Solarpunk

Solarpunk

Gerson Lodi-Ribeiro (organização)
Editora Draco
264 páginas
Lançado em 2013

Budistas e estoicos não se cansam de ensinar que na vida nada é fixo e permanente. Mas até mesmo essa luminosa verdade pode ser relativizada. Se comparados com o tempo brevíssimo de uma vida humana, certos fenômenos cósmicos costumam ser bastante fixos e permanentes. Nosso sol é um deles. Bonachão e constante, sempre esteve por perto, sem faltar um dia sequer.

Artigos de divulgação científica sobre a potência solar também não se cansam de dizer que a quantidade de energia que o sol envia anualmente ao nosso planetinha equivale a mais de dez mil vezes o consumo mundial registrado no mesmo período. Dez mil vezes! Não é o fabuloso moto-perpétuo dos doidivanas, mas, pra nossa fugaz mentalidade primata, chega perto. Só precisamos descobrir um jeito eficiente de mamar nessa tetona generosa e duradoura.

Enquanto os engenheiros e os cientistas não encontram esse jeitinho, nossos ficcionistas fantasiam possibilidades. Na coletânea de contos Solarpunk, vários autores imaginaram incríveis sociedades ecológicas. Exatamente: sociedades que deram um passo à frente e aboliram o uso das energias que provocam danos às pessoas e ao meio ambiente, em favor das energias limpas, principalmente a do astro rei.

De todos os contos reunidos, Sol no coração, de Roberta Spindler, foi o que abraçou com mais força a causa da energia solar. Numa sociedade futura, a luz irradiada pela distante fusão nuclear de nossa generosa e duradoura estrela não alimenta apenas as máquinas. Essa luz também alimenta e fortalece as pessoas, que logo na infância recebem no corpo finíssimas placas solares − implantes semelhantes a uma tatuagem − e injeções de nanomáquimas capazes de promover a revolucionária fotonutrição.

O confronto dos reinos, do português Telmo Marçal, também oferece humanos que se alimentam da luz solar. Humanos, não, pós-humanos, porque esses cidadãos solares já pertencem a outra espécie, a espécie das pessoas clorofilizadas. Um novo capítulo na história da evolução artificial leva ao limite a oposição violenta entre o reino animal e o vegetal. O conto de Telmo Marçal − uma sátira de investigação − é o mais irreverente da coletânea, graças à verve do autor e ao saboroso sotaque lusitano.

O conflito do conto de Gabriel Cantareira, intitulado Fuga, gira em torno da sabotagem de “um gigantesco sistema de satélites estacionários que captavam a energia solar e a transmitiam para a superfície terrestre usando micro-ondas”. A política das energias renováveis não é a protagonista, mas o pano de fundo de uma narrativa centrada no combate às maquinações maquiavélicas das grandes corporações.

O tema da grande conspiração totalitária também é o combustível que põe em movimento a bela ficção étnica de André S. Silva, Xibalba sonha com o oeste, ambientada num Rio de Janeiro alternativo. Curiosamente, essa sociedade retira sua energia não do sol nem do vento, mas das descargas elétricas atmosféricas, produzidas pelas tempestades. Esse sistema só não é mais surpreendente do que o sistema do conto de Daniel I. Dutra, intitulado Gary Johnson, sobre uma sociedade cuja principal fonte energética é… Melhor não revelar, pra não roubar dos leitores a surpresa bizarra.

A proposta editorial da coletânea Solarpunk é incomum. Somos convidados a imaginar um planeta sustentável, movido por energias limpas e renováveis. Convite maravilhoso. Quem não gosta de idealizar utopias energéticas? Mas os nove contos reunidos, muito sacanas, logo emporcalham nosso ingênuo devaneio de equilíbrio e felicidade. De que maneira? Introduzindo na harmoniosa equação uma variável desafinada: nós, humanos.

Não importa se no futuro ou numa realidade alternativa a sociedade abandonou as energias sujas em favor da energia solar, eólica, geotérmica, maremotriz, hidráulica, nuclear etc. Onde houver humanos, o selvagem desejo de dominação será a principal fonte dos transtornos sociais.

