Matando gigantes

Matando gigantes

Claudia Dugim
Patuá Editora
336 páginas
Lançado em 2019

Num estudo publicado em 2005, sobre o personagem do romance brasileiro contemporâneo, pesquisadores da UnB demostraram estatisticamente que no romance brasileiro do período analisado − entre 1990 e 2004 − os personagens são, em sua maioria, do sexo masculino, brancos, heterossexuais, de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade. De lá pra cá a situação melhorou um pouco, mas ainda é visível o desequilíbrio, a falta de diversidade social em nossa literatura contemporânea. Esse fenômeno reflete perfeitamente a histórica crise de representatividade na própria sociedade brasileira. Nossas elites patriarcais sempre reprimiram e silenciaram a multiplicidade de vozes das minorias e dos marginalizados.

A principal qualidade do romance Matando gigantes, de Claudia Dugim, é a diversidade social e cultural. Nessa narrativa ambientada no ano 2127, numa astronave que acaba de alcançar seu destino, o homem branco hetero de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade, também aparece, mas agora ele não é hegemônico. A romancista obrigou-o a dividir o palco não somente com indivíduos de outros gêneros e etnias, mas também com minúsculos humanoides com antenas, de pele azul-marinho ou verde-água, muito carismáticos e vingativos.

Há oitenta e cinco anos no espaço, o cruzador Frontier é a única nave que sobrou de um grupo de quatro astronaves colonizadoras. Em seu interior, trezentas e cinqüenta mil pessoas se acotovelam, reproduzindo as mesmas injustiças sociais e a mesma perversa luta de classes do planeta de origem, a Terra. Quando o Frontier finalmente alcança seu destino, Terra 2, os ânimos desse pessoal já estão bastante acirrados. Nesse momento tem início uma série de assassinatos estranhíssimos, que acaba jogando os cidadãos de segunda classe − latinos, índios, negros, amarelos, mulheres, comunidade LGBTQ+ etc. −, oprimidos desde sempre, contra a elite branquela que comanda a nave também desde sempre.

Os assassinatos são cometidos pelos minúsculos humanoides com antenas − autodenominados de povo das Estrelas Caminhantes −, em retaliação a um genocídio provocado involuntariamente pelos gigantes − os seres humanos − tempos atrás. Ignorantes desse fato, os cidadãos oprimidos se revoltam, pois acreditam que as mortes foram provocadas secretamente pela elite branquela, que estaria planejando uma manobra política às vésperas do desembarque. Formam-se então três núcleos antagônicos: o dos rebeldes haitianos, comandados por Mama Bá e Alfonsine, o dos privilegiados conselheiros da nave, defendido por Martina e Juan, e o dos pequeninos que vivem numa tubulação, comandados por Cherv, Uor e Gus.

Claudia Dugim planejou esse romance para o leitor jovem adulto, entre catorze e vinte e um anos. Mas é verdade que os bons livros escritos pra esse público costumam encantar também o público adulto. (Aliás, até mesmo a boa literatura infanto-juvenil beneficia-se desse fenômeno. “Uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”, dizia C.S. Lewis.). Em Matando gigantes, a liberdade e a fraternidade anarquistas − macunaímicas − do povo das Estrelas Caminhantes desativaram meu racionalismo, camada após camada, e me afetaram emocionalmente. Voltei a ser um jovem adulto. Voltei a sentir um pouco daquele prazer antigo, do meu primeiro contato com a literatura fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.