A ficção científica brasileira e seus futuros possíveis

Laudromat+at+NightLaundromat at night, 2008, by Lori Nix

Senhor Arqueólogo do Futuro,

Antes de tudo, quero apresentar-me, pois sou (que eu saiba) a primeira participante do continente da América do Norte a colaborar nesta correspondência, o que eu faço com muita honra.

Já sei que você conhece o que é um livro de ficção, uma vez que o escritor Moacyr Scliar explicou a história dessa maravilhosa criação, em outra carta. Eu receio, como o senhor Scliar, que os livros estejam em perigo, que eles desapareçam em sua forma presente, ou que existam só em vias eletrônicas no futuro.

Já que são as palavras que nos proporcionam tanto prazer ao ler uma obra de ficção, talvez a forma pela qual elas serão transmitidas, se no papel ou na tela de computadores e seus derivados, não seja de tanta importância.

O que quero comunicar a você é a riqueza do gênero da ficção científica brasileira e seu poder sobre o imaginário. Hoje, o Brasil tem escritores maravilhosos do gênero, mas não tem um público tão grande quanto merece, por duas razões: pelo preconceito contra o gênero em si e, talvez, contra um gênero importado de países tecnologicamente avançados. Entretanto, celebro aqui o abrasileiramento do gênero, como se verá abaixo.

Esboçarei uns futuros retirados da ficção científica brasileira dos últimos trinta anos, desde 1975, para ver se eles são condizentes com a realidade dos seus dias futuros:

O escritor Ignácio de Loyola Brandão imagina um futuro em que a Amazônia já se converteu em deserto, e as pessoas são incineradas em bolsões de calor, enquanto o governo gaba-se de tudo isso como se fosse uma série de êxitos. Espero que esse não seja o seu mundo.

Outro ficcionista, Braulio Tavares, ambienta um de seus contos num Rio de Janeiro onde a cabeça do Cristo Redentor é decepada por uma gangue e a praia de Ipanema foi convertida num aterro até as ilhas do Atlântico. Será esse seu mundo?

Ivanir Calado escreve sobre a Cidade Maravilhosa dividida por uma muralha entre a Zona Norte e a Zona Sul, onde a abandonada ponte Rio-Niterói é uma grande favela.

Gerson Lodi-Ribeiro retrata um mundo futuro longínquo no planalto central brasileiro, no qual soldados ciborgues defendem a Terra numa guerra perpétua contra alienígenas não-orgânicos à procura de metais.

André Carneiro imagina experiências cerebrais em que as pessoas podem projetar seus sonhos em telas, ou até mudar de sexo para ter sempre novas experiências sexuais, intelectuais e psicológicas.

Jorge Luiz Calife criou um futuro em que as sociedades tecnologicamente avançadas vão morar no espaço sideral em comunidades de anéis, depois de uma guerra nuclear.

Roberto de Sousa Causo escreve sobre um mundo em que os animais, alterados geneticamente por extraterrestres, defendem o meio ambiente e outros animais de predadores humanos.

Algum desses será o seu mundo?

Só você, Arqueólogo do Futuro, saberá responder quais desses futuros são possíveis. Entretanto, penso que os escritores de ficção científica brasileira continuarão a escrever e a imaginar o futuro de uma forma criativa e inusitada, contribuindo significativamente com esse gênero global.

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Elizabeth Ginway é professora e pesquisadora de literatura brasileira da Universidade da Flórida, EUA.

Em 2005, o saite Carta Maior publicou uma série de cartas endereçadas a um desconhecido arqueólogo do futuro, escritas por Eduardo Galeano, Jorge Mautner, Nando Reis, Viviane Mosé e outros. A carta acima, de Libby Ginway, comenta a obra de alguns importantes autores brasileiros de ficção científica. Essa foi justamente a razão que me motivou a reproduzi-la no blogue FCB. Todas as outras cartas podem ser lidas aqui.

