Favelost

Favelost

Fausto Fawcett
Editora Martins Fontes
248 páginas
Lançado em 2012

“Favelost é o contrário de Canudos, ou do Contestado, ou da Comuna de Paris, ou da Pedra do Reino, ou de Christiania na Dinamarca, ou qualquer outra utopia advinda dos sentimentos de pureza humana, do messianismo cristão celerado, da fantasia de que todos nascem bons e são deformados pela sociedade, mantra dos fofos existenciais e dos esquerdofrênicos cafajestes do imagine all the people em geral querendo a revolução que passa por cima do primado das leis.” (página 31)

Em Favelost deve-se entrar com os dois pés, e de sola. Nada da leitura estrutural, pausada e densa, como pedem os textos dos pensadores frankfurtianos que o autor, Fausto Fawcett, critica mais de uma vez na narrativa. Para alcançar a ascese que o livro constrói em seu ritmo frenético, é preciso fazer o trajeto entre Rio e São Paulo de um só fôlego.

Nessa distopia cínica e sexy, as duas cidades já não existem separadas, tornaram-se Rio Paulo de Janeiro São, ligadas por um conglomerado de casas paupérrimas, microindústrias clandestinas e pontos comerciais que tomaram a Via Dutra. É a Mancha Urbana. Ou a Favelost, território da hipérbole capitalista tecnológica por excelência.

Quase como um ritual alucinógeno, o romance rompe as sinapses coloquiais do leitor. Como um Bret Easton Ellis futurista brasileiro, Fawcett consegue esse efeito pela saturação estilística de sua verborragia pulsante, em mash-ups de referências pop; de períodos históricos; de gadgets; de práticas sexuais das mais comuns às mais bizarras; de correntes políticas, sociais, místicas e filosóficas; de cânones culturais; e uma infinidade mais de temas. Depois de tantas imagens bizarras maximizadas e perfiladas sem descanso uma após a outra, quem mergulha na aventura de Júpiter Alighieri e Eminência Paula sai num leve nirvana, em paz com o caos da existência diária.

Os protagonistas são membros de uma organização chamada Intensidade Vital, que deve manter a ordem entre a população de Favelost. Esse conglomerado urbano, meio clandestino, meio Eldorado do mal, não é aberto a qualquer um. Só às pessoas que buscam o Mefistófeles em cada entrada escondida, tentando arrefecer um desejo indefinido e angustiante para o qual as benesses da vida comum não bastam. E o casal humano, mas com um quê de ciborgues de Blade runner, tem vinte e quatro horas para se encontrar, fazer sexo e chegar ao orgasmo que vai desarmar o chip autodestrutivo implantado em seus corpos.

Com agudeza e sem dó, Fawcett desmonta as certezas atávicas da normatividade ao construir um caleidoscópio de imagens sedutoras e horripilantes, a exemplo de sua declarada inspiração, Hieronymus Bosch e seu Jardim das delícias terrenas (pintura que ilustra a capa do livro).

A cada instante o leitor é confrontado com suas próprias pulsões diante de cenas de vingança, sexo, fraqueza ou nostalgia. Assim é levado a questões complexas que o autor enxerta subliminarmente na ação. Se o niilismo anda à espreita a cada curva, há sempre o contato humano, coroado pelo sexo, para lembrar a graça da vida. Como Fawcett define, cria-se o território da disputopia.

+     +     +

Luciana Pareja Norbiato é jornalista cultural, ensaísta e assessora de imprensa.

[ Resenha publicada originalmente na revista Select. ]

Anúncios

Adaptação do funcionário Ruam

Funcionário Ruam

Mauro Chaves
Editora Perspectiva
120 páginas
Lançado em 1975

A FC brasileira da década de 1970, dentro do Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982), é pouco conhecida e estudada. O capítulo de M. Elizabeth Ginway a respeito, em Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no País do Futuro (2004), é um marco nesse estudo. Este Adaptação do funcionário Ruam é discutido lá. A Coleção Paralelos, em que o romance foi publicado, apresentou figurões como Isaac Bashevir Singer e Paulo Emílio Salles Gomes.

