As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

A narrativa começa tímida, mas aos poucos vai conquistando o leitor, que se encanta com o universo apresentado. Mais do que um simples cenário, o mar é o grande protagonista do primeiro romance de Aline Valek. A autora desvenda alguns de seus mistérios, apresenta seres que o habitam e prevê sua expansão com o derretimento das calotas polares, o que obrigará o sapiens a se adaptar para, quem sabe, se tornar no futuro um novo ser marinho. O livro trata também das relações do ser humano: consigo mesmo, com os outros e com o mar.

O oceano carrega muita informação e história, inclusive para se estudar o espaço sideral. A pista para isso foi terem encontrado em uma pedra, retirada do mar, uma substância que não se forma na Terra, mas é originada na explosão de estrelas: o isótopo ferro-60, com meia-vida estimada em dois milhões e seiscentos mil anos.

No romance, cinco profissionais estão isolados em uma estação submarina, a trezentos metros de profundidade, com a missão de realizar pesquisas e testar avançados trajes de mergulho em uma região de vulcões extintos. O enredo mostra os conflitos dessas pessoas confinadas em um espaço de cinco metros de largura por doze de comprimento, cada uma com seus desejos, crenças e segredos.

Corina e Arraia são mergulhadores e exploram abismos oceânicos; Suzana, engenheira naval, administra a estação; Martin, um acadêmico, estuda o som das baleias e supõe que narrem histórias, acredita em vida inteligente no fundo do mar e secretamente quer provar sua tese, no que é apoiado pelo seu assistente, Maurício. O pesquisador registra os sons vindos das profundezas e atribuí a cada um deles uma forma, uma vida, algo que baleias e golfinhos já nascem sabendo fazer.

Ao ouvir um dos sons registrado pelo pesquisador, Corina fica intrigada. Lembra uma conversa, ou uma canção, ou talvez um violino, se o instrumento tivesse vinte cordas e pudesse ser tocado embaixo da água, interagindo com o borbulhar e as correntes marítimas. Parece vir de um lugar muito anterior a qualquer outra canção, ou mesmo de outro planeta. “O doutor sabia de algo, as baleias sabiam mais que ele, e Corina, que preferia não saber de nada, acabou enxergando.”

Muitos animais marinhos são apresentados no decorrer da trama, entre eles as eremitas, que se isolam nas profundezas, alimentam-se de bactérias e podem viver de dois a três séculos, graças à capacidade de regeneração. Elas conseguem reverter o processo de envelhecimento por meio de um mecanismo biológico, que outras criaturas também possuem, entre elas as águas-vivas, que podem viver indefinidamente, a menos que sejam feridas ou devoradas.

Há também os azúlis, seres conscientes, “que refletiam muito antes de chegar a uma conclusão”. Precisavam de calor e enxofre para viver, por isso habitavam lugares próximos a vulcões submarinos. Eles compreendiam os sons das outras espécies como idiomas próprios, e se tornaram poliglotas. “Frio e solidão, para os azúlis, representavam a morte.” No auge da sua civilização, assistiram ao próprio declínio, foram se concentrando e deixaram de saber de outros da sua espécie. E então começaram a matar uns aos outros ou a cometer suicídio.

Para a autora, tanto animais quanto seres humanos precisam uns dos outros para viver, mas estabelecer vínculos não é fácil. A tripulação da estação submarina, embora tão próxima fisicamente, não consegue estabelecer uma relação de confiança.

Quando Corina conta que tem uma doença degenerativa, não encontra solidariedade nem em seu colega Arraia. Pelo contrário, a relação fica estremecida, o que fica claro nesse trecho: “Depois de mais um dia de expedição às profundezas sem nenhum problema, Corina e Arraia fizeram os relatórios e sua refeição no mesmo horário, mas sozinhos, cada um em seu canto, envoltos por uma espessa armadura que não era o traje que usavam para trabalhar, mas o silêncio que escolheram vestir para conviver.”

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Sonia Nabarrete é jornalista e ficcionista, autora de Eretos e Contos safadinhos.