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Aprende com tua nêmese

Yin Yang

Vira e mexe, voltamos a falar do embate antigo entre as duas tradições literárias antagônicas: a poética clássica e a poética barroca, entendendo a palavra poética como programa de arte, modo de fazer. (Quem sugeriu que existem apenas duas tradições antagônicas, que vão se desdobrando ao longo dos séculos, foi o teórico Ernst Robert Curtius, em seu célebre Literatura europeia e Idade Média latina.)

Os contos e os romances pensados segundo a orientação clássica (fiquemos apenas na prosa de ficção) são os de linguagem clara e objetiva, enquanto os contos e romances pensados segundo a orientação barroca são os de linguagem obscura e subjetiva. O movimento modernista brasileiro, por exemplo, representou o triunfo da poética barroca, ao valorizar a literatura fragmentária, retorcida, transtornada, propositadamente estranha e hermética.

Passado o tsunami modernista, certo equilíbrio se estabeleceu em nosso cenário cultural (a inevitável paz armada) e hoje convivemos com os mais diferentes exemplos das duas poéticas antagônicas. Há até autores que, em sua produção literária, oscilam de uma para a outra com a maior segurança.

Nessa contenda de tradições, a ficção de gênero (policial, sobrenatural, erótica, científica etc.) nunca escondeu sua preferência.

A praia que costumo habitar, a ficção científica, está tão fortemente ligada à poética clássica, que ainda é difícil pra maioria das pessoas sequer imaginar uma ficção científica de natureza barroca. Essa dificuldade foi parcialmente anulada pelo movimento New Wave, que durante algum tempo promoveu a comunhão (moderada) entre forma modernista e conteúdo futurístico. Mas a escola New Wave jamais se tornou hegemônica. Tampouco a escola New Weird, nossa contemporânea. O que testemunhamos ainda hoje, principalmente nos contos e nos romances de maior sucesso comercial (best-sellers), é o triunfo da linguagem clara e objetiva.

Distante da ficção de gênero, também chamada pejorativamente de literatura de entretenimento, está a praia da ficção erudita, também chamada elogiosamente de alta literatura. Nesse território administrado por especialistas diplomados, a poética modernista sempre foi apreciada e divulgada. Graças à universidade o modernismo se tornou, no Brasil, a corrente dominante, o principal modelo de nossa literatura.

Os especialistas da ficção erudita (de modo geral, pesquisadores acadêmicos e jornalistas com pós-graduação) gabam-se de pensar em alto nível uma literatura de alto nível, para poucos. Já a galera da literatura de gênero gaba-se de produzir e fazer circular em larga escala uma literatura acessível e prazerosa. De um lado o sucesso estético, do outro o sucesso comercial.

A poética da abstração e da fragmentação sintática (às vezes elitista demais), tão apreciada pela comunidade erudita, e a poética do fotorrealismo e da clareza sintática (às vezes popular demais), tão apreciada pela comunidade de gênero, estão sempre discordando. São duas elites que levam muito a sério a divergência. Cada lado só enxerga as fraquezas do adversário, evitando assim qualquer tipo de convergência criativa.

Nesse confronto, perdem os dois lados.

Tanto a ficção erudita quanto a ficção de gênero já esgotaram há muito tempo seus recursos naturais. O problema da ficção erudita é a falta de conteúdos novos e o problema da ficção científica é a pouca diversidade formal. A ficção erudita só voltará a pensar em alto nível conceitual quando começar a expressar as questões do pós-humano, por exemplo. E a ficção científica só se tornará um gênero também de alto nível estético quando reconhecer na poética barroca uma aliada, não uma adversária.

Certa vez eu ponderei, num convite ao mainstream, que a corrente principal de nossa literatura ganharia muito se absorvesse e reelaborasse certos temas próprios da ficção científica contemporânea. Hoje vejo que esse movimento não pode ser unilateral. A ficção científica também tem muito que aprender, principalmente no campo da forma literária, com a grande ficção erudita do século 20, ligada às vanguardas artísticas.

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Luiz Bras