O fruto maduro da civilização + O éter inconsútil

O fruto maduro + O éter inconsútil

Ivan Carlos Regina
Patuá Editora
120 + 284 páginas
OFMDC publicado originalmente em 1993
Edição dupla lançada em 2019

Não é exagero dizer que Ivan Carlos Regina assegurou um lugar de destaque na história da FC brasileira ao publicar a coletânea de contos O fruto maduro da civilização, em 1993. Com esse breve livro, finalmente a irreverência modernista e tropicalista deram as caras em nossa ficção científica sempre tão séria e circunspecta.

Tupi, or not tupi, is that the question? That is the question, SIM.

Em 1988, o autor apoiou-se no espírito transgressor da Semana de 22, na liberdade verde-amarela de nossos principais artistas eruditos e populares, e no célebre manifesto de Oswald de Andrade, encharcado da brasilidade mais circense e iconoclasta, para propor o seu também célebre Manifesto antropofágico da ficção científica brasileira.

Os dezoito contos curtos reunidos na coletânea de 1993 − garanto que você, sofisticado leitor, encontrará muitas obras-primas entre eles − são a exemplar realização ficcional, que também inclui exercícios de estilo e linguagem, da teoria poética proposta no Manifesto.

À maneira dos tupinambás, Ivan Carlos Regina retalhou a influência estrangeira da FC literária e audiovisual, temperou-a com o melhor de nossa maneira muito tropical, muito carnavalesca de habitar este pedaço de terra chamado Pindorama, deglutiu, lambeu os beiços e regurgitou uma iguaria saborosíssima.

O éter inconsútil, por sua vez, traz sua produção ainda inédita em livro, reunida nos últimos vinte e sete anos. Garanto que você, sofisticado leitor, também encontrará muitas obras-primas aqui. São três dezenas de ficções curtas que transitam na avenida aberta por O fruto maduro da civilização, mas de modo independente, privilegiando mais o assunto do que os exercícios formais. Estes ainda estão presentes, mas em segundo plano.

Filosófica e existencial é a tônica da maioria dos contos, sobretudo dos mais reflexivos, em que o autor trata dos conflitos sociais e políticos, dos defeitos e virtudes do bicho humano. É claro que Ivan faz isso sem abrir mão do bom humor, sempre tirando sarro do lado ingênuo ou ridículo de certos comportamentos civilizados.

Seu humor é direto e transparente, na tradição dos melhores humoristas que Pindorama já teve. Abraçado ao caipora caipira, aos skinnots e ao homem que purpurava, Ivan inaugurou entre nós a ficção científica brejeira. A deliciosa sci-fi chanchada.

O volume da Patuá Editora traz também o artigo Meandros tecnológicos, uma breve introdução à FC de Ivan Carlos Regina, escrita pela pesquisadora norte-americana Karina Elizabeth Vázquez, da qual citarei apenas dois parágrafos:

A narrativa de Ivan Carlos Regina ocupa um lugar importante no conjunto da ficção científica brasileira, desde os anos oitenta até o presente. Sua proposta estética corre por caminhos próprios que o conjunto de escritores desse gênero tem demarcado ao longo de décadas, nas quais preocupações de cunho ideológico, social e cultural têm sido prejudicadas com questionamentos de estilo estético. Porém, ao mesmo tempo, sua narrativa avança por linhas e modelos temáticos divergentes que conduzem à leitura reflexiva e crítica dos paradigmas defendidos pela sociedade moderna.

