Intergalático

Intergalático

Guilherme Gerais
Avalanche Editora
176 páginas
Lançado em 2014

Os apreciadores da sétima arte ganharam mais uma fascinante obra-prima quando o genial Andrei Tarkovski levou para as telas o romance Piquenique na estrada, dos irmãos − não menos geniais − Arkadi e Boris Strugatski. Não se trata de adaptação, mas de recriação. Stalker é mais um exemplo de filme que não segue à risca o roteiro do romance de origem. As demoradas e introspectivas imagens das ruínas e da natureza, típicas da linguagem do cineasta russo, não nasceram de trechos análogos da obra literária, mas são elas que impulsionam a poesia mística do longa-metragem.

Durante minha leitura do livro Intergalático, ambicioso trabalho do fotógrafo paranaense Guilherme Gerais, senti-me um solitário stalker de Tarkovski, deambulando por uma zona misteriosa. Uma zona-experiência desabitada, mas fisicamente conectada de algum modo a outros pontos do universo. A ausência da figura humana e das cores − todas as fotos são em preto e branco − intensifica mais ainda essa solidão viajante. (Muitas páginas-imagens do livro podem ser apreciadas online em guilhermegerais.com/Intergalatico)

São paisagens áridas e semiáridas, imagens granuladas em que o traçado de vales e montanhas, a pouca vegetação e o vasto céu parecem adormecidos, à espera da próxima era geológica. São também construções em desconstrução, além de muitos artefatos e objetos abandonados, denunciando grandes ausências e pequenos esquecimentos, como se a humanidade tivesse subitamente desaparecido. Permeando tudo isso há uma série de sinais e diagramas deixados aqui e ali, símbolos astronômicos que evocam os tradicionais enredos de visitação alienígena.

Há também elementos que sugerem um jogo extraordinário, entre eles a capa-tabuleiro do livro. No blogue Entretempos, Daigo Oliva escreveu sobre esse detalhe:

O livro de Guilherme Gerais, ainda que contrarie minhas inclinações, é uma viagem fantástica. Todo em preto e branco, retrata uma jornada mística, misturada a ilustrações que remetem a jogos de tabuleiro. As imagens parecem flertar com algum tipo de bruxaria e, mais do que uma história contada com começo, meio e fim, representa um estado de espírito sombrio e estranho.

Jogo extraordinário. Viagem fantástica. Bruxaria. Criação do mundo… No blogue Hotel Berlim, Rodrigo Grota reforça essa percepção multifacetada:

Com ilustrações do artista gráfico Arthur Duarte, e projeto gráfico do próprio fotógrafo, Intergalático também parte do pressuposto de que qualquer narrativa visual oferece sempre um segredo, um desejo que não se revela por inteiro, mas está sempre presente. Dessa forma, a abertura para um imaginário espacial, repleto de tecnologias já abandonadas, reforça essa tese de que o mundo em que se vive é sempre o mundo em que se cria: estar vivo sendo algo próximo de estar em constante fabulação.

Construída sem frases, períodos e parágrafos, a fotonarrativa de Guilherme Gerais também nos lembra da força descomunal da linguagem verbal. Uma única palavra − justamente a que dá título ao livro − contamina e direciona toda a nossa interpretação. Se o título fosse outro, tenho certeza de que a narrativa também seria outra. As mesmas fotos, na mesma sequência, contariam outra história. De mistério policial, ou sobrenatural, ou de viagem… Mas duvido que seria uma história mais potente − ao mesmo tempo esotérica e cósmica − do que essa Intergalático.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

Só o tempo pode confirmar essas coisas, mas a antologia Fractais tropicais tem tudo pra se tornar um verdadeiro marco da ficção científica brasileira.

Em escopo, creio se tratar da mais abrangente do gênero, selecionando trinta autores de todas as convencionadas Ondas da FCB, excetuando os precursores do início do século (a Primeira Onda acontece entre 1960 e 1980, em torno das Edições GRD de Gumercindo Rocha Dorea; a Segunda entre 1980 e 2000, época prolífica dos zines e do Clube de Leitores de Ficção Científica; a Terceira a partir dos anos 2000, com a popularização da internet).

