Infinito em pó

infinito em pó

Luís Giffoni
Editora Pulsar
240 páginas
Lançado em 2004

O romance Infinito em pó propõe um debate sobre a (in)expressividade da vida humana. Dedicado a discutir, ao longo do desenvolvimento de cada personagem, a habilidade do homem em desenvolver tecnologias na busca de respostas para o que historicamente sempre tomamos como questões insólitas, Luís Giffoni apresenta uma (dis)topia social que dialoga com nossa contemporaneidade.

A espécie humana, em um futuro distante, paga um preço muito alto na tentativa de racionalizar o universo como um todo, uma vez que não encontra alternativas políticas que tornem as microrrelações sociais menos violentas. Oligarquias, disputas de poder, cobiça e vaidades estão presentes na vida social do homem do futuro apresentada pelo autor, e embora tais desencontros sociais não comprometam o projeto de exploração interestelar, tornam esse projeto uma grande experiência (dis)tópica. Dessa maneira, utopia e distopia caminham juntas ao longo da obra, com o intuito de traçar uma hipérbole do sapiens contemporâneo.

As habilidades de Giffoni em desenvolver as personagens e a narrativa também despertam atenção. Os personagens são influenciados por pelo menos duas angústias essenciais: a clausura de viver toda sua existência em uma nave e a responsabilidade de protagonizar uma missão que pode mudar significativamente o entendimento do ser humano como espécie. No entanto, essas sensações são reveladas ao leitor em doses homeopáticas, o que faz do autor um maestro que tem o controle da narrativa nas mãos, nos proporcionando uma experiência sinestésica do que significa estar em uma missão espacial de exploração interestelar.

O teórico Viktor Chklóvski compreende que uma das demandas do texto literário é o processo de singularização dos objetos, que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. Infinito em pó apresenta esses gestos em uma narrativa que revela, pouco a pouco, o que é viver um sonho utópico da humanidade cristã − desbravar galáxias, colonizar mundos, demarcar toda a grandeza do universo com o carimbo de domínio da humanidade − e a condição distópica do homem tão ínfimo, tão pequeno, tão singular, em meio a um cosmo gigantesco. Um cosmo infinito de um lado e, de outro, a humanidade na dimensão de pequenos grãos de areia com vaidades e muitas habilidades cognitivas.

A utopia e a distopia também estão presentes em Infinito em pó pela potência semântica da viagem espacial. Uma nave realiza uma das grandes empreitadas da humanidade: desbravar o espaço em uma longa jornada que permitirá ao homem colonizar o sistema Alpha Centauri. Gerações nascem, se desenvolvem e morrem ao longo da viagem, sem conhecer o que seria a vida na Terra e o que seria a vida fora da nave. Os personagens centrais da trama só conhecem a Terra por um conjunto de arquivos alimentados pela inteligência artificial da nave e por um sistema de realidade imersiva que simula ambientes da fauna e da flora.

O planeta Terra, por sua vez, está em colapso político-econômico, ao mesmo tempo que possui uma integração, fruto de um processo de globalização maduro que possibilita a missão acontecer. Personagens reúnem traços multiculturais, variando do hindu ao latino-americano, no entanto, as múltiplas ambientações da nave permitem que o leitor se identifique com uma vida limitada quase ao missionarismo cristão: todos os personagens tem um objetivo, uma vida traçada, uma expectativa em torno dos resultados adquiridos ou não adquiridos, e dos juízos morais polarizados no bem e no mal.

O novo Deus que direciona as escolhas das personagens em Infinito em Pó é o progresso e a superação do humano: a vaidade em marcar território, sem saber ao certo por quê, nem para quê. O autor não deixa de lançar um olhar crítico sobre a história colonial das Américas e a presunção antropocêntrica do homem moderno. Questiona a paradoxal necessidade desse homem moderno em racionalizar o que está além de suas competências naturais. O universo é imenso, é complexo, é irracional na lógica humana.

Assim como Lovecraft cria o universo de Cthulhu e propõe que o livre-arbítrio do sapiens seja uma brincadeira dos deuses, Infinito em pó apresenta um homem desproporcional às demandas do Universo, motivado pela vaidade infantil de um dia querer atingir a onisciência e a onipresença de um cobiçado Deus cristão.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com doutorado em Linguística.

