Erox ex machina

Eros ex machina

Luiz Bras (organização)
Editora @link
152 páginas
Lançado em 2018

No passado, a ficção científica era o espaço para a humanidade sonhar com uma utopia diante dos enormes saltos tecnológicos desde a revolução industrial ou temer um futuro criado por uma humanidade que pela primeira vez na história tem a capacidade de aniquilar a sua própria existência.

A maioria das previsões não se concretizou, pois não eram profecias, mas sim espelhos de uma sociedade pós-guerra assombrada por governos totalitários e bombas nucleares. Então qual é o futuro imaginado pela geração que cresceu nesse distante século 21 sonhado nos clássicos do passado?

Se depender da coletânea Eros ex machina, lançada em fevereiro, os nossos medos e esperanças não estão mais nos foguetes, mas sim debaixo do lençol. E eles podem ser ainda mais assustadores do que uma bomba nuclear.

São dezoito contos escritos pelos participantes do ateliê Escrevendo o Futuro, cada qual uma reflexão sobre como será o sexo na era dos robôs. O tema ganha na maioria das histórias um ar quase freudiano, com o sexo refletindo as fobias de uma geração que enfrenta todos os dias o dilema da desumanização diante da tecnologia e pautas como o feminismo e a ampliação dos direitos LGBT, além do crescimento da resistência diante dessas bandeiras.

Um exemplo desse lado negro do sexo está em VeriDIANA, de Alex Xavier, a história de uma criança que descobre da pior forma possível o que é sexo, pelo menos na cabeça do seu pai. Já em Ela é tão bonita desligada, de Nathalie Lourenço, é discutido o quanto dos outros ainda existe em nós após o fim de um relacionamento (seja ele carnal ou de silicone).

Nem todas as histórias são sobre relações físicas. Delete, de Nathan Elias-Elias, por exemplo, revela um mundo em que os aplicativos mostram mais interesse e compreensão no outro do que o distante e preconceituoso mundo real. Há também espaço para tons mais leves, como Vaaaiii, Coriiinthians!, em que Sonia Nabarrete narra de forma cômica a homofobia no futebol, usando como personagem um robô que acaba apaixonado pelo esporte em um momento inesperado.

Diante dessa distopia psicológica, cabe a Luiz Bras, orientador do ateliê, encerrar a coletânea com o conto Sob a cúpula. Nele, a ficção científica ganha um tom mítico e místico, sobre uma comunidade que usa a tecnologia para transformar o sexo não em um ato de hierarquização, mas sim de união social. Ali, não importa o seu gênero ou qualquer outra orientação sexual usada para segregar a sociedade, há apenas uma comunhão em uníssono de uma tribo em busca do prazer não individual, mas coletivo.

É possível interpretar essa conclusão da coletânea como uma última lição de Luiz aos seus alunos. Assim como não entramos no novo século sob as chamas das bombas nucleares temidas no passado, é possível que os nossos netos não vivam em um mundo em que o sexo seja apenas o reflexo dos impulsos mais sombrios da humanidade. Imaginar esse futuro não é apenas esperá-lo, mas sim tentar realizá-lo.

+   +   +

Evandro Furoni é jornalista e colabora com a revista Galileu e outras publicações culturais.

[ Resenha publicada originalmente na revista Galileu. ]

Anúncios

Páginas do futuro

Páginas do futuro

Seleção e apresentação de Braulio Tavares
Ilustrações de Romero Cavalcanti
Editora Casa da Palavra
152 páginas
Lançado em 2011

Qual a cara da ficção científica brasileira? Quem são seus principais escritores no território nacional? Em que pé ela se encontra hoje?

Sem a pretensão de dar uma resposta definitiva para estas perguntas, ou mesmo constituir um cânone literário nacional, o escritor e especialista no tema, Braulio Tavares, no ano de 2011 reuniu alguns dos mais representativos contos produzidos por estas bandas.

Desde Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), passando pelo modernista Oswald Beresford (?-1924), e chegando até o camaleônico Luiz Bras (1966), são quase cento e cinquenta anos de produção literária, que permitem reconhecermos uma trajetória muito bem consolidada para o gênero no país.

Ao longo de todos os contos, percebemos que estilos e temas variam entre os vários escritores brasileiros. Mesmo assim, segundo o organizador da coletânea, duas tendências parecem ter se configurado de forma definitiva: a que trata de um espaço selvagem e a ficção de caráter mais utópico e satírico.