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Mestre das Marés

Mestre das Marés

Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
288 páginas
Lançado em 2018

Meu primeiro contato imediato de altíssimo grau com a ficção científica foi agenciado, ainda na infância, pela televisão (em preto e branco): Viagem ao fundo do mar, Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Terra de gigantes… A ficção científica literária surgiu em meu radar somente na puberdade, anos depois das viciantes séries ianques. O início da leitura de contos e romances foi estimulado, nessa época, principalmente pelo cinema: Guerra nas estrelas, Contatos imediatos do terceiro grau, Galáctica: astronave de combate, Alien: o oitavo passageiro, Jornada nas estrelas: o filme

Quem acompanha de perto os dois modos de expressão, logo percebe que a diferença entre a FC audiovisual e a FC literária não é apenas estrutural (texto impresso numa página, de um lado − imagens em movimento e sonoplastia, do outro). Há uma perceptível diferença de inteligência narrativa. Estatisticamente, as séries e os filmes tendem a ser mais sensuais e pirotécnicos (atores bonitos, música vibrante, lutas coreografadas, explosões) e menos conceituais e abstratos (aprofundadas noções científicas, sutilezas filosóficas, inteligência tática, pragmatismo) do que os contos e os romances.

Nas space operas audiovisuais, por exemplo, nada me aborrece mais do que as batalhas no espaço. Quando duas frotas antagônicas se encontram, não há qualquer planejamento, não há a mínima estratégia. Os artilheiros e os pilotos parecem malucos chapados. Os caças voam bestamente atirando pra todos os lados. Em solo a situação não é melhor: as tropas parecem mais um bando de bárbaros desnorteados, gritando e disparando a torto e a direito.

Um dos elementos mais elaborados oferecidos pelo romance Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo, é justamente o que falta nas minisséries e nos filmes de ficção científica militar: estratégia. Partindo do pressuposto de que uma guerra interplanetária é um empreendimento caríssimo, que consome recursos impensáveis de uma civilização, cada passo precisa ser analisado exaustivamente. Como numa complexa e demorada partida de xadrez.

Estamos no século 25 e nossas humanas − demasiado humanas − disputas político-econômicas espalharam-se pela galáxia. Além da natural competição com as civilizações alienígenas, seis blocos humanos competem entre si pela soberania: Latinoamérica, Euro-Rússia, Ásia Centro-Oceânica, Aliança Transatlântico-Pacífico, Ecumênia Árabe e Federação Africana.

A nova missão do capitão Jonas Peregrino e de seu grupo armado − os Jaguares − é resgatar uma equipe de cientistas refugiados num planeta atingido pela potência devastadora de um buraco negro próximo. Mas os cientistas encontraram nos subterrâneos do planeta − cenário similar ao inferno do célebre épico de Dante Alighieri − um misterioso artefato tadai, capaz de anular as ondas de choque sísmicas e cinéticas, e de interagir com o buraco negro num nível quântico. A missão de resgate envolve também capturar essa tecnologia avançada.

Os tadais são uma raça beligerante cujo principal propósito parece ser o extermínio da humanidade e das outras raças tecnológicas. As máquinas de combate tadais são tudo o que os humanos e seus aliados conhecem dessa civilização oculta, avessa ao diálogo. Faltando pouco tempo pra destruição total do planeta pelo buraco negro, enquanto Peregrino e seu grupo combatem os robôs nos subterrâneos, as naves jaguares rechaçam as forças inimigas na órbita elevada.

Entre os antagonistas de Peregrino há ainda uma jornalista determinada a escrever um perfil depreciativo do capitão e seus Jaguares. A voz narrativa passa estrategicamente da terceira pessoa para a primeira, sempre que as inquietações da jornalista entram em cena.

Os acontecimentos narrados em Mestre das Marés ocorrem logo depois dos eventos apresentados no romance Glória sombria, lançado em 2013 (leia a resenha). Nos dois romances, a estratégia militar − entrecruzada com a estratégia moral, política e econômica − é o ponto alto. As operações são planejadas com cuidado e a argúcia administra cada lance no tabuleiro da batalha. Pra nossa sorte, a space opera militar de Roberto de Sousa Causo relaciona-se fortemente com os games-de-estratégia de ação futurista, vertente do audiovisual bem mais inteligente do que as séries e os filmes.