A história se passa numa São Paulo futura, com os pontos da cidade renomeados com uma dicção estrangeira, o que Afonso Schmidt já tinha feito no conto O último homem, de 1928. Chaves vai além, aglutinando termos do inglês, francês ou espanhol a palavras portuguesas. Há ecos do Modernismo de 22 nisso: “Que imediatamente Carliós saltou da esterola. Puxou então seu apitor. Pendido do pescoço, subeveste. E deu três longos apitos gesticulando para todos os transeuntes daquele plano de underground.” Há mais recursos formalistas: cada capítulo é desenvolvido em parágrafo único (narrado por um computador); a prosa poética assume alguns trechos; situações absurdistas são evocadas. O tom e fluxo da linguagem são o ponto forte do texto, que sobrevive às faltas da revisão.

A história começa com Ruam sendo um caxias da armitropa que mantém o regime da Potestade Brazileina, no futuro. Mas não consegue esquecer o triângulo bissexual (ordenado pelo regime) que viveu com a esposa Miraia e um soldado morto. O amor erótico dele por Miraia o faz voltar-se contra o regime, algo comum na distopia clássica desde o recém-relançado Nós (1924), de Yevgeny Zamyatin, mas aqui em cena homoerótica de absurda conferência de estratégia militar numa sauna com piscina.

O regime parece ter absorvido os elementos de tipicidade da cultura brasileira: o fotebol que todos são obrigados a jogar, onde quer que estejam, duas vezes por dia; o carnavel em que um robô tortura os dissidentes Contaminados; a mestiçagem purimarrona; e até mesmo a oposição: os Contaminados têm repartição nos prédios do governo. O livro flerta com a potestade como regime fantoche de conglomerados internacionais. Quando o regime cai, os conglomerados treinam os cidadãos em visões místicas de revelação religiosa – que também falham com Ruam. Ele então é jogado num buraco de Alice e vai parar na São Paulo contemporânea. É preso, internado em hospício e violado por um enfermeiro.

O livro flerta também com a noção de que tudo não passa de um surto esquizofrênico ou pesadelo, como em Miss Ferrovia 1999 (1982), de Dolabella Chagas (também com a presença do sexo homossexual). Trata-se, no fim, de realidade sintética em que vários cenários são jogados na consciência de Ruam para fazê-lo conformar-se. Mais parecido, portanto, com os posteriores Jogo terminal (1988), de Floro Freitas de Andrade (também com homossexualismo e computador tirano), e o dickiano O alienado (2012), de Cirilo S. Lemos.

O pequeno livro de Mauro Chaves curiosamente se posiciona como entroncamento de diversos momentos da FC brasileira, por codificar muito da literatura pop brasuca da década de 1970, e como a ficção científica distópica foi por ela manipulada.

+     +     +

Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente no portal GalAxis ]

Extemporâneo

Extemporâneo

Alexey Dodsworth
Editora Presságio
232 páginas
Lançado em 2016

Se há uma coisa que é difícil eu fazer é comprar livros na pré-venda. Sei lá, não vejo urgência em ter algo que não seja de primeira necessidade − e, queiramos ou não, livros não o são. Para que isso aconteça, ou eu tenho que estar esperando desesperadamente um lançamento − cof cof, Os ventos do inverno, cof cof − ou o preço da pré-venda tem que estar lá embaixo. Pois bem: com Extemporâneo não aconteceu nenhum dos dois. Então por quê, Rahmati, você comprou esse livro antes do lançamento?

Simples: porque Alexey Dodsworth se encaminha perigosamente para ser o meu autor de ficção científica nacional favorito. Só não o afirmo abertamente porque ele tem um páreo duro no Luiz Bras.

Extemporâneo conta a vida de uma pessoa como todos nós, que acordamos todo dia num corpo e numa realidade diferente. A grande diferença é que o/a protagonista se lembra disso e nós não. (Ou, ao menos, é isso o que o/a protagonista nos diz.) Mas por que eu estou usando esse o/a? Uai, eu não disse que ele/ela acorda todo dia num corpo diferente? Mas tem, ainda, um elemento complicador: não é todo dia. É sempre dia 14 de janeiro de 2015. Os dias passados e futuros são ilusões, histórias criadas − pelo seu cérebro ou não − para dar a impressão de continuidade. Pense: você sempre vive no hoje, não é? O ontem é uma lembrança − que pode não ser real −, e o amanhã é só − e sempre − uma expectativa.

