Será

Será

Ivan Hegenberg
Editora Ragnarok
240 páginas
Lançado em 2007

O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.

O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.

Dezenas de personagens, posicionados pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, os romances A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.

Todos os fatos aqui revelados se passam no século 23. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e temporal (os indivísduos podem viajar artificialmente pra qualquer lugar ou época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macro e do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).

Nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Porém, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século 20. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, as ideologias de direita e esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.

O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança pra esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura por esse contato último reunirá e separará muitas das dezenas de personagens do romance. Eles precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fábulas do tempo e da eternidade

Fábulas do tempo e da eternidade

Cristina Lasaitis
Editora Dandelion
176 páginas
Lançado em 2008 pela Tarja Editorial

A literatura brasileira de fantasia e ficção científica tem mostrado uma vitalidade que lhe faltava desde o fim dos anos 60, quando se esgotou a novidade da chamada Primeira Onda. Houve novos autores e obras dignas de menção nas últimas três décadas do século que passou, mas a chamada Segunda Onda, em comparação à anterior, mais pareceu uma marola, menos por falta de talento e empenho dos autores do que pelas condições desfavoráveis.

Desde o início do milênio, novos escritores e novas obras têm surgido em um ritmo que, mais que firme, parece crescer em quantidade e qualidade, superando décadas de lamentos e frustrações. O gênero consegue novamente ser publicado fora de fanzines dirigidos a círculos estreitos e rígidos. Com mais retorno de leitores e editoras e mais diálogo a estimular a produção e o desenvolvimento técnico dos autores, a ficção especulativa brasileira está deixando de ser uma seita para voltar a ser um gênero capaz de interessar leitores com algum gosto, iniciados ou não. Muita coisa continua e continuará medíocre, como em qualquer ramo da literatura e da arte. Mas também há textos que merecem ser lidos.

Destas novas safras, não há como deixar de recomendar Fábulas do tempo e da eternidade. Primeiro livro da iniciante Cristina Lasaitis, nascida em 1983, pouco ou nada deixa a dever às melhores obras da ficção especulativa brasileira. Até monstros sagrados de reputação global, como Philip K. Dick e Ray Bradbury, ou monstras, como Ursula K. Le Guin e Marion Zimmer Bradley, teriam orgulho de poder contar com um ou outro desses contos entre suas primeiras obras.

Com muita sensibilidade, doze contos exploram personagens ricos e insólitos que se debatem com o tema do tempo e dos limites que lhe são postos pela condição mortal humana ou mesmo algo mais que humana, em diferentes universos imaginários da ficção científica e da fantasia.

Há mundos futuros regidos pela realidade virtual mais complicada que a de Matrix, alquimistas atrás de uma maneira de driblar o tempo, capaz de superar o velho elixir da longa vida, um inca obcecado pelo futuro de seu império, uma cientista que assassina o tempo, intelectuais frustrados na noite paulistana, uma vida solidária e duríssima em um deserto de Atacama pós-apocalíptico, e duas entidades inimagináveis de zilhões de anos no futuro a enfrentar juntas os últimos momentos de um universo entrópico a dar seu derradeiro suspiro. Há até um mundo de caçadores especializados em desvirginar anjos (daqueles mesmos que têm asinhas e costumavam viver no céu).

Seria exagero dizer que há para todos os gostos: não se encontram heróis invencíveis e insensíveis, caçadores de tesouros e recompensas, ou exaltações bélicas contra monstros de olhos esbugalhados. Mas a variedade é impressionante.

O ponteiro do relógio passa da fantasia mágica mais delirante à ficção científica mais rigorosa, e nesta o estado da arte do conhecimento e da especulação teórica é levado a sério de maneira pouco comum nos autores brasileiros (principalmente os da Primeira Onda). Em todos os casos tratam-se de histórias escritas com sensibilidade, verossimilhança e muito carinho e respeito pelo leitor exigente. Várias delas parecem completar-se mutuamente, sugerindo um quebra-cabeça que se estende do começo ao fim dos tempos, a ser ampliado por futuros desenvolvimentos.

Surgem situações das mais insólitas, como apenas o sonho mais desregrado ou a ciência mais disciplinada podem conceber, mas o foco está sempre em como podem ser vividas com sentimentos humanos, dos mais delicados aos mais brutos. É uma ficção científica orgulhosamente humanista dentro da melhor tradição brasileira do gênero, escrita sem concessões às tentativas de imitar clichês hollywoodianos que agradam um público fiel, mas embotam a veracidade e empobrecem a criatividade do gênero.