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Piscina Livre

Piscina livre

André Carneiro
Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Publicado pouco antes da organização do movimento que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira, Piscina Livre apresenta características marcantes da proposta literária da onda na qual Carneiro se insere.

A começar pela apresentação formal do texto que, numa ousadia modernista, não observa os convencionais recuos dos parágrafos. Não se trata de um erro editorial, uma vez que tanto o autor quanto a editora tinham muita experiência na publicação de livros. A apresentação é proposital, mas surpreende os leitores acostumados aos textos da Segunda Onda, que tiveram uma postura conservadora em relação à forma e ao estilo, com pouca ou nenhuma experimentação nesse aspecto.

Também na prosa, Piscina Livre tem um toque de elegância e uma ousadia técnica pouco comuns na FCB, características que fizeram valer os elogios que o autor recebeu e ainda recebe de editores, leitores e teóricos.

O mundo desse romance é habitado por pessoas felizes e frívolas, que vivem em cidades confortáveis, ilhas de urbanidade cercadas pela natureza selvagem. A Piscina Livre é uma casa de prostituição, onde as mulheres encontram exemplares masculinos geneticamente desenvolvidos para o sexo. São os andrs, homens artificiais que não têm direitos de cidadão. O termo piscina livre refere-se à sua vitrine, que é um enorme aquário no qual andrs nus exibem-se para a clientela num erótico balé subaquático. Em nenhum momento o romance sugere que existam andrs fêmeas e, com efeito, o discurso feminista de Carneiro, presente em muitas de suas obras, aqui condena explicitamente a prostituição feminina.

A sociedade não vê a Piscina Livre como uma atividade moralmente condenável, ao contrário. Trata-se de um lugar elegante e bem frequentado, no qual as mais destacadas mulheres da sociedade encontram complementos para sua satisfação sexual, inclusive um gorila muito requisitado. De fato, essa comunidade futura trocou as religiões pelo sexo, que é praticado livremente por homens e mulheres de todas as idades, até crianças. O prazer erótico é a linha guia da sociedade, ensinado nas escolas por especialistas, com uma infinidade de práticas variantes. Não há ciúme ou vergonha e todos desfrutam de liberdade sexual absoluta.

Os andrs, contudo, não são felizes. Anseiam pela liberdade e buscam por ela fugindo para a selva, principalmente quando, depois de algum acidente, apresentam defeitos ou aleijumes. Os fugitivos acabam servindo como caça desportiva para homens que se divertem matando-os com rifles elétricos.

Nesse cenário, encontramos um casal jovem que, no princípio da narrativa, chamam-se Blanche e Kratz. Esses nomes não duram muito além das páginas iniciais, pois os cidadãos usam braceletes identificadores que lhes mudam o nome todos os dias. O que poderia tornar-se uma confusão é tratado de forma segura pelo autor e em momento algum o leitor perde a identidade dos personagens.

Apesar de ter uma vida confortável, Blanche não está plenamente feliz, embora não saiba disso. Em uma visita à Piscina Livre, ela desfruta do andrs Several (ao contrário dos cidadãos livres, os andrs nunca mudam de nome). Na Piscina Livre, a seleção dos andrs é aleatória, mas Blanche − que a essa altura já não se chama mais assim – desenvolve uma fixação por ele. Kratz não se importa que Blanche tenha relações com outros homens, sejam eles andrs ou cidadãos, mas fica abalado quando desconfia que ela entabula diálogos lógicos com Several, uma vez que considera os andrs mentalmente inferiores.

Conforme Blanche estreita seu relacionamento com Several, Kratz fica cada vez mais abalado emocionalmente, e isso vai levá-lo a adotar medidas drásticas na tentativa de recuperar o seu amor. Sendo conselheiro da cidade, Kratz dispõe de algum poder, e o que se segue é nada menos que um holocausto.

Interessante notar o final anticlimático da trama, depois do torvelinho de situações de crime e tragédia.

O moralismo que caracteriza o genoma da ficção científica internacional mais bem-sucedida não encontra eco em Piscina Livre, que, na mais pura tradição tupiniquim, termina literalmente em pizza, sem culpa ou punição. Desse modo, o autor deixa a conclusão aberta ao leitor: trata-se de uma alegoria à impunidade que assola o país; de uma parábola para o perdão cristão; de uma proposta para a redenção espiritual através do sexo ou de outras infinitas abordagens que se possa perceber.