Assim sendo, nosso(a) digníssimo(a) protagonista acorda, para começar o dia, no começo do livro, no corpo de George Becker, um brasileiro que vive em uma realidade onde o nazismo é a filosofia reinante no mundo, e há um homem, amarrado nu na sala de estar, sendo torturado pela namorada e por ele − ou, para ser mais exato, pelo eu em que ele acaba de cair. Como eu disse, o/a protagonista é diferente dos outros; ele/ela demora a retomar as memórias do novo corpo, e ainda está lutando, nesse início, com as memórias da dançarina espanhola de dança do ventre que era sua identidade antes de dormir.

Mas chega da história e vamos à narrativa. Dodsworth, naturalmente, a constrói com maestria. Naturalmente porque eu já esperava isso, por ter lido o excelente Dezoito de Escorpião. Os elementos da história vão sendo apresentados no ritmo certo e de maneira muito eficaz para manter o interesse e aumentar a tensão com a situação esdrúxula que o/a personagem passa. Ele escreve muito bem, também, sem usar de malabarismos para enriquecer o texto − o que, invariavelmente, acaba empobrecendo-o. Ele diz o que precisa dizer com as palavras necessárias, assim como Gaiman. A única ressalva aqui é quanto ao trabalho de revisão da editora Presságio, que deixou passar muitos (muitos mesmo!) errinhos de digitação e diagramação. (A minha cópia teve até mesmo um capítulo inteiro repetido.) Há de se ter muito mais atenção quanto a essas coisas, senhores editores e revisores.

No entanto, é claro que isso não diminui a qualidade da obra. Dei cinco de cinco estrelas no Skoob, porque de fato é isso que ela merece. Extemporâneo desconstrói preconceitos, clichês e expectativas de maneira deliciosamente perturbadora 🙂

Ah, e já ia esquecendo: quem leu o Dezoito de Escorpião vai gostar ainda mais de Extemporâneo 😀

Rodrigo Rahmati é escritor e desenhista, autor de O arquivo dos sonhos perdidos.

[ Resenha publicada originalmente nO Blog do Rahmati ]

As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

Aline Valek fez uma aposta ousada em sua estreia como romancista. As águas-vivas não sabem de si é uma obra de ficção científica com o apuro da chamada alta literatura.

Corina é uma mergulhadora experiente, contratada por uma empresa para testar trajes no mar profundo. Na estação Auris, ela se junta a uma equipe formada por outro mergulhador e pesquisadores. Durante o confinamento, Corina desconfia que há uma missão maior em curso. Ao mesmo tempo, ela também tem algo a esconder.

Logo nas primeiras páginas é inevitável lembrar de filmes como O segredo do abismo e Esfera: os mistérios do oceano ampliados por uma assustadora presença além da compreensão humana. O fundo do mar é um universo em si, ainda bastante inexplorado. Causa tanto fascínio quanto o espaço sideral. Muitas vezes, sua fauna e flora são vistas como coisas de outro mundo.

A ideia do romance não é original, mas Aline Valek quer seduzir o leitor pela maneira de contar a história. Sua intenção é bem-sucedida, em parte. Ao escrever o livro, ela tinha nas mãos um cenário com muito potencial para criar uma ficção cativante. Aproveitando a escuridão e a luminescência, essa atmosfera seria perfeita para elaborar uma leitura imersiva, em que cada linha, cada parágrafo, transmitisse a beleza e o perigo daquele lugar.

Essa tensão deveria ser predominante. Porém, os conflitos pessoais e com o ambiente perdem força em certos trechos. Páginas e páginas são preenchidas com digressões dos personagens, estendendo-se além do necessário. Outro recurso que quebra o ritmo da leitura é dar a alguns animais a condução da narrativa, mostrar o ponto de vista deles, suas observações da ação humana.

Ao longo do romance, há uma oscilação entre um texto maduro e outro, descuidado. Os melhores momentos são quando a interação dos personagens funciona, os pensamentos de cada um têm algo relevante a manifestar e o desenvolvimento da trama convence. A prosa, quando está afiada, cada frase tão bem construída, soa como poesia. Geralmente, a pesquisa da autora passa verossimilhança da rotina dos personagens, mergulhadores e cientistas.

Pelo fato do cenário ser muito recortado − a estação Auris e o entorno dela − e do pequeno número de personagens, as possibilidades de enredo são reduzidas. Um texto mais curto poderia reunir apenas o que houvesse de melhor no romance.

