B9

B9

Simone Saueressig
Editora Clube de Autores
316 páginas
Lançado em 2011

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul.

O romance B9 mostra uma nave de gerações chamada NCA 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave atinge um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave.

O palco para um bom romance hard de FC já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de B9. Mas quem é B9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comuns em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semiabandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando até mesmo sua morte. E assim nasce B9, nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.

Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a NCA para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente B9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Conduzida tanto pelo comandante quanto por sua neta, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é se possível tentar resgatá-lo.

O romance é intenso e com muito movimento. De saída chama a atenção, em suas primeiras páginas, a objetividade e o poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas esse é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.

Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere essas questões como leitmotiv da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges / B9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague a dor e a vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.

O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso, que sabem como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.

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Marcello Simão Branco é pesquisador de ficção científica e coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque de Arte Fantástica Brasileira. ]

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Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Sozinho no deserto extremo

Sozinho no deserto extremo

Luiz Bras
Editora Prumo
320 páginas
Lançado em 2012

A despeito dos que sofrem de misantropia, viemos ao mundo para viver em sociedade. Nada somos sem o outro para nos descobrir. Se em nossa existência aprendemos realmente a conviver, é outra questão. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. E esse labiríntico estado psicológico causado, entre outras coisas, pela solidão, é a premissa de Luiz Bras em seu romance Sozinho no deserto extremo.

Nessa grande obra, o autor nos presenteia com um enredo alucinado, em que o espetáculo da loucura é a melhor companhia para o leitor.

Sozinho no deserto extremo surpreende. Especialmente por tratar a ficção científica com a seriedade que merece. Luiz Bras exercita o gênero com o cuidado e a sabedoria de quem não só conhece o ofício da escrita, mas da literatura. Tanto que o livro não se parece com um desses clichês. O conceito de Matrix, por exemplo, está mais dentro do que fora da personagem.

Davi – propositadamente o estereótipo da maioria de nós –, certa manhã se vê sozinho no mundo. Ao acordar, é invadido pela realidade do nada. Onde, todos? Mulher, filhos, vizinhos do prédio, da rua, da São Paulo inteira. Onde? Aqueles que um dia existiram se foram. O deserto que tem o caos como paisagem invadiu o universo de Davi.

Ao despertar num admirável mundo novo tudo está à disposição do protagonista, basta pegar e aproveitar. A vida realmente parece perfeita, vista por esse prisma. Será bela, a solidão? Por estar sozinho no mundo, Davi dispõe de tudo, a qualquer hora. E pode ir a qualquer lugar sem ser incomodado por ninguém. Assim, passado o susto de se ver sozinho, Davi faz exatamente igual ao personagem de Ray Bradbury, abandonado em Marte: perambula pela cidade e aproveita. O mundo é todo seu. As pessoas se foram. Restaram apenas montinhos de roupas pelo chão.

No entanto, o importante não é descobrir como todos sumiram. O mais contundente é acompanhar a trajetória de Davi e observar o poder aterrador da solidão. Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo, descansou. E no oitavo dia (que é o primeiro dia na obra de Luiz) a solidão começou a mostrar seu lado irascível, preparando-se para exterminar tudo o que foi feito.

Para matar a solidão, é preciso estar acompanhado. E uma batalha precisa ter propósitos. Não é sem razão que Davi, sozinho no deserto extremo, encontra companhia e motivos para guerrear.

Um telefonema. Depois mais. Uma mulher do outro lado da linha. Se é verdade ou imaginação de Davi, o leitor descobrirá. De todo modo, o protagonista se vê num dilema: ser um herói ou um covarde? A mulher precisa ser salva. Valerá a pena? Será ela merecedora? Existe a mulher perfeita, capaz de arrancar o homem de sua raiz com o intuito de salvá-la?

A mulher perfeita para Davi não é a do telefone. É Graça, sua amante. Graça, a boneca inflável que o acompanharia nos bons e nos maus momentos. Apesar disso (Adão e Eva – Davi e Graça), o mundo não se faz somente com um homem e uma mulher. A menina-santa, uma garota de dez anos que é encontrada brincando com um vibrador no sex shop, também povoa a solidão de Davi e se torna a razão maior de sua batalha contra os perseguidores.