Veteranos da FC brasuca, Carlos Orsi, Romeu Martins, Antonio Luiz M.C. Costa e Gerson Lodi-Ribeiro completam o grupo de autores, comparecendo com pesadelos cativantes e igualmente reveladores da inclinação humana para o desastre.

Além de refletir de maneira excepcional sobre o perene drama humano, a ficção científica adora prender nossa atenção com promessas sedutoras. Terminada a leitura de Solarpunk, ainda estou cobiçando certos itens que não dá pra comprar na internet mas eu gostaria muito de adquirir: a terapia de reprogramação genética e o upload de consciência de Soylent green is people! (Orsi), um frasco do gás-do-ódio de E atenção: notícia urgente! (Martins), a capa da invisibilidade do divertido Era uma vez um mundo (Costa), e, mais que tudo, o supertraje biocibernético de Azul Cobalto e o Enigma (Lodi-Ribeiro).

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Anjos, mutantes e dragões

Anjos Mutantes e Dragões

Ivanir Calado
Editora Devir
296 páginas
Lançado em 2010

Essa antologia com as melhores ficções curtas de Ivanir Calado reúne quinze narrativas de ficção científica e fantasia escritas no final do século passado, anteriormente espalhadas por diversas coletâneas temáticas, incluindo uma coleção de livros sobre os sete pecados capitais.

Apesar de juntar contos produzidos em momentos diferentes, escritos sob encomenda para projetos contrastantes, o volume é regular e equilibrado, fato incomum nesse tipo de reunião.

Manipulando com competência certos elementos de psicologia, ecologia, mitologia, sociologia, política e História, a escrita de Ivanir Calado se destaca pela elegância e pela riqueza de pormenores. E o enredo de seus contos, ao buscar a clássica unidade de efeito proposta por Edgar Allan Poe, sempre surpreende.

Sylvio Gonçalves observa, na apresentação de Anjos, mutantes e dragões, que o contista explora muito bem uma capacidade exclusiva da ficção científica e da fantasia: denunciar as mazelas de nossa sociedade por meio da criação de realidades diferentes da nossa apenas na aparência.

Todos os contos me agradaram bastante, especialmente esses cinco:

Paradoxo de narciso, o próprio título já está insinuando, é uma narrativa que explora um dos possíveis paradoxos criados por uma viagem no tempo. A premissa não é nova na ficção científica, mas rendeu aqui uma variação interessante. O protagonista volta doze anos no passado, visita a si mesmo mais jovem e o encontro produz uma insólita dinâmica afetiva, algo que o viajante não havia previsto. (Esse conto também foi selecionado para a antologia Fractais tropicais: o melhor da ficção científica brasileira, da Sesi-SP Editora.)

Operação Lobo narra uma ação secreta pra libertar de uma fortaleza-prisão um químico romeno que decidiu passar para o lado dos adversários do regime do ditador Ceausescu. Um detalhe preocupante da estratégia de resgate é que não há plano de fuga. Uma vez encontrado o professor, ficará a cargo dele pensar num modo de escaparem da fortaleza-prisão. O aspecto científico desse conto − o uso de um gás paralisante − recebeu um bem-vindo tratamento cômico.

Kilumbo é uma ficção curta que transfere para o espaço um fragmento da história da escravidão no Brasil. Não há navios negreiros, mas naves igualmente insalubres que transportam os escravos kiluns até os asteroides-minas, onde trabalham até morrer. McZomb, líder de seu grupo, decide comandar uma revolta que, se bem-sucedida, libertará os kiluns, permitindo que fujam para um planeta distante.