Antonio Luiz M. C. Costa é jornalista e ficcionista, autor dos romances da série Crônicas de Atlântida.

[ Resenha publicada originalmente na revista Carta Capital. ]

Os melhores contos brasileiros de ficção científica

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Roberto de Sousa Causo (organização)
Editora Devir
200 páginas
Lançado em 2007

Essa é a primeira de três antologias de ficção científica brasuca organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir. A segunda, de subtítulo Fronteiras, saiu em 2009 e a terceira, reunindo narrativas mais longas (novelas), em 2011. A trilogia oferece ao leitor vinte e nove ficções, de vinte autores fundamentais.

Na apresentação do primeiro volume, a história do gênero no Brasil é dividida em três períodos. O primeiro período, de produção mais ingênua e nacionalista, vai da segunda metade do século 19 até meados do 20. Esse é o período dos pioneiros, quase todos influenciados por Verne, Doyle e Wells.

O segundo período começa em 1960, com a coleção Ficção Científica GRD, do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, e termina no final da mesma década. Esse período, de produção mais autoconsciente e cosmopolita, é chamado de A Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira.

O terceiro período, de produção mais rica e diversificada, começa na década de 80 e continua até os dias de hoje, representando a Segunda e a Terceira Onda da FC brasuca. Bastante equilibradas, as antologias de Causo trazem o melhor de cada um desses períodos.

Não sou especialista no assunto, mas a sensação que eu tenho, diante da quantidade de saites, blogues e revistas online destinados ao gênero, é que a ficção científica brasileira está muito viva na internet, porém bastante fragilizada, quase moribunda, nas livrarias.

É claro que jamais deixou de acontecer o eterno pinga-pinga de coletâneas de contos e romances de autores nacionais. Mas a freqüência com que esses livros têm aparecido é pequena e insuficiente, incapaz de projetá-los pra fora de seu círculo alternativo e marginal, motivando mais e melhores leitores.

Nesse pinga-pinga, para cada cinco ou seis pingos medíocres, sem a mínima qualidade literária, há pelo menos um muito bom, inventivo, consistente, poético. No entanto, esses poucos autores talentosos que, com o passar dos anos, formam quase uma pequena multidão, não são reconhecidos como verdadeiros autores.

Seus livros não são resenhados nas principais revistas e nos principais cadernos culturais, e eles não são convidados para participar dos eventos literários mais prestigiados, reservados apenas aos que fazem, na falta de nome melhor, a alta literatura brasileira, essa mesma literatura que é ensinada nos colégios e nas faculdades de Letras.

O prestígio que prosadores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan desfrutam entre críticos, livreiros e leitores, autor algum de FC conseguiu ou está conseguindo desfrutar. A pergunta é: por quê? O que há em nossa ficção científica que a impede de sair do gueto, de ganhar as melhores estantes nas melhores livrarias e com isso ampliar seu público?

Essa não é uma pergunta retórica. Só seria se eu soubesse a resposta. A boa ficção científica brasileira é riquíssima. Há gente não apenas produzindo contos e romances interessantes, mas também refletindo e teorizando com perspicácia. Espero que vocês me ajudem a desvendar esse mistério. Também espero que possam, quem sabe, começar a desfazer esse nó editorial, esse por quê? desconfortável, que pra mim não faz sentido algum.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

A espinha dorsal da memória & Mundo fantasmo

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Braulio Tavares
Editora Rocco
256 páginas
Lançado em 1996

O trabalho de estreia de Braulio Tavares na ficção foi um pequeno texto chamado Os pensadores de São Tiago, publicado em 1986 no número 11 do fanzine Hiperespaço, uma edição especial de contos. Na sequência, Tavares tornou-se colaborador regular do Somnium, boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica, com contos que posteriormente formaram a coletânea A espinha dorsal da memória. Publicada em 1990 pela editora Caminho, de Portugal, essa reunião de ficções recebeu o Prêmio Nova de melhor livro de autor brasileiro naquele ano. A edição nacional saiu em 1996, pela editora Rocco, acrescida da coletânea inédita Mundo fantasmo.