Mas, afinal, quem são essas pessoas? Seriam tão-somente fruto do delírio solitário? Só há um jeito de você saber: ficar acompanhado de Sozinho no deserto extremo.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Germina. ]

Corrosão

Corrosão

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
292 páginas
Lançado em 2018

Foi uma surpresa bastante prazerosa, este romance de FC hard do teólogo e ensaísta carioca Ricardo Labuto Gondim, também autor da coletânea de ficções e reflexões Deus no labirinto (2016) e do thriller policial B (2013). Talvez sua obra esteticamente mais ambiciosa, Corrosão é uma poderosa narrativa de confronto e descoberta, feita de camadas que vão se sobrepondo devagar, com vigorosa elegância.

O cargueiro Nikola Tesla, com duzentos e oitenta metros de casco, é o triunfo da engenharia espacial do século 22. Conduzido por uma sofisticada inteligência artificial, dezenas de robôs e apenas seis tripulantes humanos altamente treinados, sua primeira missão é viajar até as imediações de Plutão, interceptar um grande asteroide e extrair dele um óxido precioso inexistente na Terra, com propriedades supercondutoras.

Mas nas proximidades de Júpiter surge uma anomalia astronômica que chama a atenção primeiro do sistema de bordo do Nikola Tesla, depois de sua tripulação: uma vasta nuvem vermelha de hidrogênio, anelar, contendo uma nuvem verde de metano e enxofre, elíptica, por sua vez contendo nada mais nada menos que o lendário Titanic, duzentos e quarenta anos depois de seu naufrágio.

Obviamente a grande questão que impulsiona o enredo é: de que maneira o maior transatlântico de seu tempo se deslocou do fundo do oceano para as proximidades de Júpiter? Essa situação insólita mobiliza o controle da missão, na Terra, e os tripulantes do Nikola Tesla. O raríssimo óxido do asteroide não é mais prioridade.

Nas mãos de um ficcionista mediano, esse mistério seria, sozinho, o centro do sistema narrativo. Mas nas mãos de Ricardo Labuto Gondim ele é, digamos, uma das estrelas de um sistema estelar binário. Interagindo com o mistério do Titanic existe outra intensa força de atração literária: o drama humano. Na maior parte do romance, acompanhamos o atrito às vezes epidérmico, às vezes profundo, que aquece a coreografia da equipe do cargueiro espacial.

Os personagens − suas idiossincrasias, habilidades e inquietações − são muito bem desenhados pela mão segura do romancista, mas dois se destacam: o capitão Mravinsky e a inteligência artificial A.N.N.A. Fã confesso de Moby Dick e Vinte mil léguas submarinas, Ricardo Labuto Gondim, além de exercitar uma escrita minuciosa, rica em detalhes técnicos e psicológicos, muito apreciada pelos melhores escritores realistas do século 19, se inspirou em dois grandes capitães da literatura universal, Ahab e Nemo, para criar seu Mravinsky, um oficial enérgico e culto, apreciador de literatura e música eruditas.

A serviço da Corporação que investiu pesado em sua construção, o sistema neuromórfico A.N.N.A. e a espaçonave são uma coisa só, corpo e mente entrelaçados produzindo um magnífico veículo autoconsciente. O comportamento lógico da IA, nos momentos em que o comportamento biológico da tripulação humana é tingido por traços emocionais, produz um contraste muito bem-vindo. Onipresente, A.N.N.A. interage com os nanorrobôs na corrente sanguínea dos tripulantes, com o compartimento criogênico, com os grandes reatores e propulsores da nave etc.

Enquanto isso, lá fora… A carcaça do Titanic. Tão fantasmagórica quanto a baleia branca do romance de Melville. No decorrer da história, outros fenômenos até mais surpreendes farão o narrador onisciente, estarrecido, concluir que “a irracionalidade dos eventos implicava na ideia de que o absurdo era uma das muitas possibilidades do universo”.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

O disco I – A viagem

O disco I - A viagem

João Carlos Marinho
Global Editora
146 páginas
Lançado em 1996

O escritor carioca João Carlos Marinho deu novo fôlego à literatura infantojuvenil na década de 70 quando da publicação de sua consagrada obra O gênio do crime. Seu livro Sangue fresco abocanhou todos os grandes prêmios de literatura infantojuvenil em 1982: Altamente Recomendável para o Jovem (FNLIJ), Grande Prêmio de Literatura Juvenil (APCA) e Jabuti (CBL).

Embora bastante premiado, não me pareceu muito fácil encontrar dados biobliográficos sobre o autor e sua obra. Uma busca na internet me diz de seus estudos: antigo curso primário em Santos; ginásio no Colégio Mackenzie, em São Paulo; colegial na Suíça e bacharelado em Direito na USP. A partir de 1965, divide seu tempo entre a advocacia e a literatura. E a partir de 1987 − raridade! − consegue viver exclusivamente como escritor.