Eleanor Rigby, inspirada numa de minhas canções favoritas dos Beatles, reapresenta o tema clássico da prostituta solitária e deprimida. A fim de escapar da rotina de objeto sexual, a protagonista compra numa loja um rosto novo, aumentando sua coleção. Durante um passeio, ela conhece um homem e se apaixonam. Nesse futuro indeterminado, “o casamento está de novo na moda”. A questão é se a opressora Companhia pra qual Eleanor trabalha aceitará pacificamente sua deserção…

O altar dos nossos corações é uma das narrativas mais longas da coletânea. Parece que a proverbial promiscuidade entre Estado corrupto e crime organizado, que conhecemos tão bem, ainda se prolongará por muito tempo. O governador do Rio de Janeiro é sequestrado por uma facção criminosa, isso põe em movimento a roda de trapaças e traições. Entre as assustadoras novidades dessa época está a ponte Rio-Niterói, que virou uma favelona fortificada, vigiada pelos urubus: garotos armados pilotando ultraleve.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Paraíso líquido

Paraiso liquido

Luiz Bras
Terracota Editora
304 páginas
Lançado em 2010

Em tempos como estes, em que a política nos enoja, as pessoas nos decepcionam, a realidade começa a ficar insuportável e a vontade é de sumir do mapa, costumo recorrer à literatura que, afinal, sempre nos salva. Em momentos assim, procuro ler coisas que me tirem do eixo e me joguem muito além no tempo, ainda que esse futuro possa soar triste, cruel e melancólico.

Foi com esse estado de espírito que busquei na estante o Paraíso líquido, contemplado pelo ProAC 2010 e lançado nesse mesmo ano − meu exemplar com um autógrafo carinhoso de Luiz Bras. Embora a maior parte dos treze contos, na época, já tivesse sido impressa em coletâneas variadas, foi um imenso prazer lê-las, agrupadas, nesta obra de grande importância na carreira de Bras. E o que é melhor: editadas de forma que o leitor sente-se caminhando no tempo que gradualmente vai se tornando aterrador.

A edição se abre com Primeiro contato, texto primoroso e pungente – o meu preferido – sobre uma brincadeira entre crianças que, aos poucos e dosadamente, revela preconceito e crueldade. E segue nessa linha de alguém brincando com o destino dos outros em Memórias. Por sua vez, Nuvens de cães-cavalos nos estapeia com uma existência que pode estar na duração de um último cigarro, um show de forma e estrutura textual.

Provocador como sempre em suas antevisões distópicas, Luiz Bras fala de crianças e brinquedos assassinos em Daimons, e segue com Déjà vu, que, como ele próprio explica na orelha, pode ser lido de trás para a frente ou vice-versa, já que trata de uma máquina do tempo. São Paulo, 31 de julho de 2013 é literatura epistolar da maior qualidade em forma de um vaticínio que debocha de tudo, da política à religião e a personagens de desenhos animados – que bem poderia ser uma homenagem a Ray Bradburry. Em Nostalgia, o autor faz um alerta bastante sinistro: “Para o espírito do homem, o paraíso não pode ser parcelado.”

A obra se encerra com o conto que dá nome à coletânea, num cenário mais radical “onde não há mais Brasil, nem Ocidente nem o planeta Terra. Há apenas a paisagem, um espaço estranho e delicado, habitado por seres maravilhosos e assombrados por uma entidade chamada Nuvem”, nos dizeres de Rebecca O’Brien, da The Ohio State University, talvez mais um personagem criado por Bras, ele mesmo detentor de pelo menos cinco identidades.

A literatura futurista brasileira, mesmo que muito lentamente, está ganhando novos autores e adeptos, basta ver a recente multiplicação de lançamento de antologias com os melhores de todos os tempos. Luiz Bras faz parte desse movimento, e, mais do que produzir obras importantes na cena literária, ele tem sido mestre e fonte de inspiração para toda uma nova leva de autores preocupados em ficcionar o futuro.

Por sua iniciativa, por três anos (2008-2011) convidou quarenta e quatro escritores para produzirem textos, organizou e lançou o Projeto Portal, uma revista de ficção científica editada no sistema de cooperativa, destinada não ao grande público, mas em suas palavras “a esse pequeno grupo de aficionados mais refinados”. Foram seis números dessa publicação cujos títulos homenageavam os grandes mestres da ficção científica (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit), num total de 2.450 exemplares.