Em design, o livro foge dos clichês do gênero, que ficou marcado pelas capas algo espalhafatosas das revistas pulp norte-americanas, que podem agradar os fãs mas fazem inúmeros leitores de fora da bolha torcer o nariz. É um catatau de quinhentas páginas com quase nada de erros de revisão (marca que assola um mercado dominado por edições sem o apuro necessário), com diagramação atraente, minibios espirituosas e uma introdução de respeito.

A principal reivindicação de Nelson de Oliveira, o organizador da antologia, é a libertação da imposta marginalidade do gênero no país, considerado inferior, ou o que é pior, invisível. Não é uma discussão nova e tampouco exclusiva do Brasil, mas aqui há uma singularidade: enquanto lá fora a ficção científica é um gênero sadio e lucrativo (vide o próprio sucesso das traduções do gênero em solo brasileiro), a produzida aqui é ainda tímida e inexpressiva em visibilidade e vendas. Para tentar alterar o status-quo, Oliveira aponta como exemplo as boas obras do campo, as que realmente se sustentam longe do seu reduto, e apresenta como argumento uma verdade incontornável: já vivemos em um mundo de ficção científica, indissociável da tecnologia, e negar isso é negar a realidade.

O surgimento da Fractais Tropicais no final de 2018 não é mero acidente de percurso. É uma culminação do movimento pelo reconhecimento, pela visibilidade, encabeçado por um agente numa posição única, cujo protagonismo e bagagem conferem peso e credibilidade à sua defesa crítica (importante lembrar que Oliveira não é o único defensor do gênero; há todo um coletivo — cada vez mais robusto — de pessoas lutando pela mesma causa, com diferentes históricos e contribuições). Essa retórica é, não por acaso, destrinchada na introdução da antologia, que carrega ainda o mérito de aclimatar um leitor que não tem intimidade com o gênero e sua miríade de subgêneros.

Os contos selecionados dão mostra convincente da nossa pluralidade de vozes. Das histórias mais tradicionais às mais experimentais e abertas. Do trato criativo com a linguagem à linguagem em sua funcionalidade básica. Do final apoteótico ao final sensível, sublime, anticatártico. Os maiores tropos dão sua cara: o ambiente virtual com avatares, o cenário distópico de terra arrasada, a imortalidade alcançada pela alquimia, a guerra cósmica, a viagem no tempo, os implantes neurais, o upload de consciência.

Tamanha é a amplitude, que é virtualmente impossível que todos agradem ao leitor, refém de suas próprias preferências. O nível, contudo, se mantém acima da média, com vários destaques:
Metanfetaedro, de Alliah
Menina bonita bordada de entropia, de Cirilo Lemos
Aníbal, de Andréa del Fuego
Visitante, de Carlos Orsi
Galimatar, de Fábio Fernandes
O dia em que Vesúvia descobriu o amor, de Octavio Aragão
Tempestade solar, de Roberto de Sousa Causo
Caro senhor Armagedom, de Fausto Fawcett
Los cibermonos de Locombia, de Ronaldo Bressane
As múltiplas existências de Áries, de Finisia Fideli
Quando Murgau A.M.A. Murgau e Acúmulo de Skinnot em Megamerc, de Ivan Carlos Regina
O elo perdido, de Jeronymo Monteiro
A ficcionista, de Dinah Silveira de Queiroz
Chamavam-me de monstro, de Fauto Cunha

Mas o destaque da antologia fica mesmo é com duas narrativas mais recentes:
A última árvore, de Luiz Bras
O molusco e o transatlântico, de Bráulio Tavares

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Santiago Santos é escritor e tradutor, autor de Algazarra e Na eternidade sempre é domingo.

[ Trecho da resenha publicada originalmente no portal Cidadão Cultural. ]

A ficção científica brasileira e seus futuros possíveis

Laudromat+at+NightLaundromat at night, 2008, by Lori Nix

Senhor Arqueólogo do Futuro,

Antes de tudo, quero apresentar-me, pois sou (que eu saiba) a primeira participante do continente da América do Norte a colaborar nesta correspondência, o que eu faço com muita honra.

