Metanfetaedro

MetanfetaedroAlliah
Tarja Editorial
232 páginas
Lançado em 2012

Beleza e tristeza, prazer e dor se alternam, às vezes se confundem, formando uma liga fascinante. As narrativas reunidas na primeira coletânea de Alliah são hiperjanelas grotescas para os muitos tipos históricos de pressão, repressão e opressão articulados por nossa espécie predadora. Das oito ficções, apenas a última, justamente a que dá título ao volume, não soca o nariz do leitor com cenas explícitas de machismo, racismo, fascismo e outros ismos abjetos.

Metanfetaedro (conto escolhido pra integrar a antologia Ficções fractais, da Sesi-SP Editora), apresenta um explorador solitário chamado Luca − um alter ego new weird do matemático Luca Pacioli, amigo de Leonardo da Vinci −, que passa de uma dimensão surreal a outra, geométrico-onírica. Sua jornada meio abstrata meio poética segue das artes plásticas para a geometria não euclidiana, depois retorna, arrastando referências dessas duas esferas.

Nessa narrativa o leitor pode apreciar a grande habilidade de Alliah na criação de analogias sensoriais metafísicas. Um ótimo exemplo é a droga pan-óptica capaz de expandir nossa percepção. Tempos atrás, antes de sua aventura no interior de um rombicuboctaedro fantástico, o narrador-explorador inventou uma chave pra manipular a mente humana:

Chamava-se metanfetaedro, e era uma droga não convencional. Não se tratava de uma substância química para ser engolida ou injetada, mas de uma droga visual construída por nossas noções espaciais através de um mapa matemático de projeção, que alterava nossa percepção em níveis nunca antes alcançados.

A violência expressa nesse conto é epistemológica e ontológica (sujeito versus universo). Nossa trivial noção de causalidade desmancha no ar. Metanfetaedro reverbera no plano da ficção o moderníssimo princípio da incerteza que Nietzsche já defendia na coletânea de postagens mais provocativa da história da humanidade: “Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis. (…) Causa e efeito: essa dualidade não existe, jamais existiu ou existirá − na verdade, temos diante de nós um continuum do qual isolamos algumas partes.” (A gaia ciência)

Nos outros sete contos do livro a violência é física e psicológica (sujeito versus sujeito), gerando forte empatia. A autora projeta e denuncia, em realidades ora diabólicas ora sublimes, os conflitos de nossa própria realidade: fome, tortura, pilhagem, exploração sexual, escravidão, intolerância religiosa, dominação racial, genocídio, corrupção na política etc.

Moleque e Tupac Amaru III são os pesadelos lúcidos em que a velha máxima de Hobbes (atualizada) − o sujeito é o monstro metamorfo do sujeito − fica mais evidente.

A impressionante capacidade que os seres imaginários de Alliah têm de disseminar sofrimento é a mesma do primitivo sapiens. Na luta de todos contra todos, vencem os impulsos mais agressivos. São tensões e confrontos envolvendo sereias, geodroides, transaliens, cavernícolas, apolófilos, carniceiros, vermícolas, centáurides, bioconstrutos e crianças selvagens, em bolsões orgânicos de podridão, desertos vivos, jardins de nenúfares e metrópoles autofágicas.

Metanfetaedro (o livro) atualiza o catálogo de criaturas híbridas e bizarras de Bosch, Bruegel e Hoffmann, dos românticos e surrealistas, remoçando a tradição do grotesco. Se vivo fosse, Wolfgang Kayser certamente incluiria em seu célebre estudo sobre o tema um capítulo intitulado New weird, a respeito dessa escola artística e literária tão sinistra, da qual Alliah é um de nossos principais nomes.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Diário da nave perdida

Diário da nave perdida

André Carneiro
Editora EdArt
216 páginas
Lançado em 1963

Mais de cinco décadas após seu lançamento, a primeira coletânea de contos de André Carneiro continua aguardando a segunda edição. Consegui meu exemplar amarelado e malcheiroso há poucas semanas na Estante Virtual. Não custou caro, apesar da raridade. Não há dúvida de que foi sorte.

O volume reúne oito narrativas. Cinco de ficção científica: Zinga, o robô, Noite de amor na galáxia, O começo do fim, A prostituta e Diário da nave perdida. Três de ficção fantástica: A organização do doutor Labuzze, O homem que hipnotizava e A escuridão. (Minha definição particular de ficção fantástica, sobrenatural e científica pode ser conferida em Ficção fantástica: notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças.)