Por essa razão, a ficção científica no Brasil e, em particular, os relatos de Regina, nos põem mais uma vez diante do que os estudiosos do nível de Antonio Candido (1969) ou Roberto Schwarz (1992) têm analisado em detalhe sobre a formação da cultura brasileira: a complexa relação entre a heterogeneidade cultural latino-americana e as culturas centrais europeia e norte-americana. A preocupação com a tensão ou os conflitos gerados pelas definições do que se considera como nacional ou próprio, em um conjunto cultural amplo e dinâmico, tem estado presente na ficção científica brasileira, pela forma como esse gênero tem se posicionado frente à ciência e à tecnologia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

2084: mundos cyberpunks

2084 mundos cyberpunks

Lidia Zuin (organização)
Lendari Editora
224 páginas
Lançado em 2019

As obras-primas inaugurais do cyberpunk surgiram na primeira metade dos anos 80, mas a atmosfera sombria dessa poética transgressora − muito mais sombria e transgressora na literatura do que nos quadrinhos, nos filmes, nas séries, nos games e nos clipes − continua fascinando autores e leitores do mundo todo. A constante renovação do gênero parece acompanhar uma contagem regressiva… Como se nossa sólida realidade empírica realmente estivesse se modificando na direção dessa insólita irrealidade fantástica, de altíssima tecnologia e baixíssima qualidade de vida.

Na verdade, todos os indícios garantem que nosso cenário está de fato cada vez mais parecido com esse cenário povoado de inteligências artificiais, conexões cérebro-computador, piratas de dados, apocalipses políticos e ecológicos, ciborgues e híbridos, androides e ginoides, memórias implantadas, megacorporações controlando o Estado e muito mais. E é exatamente isso o que tem mantido vivo o interesse de tantos escritores e leitores: a percepção de que a cada ano estamos um pouco mais perto de realizar na sociedade inteira o que a poética cyberpunk vem realizando há um tempão na arte e na literatura.

A coletânea organizada por Lidia Zuin traz trinta e cinco narrativas curtas ambientadas em 2084. Passando os olhos pelo sumário, o leitor logo percebe que se trata de uma seleção de jovens autores, quem sabe de um espontâneo movimento de renovação. O único veterano da FC brasuca é Roberto de Sousa Causo, um dos expoentes da Segunda Onda, que comparece com um conto intitulado A luta do Cangaceiro Jedi, sobre um pixador anarquista cheio de ginga e suas ações solitárias contra o sistema.

Também dão um show de criatividade, os autores mais jovens. Por mais que a novidade-realmente-nova seja quase impossível no esgotado território do cyberpunk, ao menos metade dos autores reunidos na coletânea surpreende com ficções muito acima da média. Meia dúzia desses contos até extrapola as referências anglófonas ao expressar temas tipicamente tropicais e brasileiros, podendo ser classificada de ficção tupinipunk, uma sugestão de Roberto de Sousa Causo.

Além do conto de Causo, esses foram os que mais me agradaram, na ordem em que aparecem no livro:

O evangelho de fósforo branco, de Yago Cury
O canto do galo gaulês, de Bruno Bianchi
A diretora-analista de mídias oníricas, de Fabio Kabral
Mil e um usos para um desfibrilador cefalorraquidiano, de Thiago Loriggio
Do nada para a escuridão, de Gabriel Ferreira
Um bom momento para abrir mão de seu plano de saúde premium, de Ricardo Celestino
O pajemancer, de Mario Bentes
A verdade em 2084, de Dante Saboia
Sinal verde, de Rodrigo Ortiz Vinholo
Imagem, de Rodrigo Ortiz Vinholo

E são os contos que mais me agradaram principalmente pela sua força literária, fundada no estranhamento do normal, na remoção meticulosa da película de familiaridade que reveste nossa sociedade. Tradição que se nutre bastante do conceito de ostranênie dos formalistas russos, de unheimlich de Freud e de epifania de Joyce.

A principal função da ficção científica não é prever o futuro, como pensa o senso comum. A ficção científica é, antes de tudo, ficção. Ela responde primeiro às leis da criação literária e artística, e sua força vem da qualidade estética de suas obras-primas. Mas também é verdade que a FC é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro.

E os autores contemporâneos − da coletânea 2084: mundos cyberpunks e de outras obras igualmente inquietantes − estão fazendo previsões assustadoras… A dúvida não é mais se esses eventos e inovações acontecerão ou não. A dúvida é quando acontecerão.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

Só o tempo pode confirmar essas coisas, mas a antologia Fractais tropicais tem tudo pra se tornar um verdadeiro marco da ficção científica brasileira.

