Fanfic

Fanfic

Braulio Tavares
Patuá Editora
168 páginas
Lançado em 2019

Não é de hoje que o consenso vem dizendo que Braulio Tavares é um dos escritores mais criativos, prolíferos e versáteis de nossa literatura. Percebi isso logo na primeira vez em que visitei o superblogue Mundo Fantasmo, vasto território que abriga uma quantidade imensa de ensaios, artigos, contos, crônicas e resenhas surpreendentes, sobre todos os assuntos.

Esse paraibano radicado no Rio de Janeiro também faz parte do pequeno time de escritores de altíssimo nível que há três décadas vem impulsionando a ficção científica e a ficção fantástica brasileiras, com narrativas de qualidade inquestionável.

Agora, uma pequena parte da grande produção de Braulio Tavares foi reunida nesta coletânea de espantos e epifanias, batizada com um título inusitado: Fanfic.

São vinte e duas ficções (contos e minicontos) em que nossa cotidiana noção de realidade é posta em xeque, das mais variadas maneiras. Muitas vezes com um bem-vindo toque de humor e irreverência.

A cultura enciclopédica do autor promove nesta coletânea − e praticamente em toda a sua obra − um casamento virtuoso entre o pop e o erudito.

A ciência e a tecnologia mais espantosas estão a serviço da fantasia e do insólito poéticos, quase sobrenaturais, ecoando a célebre lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”

Conectados à concretude abstrata de um alien, um videogame, uma droga da inteligência, uma viagem interestelar, um experimento paranormal ou um excêntrico sonho lúcido, os protagonistas desses contos e minicontos se perdem − às vezes por puro acidente − nos labirintos e nas mandalas da linguagem e da consciência.

Durante o breve tempo da leitura, essas ficções abrem e atravessam, por meio da hiperatividade biotecnológica, as delirantes portas da percepção anunciadas por William Blake e Aldous Huxley. Ou da gloriosa máquina do mundo de Camões e Drummond.

Mas o que há do outro lado das portas da percepção? De acordo com as narrativas de Braulio Tavares, há um sem-número de outras portas, cada uma mais misteriosa do que as outras, guardando um sem-número de interrogações. Cada vez que um mistério é investigado e desvendado, outros brotam em seus interstícios, multiplicando nosso espanto e nossa ignorância.

Um bom exemplo desse fenômeno fractal é a narrativa mais longa da coletânea, intitulada O molusco e o transatlântico. Um astronauta brasileiro que pesquisa a telecinese − capacidade de mover os objetos apenas com a força do pensamento − é sequestrado de uma estação espacial por aliens, que dispensam os outros humanos da equipe internacional, ficando apenas com o brasileiro.

Por mais que o astronauta colabore e tente dialogar com seus sequestradores, tudo o que ele consegue são abstrações simbólicas e reflexos distorcidos num espelho sensorial. A interface entre ele e os aliens é um rosto humano sintético, sem corpo, brilhando no escuro e falando através de uma voz digital: “Eu sou o seu Interlocutor. Você foi convocado para trabalhar para nós.”

Fanfic é uma coletânea feita de camadas e sobreposições, em que a ficção científica e a ficção fantástica extrapolam qualquer limite de gênero. Sobre o inusitado título do livro, o autor escreveu:

A palavra fanfic é uma abreviação de fan fiction, e se refere à ficção escrita por fãs de um autor ou conjunto de autores, utilizando, sem pedir autorização, elementos criados por eles. (…) Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não acho que esteja exagerando quando chamo de fanfic esse conjunto de contos escritos como resultado da leitura de histórias alheias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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