E em 2012, organizou e lançou como antologia o volume Todos os portais: realidades expandidas (também pela Terracota Editora), uma seleção de vinte e um contos dos seis números do Projeto Portal, com trabalhos de Roberto Sousa Causo, Fábio Fernandes, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Laura Fuentes, Brontops Baruq, Claudio Brites, Ana Cristina Rodrigues, Petê Rissatti, Ricardo Delfin entre outros.

O triste é saber que esses dois livros estão esgotados, idem os números dos Portais, podendo apenas ser encontrados com muita sorte em sebos. Quem sabe alguma editora esperta se interesse por relançá-los, uma vez que fazem parte da história da ficção científica brasileira contemporânea.

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Nanete Neves é jornalista e escritora, autora de De âmbar e trigo, entre outras obras.

Erox ex machina

Eros ex machina

Luiz Bras (organização)
Editora @link
152 páginas
Lançado em 2018

No passado, a ficção científica era o espaço para a humanidade sonhar com uma utopia diante dos enormes saltos tecnológicos desde a revolução industrial ou temer um futuro criado por uma humanidade que pela primeira vez na história tem a capacidade de aniquilar a sua própria existência.

A maioria das previsões não se concretizou, pois não eram profecias, mas sim espelhos de uma sociedade pós-guerra assombrada por governos totalitários e bombas nucleares. Então qual é o futuro imaginado pela geração que cresceu nesse distante século 21 sonhado nos clássicos do passado?

Se depender da coletânea Eros ex machina, lançada em fevereiro, os nossos medos e esperanças não estão mais nos foguetes, mas sim debaixo do lençol. E eles podem ser ainda mais assustadores do que uma bomba nuclear.

São dezoito contos escritos pelos participantes do ateliê Escrevendo o Futuro, cada qual uma reflexão sobre como será o sexo na era dos robôs. O tema ganha na maioria das histórias um ar quase freudiano, com o sexo refletindo as fobias de uma geração que enfrenta todos os dias o dilema da desumanização diante da tecnologia e pautas como o feminismo e a ampliação dos direitos LGBT, além do crescimento da resistência diante dessas bandeiras.

Um exemplo desse lado negro do sexo está em VeriDIANA, de Alex Xavier, a história de uma criança que descobre da pior forma possível o que é sexo, pelo menos na cabeça do seu pai. Já em Ela é tão bonita desligada, de Nathalie Lourenço, é discutido o quanto dos outros ainda existe em nós após o fim de um relacionamento (seja ele carnal ou de silicone).

Nem todas as histórias são sobre relações físicas. Delete, de Nathan Elias-Elias, por exemplo, revela um mundo em que os aplicativos mostram mais interesse e compreensão no outro do que o distante e preconceituoso mundo real. Há também espaço para tons mais leves, como Vaaaiii, Coriiinthians!, em que Sonia Nabarrete narra de forma cômica a homofobia no futebol, usando como personagem um robô que acaba apaixonado pelo esporte em um momento inesperado.

Diante dessa distopia psicológica, cabe a Luiz Bras, orientador do ateliê, encerrar a coletânea com o conto Sob a cúpula. Nele, a ficção científica ganha um tom mítico e místico, sobre uma comunidade que usa a tecnologia para transformar o sexo não em um ato de hierarquização, mas sim de união social. Ali, não importa o seu gênero ou qualquer outra orientação sexual usada para segregar a sociedade, há apenas uma comunhão em uníssono de uma tribo em busca do prazer não individual, mas coletivo.

É possível interpretar essa conclusão da coletânea como uma última lição de Luiz aos seus alunos. Assim como não entramos no novo século sob as chamas das bombas nucleares temidas no passado, é possível que os nossos netos não vivam em um mundo em que o sexo seja apenas o reflexo dos impulsos mais sombrios da humanidade. Imaginar esse futuro não é apenas esperá-lo, mas sim tentar realizá-lo.