Outra estratégia bem conduzida fortalece Glória Sombria e Mestre das Marés: a estratégia científica e tecnológica. Mesmo quando apresentadas na forma de recorrentes info-dumps, a ciência e a tecnologia que impulsionam as naves através do espaço, ampliam os sistemas de comunicação, movimentam as armaduras de combate e refinam os implantes biocibernéticos − entre dezenas de outros equipamentos − são fascinantes, dá gosto fechar os olhos e ficar imaginando.

Também dá gosto ler uma space opera em que a maioria dos personagens é parda, negra ou índia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fanfic

Fanfic

Braulio Tavares
Patuá Editora
168 páginas
Lançado em 2019

Não é de hoje que o consenso vem dizendo que Braulio Tavares é um dos escritores mais criativos, prolíferos e versáteis de nossa literatura. Percebi isso logo na primeira vez em que visitei o superblogue Mundo Fantasmo, vasto território que abriga uma quantidade imensa de ensaios, artigos, contos, crônicas e resenhas surpreendentes, sobre todos os assuntos.

Esse paraibano radicado no Rio de Janeiro também faz parte do pequeno time de escritores de altíssimo nível que há três décadas vem impulsionando a ficção científica e a ficção fantástica brasileiras, com narrativas de qualidade inquestionável.

Agora, uma pequena parte da grande produção de Braulio Tavares foi reunida nesta coletânea de espantos e epifanias, batizada com um título inusitado: Fanfic.

São vinte e duas ficções (contos e minicontos) em que nossa cotidiana noção de realidade é posta em xeque, das mais variadas maneiras. Muitas vezes com um bem-vindo toque de humor e irreverência.

A cultura enciclopédica do autor promove nesta coletânea − e praticamente em toda a sua obra − um casamento virtuoso entre o pop e o erudito.

A ciência e a tecnologia mais espantosas estão a serviço da fantasia e do insólito poéticos, quase sobrenaturais, ecoando a célebre lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”

Conectados à concretude abstrata de um alien, um videogame, uma droga da inteligência, uma viagem interestelar, um experimento paranormal ou um excêntrico sonho lúcido, os protagonistas desses contos e minicontos se perdem − às vezes por puro acidente − nos labirintos e nas mandalas da linguagem e da consciência.

Durante o breve tempo da leitura, essas ficções abrem e atravessam, por meio da hiperatividade biotecnológica, as delirantes portas da percepção anunciadas por William Blake e Aldous Huxley. Ou da gloriosa máquina do mundo de Camões e Drummond.

Mas o que há do outro lado das portas da percepção? De acordo com as narrativas de Braulio Tavares, há um sem-número de outras portas, cada uma mais misteriosa do que as outras, guardando um sem-número de interrogações. Cada vez que um mistério é investigado e desvendado, outros brotam em seus interstícios, multiplicando nosso espanto e nossa ignorância.

Um bom exemplo desse fenômeno fractal é a narrativa mais longa da coletânea, intitulada O molusco e o transatlântico. Um astronauta brasileiro que pesquisa a telecinese − capacidade de mover os objetos apenas com a força do pensamento − é sequestrado de uma estação espacial por aliens, que dispensam os outros humanos da equipe internacional, ficando apenas com o brasileiro.

Por mais que o astronauta colabore e tente dialogar com seus sequestradores, tudo o que ele consegue são abstrações simbólicas e reflexos distorcidos num espelho sensorial. A interface entre ele e os aliens é um rosto humano sintético, sem corpo, brilhando no escuro e falando através de uma voz digital: “Eu sou o seu Interlocutor. Você foi convocado para trabalhar para nós.”

