2084: mundos cyberpunks

2084 mundos cyberpunks

Lidia Zuin (organização)
Lendari Editora
224 páginas
Lançado em 2019

As obras-primas inaugurais do cyberpunk surgiram na primeira metade dos anos 80, mas a atmosfera sombria dessa poética transgressora − muito mais sombria e transgressora na literatura do que nos quadrinhos, nos filmes, nas séries, nos games e nos clipes − continua fascinando autores e leitores do mundo todo. A constante renovação do gênero parece acompanhar uma contagem regressiva… Como se nossa sólida realidade empírica realmente estivesse se modificando na direção dessa insólita irrealidade fantástica, de altíssima tecnologia e baixíssima qualidade de vida.

Na verdade, todos os indícios garantem que nosso cenário está de fato cada vez mais parecido com esse cenário povoado de inteligências artificiais, conexões cérebro-computador, piratas de dados, apocalipses políticos e ecológicos, ciborgues e híbridos, androides e ginoides, memórias implantadas, megacorporações controlando o Estado e muito mais. E é exatamente isso o que tem mantido vivo o interesse de tantos escritores e leitores: a percepção de que a cada ano estamos um pouco mais perto de realizar na sociedade inteira o que a poética cyberpunk vem realizando há um tempão na arte e na literatura.

A coletânea organizada por Lidia Zuin traz trinta e cinco narrativas curtas ambientadas em 2084. Passando os olhos pelo sumário, o leitor logo percebe que se trata de uma seleção de jovens autores, quem sabe de um espontâneo movimento de renovação. O único veterano da FC brasuca é Roberto de Sousa Causo, um dos expoentes da Segunda Onda, que comparece com um conto intitulado A luta do Cangaceiro Jedi, sobre um pixador anarquista cheio de ginga e suas ações solitárias contra o sistema.

Também dão um show de criatividade, os autores mais jovens. Por mais que a novidade-realmente-nova seja quase impossível no esgotado território do cyberpunk, ao menos metade dos autores reunidos na coletânea surpreende com ficções muito acima da média. Meia dúzia desses contos até extrapola as referências anglófonas ao expressar temas tipicamente tropicais e brasileiros, podendo ser classificada de ficção tupinipunk, uma sugestão de Roberto de Sousa Causo.

Além do conto de Causo, esses foram os que mais me agradaram, na ordem em que aparecem no livro:

O evangelho de fósforo branco, de Yago Cury
O canto do galo gaulês, de Bruno Bianchi
A diretora-analista de mídias oníricas, de Fabio Kabral
Mil e um usos para um desfibrilador cefalorraquidiano, de Thiago Loriggio
Do nada para a escuridão, de Gabriel Ferreira
Um bom momento para abrir mão de seu plano de saúde premium, de Ricardo Celestino
O pajemancer, de Mario Bentes
A verdade em 2084, de Dante Saboia
Sinal verde, de Rodrigo Ortiz Vinholo
Imagem, de Rodrigo Ortiz Vinholo

E são os contos que mais me agradaram principalmente pela sua força literária, fundada no estranhamento do normal, na remoção meticulosa da película de familiaridade que reveste nossa sociedade. Tradição que se nutre bastante do conceito de ostranênie dos formalistas russos, de unheimlich de Freud e de epifania de Joyce.

A principal função da ficção científica não é prever o futuro, como pensa o senso comum. A ficção científica é, antes de tudo, ficção. Ela responde primeiro às leis da criação literária e artística, e sua força vem da qualidade estética de suas obras-primas. Mas também é verdade que a FC é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro.

E os autores contemporâneos − da coletânea 2084: mundos cyberpunks e de outras obras igualmente inquietantes − estão fazendo previsões assustadoras… A dúvida não é mais se esses eventos e inovações acontecerão ou não. A dúvida é quando acontecerão.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.