B9

B9

Simone Saueressig
Editora Clube de Autores
316 páginas
Lançado em 2011

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul.

O romance B9 mostra uma nave de gerações chamada NCA 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave atinge um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave.

O palco para um bom romance hard de FC já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de B9. Mas quem é B9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comuns em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semiabandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando até mesmo sua morte. E assim nasce B9, nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.

Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a NCA para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente B9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Conduzida tanto pelo comandante quanto por sua neta, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é se possível tentar resgatá-lo.

O romance é intenso e com muito movimento. De saída chama a atenção, em suas primeiras páginas, a objetividade e o poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas esse é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.

Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere essas questões como leitmotiv da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges / B9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague a dor e a vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.

O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso, que sabem como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.

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Marcello Simão Branco é pesquisador de ficção científica e coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque de Arte Fantástica Brasileira. ]

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QUAD 1

Quad

Diego Sanchez, Aluísio C. Santos, Eduardo Schaal e Eduardo Ferigato
Quad Comics
116 páginas
Lançado em 2013

Quadrinhos não são o foco principal do blogue Ficção Científica Brasileira, mas consegui convencer o Luiz Bras de que este excelente trabalho coletivo merecia um pouco mais da atenção de nossos leitores.

No final do século 21, o evento conhecido como A Tempestade eliminou toda a tecnologia do planeta e causou severas alterações climáticas. Nações deixaram de existir e a telecomunicação tornou-se passado. Os sobreviventes herdaram um ambiente inóspito, alguns fundando novas sociedades, outros buscando o isolamento. As quatro Naves-Arca, enviadas aos confins da galáxia por uma coalizão global de cientistas antes do cataclismo, fundaram colônias que agora vasculham o espaço a procura de um novo lar para a humanidade.

QUAD é uma antologia de quadrinhos financiada coletivamente através da plataforma Catarse, idealizada por Diego Sanchez, Aluísio Cervelle Santos, Eduardo Schaal e Eduardo Ferigato. As histórias são independentes, mas compartilham o mesmo universo ficcional pós-apocalíptico.

Em Terah & Elvis, de Schaal, uma técnica em manutenção é contratada para realizar um trabalho em uma região hostil, a Zona Sete. Terah e seu gato Elvis enfrentam mutados e a desolação para realizar reparos para uma cliente suspeita.

Santos apresenta ESP-Tret sobre um androide exorcista de softwares paranormais que investiga a violação das Três Leis da Robótica de Isaac Asimov, resultando na morte de duzentas pessoas, causada por construtores mecanizados na metrópole FZ-402, de onde ninguém entra e ninguém sai e a maioria dos humanos é castrada para manter o controle populacional.

Eko é um trabalhador em uma cidade regida por robôs em Muros, de Sanchez, onde a vida é dominada pela monotonia e a única ocupação é o trabalho. Ao encontrar uma gangue de motoqueiros conhecidos como os Lixeiros, ele tem o primeiro contato com o conceito de liberdade. A edição fecha com Sally, de Ferigato. A Explorer 202 está presa em um sistema solar distante devido a danos no sistema de dobra. O capitão Lucas e o imediato R. Daniel encontram em um planeta desconhecido os destroços de um cargueiro que pode conter as peças necessárias para o reparo de sua nave.

O projeto QUAD foi lançado no Catarse em 2013 e logo se tornou um sucesso de arrecadação. A meta de quinze mil reais foi ultrapassada, atingindo o impressionante valor de vinte e seis mil reais, oferecidos por quase seiscentos colaboradores. Outras duas edições foram financiadas entre 2014 e 2015, explorando os personagens e seu fascinante universo. Ainda foi lançado pelo selo Quad Comics o quadrinho Svalbard (2016) de Diego Sanchez, com uma história dos Lixeiros.

O volume ainda traz uma galeria com artes de André Toma, Marcelo Braga, Octavio Cariello, Roger Cruz, Julia Bax, Marcelo Campos e Mateus Santolouco.

As HQs da Quad Comics podem ser encontradas aqui.

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Ricardo Delfin é escritor, roteirista e – até onde se sabe – terráqueo.

Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Sozinho no deserto extremo

Sozinho no deserto extremo

Luiz Bras
Editora Prumo
320 páginas
Lançado em 2012

A despeito dos que sofrem de misantropia, viemos ao mundo para viver em sociedade. Nada somos sem o outro para nos descobrir. Se em nossa existência aprendemos realmente a conviver, é outra questão. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. E esse labiríntico estado psicológico causado, entre outras coisas, pela solidão, é a premissa de Luiz Bras em seu romance Sozinho no deserto extremo.