A espinha dorsal da memória é formada por doze contos que ajudaram a consolidar a identidade da geração conhecida como Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, entre eles Sympathy for the devil, ganhador do Prêmio Nova em 1989, História de Maldum, o mensageiro, que deu origem ao romance A máquina voadora (Rocco, 1994), e Príncipe das sombras, história de invasão alienígena que vai da ficção científica hard à space opera e ao cyberpunk, num passeio completo pelo gênero. Sem esquecer de Mestre-de-armas, conto vencedor do Prêmio Nova em 1990, considerado por muitos seu melhor trabalho.

Destaque para o curtinho Mare tenebrarum, que relata um drama infelizmente muito comum no Brasil: um temporal, a água entrando pela casa, cobrindo móveis e destruindo a realidade de uma família pobre, mas… e se a enxurrada fosse forte demais?

Girando o livro de ponta-cabeça e lendo de trás para frente está Mundo fantasmo, que, abrindo com uma epígrafe tirada do Grande sertão: veredas (“E vi o mundo fantasmo”), apresenta mais sete histórias inéditas até então. Oh Lord, won’t you buy me é praticamente uma homenagem ao fã brasileiro de literatura fantástica, sempre em busca de mais e mais livros pelos sebos da cidade. É impossível não se identificar com o personagem que se encontra com Deus em pleno metrô paulistano.

Mais homenagens em Exame da obra de Giuseppe Sanz, história de um escritor de sucesso que produzia suas obras dissecando trabalhos alheios e revestindo-os com uma figuração moderna. E não é o que os autores fazem o tempo todo?

História de Cassim, o peregrino, e de um crime perfeito que Deus castigou é uma espécie de sequência à História de Maldun, o mensageiro, menos assustadora mas igualmente deliciosa, na qual um homem relata aos seus companheiros de bebida um intrigante conto de amor, traição e imortalidade.

Tavares também experimentou a forma literária em Expedição às profundezas do oceano, história de horror urbano contada no único parágrafo de um relatório policial. Mas o conto mais surpreendente dessa ótima coletânea é E assim destruímos o reino do mal, no qual um guerreiro obcecado pela destruição do mal sobre a Terra acaba por tornar-se o próprio coração da maldade.

Cada história é a passagem para uma realidade diferente, repleta de sense of wonder, que, no final das contas, é o que faz de todos nós fãs da ficção fantástica e científica.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

Shiroma: matadora ciborgue

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Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
248 páginas
Lançado em 2015

A ciborgue assassina do fix-up de Roberto de Sousa Causo carrega uma concha que sempre leva aos ouvidos quando algum acalento se faz necessário ou quando as dúvidas se apresentam. Vinda de dentro da concha, soa a voz da mãe, com mensagens de conforto e, às vezes, indicações de como agir. Também seu eu infantil está lá, a fim de lembrar que as coisas já foram diferentes. Para suportar a vida de assassina que lhe foi imposta, a ciborgue cultiva a memória de suas origens, de um tempo em que ainda era chamada de Bella Nunes, e não Shiroma. Restituir o estado original é seu objetivo: escapar do casal que a raptou ainda criança, atraídos pelo potencial de seu organismo biocibernético, e voltar ao nome Bella. Em um horizonte distante, é seu projeto utópico abandonar a identidade e a ocupação impostas. As duas últimas histórias do volume lidam diretamente com esse objetivo.

Falando em utopia, esse é um tópico que reaparece insistentemente em diversas das onze narrativas a compor o fix-up, e no próprio cenário interestelar de Shiroma. Há utopia na representação de uma humanidade que foi para além de seu planeta natal, empreendendo uma jornada de descobertas, de um verdadeiro contato com a alteridade – ambientes outros e consciências outras, capazes de colocar sob uma diferente perspectiva a própria humanidade em seus preceitos e preconceitos.

Colabora com esse propósito o completo domínio narrativo de Causo, que salta aos olhos na forma como a fabulação mantém um ritmo instigante e sem embaraços, bem como no uso do foco narrativo apegado às percepções de Shiroma. Um dos segmentos do fix-up, A extração, abandona o ponto de vista da personagem de forma segura, e o leitor sente que está em boas mãos: a estratégia apresenta contrapontualmente um necessário olhar externo a Shiroma, contribuindo para uma compreensão mais ampla dela e, também, da Era Galáctica. Esta, cabe lembrar, é compartilhada por outro personagem de Causo, Jonas Peregrino, o protagonista do romance Glória sombria e de alguns contos – Peregrino, inclusive, é mencionado em diversas ocasiões em Shiroma: matadora ciborgue. Futuramente, o projeto do autor é promover o encontro entre os dois personagens.