A editora Rocco caprichou na edição física. É um dos livros mais bonitos lançados em 2016. Capa e miolo excelentes.

Ao final da leitura, fica a certeza de que As águas-vivas não sabem de si é um livro corajoso e pioneiro. É um romance que traz algo novo à ficção científica nacional e, ao mesmo tempo, procura se comunicar com um contexto literário mais amplo. A autora já revelou que é leitora tanto de FC (Margaret Atwood, Octavia E. Butler, Emilia Freitas e outros) quanto de literatura mainstream.

Podemos considerar As águas-vivas não sabem de si como uma tentativa de ponte entre o fandom e o leitor em geral. O romance é uma ótima porta de entrada para quem deseja se aventurar no fascinante e pouco explorado universo da ficção científica brasileira.

Ricardo Santos é escritor e organizador da coletânea Estranha Bahia.

[ Resenha publicada originalmente no blogue RicardoEscreve ]

Piritas siderais

Piritas siderais

Guilherme Kujawski
Francisco Alves
136 páginas
Lançado em 1994

Ficção científica e humor raramente se encontram na literatura brasileira. Não existe em nossa FC um equivalente ao revolucionário Macunaíma, de Mario de Andrade, ou aos irreverentes O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho. O romance de ficção científica que mais se assemelha a esses, na verve e na qualidade poética, é certamente o ciberbarroco Piritas siderais, livro de estreia de Guilherme Kujawski.

O ringue da discórdia, em que escritores e leitores se estapeiam sem piedade, ainda é a linguagem literária. A grande maioria prefere narrativas de enredo complexo e linguagem simples (fluente, clara, objetiva). Então, quando surge uma obra de enredo simples e linguagem complexa (ambígua, obscura, subjetiva), essa inversão de golpes encanta uns poucos e enfurece a grande maioria, aquecendo o combate.

É o perene pugilato entre o registro popular e o erudito, em que perde feio quem sempre escolhe apenas um dos lados. Nesse banquete, sinal de inteligência é ficar com os dois menus, apreciar tanto as iguarias populares quanto as eruditas, que devem ser julgadas por conjuntos diferentes de critérios. (Sobre a questão dos critérios valorativos, recomendo o artigo Duas elites, publicado no jornal Rascunho).

A trama de Piritas siderais ocorre num ponto qualquer do século 21, numa Terra de Vera Cruz marcada pelo politeísmo africano. Esse detalhe singular explica porque as metrópoles têm por patrono determinado orixá. A história transcorre mais especificamente em São Paulo de Orunmilá, com uma breve incursão a Campinas de Logun Edé. Os protagonistas café-com-leite são um negro de ascendência banta, Zé Seixas, e um branquelo de ascendência armênia, Terêncio Vale, cujo nome homenageia o canastrão Terence Hill, dos faroestes italianos da Sessão da Tarde.

Os antagonistas são uma deliciosa mestiça metade txucarramãe metade sudanesa chamada Maria Gonçalves, por sinal uma ialorixá extremamente sedutora, e um misterioso astronauta ianque, morto na explosão do ônibus espacial Challenger (ops, spoiler), chamado Berzelius Baldwin, um tipo esquisitíssimo − tão retinto quanto Zé Seixas − fissurado em ouro. O casal envolve a dupla desastrada de heróis num plano mirabolante pra trazer de volta à Terra um orixá escondido num planetinha feito do precioso metal, do sistema de Alpha Centauri.

Sustentando essa comédia de erros e acertos de humor bizarro, o leitor encontra três procedimentos discursivos, um mais excêntrico que o outro. O primeiro procedimento é a própria narração em prosa labiríntica, rica em filigranas, típica das poéticas extravagantes (barroco, romantismo, surrealismo etc.). Quem narra é “um espírito estafeta de Tobias Barreto”, um fantasma preso num banco de dados (ops, outro spoiler), que usa e abusa de metáforas e trocadilhos.