Nessa grande obra, o autor nos presenteia com um enredo alucinado, em que o espetáculo da loucura é a melhor companhia para o leitor.

Sozinho no deserto extremo surpreende. Especialmente por tratar a ficção científica com a seriedade que merece. Luiz Bras exercita o gênero com o cuidado e a sabedoria de quem não só conhece o ofício da escrita, mas da literatura. Tanto que o livro não se parece com um desses clichês. O conceito de Matrix, por exemplo, está mais dentro do que fora da personagem.

Davi – propositadamente o estereótipo da maioria de nós –, certa manhã se vê sozinho no mundo. Ao acordar, é invadido pela realidade do nada. Onde, todos? Mulher, filhos, vizinhos do prédio, da rua, da São Paulo inteira. Onde? Aqueles que um dia existiram se foram. O deserto que tem o caos como paisagem invadiu o universo de Davi.

Ao despertar num admirável mundo novo tudo está à disposição do protagonista, basta pegar e aproveitar. A vida realmente parece perfeita, vista por esse prisma. Será bela, a solidão? Por estar sozinho no mundo, Davi dispõe de tudo, a qualquer hora. E pode ir a qualquer lugar sem ser incomodado por ninguém. Assim, passado o susto de se ver sozinho, Davi faz exatamente igual ao personagem de Ray Bradbury, abandonado em Marte: perambula pela cidade e aproveita. O mundo é todo seu. As pessoas se foram. Restaram apenas montinhos de roupas pelo chão.

No entanto, o importante não é descobrir como todos sumiram. O mais contundente é acompanhar a trajetória de Davi e observar o poder aterrador da solidão. Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo, descansou. E no oitavo dia (que é o primeiro dia na obra de Luiz) a solidão começou a mostrar seu lado irascível, preparando-se para exterminar tudo o que foi feito.

Para matar a solidão, é preciso estar acompanhado. E uma batalha precisa ter propósitos. Não é sem razão que Davi, sozinho no deserto extremo, encontra companhia e motivos para guerrear.

Um telefonema. Depois mais. Uma mulher do outro lado da linha. Se é verdade ou imaginação de Davi, o leitor descobrirá. De todo modo, o protagonista se vê num dilema: ser um herói ou um covarde? A mulher precisa ser salva. Valerá a pena? Será ela merecedora? Existe a mulher perfeita, capaz de arrancar o homem de sua raiz com o intuito de salvá-la?

A mulher perfeita para Davi não é a do telefone. É Graça, sua amante. Graça, a boneca inflável que o acompanharia nos bons e nos maus momentos. Apesar disso (Adão e Eva – Davi e Graça), o mundo não se faz somente com um homem e uma mulher. A menina-santa, uma garota de dez anos que é encontrada brincando com um vibrador no sex shop, também povoa a solidão de Davi e se torna a razão maior de sua batalha contra os perseguidores.

Mas, afinal, quem são essas pessoas? Seriam tão-somente fruto do delírio solitário? Só há um jeito de você saber: ficar acompanhado de Sozinho no deserto extremo.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Germina. ]

Fome

Fome

Tibor Moricz
Tarja Editorial
128 páginas
Lançado em 2008

Imagine um mundo devastado por uma guerra ou uma catástrofe de proporções gigantescas. Um mundo onde não há mais ordem, governo, civilização. E principalmente onde não há mais comida. Acredite, esse mundo não é tão fácil de se imaginar. E, mesmo se você conseguir, vai ser difícil imaginar um mundo tão chocante quanto o que Tibor Moricz criou.

Fome é um fix-up, um conjunto de contos que podem ser lidos separadamente, mas se relacionam durante a leitura. Em cada um dos quinze contos apresentados, o autor nos mostra cenas diferentes de uma cidade devastada pela guerra e pela doença. Simplesmente não há mais alimento disponível, e as pessoas passam então a ter que se virar como podem.

Esse “se virar como podem” significa que o ser humano deixou de se importar com as relações familiares ou de amizade. O próximo passa a ser um concorrente pelo alimento, ou na maioria dos casos o próprio alimento. Quando a fome aperta, vale tudo: papel, terra, insetos e, é claro, outras pessoas.

Cada um dos contos-capítulos mostra um personagem diferente. Há o caçador, que sai diariamente em busca do alimento e é impulsionado pela adrenalina de matar outras pessoas. Há o erudito, que alimenta corpo e mente com o papel de grandes clássicos da literatura. Há a sedutora, que usa o que restou de beleza para atrair os homens. O renitente, que insiste em não comer carne humana, mesmo sabendo que não existe outra saída. O demente, que não sabe mais o que é real ou ilusão. Os que atacam em bando. Os que se defendem em bando. E os religiosos: pregadores, messias e salvadores, que usam o temor dos homens em benefício próprio.