Em escopo, creio se tratar da mais abrangente do gênero, selecionando trinta autores de todas as convencionadas Ondas da FCB, excetuando os precursores do início do século (a Primeira Onda acontece entre 1960 e 1980, em torno das Edições GRD de Gumercindo Rocha Dorea; a Segunda entre 1980 e 2000, época prolífica dos zines e do Clube de Leitores de Ficção Científica; a Terceira a partir dos anos 2000, com a popularização da internet).

Em design, o livro foge dos clichês do gênero, que ficou marcado pelas capas algo espalhafatosas das revistas pulp norte-americanas, que podem agradar os fãs mas fazem inúmeros leitores de fora da bolha torcer o nariz. É um catatau de quinhentas páginas com quase nada de erros de revisão (marca que assola um mercado dominado por edições sem o apuro necessário), com diagramação atraente, minibios espirituosas e uma introdução de respeito.

A principal reivindicação de Nelson de Oliveira, o organizador da antologia, é a libertação da imposta marginalidade do gênero no país, considerado inferior, ou o que é pior, invisível. Não é uma discussão nova e tampouco exclusiva do Brasil, mas aqui há uma singularidade: enquanto lá fora a ficção científica é um gênero sadio e lucrativo (vide o próprio sucesso das traduções do gênero em solo brasileiro), a produzida aqui é ainda tímida e inexpressiva em visibilidade e vendas. Para tentar alterar o status-quo, Oliveira aponta como exemplo as boas obras do campo, as que realmente se sustentam longe do seu reduto, e apresenta como argumento uma verdade incontornável: já vivemos em um mundo de ficção científica, indissociável da tecnologia, e negar isso é negar a realidade.

O surgimento da Fractais Tropicais no final de 2018 não é mero acidente de percurso. É uma culminação do movimento pelo reconhecimento, pela visibilidade, encabeçado por um agente numa posição única, cujo protagonismo e bagagem conferem peso e credibilidade à sua defesa crítica (importante lembrar que Oliveira não é o único defensor do gênero; há todo um coletivo — cada vez mais robusto — de pessoas lutando pela mesma causa, com diferentes históricos e contribuições). Essa retórica é, não por acaso, destrinchada na introdução da antologia, que carrega ainda o mérito de aclimatar um leitor que não tem intimidade com o gênero e sua miríade de subgêneros.

Os contos selecionados dão mostra convincente da nossa pluralidade de vozes. Das histórias mais tradicionais às mais experimentais e abertas. Do trato criativo com a linguagem à linguagem em sua funcionalidade básica. Do final apoteótico ao final sensível, sublime, anticatártico. Os maiores tropos dão sua cara: o ambiente virtual com avatares, o cenário distópico de terra arrasada, a imortalidade alcançada pela alquimia, a guerra cósmica, a viagem no tempo, os implantes neurais, o upload de consciência.

Tamanha é a amplitude, que é virtualmente impossível que todos agradem ao leitor, refém de suas próprias preferências. O nível, contudo, se mantém acima da média, com vários destaques:
Metanfetaedro, de Alliah
Menina bonita bordada de entropia, de Cirilo Lemos
Aníbal, de Andréa del Fuego
Visitante, de Carlos Orsi
Galimatar, de Fábio Fernandes
O dia em que Vesúvia descobriu o amor, de Octavio Aragão
Tempestade solar, de Roberto de Sousa Causo
Caro senhor Armagedom, de Fausto Fawcett
Los cibermonos de Locombia, de Ronaldo Bressane
As múltiplas existências de Áries, de Finisia Fideli
Quando Murgau A.M.A. Murgau e Acúmulo de Skinnot em Megamerc, de Ivan Carlos Regina
O elo perdido, de Jeronymo Monteiro
A ficcionista, de Dinah Silveira de Queiroz
Chamavam-me de monstro, de Fauto Cunha

Mas o destaque da antologia fica mesmo é com duas narrativas mais recentes:
A última árvore, de Luiz Bras
O molusco e o transatlântico, de Bráulio Tavares

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Santiago Santos é escritor e tradutor, autor de Algazarra e Na eternidade sempre é domingo.