Através da leitura fica fácil percebermos isso ao notarmos que as duas vertentes citadas nem sempre estiveram tão distantes uma da outra. A união entre elas ocorreu com certa frequência, fosse de maneira esporádica, fosse se aproximando de forma quase simbiótica. Um casamento feliz, que traria momentos ricos para os textos, como podemos notar, por exemplo, no conto de Raquel de Queiroz.

Logo, fica claro que o riso tropical, em um futuro pós-humano, se apresenta como uma das marcas que balizam a ficção científica nacional, contrastando com um caráter mais duro quando comparada com outras correntes, como aquelas desenvolvidas com maestria no mundo anglo-saxão.

Ora, se entre ingleses e americanos o pessimismo e uma certa visão apocalíptica delineiam enredos, por outro lado um certo olhar crítico-mordaz sobre nosso futuro-presente parece estar sempre ali na ficção científica à brasileira. Uma suposição para isso: talvez a herança lusitana (sem a melancolia que caracteriza os portugueses) de criticar tudo e todos. Outra: o retrato das contínuas instabilidades políticas e dos surtos econômicos pelos quais o Brasil de tempos em tempos atravessa. Em suma, uma questão ainda em aberto.

De qualquer forma, os doze escritores reunidos permitem constatarmos que na ficção científica brasileira existe uma busca constante pela leveza nos assuntos tratados. Os conteúdos insólitos e distópicos são apresentados em todos os contos com uma prosa fluída, que prende a atenção do leitor do começo ao fim.

Ao mesmo tempo, na obra, notamos uma paisagem ficcional por demais masculina, onde conflitos e temas do mundo do homem são o contexto, o pano de fundo das histórias. A presença de apenas duas autoras mulheres (Rachel de Queiroz e Finisia Fideli) parece mais como uma tentativa de escapar destes enfoques. Interessante notar que, no texto de Finisia, aspectos da religião oriental contemporânea aparecem como fio condutor de sua trama, o que a aproxima dos leitores atuais. Talvez esteja aí um dos desafios para uma futura nova coletânea. Encontrar vozes femininas, mas também da comunidade LGBT, com contextos religiosos variados, que ampliem o escopo multiétnico e multivocal da ficção científica.

Por fim, como uma sugestão para o leitor, proponho uma pequena brincadeira. Em todo início de conto, Braulio Tavares apresenta uma pequena biografia do escritor, que permite situar a obra no tempo e no espaço. Sugiro que não leia e parta direto para o conto. Tente imaginar, ao final da leitura, se você consegue situar cronologicamente o período de produção do conto. Depois, monte uma tabela com sua tentativa e compare com o sumário. Alguns serão facilmente datados, outros nem tanto. Se tiver tempo, mande o resultado por e-mail, para vermos como você se saiu.

+   +   +

Tobias Vilhena é arqueólogo e ficcionista, e um dos autores da coletânea Eros ex machina, sobre robôs sexuais.

O grito do sol sobre a cabeça

O grito do sol sobre a cabeça

Brontops Baruq
Terracota Editora
168 páginas
Lançado em 2012

Em um total de dezenove contos, Brontops Baruq explora nossas mais profundas angústias, em futuros hipotéticos. Qualquer tentativa de sintetizar a beleza dialética e polifônica dessa obra está fadada à triste generalização de pontos urgentes contemplados no ato da leitura.

Não comentarei as dezenove histórias, para não ser enfadonho e também para preservar a experiência dos leitores. Destacarei alguns aspectos daquelas que me geraram constantes explosões epifânicas e me acompanharam em alguns momentos da vida cotidiana, indo e voltando em minha memória.

O conto Hipocampo enuncia uma questão filosófica que julgo essencial: estou aqui, não sei como, não sei por quê, movido às demandas de um Outro. A complexidade dessa afirmação, na voz de um humano heterossexual que se apronta para uma experiência sexual com uma raça alienígena desconhecida, configura uma marca autoral desse existencialismo da vida moderna. Carregamos conceitos, valores, fundamentos éticos e muitas vezes não nos questionamos e nem nos importamos com os porquês.

No conto Quereres, o autor se debruça com maestria sobre o tema da manipulação genética. Ter filhos nesse futuro hipotético se assemelha à criação de um avatar em um RPG eletrônico. Quem nunca desfrutou de pelo menos uns vinte ou trinta minutos selecionando o melhor tipo de cabelo, a melhor cicatriz facial e a cara mais carrancuda para seu Redguard, em Skyrim? Pois no futuro, essa experiência é potencializada, ao ser migrada para o planejamento de um@ primeir@ filh@ in vitro.