Já sei que você conhece o que é um livro de ficção, uma vez que o escritor Moacyr Scliar explicou a história dessa maravilhosa criação, em outra carta. Eu receio, como o senhor Scliar, que os livros estejam em perigo, que eles desapareçam em sua forma presente, ou que existam só em vias eletrônicas no futuro.

Já que são as palavras que nos proporcionam tanto prazer ao ler uma obra de ficção, talvez a forma pela qual elas serão transmitidas, se no papel ou na tela de computadores e seus derivados, não seja de tanta importância.

O que quero comunicar a você é a riqueza do gênero da ficção científica brasileira e seu poder sobre o imaginário. Hoje, o Brasil tem escritores maravilhosos do gênero, mas não tem um público tão grande quanto merece, por duas razões: pelo preconceito contra o gênero em si e, talvez, contra um gênero importado de países tecnologicamente avançados. Entretanto, celebro aqui o abrasileiramento do gênero, como se verá abaixo.

Esboçarei uns futuros retirados da ficção científica brasileira dos últimos trinta anos, desde 1975, para ver se eles são condizentes com a realidade dos seus dias futuros:

O escritor Ignácio de Loyola Brandão imagina um futuro em que a Amazônia já se converteu em deserto, e as pessoas são incineradas em bolsões de calor, enquanto o governo gaba-se de tudo isso como se fosse uma série de êxitos. Espero que esse não seja o seu mundo.

Outro ficcionista, Braulio Tavares, ambienta um de seus contos num Rio de Janeiro onde a cabeça do Cristo Redentor é decepada por uma gangue e a praia de Ipanema foi convertida num aterro até as ilhas do Atlântico. Será esse seu mundo?

Ivanir Calado escreve sobre a Cidade Maravilhosa dividida por uma muralha entre a Zona Norte e a Zona Sul, onde a abandonada ponte Rio-Niterói é uma grande favela.

Gerson Lodi-Ribeiro retrata um mundo futuro longínquo no planalto central brasileiro, no qual soldados ciborgues defendem a Terra numa guerra perpétua contra alienígenas não-orgânicos à procura de metais.

André Carneiro imagina experiências cerebrais em que as pessoas podem projetar seus sonhos em telas, ou até mudar de sexo para ter sempre novas experiências sexuais, intelectuais e psicológicas.

Jorge Luiz Calife criou um futuro em que as sociedades tecnologicamente avançadas vão morar no espaço sideral em comunidades de anéis, depois de uma guerra nuclear.

Roberto de Sousa Causo escreve sobre um mundo em que os animais, alterados geneticamente por extraterrestres, defendem o meio ambiente e outros animais de predadores humanos.

Algum desses será o seu mundo?

Só você, Arqueólogo do Futuro, saberá responder quais desses futuros são possíveis. Entretanto, penso que os escritores de ficção científica brasileira continuarão a escrever e a imaginar o futuro de uma forma criativa e inusitada, contribuindo significativamente com esse gênero global.

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Elizabeth Ginway é professora e pesquisadora de literatura brasileira da Universidade da Flórida, EUA.

Em 2005, o saite Carta Maior publicou uma série de cartas endereçadas a um desconhecido arqueólogo do futuro, escritas por Eduardo Galeano, Jorge Mautner, Nando Reis, Viviane Mosé e outros. A carta acima, de Libby Ginway, comenta a obra de alguns importantes autores brasileiros de ficção científica. Essa foi justamente a razão que me motivou a reproduzi-la no blogue FCB. Todas as outras cartas podem ser lidas aqui.