A descrição que o autor faz de cada um desses personagens é fantástica. Seus medos e sentimentos são expostos de maneira chocante e assustadora.

Conversando certa vez com Tibor, ele contou que a ideia para escrever Fome veio do conto O caçador, o primeiro do livro, e um dos melhores. Essa narrativa é muito forte, e deixou o autor tão impressionado a ponto de sonhar com o que tinha escrito e na manhã seguinte concluir que ainda havia muito mais a ser explorado a partir do mesmo tema.

Não vou fazer um resumo de todos os contos, mas posso mencionar os meus preferidos:

O caçador: o conto é realmente chocante, talvez por ser o primeiro e já nos jogar nesse mundo maluco. A frieza do caçador é assustadora, e o final é surpreendente. Eu não esperava um livro tão forte e violento, e essa narrativa é uma boa amostra do que está por vir.

O pregador: gosto do apelo religioso desse conto. O discurso do pregador convence e mostra que o ser humano muitas vezes só escuta o que lhe interessa.

O obsessivo: dá para imaginar um sujeito metódico e cheio de manias vivendo num mundo assim? Pode apostar que dá.

O prisioneiro: medo e terror. É isso o que sente quem sabe que está perto da morte. O protagonista desse conto sabe que vai morrer logo, mas não sabe quando, nem como. Mas sabe que vai morrer. E ainda assim, apesar do medo, sente conforto ao crer em algo superior.

A matilha: uma verdadeira guerra de gangues entre dois grupos de caçadores. Muito sangue e violência.

O messias: no meio da sangrenta batalha entre dois grupos de caçadores, surge o messias trazendo promessas de uma vida melhor. Acredita quem quer.

Fome é um livro muito bom, muito bem escrito, mas é um livro forte. Assim como os protagonistas de cada conto, o leitor precisa ter um estômago resistente. Ao final da leitura, carne rasgada com os próprios dentes, sangue para matar a sede, nervos e músculos sendo devorados com apetite, tudo isso passa a ser coisa normal.

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Daniel Borba é ficcionista e resenhista, tendo participado da coletânea Nevermore e organizado a coletânea 2013: Ano Um, com Alícia Azevedo.

[ Resenha publicada originalmente no blogue Além das estrelas. ]

Corrosão

Corrosão

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
292 páginas
Lançado em 2018

Foi uma surpresa bastante prazerosa, este romance de FC hard do teólogo e ensaísta carioca Ricardo Labuto Gondim, também autor da coletânea de ficções e reflexões Deus no labirinto (2016) e do thriller policial B (2013). Talvez sua obra esteticamente mais ambiciosa, Corrosão é uma poderosa narrativa de confronto e descoberta, feita de camadas que vão se sobrepondo devagar, com vigorosa elegância.

O cargueiro Nikola Tesla, com duzentos e oitenta metros de casco, é o triunfo da engenharia espacial do século 22. Conduzido por uma sofisticada inteligência artificial, dezenas de robôs e apenas seis tripulantes humanos altamente treinados, sua primeira missão é viajar até as imediações de Plutão, interceptar um grande asteroide e extrair dele um óxido precioso inexistente na Terra, com propriedades supercondutoras.

Mas nas proximidades de Júpiter surge uma anomalia astronômica que chama a atenção primeiro do sistema de bordo do Nikola Tesla, depois de sua tripulação: uma vasta nuvem vermelha de hidrogênio, anelar, contendo uma nuvem verde de metano e enxofre, elíptica, por sua vez contendo nada mais nada menos que o lendário Titanic, duzentos e quarenta anos depois de seu naufrágio.

Obviamente a grande questão que impulsiona o enredo é: de que maneira o maior transatlântico de seu tempo se deslocou do fundo do oceano para as proximidades de Júpiter? Essa situação insólita mobiliza o controle da missão, na Terra, e os tripulantes do Nikola Tesla. O raríssimo óxido do asteroide não é mais prioridade.

Nas mãos de um ficcionista mediano, esse mistério seria, sozinho, o centro do sistema narrativo. Mas nas mãos de Ricardo Labuto Gondim ele é, digamos, uma das estrelas de um sistema estelar binário. Interagindo com o mistério do Titanic existe outra intensa força de atração literária: o drama humano. Na maior parte do romance, acompanhamos o atrito às vezes epidérmico, às vezes profundo, que aquece a coreografia da equipe do cargueiro espacial.