Piscina Livre define um modelo pouco explorado de ficção científica, que exige do autor uma ampla capacidade abstrativa e estilística, além de uma maturidade moral e filosófica capaz de lidar com o tema do sexo sem cair no escracho, no machismo ou na grosseria. Autores com essa capacidade geralmente preferem não escrever FC, enquanto os autores de FC de alguma qualidade não ousam tocar nesses assuntos, por uma questão de protocolo do gênero. Ainda bem que tivemos a ventura de ter André Carneiro na ficção científica brasileira.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

Macacos e outros fragmentos ao acaso

Macacos

Jorge Moreira Nunes
Editora Differential
126 páginas
Lançado em 2007

Há muito tempo, queria ler um livro que falasse da minha cidade e, em pelo menos um de seus parágrafos, contemplasse uma ficção fértil em nome de um Rio de Janeiro que eu vivenciei, que não está no imaginário da mídia massiva, tão múltiplo e tão além da praia de Copacabana. Ironia ou não, esse livro existe, de certa forma, desde 1998, é um romance − feito de contos muito bem alinhavados − de ficção científica e o centro de irradiação de sua narrativa é Copacabana.

Seu primeiro conto-capítulo, Terraço, entra também na lista de ironias que experienciei para adotar Macacos e outros fragmentos ao acaso como aquele livro instigante e capaz de concentrar as experiências paradoxais e conjecturas de uma ficção que cabe na cidade que amo, expandindo-a para todos os tempos e possibilidades. É também uma viagem pelo inconsciente.

Um dos personagens mais bem elaborados por Jorge Moreira Nunes, o enxadrista Vlad, provoca o estranhamento e a empatia necessários para configurar o bairrismo ao avesso e a intelectualidade despretensiosa de botequim que dão o tom original do romance. Ganhamos um amigo, daqueles cuja amizade não entendemos por que cultivamos, mas não podemos jamais subestimar.

Os desconcertantes contos-capítulos denominados Macacos possuem o mérito inegável de brincar com o inconsciente semântico do leitor ou, numa visão menos otimista, tocar a superfície adormecida desse oceano de possibilidades cuja linguagem certamente deve diferir da lógica habitual. O projeto Macacos vai tendo sua significação e relevância esclarecidas pouco a pouco e, até as últimas páginas, parece não ter outra função que não seja incomodar o leitor, obrigando-o a improvisar um novo método de leitura lúdico e participativo, que dê conta de várias páginas de uma enorme sequência de associações livres demais ou – o leitor pode notar, desconfiado – nem tão livres assim.

O segundo conto-capítulo, Maelström, revaloriza o primeiro, mas dá também a impressão de que o todo do livro é uma obra caótica, formada apenas por fragmentos realmente ao acaso. A espinha dorsal do romance, no entanto, o refúgio seguro do La Granada – título dos capítulos que alinhavam com segurança os contos do livro – escancara ao leitor um único objetivo por trás de toda a narrativa.

As diferentes formas de realidade representadas em épocas e temporalidades distintas (que incluem também os contos-capítulos Presente de mãe, Saviana e Ourobouros) somam-se a uma desconstrução da linguagem cartesiana (Macacos) e a uma narrativa em primeira pessoa franca e intimista (La Granada), resultando num arsenal respeitável para a detonação de parâmetros mentais habituais, uma das funções mais nobres da boa ficção científica. Mas o caos furtivo é apenas o primeiro passo para a obra descomunal de construção do Inventário de todas as possibilidades humanas.

Jorge Moreira Nunes, seu alter ego ou a primeira pessoa de Macacos e outros fragmentos ao acaso, impressiona pela coragem, porque chega a um grau de vulnerabilidade ousado por poucos autores em plena narrativa literária. Que escritor não se sente tentado a incluir posfácios e prefácios no meio de sua história para torná-la menos temerária, menos solitária e – aí o grande perigo – mais indecisa? É preciso ler para entender e sentir como esse dilema se resolve.

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Ludimila Hashimoto é escritora e tradutora, especializada em ficção fantástica e ficção científica.

