Contos reversos

Contos reversos

Romy Schinzare
Patuá Editora
160 páginas
Lançado em 2018

Conheci pessoalmente a escritora Romy Schinzare e seu marido Jorge Coelho, um antigo colega da USP, no evento Ficção científica brasileira: 60 anos de manifestos, quando ela me deu um exemplar do seu Contos reversos. O livro reúne histórias de fantástico literário, absurdismo, e daquela narrativa de FC ou fantasia que costumo chamar de “histórias tipo Além da imaginação”. Nelas, o absurdo ou o fantástico entram no cotidiano de alguma pessoa ou pessoas, de modo relativamente restrito e mais com um caráter pessoal e humano. Menos épico, digamos. Nesse tipo de história há espaço também para a tão necessária franqueza na denúncia e no comentário moral.

Assim, em Ministério da solidão tem-se uma fábula sobre uma gente meio mole que nasce em cachos, uma espécie de humanos artificiais, individualistas e consumistas, que, como as salamandras do livro de Karel Capek, vão se multiplicando e ameaçando dominar o mundo: os Bananas. O prédio é uma fábula distópica sobre essa construção que hierarquiza burocraticamente a vida em um mundo de alta tecnologia, como no livro de Ruth Bueno, Asilo nas torres (1979). Mais longo e desenvolvimento mais pausado, O colecionador é uma história de horror com uma atmosfera bem firmada, sobre uma assustadora coleção de corujas.

No curto Mrs. Liberty, a Estátua da Liberdade ganha vida em Nova York, antes de fugir, desiludida com o desvirtuamento pelas autoridades americanas. Em Os robôs de Marte, autômatos enviados ao Planeta Vermelho fundam a sua própria sociedade e retornam à Terra para capturar humanos, como nos velhos filmes B, e em Marte esses humanos e descendentes se tornam uma subclasse em revolta contra as máquinas. Canal 66 é bem Além da imaginação, menos panorâmico e mais centrado em personagens, tratando de um programa de tevê que captura, literalmente, os seus espectadores. Buraco de minhoca é uma FC sobre uma primeira missão espacial a Marte, narrada pelo ponto de vista de um cosmonauta russo que se depara com um portal dimensional no caminho.

A tendência internacionalista das histórias de Schinzare é repetida em Operação Baltimore, ambientada no Sul dos EUA e tratando da violência racial e de uma sociedade secreta destinada a combater, com ferro e fogo, a Ku Klux Klan. O vampiro de Santa Efigênia é outra história de horror e crime, enquanto Moça enluarada brinca com situações de ufologia mascarando um golpe imobiliário, e Rede ZZZ traz outra alegoria da alienação causada pela tevê e outros aparelhos que funcionam como muletas emocionais. Oziris é FC alegórica sobre alienígenas infiltrados na Terra, e finalmente Mutantes é outra narrativa irônica e alegórica que emprega elementos de ficção científica para tratar dos absurdos do cotidiano. Vale citar o prefácio de Caio Bezarias, autor de Totalidade pelo horror: o mito e a obra de Howard Phillips Lovecraft:

Romy Schinzare é um desses poucos autores em língua portuguesa que adotam o gênero fantástico sem se limitar a seus frequentes lugares comuns e clichês, inclusive usando-os com inteligência, vazando seus contos em uma linguagem cuidadosa, simples e desprendida, para mostrar que o impossível, o aterrador e o incrível estão muito mais perto de irromper em nossa realidade do que concebemos.”

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Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Universo Galaxis. ]