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Evandro Furoni é jornalista e colabora com a revista Galileu e outras publicações culturais.

[ Resenha publicada originalmente na revista Galileu. ]

Páginas do futuro

Páginas do futuro

Seleção e apresentação de Braulio Tavares
Ilustrações de Romero Cavalcanti
Editora Casa da Palavra
152 páginas
Lançado em 2011

Qual a cara da ficção científica brasileira? Quem são seus principais escritores no território nacional? Em que pé ela se encontra hoje?

Sem a pretensão de dar uma resposta definitiva para estas perguntas, ou mesmo constituir um cânone literário nacional, o escritor e especialista no tema, Braulio Tavares, no ano de 2011 reuniu alguns dos mais representativos contos produzidos por estas bandas.

Desde Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), passando pelo modernista Oswald Beresford (?-1924), e chegando até o camaleônico Luiz Bras (1966), são quase cento e cinquenta anos de produção literária, que permitem reconhecermos uma trajetória muito bem consolidada para o gênero no país.

Ao longo de todos os contos, percebemos que estilos e temas variam entre os vários escritores brasileiros. Mesmo assim, segundo o organizador da coletânea, duas tendências parecem ter se configurado de forma definitiva: a que trata de um espaço selvagem e a ficção de caráter mais utópico e satírico.

Através da leitura fica fácil percebermos isso ao notarmos que as duas vertentes citadas nem sempre estiveram tão distantes uma da outra. A união entre elas ocorreu com certa frequência, fosse de maneira esporádica, fosse se aproximando de forma quase simbiótica. Um casamento feliz, que traria momentos ricos para os textos, como podemos notar, por exemplo, no conto de Raquel de Queiroz.

Logo, fica claro que o riso tropical, em um futuro pós-humano, se apresenta como uma das marcas que balizam a ficção científica nacional, contrastando com um caráter mais duro quando comparada com outras correntes, como aquelas desenvolvidas com maestria no mundo anglo-saxão.

Ora, se entre ingleses e americanos o pessimismo e uma certa visão apocalíptica delineiam enredos, por outro lado um certo olhar crítico-mordaz sobre nosso futuro-presente parece estar sempre ali na ficção científica à brasileira. Uma suposição para isso: talvez a herança lusitana (sem a melancolia que caracteriza os portugueses) de criticar tudo e todos. Outra: o retrato das contínuas instabilidades políticas e dos surtos econômicos pelos quais o Brasil de tempos em tempos atravessa. Em suma, uma questão ainda em aberto.

De qualquer forma, os doze escritores reunidos permitem constatarmos que na ficção científica brasileira existe uma busca constante pela leveza nos assuntos tratados. Os conteúdos insólitos e distópicos são apresentados em todos os contos com uma prosa fluída, que prende a atenção do leitor do começo ao fim.

Ao mesmo tempo, na obra, notamos uma paisagem ficcional por demais masculina, onde conflitos e temas do mundo do homem são o contexto, o pano de fundo das histórias. A presença de apenas duas autoras mulheres (Rachel de Queiroz e Finisia Fideli) parece mais como uma tentativa de escapar destes enfoques. Interessante notar que, no texto de Finisia, aspectos da religião oriental contemporânea aparecem como fio condutor de sua trama, o que a aproxima dos leitores atuais. Talvez esteja aí um dos desafios para uma futura nova coletânea. Encontrar vozes femininas, mas também da comunidade LGBT, com contextos religiosos variados, que ampliem o escopo multiétnico e multivocal da ficção científica.

Por fim, como uma sugestão para o leitor, proponho uma pequena brincadeira. Em todo início de conto, Braulio Tavares apresenta uma pequena biografia do escritor, que permite situar a obra no tempo e no espaço. Sugiro que não leia e parta direto para o conto. Tente imaginar, ao final da leitura, se você consegue situar cronologicamente o período de produção do conto. Depois, monte uma tabela com sua tentativa e compare com o sumário. Alguns serão facilmente datados, outros nem tanto. Se tiver tempo, mande o resultado por e-mail, para vermos como você se saiu.