Em Rebobinados, somos apresentados à tecnologia experimental de cronogenia, que implica na capacidade de rebobinarmos nosso tempo de vida para aguentarmos longas viagens espaciais. Como efeito colateral dessa experiência, o autor explora a subjetividade de dois tripulantes voluntários, ex-detentos de Presidente Bernardes, que não conseguem conviver um com o outro em uma viagem espacial que durará mais de mil e oitocentos anos.

O conto Pausa me despertou uma vontade gritante de desejar mais experiências de leitura como essa. Muito justificada pelo meu vício em videogames, minha queda por esse conto se deve ao fato dele me remeter o tempo inteiro a uma distopia que lembra muito a série Fallout, somado ao ritmo road movie com temperos de um mundo social inspirado em Mad Max. As descrições étnicas, misturadas com a dualidade ideológica de grupos fortemente armados que defendem o criacionismo e o evolucionismo, são o ponto de partida para um mundo caótico, onde se manter vivo pressupõe pegar em armas e encarnar um personagem de Quentin Tarantino.

Em Ficção especulativa, tomamos contato com a angustiante tecnologia do Campo de Dinac, que propõe a condição existencial de podermos vislumbrar as experiências passadas quantas vezes quisermos, modificando nossas ações, sem alterar um único instante do tempo presente. Esse foi um dos contos que me despertou muita reflexão, pois sempre tive interesse − e dificuldade − em histórias que lidam com o tema da viagem no tempo.

O último conto que destaco é o Sésamo, bananas & kung fu. Em uma sociedade com muitos problemas de convivência, o advento do teletransporte sinaliza a sua ruína. Humanos preparam seu plano de fuga para deixar a Terra. Enfim, Brontops observa o teletransporte como uma tecnologia de um futuro hipotético, tão revolucionária quanto a internet ou a pistola do Rick, que abre fendas dimensionais, em Rick & Morty.

De leitura leve e muito rápida, O grito do sol sobre a cabeça é uma dessas obras que você consegue saborear em poucas sentadas. Depois, fica a estanha sensação de querer encontrar mais produções literárias do autor e se deliciar com mais genialidades e mundos distópicos. A Boa notícia é que Brontops Baruq costuma compartilhar suas produções em seu blog Toca do Brontops, mas esperamos que uma próxima obra esteja nos planos desse novo nome da literatura nacional.

+   +   +

Ricardo Celestino é professor e escritor, com mestrado em Linguística.

Metanfetaedro

MetanfetaedroAlliah
Tarja Editorial
232 páginas
Lançado em 2012

Beleza e tristeza, prazer e dor se alternam, às vezes se confundem, formando uma liga fascinante. As narrativas reunidas na primeira coletânea de Alliah são hiperjanelas grotescas para os muitos tipos históricos de pressão, repressão e opressão articulados por nossa espécie predadora. Das oito ficções, apenas a última, justamente a que dá título ao volume, não soca o nariz do leitor com cenas explícitas de machismo, racismo, fascismo e outros ismos abjetos.

Metanfetaedro (conto escolhido pra integrar a antologia Ficções fractais, da Sesi-SP Editora), apresenta um explorador solitário chamado Luca − um alter ego new weird do matemático Luca Pacioli, amigo de Leonardo da Vinci −, que passa de uma dimensão surreal a outra, geométrico-onírica. Sua jornada meio abstrata meio poética segue das artes plásticas para a geometria não euclidiana, depois retorna, arrastando referências dessas duas esferas.

Nessa narrativa o leitor pode apreciar a grande habilidade de Alliah na criação de analogias sensoriais metafísicas. Um ótimo exemplo é a droga pan-óptica capaz de expandir nossa percepção. Tempos atrás, antes de sua aventura no interior de um rombicuboctaedro fantástico, o narrador-explorador inventou uma chave pra manipular a mente humana:

Chamava-se metanfetaedro, e era uma droga não convencional. Não se tratava de uma substância química para ser engolida ou injetada, mas de uma droga visual construída por nossas noções espaciais através de um mapa matemático de projeção, que alterava nossa percepção em níveis nunca antes alcançados.

A violência expressa nesse conto é epistemológica e ontológica (sujeito versus universo). Nossa trivial noção de causalidade desmancha no ar. Metanfetaedro reverbera no plano da ficção o moderníssimo princípio da incerteza que Nietzsche já defendia na coletânea de postagens mais provocativa da história da humanidade: “Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis. (…) Causa e efeito: essa dualidade não existe, jamais existiu ou existirá − na verdade, temos diante de nós um continuum do qual isolamos algumas partes.” (A gaia ciência)

Nos outros sete contos do livro a violência é física e psicológica (sujeito versus sujeito), gerando forte empatia. O autor projeta e denuncia, em realidades ora diabólicas ora sublimes, os conflitos de nossa própria realidade: fome, tortura, pilhagem, exploração sexual, escravidão, intolerância religiosa, dominação racial, genocídio, corrupção na política etc.