[ Trecho da resenha publicada originalmente no portal Cidadão Cultural. ]

Fanfic

Fanfic

Braulio Tavares
Patuá Editora
168 páginas
Lançado em 2019

Não é de hoje que o consenso vem dizendo que Braulio Tavares é um dos escritores mais criativos, prolíferos e versáteis de nossa literatura. Percebi isso logo na primeira vez em que visitei o superblogue Mundo Fantasmo, vasto território que abriga uma quantidade imensa de ensaios, artigos, contos, crônicas e resenhas surpreendentes, sobre todos os assuntos.

Esse paraibano radicado no Rio de Janeiro também faz parte do pequeno time de escritores de altíssimo nível que há três décadas vem impulsionando a ficção científica e a ficção fantástica brasileiras, com narrativas de qualidade inquestionável.

Agora, uma pequena parte da grande produção de Braulio Tavares foi reunida nesta coletânea de espantos e epifanias, batizada com um título inusitado: Fanfic.

São vinte e duas ficções (contos e minicontos) em que nossa cotidiana noção de realidade é posta em xeque, das mais variadas maneiras. Muitas vezes com um bem-vindo toque de humor e irreverência.

A cultura enciclopédica do autor promove nesta coletânea − e praticamente em toda a sua obra − um casamento virtuoso entre o pop e o erudito.

A ciência e a tecnologia mais espantosas estão a serviço da fantasia e do insólito poéticos, quase sobrenaturais, ecoando a célebre lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”

Conectados à concretude abstrata de um alien, um videogame, uma droga da inteligência, uma viagem interestelar, um experimento paranormal ou um excêntrico sonho lúcido, os protagonistas desses contos e minicontos se perdem − às vezes por puro acidente − nos labirintos e nas mandalas da linguagem e da consciência.

Durante o breve tempo da leitura, essas ficções abrem e atravessam, por meio da hiperatividade biotecnológica, as delirantes portas da percepção anunciadas por William Blake e Aldous Huxley. Ou da gloriosa máquina do mundo de Camões e Drummond.

Mas o que há do outro lado das portas da percepção? De acordo com as narrativas de Braulio Tavares, há um sem-número de outras portas, cada uma mais misteriosa do que as outras, guardando um sem-número de interrogações. Cada vez que um mistério é investigado e desvendado, outros brotam em seus interstícios, multiplicando nosso espanto e nossa ignorância.

Um bom exemplo desse fenômeno fractal é a narrativa mais longa da coletânea, intitulada O molusco e o transatlântico. Um astronauta brasileiro que pesquisa a telecinese − capacidade de mover os objetos apenas com a força do pensamento − é sequestrado de uma estação espacial por aliens, que dispensam os outros humanos da equipe internacional, ficando apenas com o brasileiro.

Por mais que o astronauta colabore e tente dialogar com seus sequestradores, tudo o que ele consegue são abstrações simbólicas e reflexos distorcidos num espelho sensorial. A interface entre ele e os aliens é um rosto humano sintético, sem corpo, brilhando no escuro e falando através de uma voz digital: “Eu sou o seu Interlocutor. Você foi convocado para trabalhar para nós.”

Fanfic é uma coletânea feita de camadas e sobreposições, em que a ficção científica e a ficção fantástica extrapolam qualquer limite de gênero. Sobre o inusitado título do livro, o autor escreveu:

A palavra fanfic é uma abreviação de fan fiction, e se refere à ficção escrita por fãs de um autor ou conjunto de autores, utilizando, sem pedir autorização, elementos criados por eles. (…) Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não acho que esteja exagerando quando chamo de fanfic esse conjunto de contos escritos como resultado da leitura de histórias alheias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

A antologia Fractais tropicais propõe ser um panorama representativo da aventura de produzir literatura de ficção científica no Brasil, a partir da seleção de seus principais contos na opinião do organizador, o também escritor Nelson de Oliveira. Conhecido como importante antologista das recentes gerações de escritores no Brasil, nos livros Geração 90 e Geração Zero Zero, assim como por seus próprios trabalhos, como os premiados O filho do crucificado e Poeira: demônios e maldições, entre outros, Oliveira também se tornou ele mesmo um autor de ficção científica, gênero que observa ser a alternativa mais favorável à crise de criatividade da literatura brasileira.