O segundo procedimento são as hipergazetas: blocos de frases absurdas, linques sem linques, nonsenses políticos e sociais que funcionam como oráculos, transmitidos por hackers e semelhantes, na luta contra o sistema oficial. Um dos passatempos prediletos de Zé Seixas é decifrar as hipergazetas: Timothy Leary e Graham Bell abrem plano de expansão da consciência, Tzar atira ersatz de quartzo na perestroika, Dodecafonia é a cacofonia da sinfonia desprovida de audiometria, Seteiras de castelo de areia desmoronam com temporal de clepsidra

O terceiro procedimento é o linguajar esdrúxulo de Berzelius Baldwin, “um portunhol com sotaque de benim-luanda, grego linear-B, dravídico e indo-europeu”. Poderia reproduzir uns trechos, mas já estourei o limite de quinhentas palavras, então prefiro preservar a surpresa, caso estejam pensando em ler o romance.

A experimentação narrativa de Piritas siderais ampliou o território da ficção científica brasileira. Seu fluxo promove curtos-circuitos principalmente na sensibilidade do leitor pouco acostumado com a transgressão das vanguardas literárias. Considerando apenas o viés formal, é fácil ver que no breve romance de Guilherme Kujawski corre o mesmo sangue azul das Galáxias, de Haroldo de Campos, e do Catatau, de Paulo Leminski.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Mnemomáquina

mnemomaquina

Ronaldo Bressane
Selo Demônio Negro
340 páginas
Lançado em 2014

Mnemomáquina abre com uma palavra que pode sintetizar a reação do leitor ao navegar pelas narrativas desse romance-mosaico, tentando organizá-lo numa estrutura coerente: “Fodeu”. É a fala de um entrevistado ao alter-ego do autor, o jornalista e escritor Ronaldo Bressane. Na sequência somos mergulhados em uma São Paulo futurista tomada pelas águas no ano 2054: “Você veio entrevistar um ex-Big Brother e agora vai ter que ouvir tudo. Estou praticamente me transformando em um peixe abissal! Bem, tudo começou quando eu caí no Buraco Quente… Olha. Calma. Eu explico. Marluce, a água está subindo! O Plano B! Essa chuva do inferno… vem cá, você não deveria estar lá embaixo, cobrindo as enchentes pra tua emissora?”

O alter-ego reaparece em alguns dos outros quarenta e cinco capítulos do livro, junto de uma pletora de personagens tão irreverentes e múltiplos como a cidade que os abriga, onde trocas de identidade, implantes robóticos, órgãos artificiais, mutação genética, animais falantes e premonição são lugar-comum.

A Divisão dos Não-Lineares, um grupo de espiões (entre outras finalidades nebulosas), que tem em sua linha de frente os reanimados Philip K. Dick e J. D. Salinger, puxa o enredo. A Divisão é abastecida pelas leituras que o agente Fabrizio Fabrizzianni faz do sol refletido na pele do tubarão-tigre hermafrodita e telepata Hannah durante os crepúsculos, dentro de um grande aquário no topo do edifício Copan. Zed Stein, um agente desmemoriado, tenta relembrar qual é afinal a sua missão. Baby Gasoline (na verdade sua sexta identidade, comprada no Neverland Institute, símbolo corporativo contra o qual se coloca o subversivo Butthole Kongo, que planeja uma invasão à Cidade-Olho) se envolve com Zed e o auxilia. Adavilsom, designer da TXT e criador do FutCuca, em que os Coisos, humanos desprivilegiados que vivem além das fronteiras da Cidade-Olho, controlam os jogadores durante as partidas de futebol, tenta não ser despedido. Luk e Iza, irmãos que vivem numa palafita no pântano, vão à procura do amigo imaginário Sandiliche.

É em meio a esse caos que Bressane se revela um artesão hábil, guiando o leitor com segurança por um terreno esburacado, destilando devaneios estilísticos impressionantes. Além da fluência entre as muitas formas de narrar, com uma oralidade sempre marcada e convincente (ler o livro em voz alta é um barato), há trechos em portunhol e até inglês; há uma riqueza de referências pop; há as contrações de quem se articula com as migalhas de linguagem onde tudo foi pras caralhas; e há trechos convencionais igualmente bem executados, como na viagem que Adavilsom faz à família fora da Cidade-Olho, no capítulo Morumbigo, onde você é mais você.

