Um passeio no jardim da vingança

Um passeio no jardim da vingança

Daniel Nonohay
Editora Novo Século
304 páginas
Lançado em 2016

A obra de estreia do gaúcho Daniel Nonohay é um romance policial com elementos de ficção científica ciberpunk, ambientado numa Porto Alegre de meados de 2040. O livro foi bem divulgado na época do lançamento, porém passou longe do radar do fandom nacional de ficção científica. Contudo, ainda que seja essencialmente um romance policial com roupagem ciberpunk, quero destacar o valor da obra no campo da especulação futurista brasileira.

O protagonista, Ramiro Souza de Braga, é um advogado envelhecido tanto pelo tempo quanto pelas drogas e por uma vida basicamente sem propósito. Após um atentado à bomba, Ramiro passa a ser perseguido por uma rede de poder e influência envolvendo os próprios sócios de sua firma de advocacia. A busca por vingança é a única forma que Ramiro encontra para reconquistar o gosto pela vida.

Os outros personagens também se encaixam no tipo anti-herói, mais nos moldes da literatura policial do que nos moldes dos indivíduos excluídos do festim das grandes corporações futuristas. Ramiro é um dos cidadãos ricos, alguém enfastiado com o conforto, igual a qualquer magistrado acomodado na posição de autoridade dentro do poder judiciário. (Vale lembrar que Daniel Nonohay é juiz do trabalho em Porto Alegre.)

A ambientação dessa Porto Alegre do futuro é composta por uma atmosfera profundamente fendida, atualizando a clássica separação entre ricos e pobres. Nas páginas de Um passeio no jardim da vingança tudo é descrito de forma tênue e sutil; por exemplo, a disseminação das drogas sintéticas, os dois implantes cerebrais de Ramiro, as áreas muradas e seu aparato de vigilância que não são muito diferentes dos condomínios fechados de hoje. Os implantes cerebrais do protagonista, que potencializam sua memória e permitem acesso à internet, são mostrados de forma mais prática e sem o tratamento estético de um William Gibson, que o autor não chegou a ler. Essa sobriedade corriqueira do cotidiano no futuro acaba conferindo mais seriedade ao aspecto ciberpunk da obra. Ela é um diferencial muito relevante em comparação aos outros romances recentes desse subgênero publicados no Brasil, obras que ainda tentam emular a estética de Neuromancer. O resultado é que pendem mais para a sátira e menos para a especulação.

O trato sóbrio do elemento ciberpunk se dá pelo fato desse ser apenas um adereço em um romance policial, que tem suas próprias linhas para seguir, nesse caso, o mistério de um atentado que desemboca numa conspiração por mais poder. A obra consegue prender a atenção do leitor, com sua trama complexa, cheia de meandros jurídicos (sem se transformar em juridiquês). Esses momentos tomam conta da história no seu segundo ato, o que pode fazer o leitor esquecer que se trata também de uma FC, mas os elementos sci-fi continuam relevantes e fundamentais para as boas reviravoltas da trama.

Jogando com o presente, o passado e o futuro, Um passeio no jardim da vingança não é nada pretensioso em relação ao ciberpunk e talvez isso seja a melhor contribuição que a obra traz ao subgênero que mais concorreu para moldar nosso presente e nosso imaginário.

+   +   +

Davenir Viganon é ficcionista e resenhista, autor do conto O odu de Marte, entre outros.

Ìségún

Isegun

Lu Ain-Zaila
Monomito Editorial
120 páginas
Lançado em 2019

Na adolescência, resolvi me incluir no mesquinho grupo de leitores que enxerga as obras literárias de fantasia e de ficção científica como trabalhos inferiores e reverencia apenas os grandes mestres, como Tolkien e Asimov. Imagine só, diria a eu adolescente ignorante, ler ficção científica sobre afrofuturismo cyberfunk escrito por uma autora brasileira!

Ainda bem que me consertei a tempo de ler tudo isso em Ìségún, livro de Lu Ain-Zaila, publicado pela editora Monomito. A capa, ilustrada por Asalamandra, me encantou imensamente. Já a leitura me absorveu completamente em dois dias. Em 117 páginas, a autora prevê o Brasil imerso em um quase apocalíptico caos ambiental, onde a segregação social e racial persistem em espaços urbanos poluídos de forma insustentável para a saúde humana. Lu Ain-Zaila não se estende em descrições complexas dos acontecimentos que levaram a essa realidade, até porque não é necessário. É fácil entender agora como o nosso futuro será sombrio. Uma coisa é certa, como explica a protagonista Zuhri: “a ignorância plantada pelo sistema foi a grande pandemia a assolar o mundo”.