Não existe ponto baixo nesse livro. O conto mais fraco do conjunto, Zinga, o robô, justamente o primeiro da sequência, apesar de datado, é uma divertida sátira de costumes. Nele um pai de família compra pra esposa, em prestações, um serviçal de metal e plástico. Mas é claro que, interpretando literalmente os comandos − cheios de imprecisões − da patroa, a máquina quase põe a casa abaixo. No final tudo se resolve, como numa sitcom convencional.

Os melhores contos são, de um lado, os que expressam a angústia paranoica tão potente e tão presente na obra literária de André Carneiro e, de outro lado, os que expõem a insatisfação do indivíduo com seu contexto sempre insuficiente.

Em A organização do doutor Labuzze e O começo do fim, os protagonistas relatam por escrito − forma muito usada pela Velha Guarda do sobrenatural, do fantástico e da ficção científica pra conferir autenticidade aos fenômenos testemunhados − a experiência insólita que vivenciaram. A realidade modifica-se, mas a verdade insiste em se esconder, forçando os heróis (?) a lidar com a dúvida sufocante.

Em O homem que hipnotizava e Diário da nave perdida os protagonistas relatam seu desacordo com as regras do jogo social. Aceitar pacificamente a realidade imposta pelo sistema deixa de ser uma boa opção quando a possibilidade de mudança ganha força. No primeiro caso, por meio da auto-hipnose, que aperfeiçoa tudo ao redor, até mesmo a aparência das pessoas. No segundo, devido ao desligamento acidental da bolha civilizatória de uma espaçonave avariada. Subtexto psicanalítico: certos impulsos cuidadosamente domesticados sempre escapam da jaula quando o carcereiro tira um cochilo.

Fora da esfera da angústia paranoica e da subversão das normas sociais, o excêntrico Noite de amor na galáxia (péssimo título para um ótimo miniconto) e o naturalista (calma, estou pensando em Émile Zola) A prostituta tratam de outro tema recorrente na ficção do autor: o sexo.

Também está nesse volume inaugural o conto mais festejado de André Carneiro, A escuridão, sobre um fenômeno sem explicação, que rouba vagarosamente a luminosidade do sol e das estrelas, e de qualquer coisa que emita luz, fagulha e calor luminoso. O planeta fica às escuras. O fogo e a eletricidade deixam de aquecer a água e os alimentos.

Excelente exemplo de nossa ficção fantástica, esse conto já foi acolhido em antologias daqui e do exterior.

O que estaria provocando a escuridão? O narrador e os personagens hesitam entre três ou quatro suposições divergentes, físicas e metafísicas, sem chegar a uma conclusão definitiva, e é essa hesitação que caracteriza a boa ficção fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Futuro presente

Futuro presente

Nelson de Oliveira (organização)
Editora Record
416 páginas
Lançado em 2009

O espaço é curto. O livro é longo (416 páginas); os contos e autores são muitos (dezoito autores com uma ficção cada). Futuro presente é uma coletânea de contos (alguns curtos, outros nem tanto) de ficção científica, organizada pelo famigerado Nelson de Oliveira, coordenador de outras tantas antologias e projetos célebres e desbravadores, como o Projeto Portal, também de FC e fantasia.

A escolha dos autores privilegiou a mistura de gerações e estilos – desde autores consagrados, como Márcio de Souza (cuja obra Mad Maria se tornou minissérie da Globo), a autores desconhecidos, com certa predominância de ficcionistas que nasceram no estado de São Paulo (dez dos dezoito). Problemas de logística, provavelmente, porque em outros estados não representados no livro devem, sim, existir ficções sobre o futuro.

Após a leitura de livros como esse, surgem as questões: por que nós, brasileiros, lemos tantas obras estrangeiras? Por que assistimos a tantos filmes vindos dos Estados Unidos, inclusive àqueles futuristas com a irritante mania de tentar convencer o resto do mundo de que os ianques salvarão o mundo do apocalipse, como bons heróis que são?

Os antropólogos e historiadores responderiam: dentre alguns traços característicos da cultura brasileira, um dos mais perceptíveis é a valorização do estrangeiro em detrimento do nacional. Os sociólogos mais radicais responderiam: o capitalismo é selvagem e privilegia os que possuem mais poder, mais condições, mais ferramentas em mãos (dentre as quais as da publicidade e propaganda), realidade que vale também para o mercado cinematográfico e editorial. Outros responderiam: por pura diversão ou por necessidade de entretenimento e fruição. Cada qual com sua opinião, todos têm razão.

