Brasa 2000 e mais ficção científica

Brasa 2000

Roberto de Sousa Causo
Patuá Editora
204 páginas
Lançado em 2020

Roberto de Sousa Causo, sem dúvida um dos mais completos e competentes escritores brasileiros de literatura fantástica, tem uma obra extensa, que vai da fantasia urbana (A corrida do rinoceronte) à space opera (Shiroma, matadora ciborgue), passando pela fantasia heroica baseada nos romances de espada-e-feitiçaria (ou borduna-e-feitiçaria, como o autor se refere ao romance A sombra dos homens) e pelo horror (Mistério de Deus). Também merece destaque a sua obra de ficção científica militar, como os excelentes O par e Selva Brasil.

Mais recentemente, Causo vem recebendo atenção pelo seu projeto mais ambicioso: o Universo GalAxys, uma série de space opera ambientada quinhentos anos no futuro, prevendo uma época em que a humanidade teria dominado a viagem interestelar, aventurando-se pela galáxia e começando a manter contato com outras espécies inteligentes.

Sendo atuante na comunidade de FC brasileira desde o final dos anos 1980, Causo não contribui somente como autor, mas também como ilustrador, tradutor, crítico, pesquisador e, mais importante, defensor e divulgador incansável da literatura fantástica brasileira, com participações em eventos e diversos artigos publicados dentro e fora do país.

Raramente Causo decepciona seus leitores, e a chegada da coletânea Brasa 2000 e mais ficção científica é mais uma comprovação da qualidade de sua obra. O livro está dividido em quatro partes, totalizando onze textos que percorrem as diversas facetas da ficção científica do autor, mostrando sua versatilidade e capacidade criativa.

A primeira parte – Aqui, agora, futuro próximo – logo de início apresenta o surpreendente conto Infiltrado. Curto e escrito num ritmo alucinante, o texto é uma paulada que vai deixar muitos teóricos da conspiração com a pulga atrás da orelha. A mulher mais bela do mundo mostra o trabalho de um fotógrafo brasileiro em Nova York, trazendo à tona a questão da desigualdade e das diferenças socioculturais entre Brasil e Estados Unidos. Em seguida, vem O salvador da pátria, uma narrativa que mistura fantasia, ficção científica e esoterismo, num ambiente em que Causo parece se sentir extremamente à vontade para escrever: a selva brasileira, com seus perigos, mistérios e misticismos.

Pré-natal mistura elementos de distopias clássicas, fazendo menção clara à tendência do brasileiro de sempre procurar um herói para resolver seus problemas. Muito atual, apesar da primeira publicação já ter completado vinte anos. Para encerrar esta primeira parte, o texto que empresta o nome à coletânea: Brasa 2000. Numa São Paulo destroçada pela guerra entre Brasil e Argentina, um soldado precisa lutar pela sobrevivência ao mesmo tempo em que repensa sua existência e suas atitudes.

A luta do cangaceiro jedi abre a segunda parte do livro: Tupinipunk, um termo criado pelo próprio Causo para apresentar seu cyberpunk à moda brasileira. A escolha desse conto não poderia ser mais acertada: um pixador perito em artes marciais luta contra o sistema, nas ruas de um bairro da elite paulistana. O autor insere de forma competente um subgênero consagrado da FC mundial na realidade brasileira.

Em Para viver na barriga do monstro, vê-se que o fim do mundo tem diversas conotações, podendo ser individual ou coletivo, com implicações diferentes para cada realidade. Neste texto trágico e bonito, o leitor é convidado a refletir sobre quais valores realmente importam.

A segunda parte do livro fecha com Vale-tudo, um dos melhores textos dessa coletânea e um cyberpunk clássico: sociedade degradada, megalópole caótica, catástrofe climática, megacorporações, complô para alterar a ordem mundial. Um ex-lutador de MMA com altas ambições políticas é investigado por uma das mais prestigiadas jornalistas do mundo, num conto praticamente irretocável recheado de tecnologia de ponta e conspirações.

A vitória dos minúsculos e Dactilomancia constituem a terceira parte do livro, Steampunk. O destaque vai para o primeiro, uma homenagem muito bem feita ao clássico A guerra dos mundos, de H.G. Wells. A escrita aos moldes do século 19 é agradável e chama a atenção pela fluidez.

A quarta e última parte do livro – Space opera – traz apenas um conto: Tengu e os assassinos. A única menção ao Universo GalAxis nesta coletânea é um texto brilhante. Nele, o leitor é apresentado a Jonas Peregrino e Shiroma, as duas personagens principais dessa ambiciosa série, em seu primeiro encontro. Passado num planeta distante com colonização japonesa, Tengu reúne estratégia militar com ficção científica, mesclando aventura e poesia.

A escolha de Tengu e os assassinos para fechar o livro é significativa. De modo consciente ou não, o texto é uma síntese da escrita competente de Causo. Seja pela pesquisa cuidadosa ou pela maneira sutil com que temas importantes como diferenças culturais e respeito à vida são inseridos num excelente conto de space opera, o texto merece ser lido mais de uma vez.

As onze ficções que compõem este volume formam um conjunto sólido e de alto padrão. Poucos autores brasileiros de ficção científica conseguem manter um nível tão alto de qualidade do início ao fim de uma coletânea. Nessas pouco mais de duzentas páginas, Causo apresenta um trabalho bem feito, mostrando uma FC rica e humanista, com preocupações reais, tocando em temas relevantes como o racismo, a desigualdade social e a preservação ambiental.

Brasa 2000 e mais ficção científica é leitura obrigatória para qualquer leitor que se considere apreciador de ficção científica, não só pela qualidade da obra, mas pela relevância do autor.

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Daniel Borba é escritor de ficção científica e criador do blogue Além das Estrelas.