Do alto de suas 496 páginas, Fractais tropicais posta-se como pedra fundamental para um cânone da FC nacional, pois faz um levantamentos técnico, estilístico e histórico do gênero a partir das Ondas de autores vinculados ao movimento dos fãs (fandom), conceito consagrado entre os estudiosos de ficção científica. Dessa forma, o volume se divide em três partes, correspondendo a cada uma das ondas, apresentadas em ordem cronológica inversa, ou seja, iniciando pela terceira e voltando no tempo, como numa viagem ao passado, o que faz todo o sentido num livro de FC.

Dessa forma, o volume se inicia com a Terceira Onda, formada pelos autores que exercitam o gênero a partir do estabelecimento das redes sociais da internet na virada para o século 21, com textos de Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybilla, Cirilo Lemos, Alliah, Santiago Santos, Márcia Olivieri, Andréa del Fuego, Luiz Bras (persona literária do próprio organizador), Ademir Assunção, Tibor Moricz e Ronaldo Bressane.

Na Segunda Onda, também chamada de Geração dos Fanzines, aparecem os autores que produziram seus trabalhos ao longo dos anos 1980 e 2000 nas páginas das publicações independentes – período em que o gênero não tinha nenhum espaço no mercado formal –, dentre os quais Oliveira selecionou contos de Braulio Tavares, Ivanir Calado, Carlos Orsi, Lucio Manfredi, Fabio Fernandes, Ataíde Tartari, Finísia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Ivan Carlos Regina, Octávio Aragão e Fausto Fawcett.

Finalmente chegamos na Primeira Onda, com uma seleta de autores clássicos publicados nos anos 1960 e 1970: André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone. Poderia continuar rumando ainda mais ao passado, recuando à era pré-fandom, que tem exemplos importantes desde o século 19, mas isso por certo enfraqueceria os objetivos mais imediatos do volume.

Percebe-se que, ainda que o organizador tenha se empenhado em dar alguma representatividade aos gêneros, sempre, e ainda hoje, predomina a presença masculina entre os autores. Embora nos demais seguimentos da literatura fantástica, como a fantasia e o terror, haja uma presença feminina mais expressiva, e a Terceira Onda realmente mostre um aumento na variedade autoral, a FC continua sendo o Clube do Bolinha da literatura fantástica, e esse será um panorama difícil de mudar, pois os protocolos da ficção científica, estabelecidos nos anos 1940 e 1950 nas revistas pulp americanas, privilegiavam o público adolescente masculino.

Outras análises podem ser obtidas, mas é conveniente deixá-las para outra oportunidade. O importante agora é destacar que, com Fractais tropicais, a ficção científica dá um passo importante em direção ao estabelecimento de um campo respeitável na literatura nacional.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

Solarpunk

Solarpunk

Gerson Lodi-Ribeiro (organização)
Editora Draco
264 páginas
Lançado em 2013

Budistas e estoicos não se cansam de ensinar que na vida nada é fixo e permanente. Mas até mesmo essa luminosa verdade pode ser relativizada. Se comparados com o tempo brevíssimo de uma vida humana, certos fenômenos cósmicos costumam ser bastante fixos e permanentes. Nosso sol é um deles. Bonachão e constante, sempre esteve por perto, sem faltar um dia sequer.

