As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

A narrativa começa tímida, mas aos poucos vai conquistando o leitor, que se encanta com o universo apresentado. Mais do que um simples cenário, o mar é o grande protagonista do primeiro romance de Aline Valek. A autora desvenda alguns de seus mistérios, apresenta seres que o habitam e prevê sua expansão com o derretimento das calotas polares, o que obrigará o sapiens a se adaptar para, quem sabe, se tornar no futuro um novo ser marinho. O livro trata também das relações do ser humano: consigo mesmo, com os outros e com o mar.

O oceano carrega muita informação e história, inclusive para se estudar o espaço sideral. A pista para isso foi terem encontrado em uma pedra, retirada do mar, uma substância que não se forma na Terra, mas é originada na explosão de estrelas: o isótopo ferro-60, com meia-vida estimada em dois milhões e seiscentos mil anos.

No romance, cinco profissionais estão isolados em uma estação submarina, a trezentos metros de profundidade, com a missão de realizar pesquisas e testar avançados trajes de mergulho em uma região de vulcões extintos. O enredo mostra os conflitos dessas pessoas confinadas em um espaço de cinco metros de largura por doze de comprimento, cada uma com seus desejos, crenças e segredos.

Corina e Arraia são mergulhadores e exploram abismos oceânicos; Suzana, engenheira naval, administra a estação; Martin, um acadêmico, estuda o som das baleias e supõe que narrem histórias, acredita em vida inteligente no fundo do mar e secretamente quer provar sua tese, no que é apoiado pelo seu assistente, Maurício. O pesquisador registra os sons vindos das profundezas e atribuí a cada um deles uma forma, uma vida, algo que baleias e golfinhos já nascem sabendo fazer.

Ao ouvir um dos sons registrado pelo pesquisador, Corina fica intrigada. Lembra uma conversa, ou uma canção, ou talvez um violino, se o instrumento tivesse vinte cordas e pudesse ser tocado embaixo da água, interagindo com o borbulhar e as correntes marítimas. Parece vir de um lugar muito anterior a qualquer outra canção, ou mesmo de outro planeta. “O doutor sabia de algo, as baleias sabiam mais que ele, e Corina, que preferia não saber de nada, acabou enxergando.”

Muitos animais marinhos são apresentados no decorrer da trama, entre eles as eremitas, que se isolam nas profundezas, alimentam-se de bactérias e podem viver de dois a três séculos, graças à capacidade de regeneração. Elas conseguem reverter o processo de envelhecimento por meio de um mecanismo biológico, que outras criaturas também possuem, entre elas as águas-vivas, que podem viver indefinidamente, a menos que sejam feridas ou devoradas.

Há também os azúlis, seres conscientes, “que refletiam muito antes de chegar a uma conclusão”. Precisavam de calor e enxofre para viver, por isso habitavam lugares próximos a vulcões submarinos. Eles compreendiam os sons das outras espécies como idiomas próprios, e se tornaram poliglotas. “Frio e solidão, para os azúlis, representavam a morte.” No auge da sua civilização, assistiram ao próprio declínio, foram se concentrando e deixaram de saber de outros da sua espécie. E então começaram a matar uns aos outros ou a cometer suicídio.

Para a autora, tanto animais quanto seres humanos precisam uns dos outros para viver, mas estabelecer vínculos não é fácil. A tripulação da estação submarina, embora tão próxima fisicamente, não consegue estabelecer uma relação de confiança.

Quando Corina conta que tem uma doença degenerativa, não encontra solidariedade nem em seu colega Arraia. Pelo contrário, a relação fica estremecida, o que fica claro nesse trecho: “Depois de mais um dia de expedição às profundezas sem nenhum problema, Corina e Arraia fizeram os relatórios e sua refeição no mesmo horário, mas sozinhos, cada um em seu canto, envoltos por uma espessa armadura que não era o traje que usavam para trabalhar, mas o silêncio que escolheram vestir para conviver.”

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Sonia Nabarrete é jornalista e ficcionista, autora de Eretos e Contos safadinhos.

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