Back in the USSR

Back in the USSR

Fábio Fernandes
Patuá Editora
224 páginas
Lançado em 2019

O sofisticado Método Frankenstein de Ressurreição®, desenvolvido pelo doutor Victor Frankenstein na Suíça, em 1794, e patenteado dez anos depois pela empresa alemã Ewigkeit, ou simplesmente a Empresa, mudou completamente o rumo da História de nossa civilização. Agora é possível ressuscitar qualquer falecido nas primeiras horas após sua morte, ou seja, antes do início da degeneração celular, preferencialmente antes do rigor mortis.

Utilizado em larga escala, o Método® beneficia praticamente todas as classes sociais. Reis, príncipes, magnatas, pop stars e também gente comum são ressuscitados cotidianamente. Só não é trazido de volta à vida as pessoas que, por razões filosóficas ou religiosas, assinam previamente um termo proibindo a ressurreição. John Lennon é uma dessas pessoas. A ressurreição nunca lhe interessou. Depois que o maluco do Mark Chapman o assassinou com cinco tiros a curta distância, em frente ao edifício Dakota, o esperado era que Lennon permanecesse pra sempre mortinho da silva. Mas Lennon ressuscitou. Ou pior, foi ressuscitado contra a sua vontade.

Nas orelhas do livro, o escritor Santiago Santos resume muito bem o contexto delirante desse thriller surrealista de Fábio Fernandes:

Aqui, os Estados Unidos não se tornaram uma grande potência depois da Segunda Guerra Mundial. Porque ela não aconteceu, e o país se dividiu em três. Como resultado, a Rússia, parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde os Bea­tles fizeram o seu melhor show nos anos 60, protagoniza a Guerra Fria com outra potência: a República de Weimar, formada por Alemanha, Áustria e Luxemburgo.

Não é só isso que causa bastante estranheza.

Há uma base secreta que estuda a vida alienígena, chamada Área 71, na Islândia. A Semana de Arte Moderna no Brasil aconteceu em 1925 e viu surgir o Manifesto necrofágico. Lee Harvey Oswald assassinou o presidente Truman. Ringo nunca tocou bateria nos Beatles. Cortázar escreveu O jogo de xadrez, Wells escreveu A ilha do dr. Favreau, Beckett escreveu Esperando Fausto e Bioy Casares escreveu A invenção de Frankenstein. Este último não por acaso, pois o cientista Victor Frankenstein realmente existiu.

O romance que Mary Shelley publicou é na verdade a biografia do homem mais importante da história moderna.

O famoso experimento que cria o monstro de retalhos humanos e energia elétrica é aperfeiçoado pela Ewigkeit, empresa alemã que patenteia em 1815 a Ressurreição®, ou o Método Frankenstein®. Um século mais tarde, durante a Grande Guerra, o método se populariza de vez e altera as ramificações históricas.

As pessoas podem voltar à vida. Não é à toa que Marx dedica um capítulo à empresa em seu O capital, ou que Baudrillard e Foucault se dediquem aos desdobramentos filosóficos dessa nova ciência, ou que Hitler nunca passe de um soldado raso.

Fato é que após o assassinato Lennon está vivo. E envolvido num intrincado jogo de espionagem industrial nesse mundo eletrificado de Fábio Fernandes, autor que há décadas vem estabelecendo quebra-cabeças literários irreverentes e cativantes, cravejados de referências ao universo pop.

Fábio Fernandes é um dos autores mais importantes da ficção científica brasileira e, em minha opinião, Back in the USSR é a sua narrativa mais instigante. Porque extrapola os limites do gênero, incorporando a malandragem, a metalinguagem, a antropofagia e o tropicalismo de nossas melhores vanguardas.

Nesse romance de humor insólito, muitos arquétipos antropológicos, históricos e científicos convergem vigorosamente, expressando um painel tragicômico de nossa milenar busca pela imortalidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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