Artigos de divulgação científica sobre a potência solar também não se cansam de dizer que a quantidade de energia que o sol envia anualmente ao nosso planetinha equivale a mais de dez mil vezes o consumo mundial registrado no mesmo período. Dez mil vezes! Não é o fabuloso moto-perpétuo dos doidivanas, mas, pra nossa fugaz mentalidade primata, chega perto. Só precisamos descobrir um jeito eficiente de mamar nessa tetona generosa e duradoura.

Enquanto os engenheiros e os cientistas não encontram esse jeitinho, nossos ficcionistas fantasiam possibilidades. Na coletânea de contos Solarpunk, vários autores imaginaram incríveis sociedades ecológicas. Exatamente: sociedades que deram um passo à frente e aboliram o uso das energias que provocam danos às pessoas e ao meio ambiente, em favor das energias limpas, principalmente a do astro rei.

De todos os contos reunidos, Sol no coração, de Roberta Spindler, foi o que abraçou com mais força a causa da energia solar. Numa sociedade futura, a luz irradiada pela distante fusão nuclear de nossa generosa e duradoura estrela não alimenta apenas as máquinas. Essa luz também alimenta e fortalece as pessoas, que logo na infância recebem no corpo finíssimas placas solares − implantes semelhantes a uma tatuagem − e injeções de nanomáquimas capazes de promover a revolucionária fotonutrição.

O confronto dos reinos, do português Telmo Marçal, também oferece humanos que se alimentam da luz solar. Humanos, não, pós-humanos, porque esses cidadãos solares já pertencem a outra espécie, a espécie das pessoas clorofilizadas. Um novo capítulo na história da evolução artificial leva ao limite a oposição violenta entre o reino animal e o vegetal. O conto de Telmo Marçal − uma sátira de investigação − é o mais irreverente da coletânea, graças à verve do autor e ao saboroso sotaque lusitano.

O conflito do conto de Gabriel Cantareira, intitulado Fuga, gira em torno da sabotagem de “um gigantesco sistema de satélites estacionários que captavam a energia solar e a transmitiam para a superfície terrestre usando micro-ondas”. A política das energias renováveis não é a protagonista, mas o pano de fundo de uma narrativa centrada no combate às maquinações maquiavélicas das grandes corporações.

O tema da grande conspiração totalitária também é o combustível que põe em movimento a bela ficção étnica de André S. Silva, Xibalba sonha com o oeste, ambientada num Rio de Janeiro alternativo. Curiosamente, essa sociedade retira sua energia não do sol nem do vento, mas das descargas elétricas atmosféricas, produzidas pelas tempestades. Esse sistema só não é mais surpreendente do que o sistema do conto de Daniel I. Dutra, intitulado Gary Johnson, sobre uma sociedade cuja principal fonte energética é… Melhor não revelar, pra não roubar dos leitores a surpresa bizarra.

A proposta editorial da coletânea Solarpunk é incomum. Somos convidados a imaginar um planeta sustentável, movido por energias limpas e renováveis. Convite maravilhoso. Quem não gosta de idealizar utopias energéticas? Mas os nove contos reunidos, muito sacanas, logo emporcalham nosso ingênuo devaneio de equilíbrio e felicidade. De que maneira? Introduzindo na harmoniosa equação uma variável desafinada: nós, humanos.

Não importa se no futuro ou numa realidade alternativa a sociedade abandonou as energias sujas em favor da energia solar, eólica, geotérmica, maremotriz, hidráulica, nuclear etc. Onde houver humanos, o selvagem desejo de dominação será a principal fonte dos transtornos sociais.

Veteranos da FC brasuca, Carlos Orsi, Romeu Martins, Antonio Luiz M.C. Costa e Gerson Lodi-Ribeiro completam o grupo de autores, comparecendo com pesadelos cativantes e igualmente reveladores da inclinação humana para o desastre.

Além de refletir de maneira excepcional sobre o perene drama humano, a ficção científica adora prender nossa atenção com promessas sedutoras. Terminada a leitura de Solarpunk, ainda estou cobiçando certos itens que não dá pra comprar na internet mas eu gostaria muito de adquirir: a terapia de reprogramação genética e o upload de consciência de Soylent green is people! (Orsi), um frasco do gás-do-ódio de E atenção: notícia urgente! (Martins), a capa da invisibilidade do divertido Era uma vez um mundo (Costa), e, mais que tudo, o supertraje biocibernético de Azul Cobalto e o Enigma (Lodi-Ribeiro).