Um trecho da orelha do livro escrita por Fábio Fernandes: “Temos contos passados em outros planetas, raças estrangeiras em futuros distantes, alienígenas entre nós, experiências genéticas loucas, telepatia, viajantes descendo em maelströms interestelares. Enfim, tudo tem”. Sim, leitor, conteúdo diverso (dentro da temática proposta) com linguagens diversas, desde as mais tradicionais, que cumprem a única função de contar uma história, até as mais (mas nem tanto assim) experimentais. Experimentalismos linguísticos em ficção científica funcionam, funcionariam? Existe (surgirá?) o Guimarães Rosa da FC?

Um dos requisitos básicos de uma boa obra literária é conseguir, astutamente, que o leitor entre em um novo plano, de maneira que ele esqueça, naquele momento da leitura, de todos os percalços da vida e se preocupe com os percalços da ficção lida. Vários dos contos do Futuro presente conseguem essa proeza

Entregue-se, leitor. Não é necessário se basear nas listas dos mais vendidos de revistas não confiáveis nem de assistir a filmes saturados de clichês para buscar entretenimento, diversão e fruição de qualidade. Na literatura brasileira há muitos livros que conseguem, e bem, transportar o leitor para uma nova realidade e ser um meio interessante de investigação e imaginação. Em Futuro presente há várias realidades, umas mais outras menos convincentes, umas mais outras menos cativantes. De algumas delas é impossível sair intacto, tamanha é sua capacidade de maravilhar o leitor.

Experimente, leitor, trocar aquele livro estrangeiro sobre pipas, ou aquela superprodução estadunidense, ou aquele filme repetidíssimo da Sessão da Tarde, ou aquele videogame com gráficos impressionantes pela coletânea Futuro presente. Não sairá perdendo; ao contrário, só terá a ganhar. E ganhará muito.

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Sinvaldo Júnior é ficcionista e ensaísta, autor de Manicômio, assinado por seu alter ego Rogers Silva.

[ Resenha publicada originalmente no portal Textifique ]

Será

Será

Ivan Hegenberg
Editora Ragnarok
240 páginas
Lançado em 2007

O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.

O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.

Dezenas de personagens, posicionados pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, os romances A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.

Todos os fatos aqui revelados se passam no século 23. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e temporal (os indivísduos podem viajar artificialmente pra qualquer lugar ou época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macro e do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).

Nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Porém, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século 20. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, as ideologias de direita e esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.

O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança pra esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura por esse contato último reunirá e separará muitas das dezenas de personagens do romance. Eles precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fábulas do tempo e da eternidade

Fábulas do tempo e da eternidade

Cristina Lasaitis
Editora Dandelion
176 páginas
Lançado em 2008 pela Tarja Editorial

A literatura brasileira de fantasia e ficção científica tem mostrado uma vitalidade que lhe faltava desde o fim dos anos 60, quando se esgotou a novidade da chamada Primeira Onda. Houve novos autores e obras dignas de menção nas últimas três décadas do século que passou, mas a chamada Segunda Onda, em comparação à anterior, mais pareceu uma marola, menos por falta de talento e empenho dos autores do que pelas condições desfavoráveis.

Desde o início do milênio, novos escritores e novas obras têm surgido em um ritmo que, mais que firme, parece crescer em quantidade e qualidade, superando décadas de lamentos e frustrações. O gênero consegue novamente ser publicado fora de fanzines dirigidos a círculos estreitos e rígidos. Com mais retorno de leitores e editoras e mais diálogo a estimular a produção e o desenvolvimento técnico dos autores, a ficção especulativa brasileira está deixando de ser uma seita para voltar a ser um gênero capaz de interessar leitores com algum gosto, iniciados ou não. Muita coisa continua e continuará medíocre, como em qualquer ramo da literatura e da arte. Mas também há textos que merecem ser lidos.

Destas novas safras, não há como deixar de recomendar Fábulas do tempo e da eternidade. Primeiro livro da iniciante Cristina Lasaitis, nascida em 1983, pouco ou nada deixa a dever às melhores obras da ficção especulativa brasileira. Até monstros sagrados de reputação global, como Philip K. Dick e Ray Bradbury, ou monstras, como Ursula K. Le Guin e Marion Zimmer Bradley, teriam orgulho de poder contar com um ou outro desses contos entre suas primeiras obras.