As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

A narrativa começa tímida, mas aos poucos vai conquistando o leitor, que se encanta com o universo apresentado. Mais do que um simples cenário, o mar é o grande protagonista do primeiro romance de Aline Valek. A autora desvenda alguns de seus mistérios, apresenta seres que o habitam e prevê sua expansão com o derretimento das calotas polares, o que obrigará o sapiens a se adaptar para, quem sabe, se tornar no futuro um novo ser marinho. O livro trata também das relações do ser humano: consigo mesmo, com os outros e com o mar.

O oceano carrega muita informação e história, inclusive para se estudar o espaço sideral. A pista para isso foi terem encontrado em uma pedra, retirada do mar, uma substância que não se forma na Terra, mas é originada na explosão de estrelas: o isótopo ferro-60, com meia-vida estimada em dois milhões e seiscentos mil anos.

No romance, cinco profissionais estão isolados em uma estação submarina, a trezentos metros de profundidade, com a missão de realizar pesquisas e testar avançados trajes de mergulho em uma região de vulcões extintos. O enredo mostra os conflitos dessas pessoas confinadas em um espaço de cinco metros de largura por doze de comprimento, cada uma com seus desejos, crenças e segredos.

Corina e Arraia são mergulhadores e exploram abismos oceânicos; Suzana, engenheira naval, administra a estação; Martin, um acadêmico, estuda o som das baleias e supõe que narrem histórias, acredita em vida inteligente no fundo do mar e secretamente quer provar sua tese, no que é apoiado pelo seu assistente, Maurício. O pesquisador registra os sons vindos das profundezas e atribuí a cada um deles uma forma, uma vida, algo que baleias e golfinhos já nascem sabendo fazer.

Ao ouvir um dos sons registrado pelo pesquisador, Corina fica intrigada. Lembra uma conversa, ou uma canção, ou talvez um violino, se o instrumento tivesse vinte cordas e pudesse ser tocado embaixo da água, interagindo com o borbulhar e as correntes marítimas. Parece vir de um lugar muito anterior a qualquer outra canção, ou mesmo de outro planeta. “O doutor sabia de algo, as baleias sabiam mais que ele, e Corina, que preferia não saber de nada, acabou enxergando.”

Muitos animais marinhos são apresentados no decorrer da trama, entre eles as eremitas, que se isolam nas profundezas, alimentam-se de bactérias e podem viver de dois a três séculos, graças à capacidade de regeneração. Elas conseguem reverter o processo de envelhecimento por meio de um mecanismo biológico, que outras criaturas também possuem, entre elas as águas-vivas, que podem viver indefinidamente, a menos que sejam feridas ou devoradas.

Há também os azúlis, seres conscientes, “que refletiam muito antes de chegar a uma conclusão”. Precisavam de calor e enxofre para viver, por isso habitavam lugares próximos a vulcões submarinos. Eles compreendiam os sons das outras espécies como idiomas próprios, e se tornaram poliglotas. “Frio e solidão, para os azúlis, representavam a morte.” No auge da sua civilização, assistiram ao próprio declínio, foram se concentrando e deixaram de saber de outros da sua espécie. E então começaram a matar uns aos outros ou a cometer suicídio.

Para a autora, tanto animais quanto seres humanos precisam uns dos outros para viver, mas estabelecer vínculos não é fácil. A tripulação da estação submarina, embora tão próxima fisicamente, não consegue estabelecer uma relação de confiança.

Quando Corina conta que tem uma doença degenerativa, não encontra solidariedade nem em seu colega Arraia. Pelo contrário, a relação fica estremecida, o que fica claro nesse trecho: “Depois de mais um dia de expedição às profundezas sem nenhum problema, Corina e Arraia fizeram os relatórios e sua refeição no mesmo horário, mas sozinhos, cada um em seu canto, envoltos por uma espessa armadura que não era o traje que usavam para trabalhar, mas o silêncio que escolheram vestir para conviver.”

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Sonia Nabarrete é jornalista e ficcionista, autora de Eretos e Contos safadinhos.