Os personagens − suas idiossincrasias, habilidades e inquietações − são muito bem desenhados pela mão segura do romancista, mas dois se destacam: o capitão Mravinsky e a inteligência artificial A.N.N.A. Fã confesso de Moby Dick e Vinte mil léguas submarinas, Ricardo Labuto Gondim, além de exercitar uma escrita minuciosa, rica em detalhes técnicos e psicológicos, muito apreciada pelos melhores escritores realistas do século 19, se inspirou em dois grandes capitães da literatura universal, Ahab e Nemo, para criar seu Mravinsky, um oficial enérgico e culto, apreciador de literatura e música eruditas.

A serviço da Corporação que investiu pesado em sua construção, o sistema neuromórfico A.N.N.A. e a espaçonave são uma coisa só, corpo e mente entrelaçados produzindo um magnífico veículo autoconsciente. O comportamento lógico da IA, nos momentos em que o comportamento biológico da tripulação humana é tingido por traços emocionais, produz um contraste muito bem-vindo. Onipresente, A.N.N.A. interage com os nanorrobôs na corrente sanguínea dos tripulantes, com o compartimento criogênico, com os grandes reatores e propulsores da nave etc.

Enquanto isso, lá fora… A carcaça do Titanic. Tão fantasmagórica quanto a baleia branca do romance de Melville. No decorrer da história, outros fenômenos até mais surpreendes farão o narrador onisciente, estarrecido, concluir que “a irracionalidade dos eventos implicava na ideia de que o absurdo era uma das muitas possibilidades do universo”.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

O disco I – A viagem

O disco I - A viagem

João Carlos Marinho
Global Editora
146 páginas
Lançado em 1996

O escritor carioca João Carlos Marinho deu novo fôlego à literatura infantojuvenil na década de 70 quando da publicação de sua consagrada obra O gênio do crime. Seu livro Sangue fresco abocanhou todos os grandes prêmios de literatura infantojuvenil em 1982: Altamente Recomendável para o Jovem (FNLIJ), Grande Prêmio de Literatura Juvenil (APCA) e Jabuti (CBL).

Embora bastante premiado, não me pareceu muito fácil encontrar dados biobliográficos sobre o autor e sua obra. Uma busca na internet me diz de seus estudos: antigo curso primário em Santos; ginásio no Colégio Mackenzie, em São Paulo; colegial na Suíça e bacharelado em Direito na USP. A partir de 1965, divide seu tempo entre a advocacia e a literatura. E a partir de 1987 − raridade! − consegue viver exclusivamente como escritor.

Aqui nos interessa a obra O disco, lançada pela Cia. das Letras em 1996 (ano do famigerado caso do ET de Varginha). Em 2006, a obra foi relançada pela Global como O disco I − A viagem, seguida de sua continuação O disco II − A catástrofe do planeta Ebulidor.

Neste livro, Marinho utiliza-se das personagens de sua turma do gordo (que na nova edição surge sempre com letra minúscula) para a aventura. Elas são recorrentes em seus livros, embora estes possam ser lidos de forma independente. A turma do gordo é constituída por crianças de classe média alta, sadias, mimadas e espertas, que contam com o auxílio de alguns adultos para a resolução de seus problemas.

A obra se divide em duas partes: Livro principal − A viagem e Livro final − Voltando para casa. Descrições bem construídas e diálogos envolventes dão enorme agilidade aos seus vinte e nove capítulos, cheios de pequenas aventuras.

O disco é uma nave transparente, que faz projeções de realidade virtual para ficar indetectável, encontrada em Monte Verde, Minas Gerais. Sabendo que as tecnologias descritas nos livros de ficção científica quase sempre se tornam realidade no futuro, já informo que estou aguardando o sistema autolimpante do chão, descrito por Marinho.

É no disco que as personagens irão viajar para outro sistema solar muito distante do nosso, em companhia de seres peludos e de fala estranha, que eles apelidaram de brucutus. Aos poucos, a turma do gordo vai compreendendo os hábitos daquelas criaturas e o funcionamento do disco.

As personagens mais intrigantes da obra, porém, são criaturas vegetais que botam ovos e se alimentam de… orelhas! Delas dependerá a salvação de toda a turma. Gordo e Berenice, inclusive, recebem a incumbência de chocar um ovo cada um.

Como os brucutus são muito mais fortes e mais ágeis que a turma do gordo, os heróis juvenis se deixam levar no disco sem grandes resistências. Porém, sabem que suas vidas correm perigo se entrarem em contato com a gravidade diferente de outro planeta.

Algo semelhante acontece conosco, leitores: nos deixamos levar pela força da narrativa, sem muitos questionamentos, pois a magia da ficção científica é mais forte do que nós.

Sendo os heróis da narrativa crianças, essa leitura é recomendada para a infância de terráqueos e ETs.

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Elaine Valeria é educadora e escritora, tendo participado de dois volumes da coletânea Hiperconexões: realidade expandida.