Com muita sensibilidade, doze contos exploram personagens ricos e insólitos que se debatem com o tema do tempo e dos limites que lhe são postos pela condição mortal humana ou mesmo algo mais que humana, em diferentes universos imaginários da ficção científica e da fantasia.

Há mundos futuros regidos pela realidade virtual mais complicada que a de Matrix, alquimistas atrás de uma maneira de driblar o tempo, capaz de superar o velho elixir da longa vida, um inca obcecado pelo futuro de seu império, uma cientista que assassina o tempo, intelectuais frustrados na noite paulistana, uma vida solidária e duríssima em um deserto de Atacama pós-apocalíptico, e duas entidades inimagináveis de zilhões de anos no futuro a enfrentar juntas os últimos momentos de um universo entrópico a dar seu derradeiro suspiro. Há até um mundo de caçadores especializados em desvirginar anjos (daqueles mesmos que têm asinhas e costumavam viver no céu).

Seria exagero dizer que há para todos os gostos: não se encontram heróis invencíveis e insensíveis, caçadores de tesouros e recompensas, ou exaltações bélicas contra monstros de olhos esbugalhados. Mas a variedade é impressionante.

O ponteiro do relógio passa da fantasia mágica mais delirante à ficção científica mais rigorosa, e nesta o estado da arte do conhecimento e da especulação teórica é levado a sério de maneira pouco comum nos autores brasileiros (principalmente os da Primeira Onda). Em todos os casos tratam-se de histórias escritas com sensibilidade, verossimilhança e muito carinho e respeito pelo leitor exigente. Várias delas parecem completar-se mutuamente, sugerindo um quebra-cabeça que se estende do começo ao fim dos tempos, a ser ampliado por futuros desenvolvimentos.

Surgem situações das mais insólitas, como apenas o sonho mais desregrado ou a ciência mais disciplinada podem conceber, mas o foco está sempre em como podem ser vividas com sentimentos humanos, dos mais delicados aos mais brutos. É uma ficção científica orgulhosamente humanista dentro da melhor tradição brasileira do gênero, escrita sem concessões às tentativas de imitar clichês hollywoodianos que agradam um público fiel, mas embotam a veracidade e empobrecem a criatividade do gênero.

Antonio Luiz M. C. Costa é jornalista e ficcionista, autor dos romances da série Crônicas de Atlântida.

[ Resenha publicada originalmente na revista Carta Capital. ]

Os melhores contos brasileiros de ficção científica

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Roberto de Sousa Causo (organização)
Editora Devir
200 páginas
Lançado em 2007

Essa é a primeira de três antologias de ficção científica brasuca organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir. A segunda, de subtítulo Fronteiras, saiu em 2009 e a terceira, reunindo narrativas mais longas (novelas), em 2011. A trilogia oferece ao leitor vinte e nove ficções, de vinte autores fundamentais.

Na apresentação do primeiro volume, a história do gênero no Brasil é dividida em três períodos. O primeiro período, de produção mais ingênua e nacionalista, vai da segunda metade do século 19 até meados do 20. Esse é o período dos pioneiros, quase todos influenciados por Verne, Doyle e Wells.

O segundo período começa em 1960, com a coleção Ficção Científica GRD, do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, e termina no final da mesma década. Esse período, de produção mais autoconsciente e cosmopolita, é chamado de A Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira.

O terceiro período, de produção mais rica e diversificada, começa na década de 80 e continua até os dias de hoje, representando a Segunda e a Terceira Onda da FC brasuca. Bastante equilibradas, as antologias de Causo trazem o melhor de cada um desses períodos.

Não sou especialista no assunto, mas a sensação que eu tenho, diante da quantidade de saites, blogues e revistas online destinados ao gênero, é que a ficção científica brasileira está muito viva na internet, porém bastante fragilizada, quase moribunda, nas livrarias.

É claro que jamais deixou de acontecer o eterno pinga-pinga de coletâneas de contos e romances de autores nacionais. Mas a freqüência com que esses livros têm aparecido é pequena e insuficiente, incapaz de projetá-los pra fora de seu círculo alternativo e marginal, motivando mais e melhores leitores.