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Tobias Vilhena é arqueólogo e ficcionista, e um dos autores da coletânea Eros ex machina, sobre robôs sexuais.

O grito do sol sobre a cabeça

O grito do sol sobre a cabeça

Brontops Baruq
Terracota Editora
168 páginas
Lançado em 2012

Em um total de dezenove contos, Brontops Baruq explora nossas mais profundas angústias, em futuros hipotéticos. Qualquer tentativa de sintetizar a beleza dialética e polifônica dessa obra está fadada à triste generalização de pontos urgentes contemplados no ato da leitura.

Não comentarei as dezenove histórias, para não ser enfadonho e também para preservar a experiência dos leitores. Destacarei alguns aspectos daquelas que me geraram constantes explosões epifânicas e me acompanharam em alguns momentos da vida cotidiana, indo e voltando em minha memória.

O conto Hipocampo enuncia uma questão filosófica que julgo essencial: estou aqui, não sei como, não sei por quê, movido às demandas de um Outro. A complexidade dessa afirmação, na voz de um humano heterossexual que se apronta para uma experiência sexual com uma raça alienígena desconhecida, configura uma marca autoral desse existencialismo da vida moderna. Carregamos conceitos, valores, fundamentos éticos e muitas vezes não nos questionamos e nem nos importamos com os porquês.

No conto Quereres, o autor se debruça com maestria sobre o tema da manipulação genética. Ter filhos nesse futuro hipotético se assemelha à criação de um avatar em um RPG eletrônico. Quem nunca desfrutou de pelo menos uns vinte ou trinta minutos selecionando o melhor tipo de cabelo, a melhor cicatriz facial e a cara mais carrancuda para seu Redguard, em Skyrim? Pois no futuro, essa experiência é potencializada, ao ser migrada para o planejamento de um@ primeir@ filh@ in vitro.

Em Rebobinados, somos apresentados à tecnologia experimental de cronogenia, que implica na capacidade de rebobinarmos nosso tempo de vida para aguentarmos longas viagens espaciais. Como efeito colateral dessa experiência, o autor explora a subjetividade de dois tripulantes voluntários, ex-detentos de Presidente Bernardes, que não conseguem conviver um com o outro em uma viagem espacial que durará mais de mil e oitocentos anos.

O conto Pausa me despertou uma vontade gritante de desejar mais experiências de leitura como essa. Muito justificada pelo meu vício em videogames, minha queda por esse conto se deve ao fato dele me remeter o tempo inteiro a uma distopia que lembra muito a série Fallout, somado ao ritmo road movie com temperos de um mundo social inspirado em Mad Max. As descrições étnicas, misturadas com a dualidade ideológica de grupos fortemente armados que defendem o criacionismo e o evolucionismo, são o ponto de partida para um mundo caótico, onde se manter vivo pressupõe pegar em armas e encarnar um personagem de Quentin Tarantino.

Em Ficção especulativa, tomamos contato com a angustiante tecnologia do Campo de Dinac, que propõe a condição existencial de podermos vislumbrar as experiências passadas quantas vezes quisermos, modificando nossas ações, sem alterar um único instante do tempo presente. Esse foi um dos contos que me despertou muita reflexão, pois sempre tive interesse − e dificuldade − em histórias que lidam com o tema da viagem no tempo.

O último conto que destaco é o Sésamo, bananas & kung fu. Em uma sociedade com muitos problemas de convivência, o advento do teletransporte sinaliza a sua ruína. Humanos preparam seu plano de fuga para deixar a Terra. Enfim, Brontops observa o teletransporte como uma tecnologia de um futuro hipotético, tão revolucionária quanto a internet ou a pistola do Rick, que abre fendas dimensionais, em Rick & Morty.