Fanfic é uma coletânea feita de camadas e sobreposições, em que a ficção científica e a ficção fantástica extrapolam qualquer limite de gênero. Sobre o inusitado título do livro, o autor escreveu:

A palavra fanfic é uma abreviação de fan fiction, e se refere à ficção escrita por fãs de um autor ou conjunto de autores, utilizando, sem pedir autorização, elementos criados por eles. (…) Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não acho que esteja exagerando quando chamo de fanfic esse conjunto de contos escritos como resultado da leitura de histórias alheias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Back in the USSR

Back in the USSR

Fábio Fernandes
Patuá Editora
224 páginas
Lançado em 2019

O sofisticado Método Frankenstein de Ressurreição®, desenvolvido pelo doutor Victor Frankenstein na Suíça, em 1794, e patenteado dez anos depois pela empresa alemã Ewigkeit, ou simplesmente a Empresa, mudou completamente o rumo da História de nossa civilização. Agora é possível ressuscitar qualquer falecido nas primeiras horas após sua morte, ou seja, antes do início da degeneração celular, preferencialmente antes do rigor mortis.

Utilizado em larga escala, o Método® beneficia praticamente todas as classes sociais. Reis, príncipes, magnatas, pop stars e também gente comum são ressuscitados cotidianamente. Só não é trazido de volta à vida as pessoas que, por razões filosóficas ou religiosas, assinam previamente um termo proibindo a ressurreição. John Lennon é uma dessas pessoas. A ressurreição nunca lhe interessou. Depois que o maluco do Mark Chapman o assassinou com cinco tiros a curta distância, em frente ao edifício Dakota, o esperado era que Lennon permanecesse pra sempre mortinho da silva. Mas Lennon ressuscitou. Ou pior, foi ressuscitado contra a sua vontade.

Nas orelhas do livro, o escritor Santiago Santos resume muito bem o contexto delirante desse thriller surrealista de Fábio Fernandes:

Aqui, os Estados Unidos não se tornaram uma grande potência depois da Segunda Guerra Mundial. Porque ela não aconteceu, e o país se dividiu em três. Como resultado, a Rússia, parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde os Bea­tles fizeram o seu melhor show nos anos 60, protagoniza a Guerra Fria com outra potência: a República de Weimar, formada por Alemanha, Áustria e Luxemburgo.

Não é só isso que causa bastante estranheza.

Há uma base secreta que estuda a vida alienígena, chamada Área 71, na Islândia. A Semana de Arte Moderna no Brasil aconteceu em 1925 e viu surgir o Manifesto necrofágico. Lee Harvey Oswald assassinou o presidente Truman. Ringo nunca tocou bateria nos Beatles. Cortázar escreveu O jogo de xadrez, Wells escreveu A ilha do dr. Favreau, Beckett escreveu Esperando Fausto e Bioy Casares escreveu A invenção de Frankenstein. Este último não por acaso, pois o cientista Victor Frankenstein realmente existiu.

O romance que Mary Shelley publicou é na verdade a biografia do homem mais importante da história moderna.

O famoso experimento que cria o monstro de retalhos humanos e energia elétrica é aperfeiçoado pela Ewigkeit, empresa alemã que patenteia em 1815 a Ressurreição®, ou o Método Frankenstein®. Um século mais tarde, durante a Grande Guerra, o método se populariza de vez e altera as ramificações históricas.

As pessoas podem voltar à vida. Não é à toa que Marx dedica um capítulo à empresa em seu O capital, ou que Baudrillard e Foucault se dediquem aos desdobramentos filosóficos dessa nova ciência, ou que Hitler nunca passe de um soldado raso.

Fato é que após o assassinato Lennon está vivo. E envolvido num intrincado jogo de espionagem industrial nesse mundo eletrificado de Fábio Fernandes, autor que há décadas vem estabelecendo quebra-cabeças literários irreverentes e cativantes, cravejados de referências ao universo pop.

Fábio Fernandes é um dos autores mais importantes da ficção científica brasileira e, em minha opinião, Back in the USSR é a sua narrativa mais instigante. Porque extrapola os limites do gênero, incorporando a malandragem, a metalinguagem, a antropofagia e o tropicalismo de nossas melhores vanguardas.

Nesse romance de humor insólito, muitos arquétipos antropológicos, históricos e científicos convergem vigorosamente, expressando um painel tragicômico de nossa milenar busca pela imortalidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Piscina Livre & Amorquia

piscinalivre-amorquia

Piscina Livre
André Carneiro

Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Amorquia
André Carneiro

Editora Aleph
200 páginas
Lançado em 1991

Da mesma maneira que só é possível dissertar sobre a felicidade quando não estamos embriagados de felicidade, só é possível dissertar sobre a utopia quando não estamos embriagados de utopia.