Nesse pinga-pinga, para cada cinco ou seis pingos medíocres, sem a mínima qualidade literária, há pelo menos um muito bom, inventivo, consistente, poético. No entanto, esses poucos autores talentosos que, com o passar dos anos, formam quase uma pequena multidão, não são reconhecidos como verdadeiros autores.

Seus livros não são resenhados nas principais revistas e nos principais cadernos culturais, e eles não são convidados para participar dos eventos literários mais prestigiados, reservados apenas aos que fazem, na falta de nome melhor, a alta literatura brasileira, essa mesma literatura que é ensinada nos colégios e nas faculdades de Letras.

O prestígio que prosadores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan desfrutam entre críticos, livreiros e leitores, autor algum de FC conseguiu ou está conseguindo desfrutar. A pergunta é: por quê? O que há em nossa ficção científica que a impede de sair do gueto, de ganhar as melhores estantes nas melhores livrarias e com isso ampliar seu público?

Essa não é uma pergunta retórica. Só seria se eu soubesse a resposta. A boa ficção científica brasileira é riquíssima. Há gente não apenas produzindo contos e romances interessantes, mas também refletindo e teorizando com perspicácia. Espero que vocês me ajudem a desvendar esse mistério. Também espero que possam, quem sabe, começar a desfazer esse nó editorial, esse por quê? desconfortável, que pra mim não faz sentido algum.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

A espinha dorsal da memória & Mundo fantasmo

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Braulio Tavares
Editora Rocco
256 páginas
Lançado em 1996

O trabalho de estreia de Braulio Tavares na ficção foi um pequeno texto chamado Os pensadores de São Tiago, publicado em 1986 no número 11 do fanzine Hiperespaço, uma edição especial de contos. Na sequência, Tavares tornou-se colaborador regular do Somnium, boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica, com contos que posteriormente formaram a coletânea A espinha dorsal da memória. Publicada em 1990 pela editora Caminho, de Portugal, essa reunião de ficções recebeu o Prêmio Nova de melhor livro de autor brasileiro naquele ano. A edição nacional saiu em 1996, pela editora Rocco, acrescida da coletânea inédita Mundo fantasmo.

A espinha dorsal da memória é formada por doze contos que ajudaram a consolidar a identidade da geração conhecida como Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, entre eles Sympathy for the devil, ganhador do Prêmio Nova em 1989, História de Maldum, o mensageiro, que deu origem ao romance A máquina voadora (Rocco, 1994), e Príncipe das sombras, história de invasão alienígena que vai da ficção científica hard à space opera e ao cyberpunk, num passeio completo pelo gênero. Sem esquecer de Mestre-de-armas, conto vencedor do Prêmio Nova em 1990, considerado por muitos seu melhor trabalho.

Destaque para o curtinho Mare tenebrarum, que relata um drama infelizmente muito comum no Brasil: um temporal, a água entrando pela casa, cobrindo móveis e destruindo a realidade de uma família pobre, mas… e se a enxurrada fosse forte demais?

Girando o livro de ponta-cabeça e lendo de trás para frente está Mundo fantasmo, que, abrindo com uma epígrafe tirada do Grande sertão: veredas (“E vi o mundo fantasmo”), apresenta mais sete histórias inéditas até então. Oh Lord, won’t you buy me é praticamente uma homenagem ao fã brasileiro de literatura fantástica, sempre em busca de mais e mais livros pelos sebos da cidade. É impossível não se identificar com o personagem que se encontra com Deus em pleno metrô paulistano.

Mais homenagens em Exame da obra de Giuseppe Sanz, história de um escritor de sucesso que produzia suas obras dissecando trabalhos alheios e revestindo-os com uma figuração moderna. E não é o que os autores fazem o tempo todo?

História de Cassim, o peregrino, e de um crime perfeito que Deus castigou é uma espécie de sequência à História de Maldun, o mensageiro, menos assustadora mas igualmente deliciosa, na qual um homem relata aos seus companheiros de bebida um intrigante conto de amor, traição e imortalidade.

Tavares também experimentou a forma literária em Expedição às profundezas do oceano, história de horror urbano contada no único parágrafo de um relatório policial. Mas o conto mais surpreendente dessa ótima coletânea é E assim destruímos o reino do mal, no qual um guerreiro obcecado pela destruição do mal sobre a Terra acaba por tornar-se o próprio coração da maldade.

Cada história é a passagem para uma realidade diferente, repleta de sense of wonder, que, no final das contas, é o que faz de todos nós fãs da ficção fantástica e científica.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.