Shiroma é uma representação positiva do feminino, capaz de evocar analogias com a circunstância autoritária imposta pelo patriarcado. Como as mulheres de nossa realidade imediata, a personagem precisa se libertar de papéis a ela impostos ou, ao menos, reinventá-los.

Por fim, algumas palavras ainda sobre a concha que presentifica o passado para Shiroma. É bastante significativo que o artifício ficcional a sugerir caminhos e esperanças para o porvir remeta ao passado: um indicativo de que o novo curiosamente precisa de algum vínculo com o que veio antes (com a tradição que precisa antropofagicamente ser digerida) para de fato atuar no presente. É um procedimento caro a Causo também em outro plano: o da tradição literária da ficção científica explicitamente trazida à tona nas dedicatórias de algumas das narrativas, interessadas em homenagear autores como Fausto Cunha, Rubens Teixeira Scavone e Clark Darlton. A ficção científica, assim, pode olhar para o futuro e construir como bem desejar sobre fundações instituídas – como o faz toda a literatura, aliás.

Ramiro Giroldo é crítico literário, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia.

O fruto maduro da civilização

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Ivan Carlos Regina
Editora GRD
84 páginas
Lançado em 1993

Para os especialistas e até mesmo para o senso comum, o humor é uma forma de expressão secundária, considerada superficial, sempre atrás da seriedade profunda do drama e da tragédia. Esse preconceito contra o riso é antigo. Raramente pensamos numa comédia quando convidados a indicar as principais obras-primas da arte e da literatura. No campo da ficção científica não é diferente. Dois dos livros mais importantes da FC brasuca, porém, são obras marcadas pelo humor. Refiro-me à coletânea de contos O fruto maduro da civilização e ao romance Piritas siderais, de Guilherme Kujawski, lançado em 1994. Por ora comentarei apenas o primeiro.

Um novo manifesto antropofágico e dezoito narrativas − umas breves, outras brevíssimas − compõem a coletânea de Ivan Carlos Regina. Desse conjunto, mais da metade é excelente, e ao menos quatro − Quando Murgau A.M.A. Murgau, O caipora caipira e Quem viver verá, além da última, que dá título ao volume − mereciam ter sido cogitadas pra célebre antologia organizada por Italo Moriconi, Os cem melhores contos brasileiros do século.

A ficção mais longa tem apenas seis páginas. A mais curta, meia página. Duas narrativas são em versos, fato raro na ficção científica daqui e de fora. Aliás, a poesia atravessa praticamente o livro todo, além de ser o assunto do penúltimo conto.

Quando Murgau A.M.A. Murgau é um comovente libelo contra a homofobia, mesmo falando de uma espécie animal que habita Plutão. Mais adiante, dialogando com o Macunaíma, de Mário de Andrade, O caipora caipira convoca um conhecido personagem de nossa demonologia para uma irreverente cruzada ecológica. Esse conto curto defende na prática a teoria do Manifesto antropofágico da ficção científica brasileira que abre o volume.

Quem viver verá narra a não menos tragicômica odisseia de um luso-brasileiro que passa pelo processo de criopreservação a fim de descobrir “quão velho pode ser um homem?” E a ficção mais séria da coletânea é justamente O fruto maduro da civilização, feita de fragmentos apocalípticos que nos alertam para um fenômeno perverso, de degradação física e moral, que pode estar ocorrendo neste exato momento. Bela simetria: este conto é o reflexo escuro do manifesto inicial. Mas até mesmo essas páginas tão severas oferecem algo de bizarro, tangenciando o humor negro, muito apreciado pelos surrealistas de todas as nacionalidades.

Nas melhores ficções de Ivan, em prosa ou verso, o humor é do tipo filosófico, configurando uma resposta rápida e violenta à estupidez fisiológica de nossa sociedade de consumo. Seus alvos prediletos são a indústria cultural, as agências de propaganda, as megacorporações, a burocracia institucional, o moralismo religioso e os tabus sexuais. No panelão do canibal modernista, Ivan tempera certos clichês da pulp fiction anglófona − abdução, criogenia etc. − com a pimenta e o azeite dos trópicos.

Além da inclinação para o humor filosófico e o pitoresco brasileiro, outra coincidência aproxima a biografia de Ivan Carlos Regina e a de Guilherme Kujawski: o silêncio literário. Cada autor publicou um importante livro de ficção científica, nos anos 90, e só. Apesar da recepção bastante positiva, até agora novos livros de FC ainda não foram lançados por eles. Infelizmente.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.