Aqui nos interessa a obra O disco, lançada pela Cia. das Letras em 1996 (ano do famigerado caso do ET de Varginha). Em 2006, a obra foi relançada pela Global como O disco I − A viagem, seguida de sua continuação O disco II − A catástrofe do planeta Ebulidor.

Neste livro, Marinho utiliza-se das personagens de sua turma do gordo (que na nova edição surge sempre com letra minúscula) para a aventura. Elas são recorrentes em seus livros, embora estes possam ser lidos de forma independente. A turma do gordo é constituída por crianças de classe média alta, sadias, mimadas e espertas, que contam com o auxílio de alguns adultos para a resolução de seus problemas.

A obra se divide em duas partes: Livro principal − A viagem e Livro final − Voltando para casa. Descrições bem construídas e diálogos envolventes dão enorme agilidade aos seus vinte e nove capítulos, cheios de pequenas aventuras.

O disco é uma nave transparente, que faz projeções de realidade virtual para ficar indetectável, encontrada em Monte Verde, Minas Gerais. Sabendo que as tecnologias descritas nos livros de ficção científica quase sempre se tornam realidade no futuro, já informo que estou aguardando o sistema autolimpante do chão, descrito por Marinho.

É no disco que as personagens irão viajar para outro sistema solar muito distante do nosso, em companhia de seres peludos e de fala estranha, que eles apelidaram de brucutus. Aos poucos, a turma do gordo vai compreendendo os hábitos daquelas criaturas e o funcionamento do disco.

As personagens mais intrigantes da obra, porém, são criaturas vegetais que botam ovos e se alimentam de… orelhas! Delas dependerá a salvação de toda a turma. Gordo e Berenice, inclusive, recebem a incumbência de chocar um ovo cada um.

Como os brucutus são muito mais fortes e mais ágeis que a turma do gordo, os heróis juvenis se deixam levar no disco sem grandes resistências. Porém, sabem que suas vidas correm perigo se entrarem em contato com a gravidade diferente de outro planeta.

Algo semelhante acontece conosco, leitores: nos deixamos levar pela força da narrativa, sem muitos questionamentos, pois a magia da ficção científica é mais forte do que nós.

Sendo os heróis da narrativa crianças, essa leitura é recomendada para a infância de terráqueos e ETs.

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Elaine Valeria é educadora e escritora, tendo participado de dois volumes da coletânea Hiperconexões: realidade expandida.

Zitz e a rede etérea

Zitz e a rede etérea

Giovanna Picillo
Editora Scortecci
224 páginas
Lançado em 2016

Giovanna Picillo estreia na literatura e na ficção futurista com um romance conduzido por nossas principais inquietações existenciais, sempre incômodas, distribuídas no difuso cruzamento geométrico em que a ciência, a filosofia e a religião se encontram por um minuto, sem se repelir. Nessa narrativa genuinamente otimista, a autora projeta em seus personagens os medos e as incertezas que a civilização humana vem tentando resolver há milênios, sem sucesso.

Vitimados por uma catástrofe ecológica, num futuro indeterminado os países, as cidades, as florestas e os rios foram reduzidos a escombros. O que sobrou da civilização agora vive em dois núcleos isolados: a Tecnourbe, uma metrópole-fortaleza altamente tecnológica, protegida por uma bolha eletromagnética, e a distante Newrbe, instalada nos subterrâneos de um antigo centro urbano, pra se proteger do clima perigoso que castiga a superfície.

O protagonista do romance, Zitz, é um eficiente funcionário da Tecnourbe comandada pelo pragmático e racionalista Conselho diretor. Conectado ao complexo sistema de comunicação da metrópole-fortaleza, o pesquisador dedica todo o seu tempo à procura de soluções técnicas e científicas, auxiliado apenas por sua assistente pessoal, uma I.A. chamada Diuly. Tudo segue o extenuante protocolo imposto pelo Conselho e administrado pelo Sistema, até que a rotina de trabalho é perturbada por sabotagens e mensagens misteriosas, que empurram Zitz na direção da Newrbe.

E se o pensamento tiver dupla natureza, semelhante à luz: ora sequência de ondas, ora feixe de partículas? A principal pesquisa de Zitz, no momento, é a teletemática, uma forma total de comunicação, que permitiria às pessoas trocar não somente dados da linguagem (verbal, matemática, musical etc.), mas experiências emocionais profundas, em duplas e até em grupos. Esse também é o eixo filosófico do romance: a comunicação mental, ou telepatia, tão desejava por místicos, artistas, alquimistas e cientistas − estes também! − de todas as épocas.