[ Resenha publicada originalmente no portal Overmundo. ]

O velocista

O velocista

Walter Cavalcanti Costa
Cepe Editora
216 páginas
Lançado em 2018

Esse não é um romance de ficção científica.

− Então, Luiz, o que ele está fazendo no blogue FCB?

Esse é um romance de ficção científica.

− Não estou entendendo. Tá parecendo mais o gato de Schrödinger, vivo e morto ao mesmo tempo…

Exatamente: esse é e não é um romance de FC. Vou tentar explicar. Sabe os desenhos ambíguos que iludem nossos olhos? O famoso pato que é coelho que é pato que é coelho? Então… O premiado romance O velocista, de Walter Cavalcanti Costa, é do mesmo tipo.

Dialogando com a melhor tradição de nosso modernismo futurista − estou pensando nos clássicos fragmentários de Oswald de Andrade: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933) −, a narrativa vencedora do Quinto Prêmio Pernambuco de Literatura é composta de trezentos e dez estilhaços, divididos em nove seções.

Os estilhaços são, aparentemente, uma coleção desordenada de memórias e reflexões de Jô Tadeu Tábua, o protagonista da história. E de fato há uma história, um enredo, nessa coleção esquizofrênica de breves diálogos, rápidas descrições e intermitentes digressões. Um leitor paciente e perspicaz, afinado com as vanguardas artísticas e seus jogos poéticos, consegue montar o quebra-cabeça que a cabeça de Jô Tadeu irradia sem descanso.

Pra facilitar um pouco o trabalho, há um estilhaço que esclarece quem é quem no vaivém de personagens que brincam de esconde-esconde ao longo do romance.

96

Explicativo

Eu sou Jô Tadeu Tábua, sou astronauta. Sou filho da estilista Carolina Vásquez e do professor de ciências contábeis João Tábua. Sou casado com Beyita Samana, a governadora do Estado de Pernambuco, no Nordeste da República Federativa do Brasil, e sou irmão do artista plástico Von O’Val, que é casado com a bibliotecária Valbuena Sales, que fala sete línguas ocidentais. Sales trabalhou com meu pai, João Tábua, no local onde hoje é a biblioteca que recebeu o nome dele.
Tenho um filho chamado João Tadeu. Uma filha que está para nascer. Nasceu.
Estou a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

Duas considerações me ocorrem, após a leitura de O velocista.

Trata-se, é óbvio, de uma obra pertencente à tradição modernista da prosa obscura, subjetiva, caótica e às vezes hermética, produzida por rebeldes − Joyce, Beckett, Raul Brandão, Clarice, Leminski, Hilda Hilst e outros − hoje canonizados e estudados no ensino médio e nas faculdades de Letras. Essa tradição da obra-aberta (Umberto Eco) ainda fortalece a corrente dominante da literatura e dos estudos literários.

Confesso, porém, que se não fosse por um detalhe, o romance de Walter Cavalcanti Costa não teria me interessado tanto. Afinal, justamente por pertencer à corrente dominante da literatura e dos estudos literários, a fragmentação romanesca já deixou de ser novidade há muito tempo. O detalhe que me prendeu a atenção foi a profissão de Jô Tadeu: astronauta. E o fato de ele estar a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

É a primeira vez que um astronauta entra em cena, no campo da literatura erudita brasileira. Porque, de Joyce aos dias atuais, os romances fragmentários do mainstream costumam expressar a consciência caótica do corriqueiro cidadão comum: gente simples da periferia, operários e comerciantes, escritores em crise, artistas sem talento, donas de casa entediadas, jovens sem amor nem futuro, delírios da classe média etc.

As questões práticas da rotina de um astronauta brasuca aparecem muito pouco em O velocista. Nessa narrativa predominam o cotidiano doméstico e afetivo do protagonista, próprio da tradição mainstream. Mas a brevíssima menção à figura do astronauta me permitiu extrapolar a alucinante fragmentação discursiva. Durante a leitura, consegui enxergar Jô Tadeu atravessando um portal fractal, sua nave em alta velocidade capturada por uma distorção do espaçotempo, o passado-presente-futuro do protagonista pipocando no ontem-hoje-amanhã, sua consciência elaborando e reelaborando encontros e desencontros de uma causalidade alternativa.

Resumindo: esse não é um romance de ficção científica, mas é do tipo que pode ser lido também como um romance de ficção científica.

