O fruto maduro da civilização + O éter inconsútil

O fruto maduro + O éter inconsútil

Ivan Carlos Regina
Patuá Editora
120 + 284 páginas
OFMDC publicado originalmente em 1993
Edição dupla lançada em 2019

Não é exagero dizer que Ivan Carlos Regina assegurou um lugar de destaque na história da FC brasileira ao publicar a coletânea de contos O fruto maduro da civilização, em 1993. Com esse breve livro, finalmente a irreverência modernista e tropicalista deram as caras em nossa ficção científica sempre tão séria e circunspecta.

Tupi, or not tupi, is that the question? That is the question, SIM.

Em 1988, o autor apoiou-se no espírito transgressor da Semana de 22, na liberdade verde-amarela de nossos principais artistas eruditos e populares, e no célebre manifesto de Oswald de Andrade, encharcado da brasilidade mais circense e iconoclasta, para propor o seu também célebre Manifesto antropofágico da ficção científica brasileira.

Os dezoito contos curtos reunidos na coletânea de 1993 − garanto que você, sofisticado leitor, encontrará muitas obras-primas entre eles − são a exemplar realização ficcional, que também inclui exercícios de estilo e linguagem, da teoria poética proposta no Manifesto.

À maneira dos tupinambás, Ivan Carlos Regina retalhou a influência estrangeira da FC literária e audiovisual, temperou-a com o melhor de nossa maneira muito tropical, muito carnavalesca de habitar este pedaço de terra chamado Pindorama, deglutiu, lambeu os beiços e regurgitou uma iguaria saborosíssima.

O éter inconsútil, por sua vez, traz sua produção ainda inédita em livro, reunida nos últimos vinte e sete anos. Garanto que você, sofisticado leitor, também encontrará muitas obras-primas aqui. São três dezenas de ficções curtas que transitam na avenida aberta por O fruto maduro da civilização, mas de modo independente, privilegiando mais o assunto do que os exercícios formais. Estes ainda estão presentes, mas em segundo plano.

Filosófica e existencial é a tônica da maioria dos contos, sobretudo dos mais reflexivos, em que o autor trata dos conflitos sociais e políticos, dos defeitos e virtudes do bicho humano. É claro que Ivan faz isso sem abrir mão do bom humor, sempre tirando sarro do lado ingênuo ou ridículo de certos comportamentos civilizados.

Seu humor é direto e transparente, na tradição dos melhores humoristas que Pindorama já teve. Abraçado ao caipora caipira, aos skinnots e ao homem que purpurava, Ivan inaugurou entre nós a ficção científica brejeira. A deliciosa sci-fi chanchada.

O volume da Patuá Editora traz também o artigo Meandros tecnológicos, uma breve introdução à FC de Ivan Carlos Regina, escrita pela pesquisadora norte-americana Karina Elizabeth Vázquez, da qual citarei apenas dois parágrafos:

A narrativa de Ivan Carlos Regina ocupa um lugar importante no conjunto da ficção científica brasileira, desde os anos oitenta até o presente. Sua proposta estética corre por caminhos próprios que o conjunto de escritores desse gênero tem demarcado ao longo de décadas, nas quais preocupações de cunho ideológico, social e cultural têm sido prejudicadas com questionamentos de estilo estético. Porém, ao mesmo tempo, sua narrativa avança por linhas e modelos temáticos divergentes que conduzem à leitura reflexiva e crítica dos paradigmas defendidos pela sociedade moderna.

Por essa razão, a ficção científica no Brasil e, em particular, os relatos de Regina, nos põem mais uma vez diante do que os estudiosos do nível de Antonio Candido (1969) ou Roberto Schwarz (1992) têm analisado em detalhe sobre a formação da cultura brasileira: a complexa relação entre a heterogeneidade cultural latino-americana e as culturas centrais europeia e norte-americana. A preocupação com a tensão ou os conflitos gerados pelas definições do que se considera como nacional ou próprio, em um conjunto cultural amplo e dinâmico, tem estado presente na ficção científica brasileira, pela forma como esse gênero tem se posicionado frente à ciência e à tecnologia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.