Mestre das Marés

Mestre das Marés

Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
288 páginas
Lançado em 2018

Meu primeiro contato imediato de altíssimo grau com a ficção científica foi agenciado, ainda na infância, pela televisão (em preto e branco): Viagem ao fundo do mar, Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Terra de gigantes… A ficção científica literária surgiu em meu radar somente na puberdade, anos depois das viciantes séries ianques. O início da leitura de contos e romances foi estimulado, nessa época, principalmente pelo cinema: Guerra nas estrelas, Contatos imediatos do terceiro grau, Galáctica: astronave de combate, Alien: o oitavo passageiro, Jornada nas estrelas: o filme

Quem acompanha de perto os dois modos de expressão, logo percebe que a diferença entre a FC audiovisual e a FC literária não é apenas estrutural (texto impresso numa página, de um lado − imagens em movimento e sonoplastia, do outro). Há uma perceptível diferença de inteligência narrativa. Estatisticamente, as séries e os filmes tendem a ser mais sensuais e pirotécnicos (atores bonitos, música vibrante, lutas coreografadas, explosões) e menos conceituais e abstratos (aprofundadas noções científicas, sutilezas filosóficas, inteligência tática, pragmatismo) do que os contos e os romances.

Nas space operas audiovisuais, por exemplo, nada me aborrece mais do que as batalhas no espaço. Quando duas frotas antagônicas se encontram, não há qualquer planejamento, não há a mínima estratégia. Os artilheiros e os pilotos parecem malucos chapados. Os caças voam bestamente atirando pra todos os lados. Em solo a situação não é melhor: as tropas parecem mais um bando de bárbaros desnorteados, gritando e disparando a torto e a direito.

Um dos elementos mais elaborados oferecidos pelo romance Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo, é justamente o que falta nas minisséries e nos filmes de ficção científica militar: estratégia. Partindo do pressuposto de que uma guerra interplanetária é um empreendimento caríssimo, que consome recursos impensáveis de uma civilização, cada passo precisa ser analisado exaustivamente. Como numa complexa e demorada partida de xadrez.

Estamos no século 25 e nossas humanas − demasiado humanas − disputas político-econômicas espalharam-se pela galáxia. Além da natural competição com as civilizações alienígenas, seis blocos humanos competem entre si pela soberania: Latinoamérica, Euro-Rússia, Ásia Centro-Oceânica, Aliança Transatlântico-Pacífico, Ecumênia Árabe e Federação Africana.

A nova missão do capitão Jonas Peregrino e de seu grupo armado − os Jaguares − é resgatar uma equipe de cientistas refugiados num planeta atingido pela potência devastadora de um buraco negro próximo. Mas os cientistas encontraram nos subterrâneos do planeta − cenário similar ao inferno do célebre épico de Dante Alighieri − um misterioso artefato tadai, capaz de anular as ondas de choque sísmicas e cinéticas, e de interagir com o buraco negro num nível quântico. A missão de resgate envolve também capturar essa tecnologia avançada.

Os tadais são uma raça beligerante cujo principal propósito parece ser o extermínio da humanidade e das outras raças tecnológicas. As máquinas de combate tadais são tudo o que os humanos e seus aliados conhecem dessa civilização oculta, avessa ao diálogo. Faltando pouco tempo pra destruição total do planeta pelo buraco negro, enquanto Peregrino e seu grupo combatem os robôs nos subterrâneos, as naves jaguares rechaçam as forças inimigas na órbita elevada.

Entre os antagonistas de Peregrino há ainda uma jornalista determinada a escrever um perfil depreciativo do capitão e seus Jaguares. A voz narrativa passa estrategicamente da terceira pessoa para a primeira, sempre que as inquietações da jornalista entram em cena.

Os acontecimentos narrados em Mestre das Marés ocorrem logo depois dos eventos apresentados no romance Glória sombria, lançado em 2013 (leia a resenha). Nos dois romances, a estratégia militar − entrecruzada com a estratégia moral, política e econômica − é o ponto alto. As operações são planejadas com cuidado e a argúcia administra cada lance no tabuleiro da batalha. Pra nossa sorte, a space opera militar de Roberto de Sousa Causo relaciona-se fortemente com os games-de-estratégia de ação futurista, vertente do audiovisual bem mais inteligente do que as séries e os filmes.