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Reflexão relacionada: Aprende com tua nêmese

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

As Quimeras da Guerra

As Quimeras da Guerra

Ricardo A. S. Santos
Editora PenDragon
440 páginas
Lançado em 2017

Como será a humanidade no ano de 2139? Quais serão os seus hábitos, sua cultura, sua forma de vida? Segundo Ricardo A. S. Santos no livro de ficção científica com salpicadas de terror As Quimeras da Guerra, os humanos tradicionais estarão condenados. A menos que você possua um bom rifle de plasma, sua vida vai se tornar uma fuga de abrigo em abrigo para se proteger dos monstros mutantes que se multiplicaram sem controle. Isso caso você já não tenha se tornado mais um deles, obviamente.

A história trata das consequências de uma guerra nuclear que no ano de 2098 devastou o mundo que nós conhecemos. A radiação se espalhou globalmente e se os contaminados não morrem pela sua ação, na maioria das vezes passam por mutações gritantes que os transformam em seres corpulentos e animalescos. Além de ficarem com uma marcante vontade de saborear carne humana.

Contudo, as explicações dessas contaminações ainda são muito sombrias. Principalmente porque, após 2098, o conceito de nação perdeu muito do seu valor logo que o exército se uniu em escala mundial para se tornar a mais importante instituição a governar a humanidade. Afinal, são eles que constituíram as bases onde os humanos podem viver com algum sossego graças à vigilância contra a invasão de hordas de monstros famintos. Estaria o exército realizando experiências premeditadas para aumentar o seu poder? Estaria criando mutantes mais avançados para manter a população cada vez mais acuada e dependente de uma milagrosa instituição protetora que produz o veneno para depois se vangloriar por criar o próprio antídoto?

Fato é que as feras estão evoluindo prodigiosamente. Essas novas espécies estão com cada vez mais força, agilidade e até a capacidade de regeneração de membros perdidos. E a esperança da população não está no exército e em suas ações duvidosas, mas num pequeno grupo rebelde que, mesmo com escassos recursos, vem atingindo importantes vitórias: são os chamados Dogs, que possuem como principal expoente o sargento ex-líder do pelotão da morte dos Coveiros, Marcus Sedric.

Marcus é um guerreiro que perdeu os pais ainda criança para a luta contra os monstros. Foi então que decidiu se alistar para o treinamento militar a fim de se tornar capaz de cumprir sua vingança pessoal contra essas aberrações. Isso o fez um líder frio, sem piedade. Até psicopata.

Afinal, Marcus não tem muita noção se suas atitudes auxiliam ou atrapalham a população. Mas o rapaz nem se preocupa com isso: ele segue seu próprio senso de justiça, simplesmente obedece aos seus instintos. Seu destino é guerrear e todos os seus sentidos se desenvolvem para isso. Mas as Quimeras da Guerra sabem bem o que fazem. Nada acontece por acaso. Não existem coincidências uma vez que as Quimeras é que oferecem o caminho e os recursos para que seus indicados cumpram uma missão ainda maior.

Num mundo distópico repleto de batalhas, propício ao desenvolvimento de personagens, o primeiro livro de Ricardo A. S. Santos nutre-se do interesse do autor por sagas japonesas como Dragon Ball, Gantz e Berserk para nos transportar ao coração de uma sociedade caótica em que matar se torna essencial para sobreviver.

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Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.

B9

B9

Simone Saueressig
Editora Clube de Autores
316 páginas
Lançado em 2011

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul.

O romance B9 mostra uma nave de gerações chamada NCA 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave atinge um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave.

O palco para um bom romance hard de FC já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de B9. Mas quem é B9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comuns em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semiabandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando até mesmo sua morte. E assim nasce B9, nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.

Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a NCA para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente B9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Conduzida tanto pelo comandante quanto por sua neta, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é se possível tentar resgatá-lo.

O romance é intenso e com muito movimento. De saída chama a atenção, em suas primeiras páginas, a objetividade e o poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas esse é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.

Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere essas questões como leitmotiv da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges / B9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague a dor e a vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.

O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso, que sabem como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.

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Marcello Simão Branco é pesquisador de ficção científica e coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque de Arte Fantástica Brasileira. ]

Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.