Moleque e Tupac Amaru III são os pesadelos lúcidos em que a velha máxima de Hobbes (atualizada) − o sujeito é o monstro metamorfo do sujeito − fica mais evidente.

A impressionante capacidade que os seres imaginários de Alliah têm de disseminar sofrimento é a mesma do primitivo sapiens. Na luta de todos contra todos, vencem os impulsos mais agressivos. São tensões e confrontos envolvendo sereias, geodroides, transaliens, cavernícolas, apolófilos, carniceiros, vermícolas, centáurides, bioconstrutos e crianças selvagens, em bolsões orgânicos de podridão, desertos vivos, jardins de nenúfares e metrópoles autofágicas.

Metanfetaedro (o livro) atualiza o catálogo de criaturas híbridas e bizarras de Bosch, Bruegel e Hoffmann, dos românticos e surrealistas, remoçando a tradição do grotesco. Se vivo fosse, Wolfgang Kayser certamente incluiria em seu célebre estudo sobre o tema um capítulo intitulado New weird, a respeito dessa escola artística e literária tão sinistra, da qual Alliah é um de nossos principais nomes.

+   +   +

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Diário da nave perdida

Diário da nave perdida

André Carneiro
Editora EdArt
216 páginas
Lançado em 1963

Mais de cinco décadas após seu lançamento, a primeira coletânea de contos de André Carneiro continua aguardando a segunda edição. Consegui meu exemplar amarelado e malcheiroso há poucas semanas na Estante Virtual. Não custou caro, apesar da raridade. Não há dúvida de que foi sorte.

O volume reúne oito narrativas. Cinco de ficção científica: Zinga, o robô, Noite de amor na galáxia, O começo do fim, A prostituta e Diário da nave perdida. Três de ficção fantástica: A organização do doutor Labuzze, O homem que hipnotizava e A escuridão. (Minha definição particular de ficção fantástica, sobrenatural e científica pode ser conferida em Ficção fantástica: notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças.)

Não existe ponto baixo nesse livro. O conto mais fraco do conjunto, Zinga, o robô, justamente o primeiro da sequência, apesar de datado, é uma divertida sátira de costumes. Nele um pai de família compra pra esposa, em prestações, um serviçal de metal e plástico. Mas é claro que, interpretando literalmente os comandos − cheios de imprecisões − da patroa, a máquina quase põe a casa abaixo. No final tudo se resolve, como numa sitcom convencional.

Os melhores contos são, de um lado, os que expressam a angústia paranoica tão potente e tão presente na obra literária de André Carneiro e, de outro lado, os que expõem a insatisfação do indivíduo com seu contexto sempre insuficiente.

Em A organização do doutor Labuzze e O começo do fim, os protagonistas relatam por escrito − forma muito usada pela Velha Guarda do sobrenatural, do fantástico e da ficção científica pra conferir autenticidade aos fenômenos testemunhados − a experiência insólita que vivenciaram. A realidade modifica-se, mas a verdade insiste em se esconder, forçando os heróis (?) a lidar com a dúvida sufocante.

Em O homem que hipnotizava e Diário da nave perdida os protagonistas relatam seu desacordo com as regras do jogo social. Aceitar pacificamente a realidade imposta pelo sistema deixa de ser uma boa opção quando a possibilidade de mudança ganha força. No primeiro caso, por meio da auto-hipnose, que aperfeiçoa tudo ao redor, até mesmo a aparência das pessoas. No segundo, devido ao desligamento acidental da bolha civilizatória de uma espaçonave avariada. Subtexto psicanalítico: certos impulsos cuidadosamente domesticados sempre escapam da jaula quando o carcereiro tira um cochilo.

Fora da esfera da angústia paranoica e da subversão das normas sociais, o excêntrico Noite de amor na galáxia (péssimo título para um ótimo miniconto) e o naturalista (calma, estou pensando em Émile Zola) A prostituta tratam de outro tema recorrente na ficção do autor: o sexo.

Também está nesse volume inaugural o conto mais festejado de André Carneiro, A escuridão, sobre um fenômeno sem explicação, que rouba vagarosamente a luminosidade do sol e das estrelas, e de qualquer coisa que emita luz, fagulha e calor luminoso. O planeta fica às escuras. O fogo e a eletricidade deixam de aquecer a água e os alimentos.

Excelente exemplo de nossa ficção fantástica, esse conto já foi acolhido em antologias daqui e do exterior.