Outra estratégia bem conduzida fortalece Glória Sombria e Mestre das Marés: a estratégia científica e tecnológica. Mesmo quando apresentadas na forma de recorrentes info-dumps, a ciência e a tecnologia que impulsionam as naves através do espaço, ampliam os sistemas de comunicação, movimentam as armaduras de combate e refinam os implantes biocibernéticos − entre dezenas de outros equipamentos − são fascinantes, dá gosto fechar os olhos e ficar imaginando.

Também dá gosto ler uma space opera em que a maioria dos personagens é parda, negra ou índia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fanfic

Fanfic

Braulio Tavares
Patuá Editora
168 páginas
Lançado em 2019

Não é de hoje que o consenso vem dizendo que Braulio Tavares é um dos escritores mais criativos, prolíferos e versáteis de nossa literatura. Percebi isso logo na primeira vez em que visitei o superblogue Mundo Fantasmo, vasto território que abriga uma quantidade imensa de ensaios, artigos, contos, crônicas e resenhas surpreendentes, sobre todos os assuntos.

Esse paraibano radicado no Rio de Janeiro também faz parte do pequeno time de escritores de altíssimo nível que há três décadas vem impulsionando a ficção científica e a ficção fantástica brasileiras, com narrativas de qualidade inquestionável.

Agora, uma pequena parte da grande produção de Braulio Tavares foi reunida nesta coletânea de espantos e epifanias, batizada com um título inusitado: Fanfic.

São vinte e duas ficções (contos e minicontos) em que nossa cotidiana noção de realidade é posta em xeque, das mais variadas maneiras. Muitas vezes com um bem-vindo toque de humor e irreverência.

A cultura enciclopédica do autor promove nesta coletânea − e praticamente em toda a sua obra − um casamento virtuoso entre o pop e o erudito.

A ciência e a tecnologia mais espantosas estão a serviço da fantasia e do insólito poéticos, quase sobrenaturais, ecoando a célebre lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”

Conectados à concretude abstrata de um alien, um videogame, uma droga da inteligência, uma viagem interestelar, um experimento paranormal ou um excêntrico sonho lúcido, os protagonistas desses contos e minicontos se perdem − às vezes por puro acidente − nos labirintos e nas mandalas da linguagem e da consciência.

Durante o breve tempo da leitura, essas ficções abrem e atravessam, por meio da hiperatividade biotecnológica, as delirantes portas da percepção anunciadas por William Blake e Aldous Huxley. Ou da gloriosa máquina do mundo de Camões e Drummond.

Mas o que há do outro lado das portas da percepção? De acordo com as narrativas de Braulio Tavares, há um sem-número de outras portas, cada uma mais misteriosa do que as outras, guardando um sem-número de interrogações. Cada vez que um mistério é investigado e desvendado, outros brotam em seus interstícios, multiplicando nosso espanto e nossa ignorância.

Um bom exemplo desse fenômeno fractal é a narrativa mais longa da coletânea, intitulada O molusco e o transatlântico. Um astronauta brasileiro que pesquisa a telecinese − capacidade de mover os objetos apenas com a força do pensamento − é sequestrado de uma estação espacial por aliens, que dispensam os outros humanos da equipe internacional, ficando apenas com o brasileiro.

Por mais que o astronauta colabore e tente dialogar com seus sequestradores, tudo o que ele consegue são abstrações simbólicas e reflexos distorcidos num espelho sensorial. A interface entre ele e os aliens é um rosto humano sintético, sem corpo, brilhando no escuro e falando através de uma voz digital: “Eu sou o seu Interlocutor. Você foi convocado para trabalhar para nós.”