O preço a se pagar numa narrativa tão fragmentada, experimental e com tamanha amplitude de vozes é a confusão, contornada pelo leitor mais maduro ou persistente. É para esse leitor, claramente, que Bressane escreve. O que não é demérito; narrativas lineares e com linguagem mais acessível existem aos montes. Para o leitor que chega ao fim do Mnemomáquina, há a recompensa, para além do próprio percurso (em si um jogo literário rico): as narrativas entrecruzadas revelam um esqueleto que não é tão fragmentado quanto se imaginava.

O selo Demônio Negro caprichou na produção do livro. A capa de um vermelho chapado, com fonte sóbria, traz no centro um pequeno tubarão que parece feito em estêncil. É um modelo dos desenhos que surgem na abertura de cada capítulo, feitos pela artista Eva Uviedo, um charme à parte. O tamanho, a parrudez e a própria mancha de leitura lembram bastante as obras da Alfaguara. Infelizmente, não são apenas elogios: o livro carece de maior apuro na revisão para acertar errinhos gramaticais, alterações de tempo narrativo e uma ou outra lombada (Adavilsom grafado Adavilson, por exemplo). Mesmo assim, nada tão recorrente que prejudique a leitura.

Santiago Santos é escritor, tradutor e publica drops no flashfiction.com.br

A era i-Racional

A era i-Racional

Leandro Dupré Cardoso
Editora Clube de Autores
328 páginas
Lançado em 2014

Você já imaginou se, depois de um leve momento de distração, tudo aquilo que você conhecesse e possuísse (e até mesmo fosse) simplesmente desaparecesse, de um trato? É sobre essa inquietante quebra de estrutura de que trata o romance A era i-Racional, do jovem escritor de ficção científica Leandro Dupré Cardoso.

A livro narra a história de Humberto, um pai de família comum: esposa, dois filhos, um bom emprego. Nada de especial. A não ser pelo seu próprio nome: Humberto provém originalmente do antigo dialeto germânico e significa algo como “homem de inteligência brilhante”. E é essa capacidade cerebral que irá transformá-lo no principal entrave (ou na principal solução?) para a revolução prestes a eclodir.

Enquanto passeia despreocupadamente com a família por um parque de diversões, Humberto adentra uma misteriosa atração, o Labirinto da Cavalgada de Hélio. Tomado pela curiosidade de percorrer os seus mágicos corredores, o homem se embrenha demais por caminhos já naturalmente emaranhados. Enrosca-se na teia da aranha. Humberto desmaia dentro da atração. E um mundo completamente novo se desenha durante o longo período em que seus olhos são mantidos bem fechados.

Com o corpo moído de tantos sonhos de aflição, Humberto enfim desperta. E tudo fica cinza: as paredes, as máquinas, a garra metálica que parece sempre prestes a comprimir impiedosamente sua cabeça. Porém, apesar desse ar de fábrica, ainda parece que o protagonista está dentro de um hospital, visto que acaba de acordar sobre um leito clínico. Seja muito bem-vindo à fábrica da juventude, o lugar onde rejuvenescer é tão simples quanto apertar alguns parafusos.

E sua esposa? Seus filhos? Seu emprego? Se estes ainda fossem os seus maiores problemas: logo o protagonista vem a descobrir que possui controle de seus movimentos apenas do pescoço para cima. Seus braços e pernas ainda podem se deslocar, contudo não pelos próprios comandos. Um sistema externo ordena as suas locomoções por um dispositivo que Humberto descobre estar implantado em sua coluna e na de todos os outros. Ou melhor, também não há mais Humberto: seu novo código para reconhecimento torna-se JÓ2719PR29, muito prazer. Este é o início de seu novo funcionamento como empregado compulsório da era i-Racional.

Mas, afinal: será tudo sonho ou realidade? Nunca se sabe até que ponto a interatividade desse lugar pode chegar…

Em uma sociedade totalmente insensível e massificada, a missão de JÓ2719PR29 não será nada fácil: descobrir o que ocorreu com sua família e fazer toda a sua vida voltar ao normal. Todavia, o prosseguir nessa batalha solitária será dificultado por um ente maior, EF217CL210, do qual nunca se tem certeza se é um sistema metafísico, um computador superpotente ou qualquer outra coisa totalmente nova.

Assim, o protagonista transformado em máquina terá de lutar contra esse adversário intangível, enfrentar alicates inflexíveis e monstros de aço inoxidável para comprovar que a sua real identidade ainda pode prevalecer. E permitir que volte a se chamar Humberto mais uma vez.

Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.