De leitura leve e muito rápida, O grito do sol sobre a cabeça é uma dessas obras que você consegue saborear em poucas sentadas. Depois, fica a estanha sensação de querer encontrar mais produções literárias do autor e se deliciar com mais genialidades e mundos distópicos. A Boa notícia é que Brontops Baruq costuma compartilhar suas produções em seu blog Toca do Brontops, mas esperamos que uma próxima obra esteja nos planos desse novo nome da literatura nacional.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com mestrado em Linguística.

Metanfetaedro

MetanfetaedroAlliah
Tarja Editorial
232 páginas
Lançado em 2012

Beleza e tristeza, prazer e dor se alternam, às vezes se confundem, formando uma liga fascinante. As narrativas reunidas na primeira coletânea de Alliah são hiperjanelas grotescas para os muitos tipos históricos de pressão, repressão e opressão articulados por nossa espécie predadora. Das oito ficções, apenas a última, justamente a que dá título ao volume, não soca o nariz do leitor com cenas explícitas de machismo, racismo, fascismo e outros ismos abjetos.

Metanfetaedro (conto escolhido pra integrar a antologia Ficções fractais, da Sesi-SP Editora), apresenta um explorador solitário chamado Luca − um alter ego new weird do matemático Luca Pacioli, amigo de Leonardo da Vinci −, que passa de uma dimensão surreal a outra, geométrico-onírica. Sua jornada meio abstrata meio poética segue das artes plásticas para a geometria não euclidiana, depois retorna, arrastando referências dessas duas esferas.

Nessa narrativa o leitor pode apreciar a grande habilidade de Alliah na criação de analogias sensoriais metafísicas. Um ótimo exemplo é a droga pan-óptica capaz de expandir nossa percepção. Tempos atrás, antes de sua aventura no interior de um rombicuboctaedro fantástico, o narrador-explorador inventou uma chave pra manipular a mente humana:

Chamava-se metanfetaedro, e era uma droga não convencional. Não se tratava de uma substância química para ser engolida ou injetada, mas de uma droga visual construída por nossas noções espaciais através de um mapa matemático de projeção, que alterava nossa percepção em níveis nunca antes alcançados.

A violência expressa nesse conto é epistemológica e ontológica (sujeito versus universo). Nossa trivial noção de causalidade desmancha no ar. Metanfetaedro reverbera no plano da ficção o moderníssimo princípio da incerteza que Nietzsche já defendia na coletânea de postagens mais provocativa da história da humanidade: “Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis. (…) Causa e efeito: essa dualidade não existe, jamais existiu ou existirá − na verdade, temos diante de nós um continuum do qual isolamos algumas partes.” (A gaia ciência)

Nos outros sete contos do livro a violência é física e psicológica (sujeito versus sujeito), gerando forte empatia. O autor projeta e denuncia, em realidades ora diabólicas ora sublimes, os conflitos de nossa própria realidade: fome, tortura, pilhagem, exploração sexual, escravidão, intolerância religiosa, dominação racial, genocídio, corrupção na política etc.

Moleque e Tupac Amaru III são os pesadelos lúcidos em que a velha máxima de Hobbes (atualizada) − o sujeito é o monstro metamorfo do sujeito − fica mais evidente.

A impressionante capacidade que os seres imaginários de Alliah têm de disseminar sofrimento é a mesma do primitivo sapiens. Na luta de todos contra todos, vencem os impulsos mais agressivos. São tensões e confrontos envolvendo sereias, geodroides, transaliens, cavernícolas, apolófilos, carniceiros, vermícolas, centáurides, bioconstrutos e crianças selvagens, em bolsões orgânicos de podridão, desertos vivos, jardins de nenúfares e metrópoles autofágicas.

Metanfetaedro (o livro) atualiza o catálogo de criaturas híbridas e bizarras de Bosch, Bruegel e Hoffmann, dos românticos e surrealistas, remoçando a tradição do grotesco. Se vivo fosse, Wolfgang Kayser certamente incluiria em seu célebre estudo sobre o tema um capítulo intitulado New weird, a respeito dessa escola artística e literária tão sinistra, da qual Alliah é um de nossos principais nomes.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.