A felicidade é um fluxo fugaz. Quem está feliz não tem consciência de que está feliz, pois a consciência de algo exige racionalização. E a felicidade − tanto quanto o orgasmo − é pura sensação, uma experiência avessa a qualquer tipo de racionalização. Que só será possível mais tarde, quando o breve orgasmo da felicidade já começar a se dissipar.

A utopia erótica pensada por André Carneiro, apresentada em vários contos mas detalhada principalmente nos romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991), produz uma desconforto fascinante em nós que nunca tivemos a oportunidade de viver numa utopia. O desconforto de saber que a felicidade social e individual só será possível numa sociedade sem liberdade.

A utopia erótica pensada por André Carneiro só se mantém no prumo porque dispõe de eficientes mecanismos de controle social, aperfeiçoados com a ajuda de uma entidade todo-poderosa chamada Computador Central, substituta tecnológica do nosso enigmático Deus, mas igualmente enigmática.

Em Piscina livre e Amorquia temos uma sociedade hedonista que vive intensamente sua sexualidade exuberante, sem qualquer restrição moral ou religiosa. Boa parte da alta tecnologia foi desenvolvida pra atender os protocolos do poliamor e do pansexualismo. Os tabus sexuais de nossa sociedade foram abolidos, são coisa do passado, de gente infeliz e ignorante.

Não há qualquer impedimento afetivo ou jurídico: todos fazem amor com todos, porque aprenderam muito cedo que o desejo só não degenera quando é totalmente livre. Essa é a suprema felicidade social: o fim do casamento e da tradição monogâmica.

Crianças e adolescentes aprendem na escola as técnicas mais sutis do amor físico. A arte e a religião louvam a beleza estética e esotérica da cópula. Em Piscina livre, para o uso exclusivo principalmente das mulheres foram criados os atenciosos androides sexuais, que dominam todas as técnicas da sedução e do prazer. Em Amorquia, a morte é um fenômeno quase desconhecido, a pessoas vivem indefinidamente − apenas para os jogos sexuais.

É bom lembrar que não estamos falando de romances eróticos ou pornográficos, porque não há nada de libertino ou lascivo nessas narrativas futuristas. Onde não há interdição jamais haverá devassidão. A luxúria muito bem administrada dos personagens não ultrapassa os limites do mundo ficcional. São romances filosóficos, que propõem uma reflexão refinada e objetiva, livre de (nossos) preconceitos.

André Carneiro propõe que a humanidade só encontrará a sanidade física e mental quando deixar de combater o mais potente de todos os impulsos biológicos. Porém o autor introduz em sua fórmula da felicidade um elemento inaceitável pra qualquer defensor da democracia liberal e das liberdades civis: o Computador Central, uma entidade paternalista, onisciente e onipresente, que administra cada detalhe da utopia.

Qual sociedade é a melhor: a utopia erótica, caracterizada pelo bem-estar social e individual numa sociedade sem liberdade, ou a nossa, caracterizada pelo mal-estar social e individual numa sociedade com algumas liberdades? Essa é a grande questão apresentada pelos dois romances. Questão complexa, que os apressadinhos tratam de responder apressadamente, sem muita reflexão.

Os apressadinhos rapidamente consideram uma sociedade pautada pela felicidade-sem-liberdade uma distopia. Ou, na melhor das hipóteses, uma utopia triste. É o que dizem há décadas, por exemplo, da sociedade de castas bem-adaptadas e felizes apresentada no romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Nossa sociedade fracassou e continua fracassando ao lidar com nossos apetites e nossos demônios íntimos. Basta ver a quantidade absurda de psicopatas e sociopatas, tribunais e prisões, massacres locais e guerras mundiais. Mesmo assim, os apressadinhos rapidamente condenam, nas utopias futuras, a liberdade sexual e o uso de drogas perfeitas − soma (Admirável mundo novo) e mep-14 (Piscina livre) − que anulam a tristeza e a depressão, sem qualquer efeito colateral.

