Gastaria tudo com pizza

Gastaria tudo em pizza

Pedro Duarte
Editora Pipoca & Nanquim
228 páginas
Lançado em 2019

A pizza talvez tenha sido a escolha mais acertada do autor para trabalhar com o que, de alguma maneira, sacia corpo e alma no tempo presente, mesmo podendo ocasionar azia, má digestão ou uns quilinhos a mais no futuro. Pedro Duarte, no romance Gastaria tudo com pizza, faz da viagem no tempo e de um dos pratos mais desejados na mesa de um paulistano médio feito eu uma série de buscas incondicionais para otimizar e saciar o momento presente.

O livro apresenta um fim de semana bem atípico na vida de três personagens, reunidos pela insatisfação com a existência que levam. Bob trabalha em uma loja de materiais de construção, Casa & Lar. Passa por uma fase complicada da vida em que as pessoas a seu redor não o encantam mais. Nas horas livres, dedica-se à customização de uma antiga máquina de escrever azul-bebê. Dada sua genialidade, consegue percorrer com ela o multiverso espaço-temporal e ter experiências com alienígenas e outras versões de pessoas que ele conhece na Terra em que nasceu.

Nina, por sua vez, é repórter de uma emissora de tevê de destaque na cidade. Realiza, a contragosto, matérias jornalísticas pró-governo e passa por uma situação vexatória após uma cobertura trágica em um buraco numa via pública. O ponto alto da personagem são as tiradas ácidas que envolvem a apresentação de sua rotina de trabalho, como o fato de ter de defender que a culpa da existência do buraco não é a ausência de políticas públicas, mas o excesso de chuva no verão.

Por fim, temos Nelson, um ghost-writer e tradutor, do orientação niilista-marxista, que enxerga no sistema público, na vida privada e na cultura atual as mazelas que desgraçam as classes menos privilegiadas da sociedade e, consequentemente, a sua própria vida.

Com enunciados que lembram muito o estilo narrativo de Douglas Adams, o escritor Pedro Duarte apresenta uma ficção da cena urbana brasileira (talvez em uma perspectiva sul-sudeste, posto que é com essa que eu estou mais familiarizado). Isso se dá principalmente pela presença constante do niilismo, que surge para delinear o estado psicológico das personagens.

Bob, Nina e Nelson buscam um sentido à sua existência, em todos os acontecimentos apresentados na ficção. Dada a dificuldade de os personagens não conseguirem flexibilizar o peso das coisas, cada um está a serviço do ou-tudo-ou-nada, subordinados a uma vida sistematizada no bem e no mal, no certo e no errado, no sucesso e na falência. Ainda, tomam a trajetória percorrida a partir de uma organização muito rígida que não enxerga um meio-termo entre o sucesso e o fracasso total. Dessa maneira, presenciamos personagens que chegam ao ponto máximo do desânimo e passam por um processo de tomada de consciência, compreendendo que todos os esforços são dispendiosos e levam à perda de tempo. Sobra para o leitor acompanhar os episódios de desespero das personagens e torcer pra que a viagem no espaço-tempo lhes ofereça uma alternativa de vida menos dispendiosa.

Outro destaque importante é o cuidado que a editora Pipoca & Nanquim tem com o livro enquanto objeto estético. A capa e o projeto gráfico de Giovanna Cianelli traduzem uma sensibilidade semiótica com a história contada. Cada capítulo conta com um conjunto de ilustrações que, além de brincar com a diagramação das palavras, ampliam a imersão do leitor na narrativa. O tempero final são os detalhes verdes fluorescentes na capa e na lombada.

Em linhas gerais, Gastaria tudo com pizza, de Pedro Duarte, é um livro prazeroso, que você mata em uma assentada e termina a última página com muita vontade de uma gloriosa pizza de atum.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com doutorado em Linguística.