Fanfic é uma coletânea feita de camadas e sobreposições, em que a ficção científica e a ficção fantástica extrapolam qualquer limite de gênero. Sobre o inusitado título do livro, o autor escreveu:

A palavra fanfic é uma abreviação de fan fiction, e se refere à ficção escrita por fãs de um autor ou conjunto de autores, utilizando, sem pedir autorização, elementos criados por eles. (…) Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não acho que esteja exagerando quando chamo de fanfic esse conjunto de contos escritos como resultado da leitura de histórias alheias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Back in the USSR

Back in the USSR

Fábio Fernandes
Patuá Editora
224 páginas
Lançado em 2019

O sofisticado Método Frankenstein de Ressurreição®, desenvolvido pelo doutor Victor Frankenstein na Suíça, em 1794, e patenteado dez anos depois pela empresa alemã Ewigkeit, ou simplesmente a Empresa, mudou completamente o rumo da História de nossa civilização. Agora é possível ressuscitar qualquer falecido nas primeiras horas após sua morte, ou seja, antes do início da degeneração celular, preferencialmente antes do rigor mortis.

Utilizado em larga escala, o Método® beneficia praticamente todas as classes sociais. Reis, príncipes, magnatas, pop stars e também gente comum são ressuscitados cotidianamente. Só não é trazido de volta à vida as pessoas que, por razões filosóficas ou religiosas, assinam previamente um termo proibindo a ressurreição. John Lennon é uma dessas pessoas. A ressurreição nunca lhe interessou. Depois que o maluco do Mark Chapman o assassinou com cinco tiros a curta distância, em frente ao edifício Dakota, o esperado era que Lennon permanecesse pra sempre mortinho da silva. Mas Lennon ressuscitou. Ou pior, foi ressuscitado contra a sua vontade.

Nas orelhas do livro, o escritor Santiago Santos resume muito bem o contexto delirante desse thriller surrealista de Fábio Fernandes:

Aqui, os Estados Unidos não se tornaram uma grande potência depois da Segunda Guerra Mundial. Porque ela não aconteceu, e o país se dividiu em três. Como resultado, a Rússia, parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde os Bea­tles fizeram o seu melhor show nos anos 60, protagoniza a Guerra Fria com outra potência: a República de Weimar, formada por Alemanha, Áustria e Luxemburgo.

Não é só isso que causa bastante estranheza.

Há uma base secreta que estuda a vida alienígena, chamada Área 71, na Islândia. A Semana de Arte Moderna no Brasil aconteceu em 1925 e viu surgir o Manifesto necrofágico. Lee Harvey Oswald assassinou o presidente Truman. Ringo nunca tocou bateria nos Beatles. Cortázar escreveu O jogo de xadrez, Wells escreveu A ilha do dr. Favreau, Beckett escreveu Esperando Fausto e Bioy Casares escreveu A invenção de Frankenstein. Este último não por acaso, pois o cientista Victor Frankenstein realmente existiu.

O romance que Mary Shelley publicou é na verdade a biografia do homem mais importante da história moderna.

O famoso experimento que cria o monstro de retalhos humanos e energia elétrica é aperfeiçoado pela Ewigkeit, empresa alemã que patenteia em 1815 a Ressurreição®, ou o Método Frankenstein®. Um século mais tarde, durante a Grande Guerra, o método se populariza de vez e altera as ramificações históricas.

As pessoas podem voltar à vida. Não é à toa que Marx dedica um capítulo à empresa em seu O capital, ou que Baudrillard e Foucault se dediquem aos desdobramentos filosóficos dessa nova ciência, ou que Hitler nunca passe de um soldado raso.

Fato é que após o assassinato Lennon está vivo. E envolvido num intrincado jogo de espionagem industrial nesse mundo eletrificado de Fábio Fernandes, autor que há décadas vem estabelecendo quebra-cabeças literários irreverentes e cativantes, cravejados de referências ao universo pop.

Fábio Fernandes é um dos autores mais importantes da ficção científica brasileira e, em minha opinião, Back in the USSR é a sua narrativa mais instigante. Porque extrapola os limites do gênero, incorporando a malandragem, a metalinguagem, a antropofagia e o tropicalismo de nossas melhores vanguardas.

Nesse romance de humor insólito, muitos arquétipos antropológicos, históricos e científicos convergem vigorosamente, expressando um painel tragicômico de nossa milenar busca pela imortalidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.