Pois saibam que se pudesse escolher, eu preferiria mil vezes ser um ípsilon bem adaptado e feliz, vivendo entre ípsilons bem adaptados e felizes, num Estado Mundial futuro, do que continuar sendo um (escritor) brasileiro mal adaptado e infeliz, vivendo entre (escritores) brasileiros mal adaptados e infelizes, com algumas poucas liberdades civis. Toda a corja política que vem nos (des)governando desde as capitanias hereditárias não vale dez por cento do Computador Central.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

A antologia Fractais tropicais propõe ser um panorama representativo da aventura de produzir literatura de ficção científica no Brasil, a partir da seleção de seus principais contos na opinião do organizador, o também escritor Nelson de Oliveira. Conhecido como importante antologista das recentes gerações de escritores no Brasil, nos livros Geração 90 e Geração Zero Zero, assim como por seus próprios trabalhos, como os premiados O filho do crucificado e Poeira: demônios e maldições, entre outros, Oliveira também se tornou ele mesmo um autor de ficção científica, gênero que observa ser a alternativa mais favorável à crise de criatividade da literatura brasileira.

Do alto de suas 496 páginas, Fractais tropicais posta-se como pedra fundamental para um cânone da FC nacional, pois faz um levantamentos técnico, estilístico e histórico do gênero a partir das Ondas de autores vinculados ao movimento dos fãs (fandom), conceito consagrado entre os estudiosos de ficção científica. Dessa forma, o volume se divide em três partes, correspondendo a cada uma das ondas, apresentadas em ordem cronológica inversa, ou seja, iniciando pela terceira e voltando no tempo, como numa viagem ao passado, o que faz todo o sentido num livro de FC.

Dessa forma, o volume se inicia com a Terceira Onda, formada pelos autores que exercitam o gênero a partir do estabelecimento das redes sociais da internet na virada para o século 21, com textos de Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybilla, Cirilo Lemos, Alliah, Santiago Santos, Márcia Olivieri, Andréa del Fuego, Luiz Bras (persona literária do próprio organizador), Ademir Assunção, Tibor Moricz e Ronaldo Bressane.

Na Segunda Onda, também chamada de Geração dos Fanzines, aparecem os autores que produziram seus trabalhos ao longo dos anos 1980 e 2000 nas páginas das publicações independentes – período em que o gênero não tinha nenhum espaço no mercado formal –, dentre os quais Oliveira selecionou contos de Braulio Tavares, Ivanir Calado, Carlos Orsi, Lucio Manfredi, Fabio Fernandes, Ataíde Tartari, Finísia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Ivan Carlos Regina, Octávio Aragão e Fausto Fawcett.

Finalmente chegamos na Primeira Onda, com uma seleta de autores clássicos publicados nos anos 1960 e 1970: André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone. Poderia continuar rumando ainda mais ao passado, recuando à era pré-fandom, que tem exemplos importantes desde o século 19, mas isso por certo enfraqueceria os objetivos mais imediatos do volume.

Percebe-se que, ainda que o organizador tenha se empenhado em dar alguma representatividade aos gêneros, sempre, e ainda hoje, predomina a presença masculina entre os autores. Embora nos demais seguimentos da literatura fantástica, como a fantasia e o terror, haja uma presença feminina mais expressiva, e a Terceira Onda realmente mostre um aumento na variedade autoral, a FC continua sendo o Clube do Bolinha da literatura fantástica, e esse será um panorama difícil de mudar, pois os protocolos da ficção científica, estabelecidos nos anos 1940 e 1950 nas revistas pulp americanas, privilegiavam o público adolescente masculino.

Outras análises podem ser obtidas, mas é conveniente deixá-las para outra oportunidade. O importante agora é destacar que, com Fractais tropicais, a ficção científica dá um passo importante em direção ao estabelecimento de um campo respeitável na literatura nacional.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

Infinito em pó

infinito em pó

Luís Giffoni
Editora Pulsar
240 páginas
Lançado em 2004

O romance Infinito em pó propõe um debate sobre a (in)expressividade da vida humana. Dedicado a discutir, ao longo do desenvolvimento de cada personagem, a habilidade do homem em desenvolver tecnologias na busca de respostas para o que historicamente sempre tomamos como questões insólitas, Luís Giffoni apresenta uma (dis)topia social que dialoga com nossa contemporaneidade.