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Anjos, mutantes e dragões

Anjos Mutantes e Dragões

Ivanir Calado
Editora Devir
296 páginas
Lançado em 2010

Essa antologia com as melhores ficções curtas de Ivanir Calado reúne quinze narrativas de ficção científica e fantasia escritas no final do século passado, anteriormente espalhadas por diversas coletâneas temáticas, incluindo uma coleção de livros sobre os sete pecados capitais.

Apesar de juntar contos produzidos em momentos diferentes, escritos sob encomenda para projetos contrastantes, o volume é regular e equilibrado, fato incomum nesse tipo de reunião.

Manipulando com competência certos elementos de psicologia, ecologia, mitologia, sociologia, política e História, a escrita de Ivanir Calado se destaca pela elegância e pela riqueza de pormenores. E o enredo de seus contos, ao buscar a clássica unidade de efeito proposta por Edgar Allan Poe, sempre surpreende.

Sylvio Gonçalves observa, na apresentação de Anjos, mutantes e dragões, que o contista explora muito bem uma capacidade exclusiva da ficção científica e da fantasia: denunciar as mazelas de nossa sociedade por meio da criação de realidades diferentes da nossa apenas na aparência.

Todos os contos me agradaram bastante, especialmente esses cinco:

Paradoxo de narciso, o próprio título já está insinuando, é uma narrativa que explora um dos possíveis paradoxos criados por uma viagem no tempo. A premissa não é nova na ficção científica, mas rendeu aqui uma variação interessante. O protagonista volta doze anos no passado, visita a si mesmo mais jovem e o encontro produz uma insólita dinâmica afetiva, algo que o viajante não havia previsto. (Esse conto também foi selecionado para a antologia Fractais tropicais: o melhor da ficção científica brasileira, da Sesi-SP Editora.)

Operação Lobo narra uma ação secreta pra libertar de uma fortaleza-prisão um químico romeno que decidiu passar para o lado dos adversários do regime do ditador Ceausescu. Um detalhe preocupante da estratégia de resgate é que não há plano de fuga. Uma vez encontrado o professor, ficará a cargo dele pensar num modo de escaparem da fortaleza-prisão. O aspecto científico desse conto − o uso de um gás paralisante − recebeu um bem-vindo tratamento cômico.

Kilumbo é uma ficção curta que transfere para o espaço um fragmento da história da escravidão no Brasil. Não há navios negreiros, mas naves igualmente insalubres que transportam os escravos kiluns até os asteroides-minas, onde trabalham até morrer. McZomb, líder de seu grupo, decide comandar uma revolta que, se bem-sucedida, libertará os kiluns, permitindo que fujam para um planeta distante.

Eleanor Rigby, inspirada numa de minhas canções favoritas dos Beatles, reapresenta o tema clássico da prostituta solitária e deprimida. A fim de escapar da rotina de objeto sexual, a protagonista compra numa loja um rosto novo, aumentando sua coleção. Durante um passeio, ela conhece um homem e se apaixonam. Nesse futuro indeterminado, “o casamento está de novo na moda”. A questão é se a opressora Companhia pra qual Eleanor trabalha aceitará pacificamente sua deserção…

O altar dos nossos corações é uma das narrativas mais longas da coletânea. Parece que a proverbial promiscuidade entre Estado corrupto e crime organizado, que conhecemos tão bem, ainda se prolongará por muito tempo. O governador do Rio de Janeiro é sequestrado por uma facção criminosa, isso põe em movimento a roda de trapaças e traições. Entre as assustadoras novidades dessa época está a ponte Rio-Niterói, que virou uma favelona fortificada, vigiada pelos urubus: garotos armados pilotando ultraleve.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.