A busca de Zitz está alinhadíssima com a do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que escreveu no livro Muito além do nosso eu:

Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.

Na verdade, os escritores de FC de nosso tempo estão se atrevendo a conceber e descrever, pois a rede etérea investigada por Zitz, antes dos atentados e das mensagens misteriosas, era exatamente esse colosso de consciência coletiva de que fala Miguel Nicolelis com tanto entusiasmo.

O romance é narrado basicamente por Zitz, mas o foco narrativo também acolhe a voz de outros personagens. Outra característica que me fascinou, nessa obra de estreia, foi a atmosfera humanista, o espírito francamente otimista do enredo e dos personagens. Em todos os níveis: político, social e pessoal. Confesso que aprecio mais as narrativas sombrias, sobre Estados opressores e indivíduos dominados pelo sistema. Talvez por isso mesmo me fez tão bem ler uma história em que a força dos seres humanos e dos seres sintéticos está na empatia e na generosidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Selva Brasil

Selva Brasil

Roberto de Sousa Causo
Editora Draco
112 páginas
Lançado em 2010

Selva Brasil é uma ficção de realidade alternativa, que especula como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, ordenada pelo presidente Jânio Quadros. Nessa outra realidade, a consequência da invasão brasileira é a formação de uma coalizão constituída pelas nações Inglaterra, França, Holanda e Estados Unidos, que ataca os nossos soldados e domina parte significativa da Amazônia brasileira.

Causo nos apresenta uma história militar que conta com personagens profundos, distantes do estereótipo soldado-Rambo-overpower, se assemelhando mais a um soldado-Spielberg-será-que-sei-mesmo-o-que-estou-fazendo-aqui? Ao longo de sua narrativa, o autor demonstra conhecer profundamente os pormenores da vida militar, desde a descrição das armas utilizadas na época, até particularidades como o vestuário dos soldados, os costumes típicos do Amapá e as variantes linguísticas comuns na rotina de um desbravador das matas amazônicas de fronteira.

Reflexões como “Chega um momento em que você quer mesmo é deixar o corpo cair e escorregar encosta abaixo, se encolher atrás de uma pedra e apagar. É como um sujeito perdido num deserto. Se ele achar um arbusto com uma sombra ele deita ali e morre.”, ou ainda “Matar é amputar de alguém essa extensão toda da existência.” oferecem um pouco da imersão que a obra convida o leitor a desfrutar.

O tempero de ficção científica ao longo do romance não fica só na especulação de uma realidade alternativa. Há também todo um mistério em torno de um experimento militar que pode ser o elo entre a realidade paralela criada pelo autor e a nossa. O arco narrativo é bem construído, a ponto de ficarmos curiosos para saber como seria a vida privada naquela nova realidade de brasileiros um tanto quanto mais críticos e participativos na vida pública e política do país.

Fato igualmente curioso é que o personagem central da obra é um Souza outro, esse grafado com Z e não S, que remete a um simulacro possível de Roberto de Sousa Causo, em uma realidade na qual ele não teria desistido de sua carreira militar nem enveredado pela carreira de escritor. Dessa maneira, trata-se não só de uma realidade alternativa que muda o fluxo de macro-realidades, como também interfere nas micro-realidades interpessoais, de expressões micro-subjetivas.

Confesso que, no início da leitura, imaginei que algumas situações enfrentadas pelos personagens fossem gorduras desnecessárias na obra. No entanto, na medida em que o arco narrativo foi pouco a pouco se desvelando, passei a legitimar aquelas situações como experiências essenciais para potencializar toda a ambientação daquele espaço desconhecido para um garoto paulista de apartamento como eu.

O que também existe de voz crítica no livro é a reflexão em torno da complexa situação das fronteiras brasileiras na perspectiva geográfica, política e cultural. Enquanto brasileiro, senti ao longo da leitura que perdemos a sensibilidade em relação às etnias indígenas, e desconhecemos as complexidades e as riquezas de sua arqueologia cultural.

Fui educado pela estética sul-sudeste e Selva Brasil me proporcionou uma imersão inusitada em um território nacional pouco explorado por outras literaturas de ficção científica a que tive contato. Parafraseando Chimamanda Adichie: enquanto leitores críticos, devemos perseguir aquelas obras que nos convidam a fugir das histórias únicas sobre as culturas e as civilizações. Selva Brasil é, sem dúvida, uma ótima opção imersiva para esse exercício.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com mestrado em Linguística.