A espécie humana, em um futuro distante, paga um preço muito alto na tentativa de racionalizar o universo como um todo, uma vez que não encontra alternativas políticas que tornem as microrrelações sociais menos violentas. Oligarquias, disputas de poder, cobiça e vaidades estão presentes na vida social do homem do futuro apresentada pelo autor, e embora tais desencontros sociais não comprometam o projeto de exploração interestelar, tornam esse projeto uma grande experiência (dis)tópica. Dessa maneira, utopia e distopia caminham juntas ao longo da obra, com o intuito de traçar uma hipérbole do sapiens contemporâneo.

As habilidades de Giffoni em desenvolver as personagens e a narrativa também despertam atenção. Os personagens são influenciados por pelo menos duas angústias essenciais: a clausura de viver toda sua existência em uma nave e a responsabilidade de protagonizar uma missão que pode mudar significativamente o entendimento do ser humano como espécie. No entanto, essas sensações são reveladas ao leitor em doses homeopáticas, o que faz do autor um maestro que tem o controle da narrativa nas mãos, nos proporcionando uma experiência sinestésica do que significa estar em uma missão espacial de exploração interestelar.

O teórico Viktor Chklóvski compreende que uma das demandas do texto literário é o processo de singularização dos objetos, que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. Infinito em pó apresenta esses gestos em uma narrativa que revela, pouco a pouco, o que é viver um sonho utópico da humanidade cristã − desbravar galáxias, colonizar mundos, demarcar toda a grandeza do universo com o carimbo de domínio da humanidade − e a condição distópica do homem tão ínfimo, tão pequeno, tão singular, em meio a um cosmo gigantesco. Um cosmo infinito de um lado e, de outro, a humanidade na dimensão de pequenos grãos de areia com vaidades e muitas habilidades cognitivas.

A utopia e a distopia também estão presentes em Infinito em pó pela potência semântica da viagem espacial. Uma nave realiza uma das grandes empreitadas da humanidade: desbravar o espaço em uma longa jornada que permitirá ao homem colonizar o sistema de Alpha Centauri. Gerações nascem, se desenvolvem e morrem ao longo da viagem, sem conhecer o que seria a vida na Terra e o que seria a vida fora da nave. Os personagens centrais da trama só conhecem a Terra por um conjunto de arquivos alimentados pela inteligência artificial da nave e por um sistema de realidade imersiva que simula ambientes da fauna e da flora.

O planeta Terra, por sua vez, está em colapso político-econômico, ao mesmo tempo que possui uma integração, fruto de um processo de globalização maduro que possibilita a missão acontecer. Personagens reúnem traços multiculturais, variando do hindu ao latino-americano, no entanto, as múltiplas ambientações da nave permitem que o leitor se identifique com uma vida limitada quase ao missionarismo cristão: todos os personagens tem um objetivo, uma vida traçada, uma expectativa em torno dos resultados adquiridos ou não adquiridos, e dos juízos morais polarizados no bem e no mal.

O novo Deus que direciona as escolhas das personagens em Infinito em Pó é o progresso e a superação do humano: a vaidade em marcar território, sem saber ao certo por quê, nem para quê. O autor não deixa de lançar um olhar crítico sobre a história colonial das Américas e a presunção antropocêntrica do homem moderno. Questiona a paradoxal necessidade desse homem moderno em racionalizar o que está além de suas competências naturais. O universo é imenso, é complexo, é irracional na lógica humana.

Assim como Lovecraft cria o universo de Cthulhu e propõe que o livre-arbítrio do sapiens seja uma brincadeira dos deuses, Infinito em pó apresenta um homem desproporcional às demandas do Universo, motivado pela vaidade infantil de um dia querer atingir a onisciência e a onipresença de um cobiçado Deus cristão.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com doutorado em Linguística.