O que estaria provocando a escuridão? O narrador e os personagens hesitam entre três ou quatro suposições divergentes, físicas e metafísicas, sem chegar a uma conclusão definitiva, e é essa hesitação que caracteriza a boa ficção fantástica.

+     +     +

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Futuro presente

Futuro presente

Nelson de Oliveira (organização)
Editora Record
416 páginas
Lançado em 2009

O espaço é curto. O livro é longo (416 páginas); os contos e autores são muitos (dezoito autores com uma ficção cada). Futuro presente é uma coletânea de contos (alguns curtos, outros nem tanto) de ficção científica, organizada pelo famigerado Nelson de Oliveira, coordenador de outras tantas antologias e projetos célebres e desbravadores, como o Projeto Portal, também de FC e fantasia.

A escolha dos autores privilegiou a mistura de gerações e estilos – desde autores consagrados, como Márcio de Souza (cuja obra Mad Maria se tornou minissérie da Globo), a autores desconhecidos, com certa predominância de ficcionistas que nasceram no estado de São Paulo (dez dos dezoito). Problemas de logística, provavelmente, porque em outros estados não representados no livro devem, sim, existir ficções sobre o futuro.

Após a leitura de livros como esse, surgem as questões: por que nós, brasileiros, lemos tantas obras estrangeiras? Por que assistimos a tantos filmes vindos dos Estados Unidos, inclusive àqueles futuristas com a irritante mania de tentar convencer o resto do mundo de que os ianques salvarão o mundo do apocalipse, como bons heróis que são?

Os antropólogos e historiadores responderiam: dentre alguns traços característicos da cultura brasileira, um dos mais perceptíveis é a valorização do estrangeiro em detrimento do nacional. Os sociólogos mais radicais responderiam: o capitalismo é selvagem e privilegia os que possuem mais poder, mais condições, mais ferramentas em mãos (dentre as quais as da publicidade e propaganda), realidade que vale também para o mercado cinematográfico e editorial. Outros responderiam: por pura diversão ou por necessidade de entretenimento e fruição. Cada qual com sua opinião, todos têm razão.

Um trecho da orelha do livro escrita por Fábio Fernandes: “Temos contos passados em outros planetas, raças estrangeiras em futuros distantes, alienígenas entre nós, experiências genéticas loucas, telepatia, viajantes descendo em maelströms interestelares. Enfim, tudo tem”. Sim, leitor, conteúdo diverso (dentro da temática proposta) com linguagens diversas, desde as mais tradicionais, que cumprem a única função de contar uma história, até as mais (mas nem tanto assim) experimentais. Experimentalismos linguísticos em ficção científica funcionam, funcionariam? Existe (surgirá?) o Guimarães Rosa da FC?

Um dos requisitos básicos de uma boa obra literária é conseguir, astutamente, que o leitor entre em um novo plano, de maneira que ele esqueça, naquele momento da leitura, de todos os percalços da vida e se preocupe com os percalços da ficção lida. Vários dos contos do Futuro presente conseguem essa proeza

Entregue-se, leitor. Não é necessário se basear nas listas dos mais vendidos de revistas não confiáveis nem de assistir a filmes saturados de clichês para buscar entretenimento, diversão e fruição de qualidade. Na literatura brasileira há muitos livros que conseguem, e bem, transportar o leitor para uma nova realidade e ser um meio interessante de investigação e imaginação. Em Futuro presente há várias realidades, umas mais outras menos convincentes, umas mais outras menos cativantes. De algumas delas é impossível sair intacto, tamanha é sua capacidade de maravilhar o leitor.

Experimente, leitor, trocar aquele livro estrangeiro sobre pipas, ou aquela superprodução estadunidense, ou aquele filme repetidíssimo da Sessão da Tarde, ou aquele videogame com gráficos impressionantes pela coletânea Futuro presente. Não sairá perdendo; ao contrário, só terá a ganhar. E ganhará muito.

+     +     +

Sinvaldo Júnior é ficcionista e ensaísta, autor de Manicômio, assinado por seu alter ego Rogers Silva.

[ Resenha publicada originalmente no portal Textifique ]

Será

Será

Ivan Hegenberg
Editora Ragnarok
240 páginas
Lançado em 2007

O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.

O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.

Dezenas de personagens, posicionados pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, os romances A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.

Todos os fatos aqui revelados se passam no século 23. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e temporal (os indivísduos podem viajar artificialmente pra qualquer lugar ou época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macro e do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).

Nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Porém, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século 20. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, as ideologias de direita e esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.

O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança pra esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura por esse contato último reunirá e separará muitas das dezenas de personagens do romance. Eles precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.