muito tempo, queria ler um livro que falasse da minha cidade e, em pelo menos um de seus parágrafos, contemplasse uma ficção fértil em nome de um Rio de Janeiro que eu vivenciei, que não está no imaginário da mídia massiva, tão múltiplo e tão além da praia de Copacabana. Ironia ou não, esse livro existe, de certa forma, desde 1998, é um romance − feito de contos muito bem alinhavados − de ficção científica e o centro de irradiação de sua narrativa é Copacabana.

Seu primeiro conto-capítulo, Terraço, entra também na lista de ironias que experienciei para adotar Macacos e outros fragmentos ao acaso como aquele livro instigante e capaz de concentrar as experiências paradoxais e conjecturas de uma ficção que cabe na cidade que amo, expandindo-a para todos os tempos e possibilidades. É também uma viagem pelo inconsciente.

Um dos personagens mais bem elaborados por Jorge Moreira Nunes, o enxadrista Vlad, provoca o estranhamento e a empatia necessários para configurar o bairrismo ao avesso e a intelectualidade despretensiosa de botequim que dão o tom original do romance. Ganhamos um amigo, daqueles cuja amizade não entendemos por que cultivamos, mas não podemos jamais subestimar.

Os desconcertantes contos-capítulos denominados Macacos possuem o mérito inegável de brincar com o inconsciente semântico do leitor ou, numa visão menos otimista, tocar a superfície adormecida desse oceano de possibilidades cuja linguagem certamente deve diferir da lógica habitual. O projeto Macacos vai tendo sua significação e relevância esclarecidas pouco a pouco e, até as últimas páginas, parece não ter outra função que não seja incomodar o leitor, obrigando-o a improvisar um novo método de leitura lúdico e participativo, que dê conta de várias páginas de uma enorme sequência de associações livres demais ou – o leitor pode notar, desconfiado – nem tão livres assim.

O segundo conto-capítulo, Maelström, revaloriza o primeiro, mas dá também a impressão de que o todo do livro é uma obra caótica, formada apenas por fragmentos realmente ao acaso. A espinha dorsal do romance, no entanto, o refúgio seguro do La Granada – título dos capítulos que alinhavam com segurança os contos do livro – escancara ao leitor um único objetivo por trás de toda a narrativa.

As diferentes formas de realidade representadas em épocas e temporalidades distintas (que incluem também os contos-capítulos Presente de mãe, Saviana e Ourobouros) somam-se a uma desconstrução da linguagem cartesiana (Macacos) e a uma narrativa em primeira pessoa franca e intimista (La Granada), resultando num arsenal respeitável para a detonação de parâmetros mentais habituais, uma das funções mais nobres da boa ficção científica. Mas o caos furtivo é apenas o primeiro passo para a obra descomunal de construção do Inventário de todas as possibilidades humanas.

Jorge Moreira Nunes, seu alter ego ou a primeira pessoa de Macacos e outros fragmentos ao acaso, impressiona pela coragem, porque chega a um grau de vulnerabilidade ousado por poucos autores em plena narrativa literária. Que escritor não se sente tentado a incluir posfácios e prefácios no meio de sua história para torná-la menos temerária, menos solitária e – aí o grande perigo – mais indecisa? É preciso ler para entender e sentir como esse dilema se resolve.

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Ludimila Hashimoto é escritora e tradutora, especializada em ficção fantástica e ficção científica.

[ Resenha publicada originalmente no portal Overmundo. ]

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