Em Ìségún, é possível constatar que a desigualdade social não só sobrevive, como se adapta a qualquer possibilidade futurista. Ricos e brancos com uma qualidade de vida menos pior vivem na Cidade Alta, com acesso a equipamentos de proteção, enquanto pobres e negros se afundam em lixo tóxico na infraestrutura insuficiente da Cidade Baixa. Mas, no contexto do livro, tão real quanto o nosso presente, há resistência e luta contra um sistema que se torna mais opressor à medida que precisa lidar com as consequências globais de suas escolhas focadas no lucro.

Essa resistência, diferentemente da maior parte das ficções científicas especulativas, é protagonizada por mulheres negras, como Zuhri e Ayomide, personagens centrais da trama. O enredo envolve as heroínas em investigação policial e espionagem industrial para abordar temas relacionados à biotecnologia, esgotamento de recursos naturais e racismo estrutural. Quando a policial Zuhri vai à sede da corporação Alphabio, localizada na Cidade Alta, para se apresentar como detetive do NACCOAH (Núcleo de Combate a Crimes de Ordem Ambiental-Humana), ouve uma gracinha da recepcionista: “Desculpe, não temos vaga de produção aqui”.

Mas não se engane: essa não é uma narrativa estereotipada do sofrimento do povo negro. Pelo contrário, o mais incrível do livro é a quebra da racionalidade tecnológica e futurista com a contraposição de uma cultura africana ancestral, que se alia às atuais demonstrações de resistência das periferias. Usando tanto o conceito do awa, originário da mitologia negra, como a força de uma rádio pirata subversiva na Cidade Baixa, Lu mostra que há diferentes formas de luta e novas possibilidades de futuro. Por isso, a resistência cyberpunk de Ìségún torna-se cyberfunk. Como a própria autora alerta “não é uma simples mudança de ‘p’ por ‘f’. Vai muito além disso. A ficção especulativa afrofuturista abraça a ginga das periferias, das bordas e cercanias dos centros.”

No afrofuturismo de Lu Ain-Zaila, a especulação é tão tangível que direciona nosso olhar para o presente. Esse é o objetivo de uma boa obra de ficção, que Ìségún alcançou com sucesso e sem sutilezas. Em um momento do livro, a personagem principal entendeu que ela, a mãe “e toda a vizinhança éramos mortes certas, aceitáveis, de pouco valor, pois morávamos numa zona de sacrifício, lugar de gente pobre com pouca voz, pouco poder de dizer não e muitas vezes sem chance de um futuro. Até quando?”. Essa pergunta não é mera especulação ficcional.

+   +   +

Thainá Carvalho é poeta, resenhista e editora da revista Desvario.

[ Resenha publicada originalmente na revista Desvario. ]

Gastaria tudo com pizza

Gastaria tudo em pizza

Pedro Duarte
Editora Pipoca & Nanquim
228 páginas
Lançado em 2019

A pizza talvez tenha sido a escolha mais acertada do autor para trabalhar com o que, de alguma maneira, sacia corpo e alma no tempo presente, mesmo podendo ocasionar azia, má digestão ou uns quilinhos a mais no futuro. Pedro Duarte, no romance Gastaria tudo com pizza, faz da viagem no tempo e de um dos pratos mais desejados na mesa de um paulistano médio feito eu uma série de buscas incondicionais para otimizar e saciar o momento presente.

O livro apresenta um fim de semana bem atípico na vida de três personagens, reunidos pela insatisfação com a existência que levam. Bob trabalha em uma loja de materiais de construção, Casa & Lar. Passa por uma fase complicada da vida em que as pessoas a seu redor não o encantam mais. Nas horas livres, dedica-se à customização de uma antiga máquina de escrever azul-bebê. Dada sua genialidade, consegue percorrer com ela o multiverso espaço-temporal e ter experiências com alienígenas e outras versões de pessoas que ele conhece na Terra em que nasceu.

Nina, por sua vez, é repórter de uma emissora de tevê de destaque na cidade. Realiza, a contragosto, matérias jornalísticas pró-governo e passa por uma situação vexatória após uma cobertura trágica em um buraco numa via pública. O ponto alto da personagem são as tiradas ácidas que envolvem a apresentação de sua rotina de trabalho, como o fato de ter de defender que a culpa da existência do buraco não é a ausência de políticas públicas, mas o excesso de chuva no verão.

Por fim, temos Nelson, um ghost-writer e tradutor, do orientação niilista-marxista, que enxerga no sistema público, na vida privada e na cultura atual as mazelas que desgraçam as classes menos privilegiadas da sociedade e, consequentemente, a sua própria vida.

Com enunciados que lembram muito o estilo narrativo de Douglas Adams, o escritor Pedro Duarte apresenta uma ficção da cena urbana brasileira (talvez em uma perspectiva sul-sudeste, posto que é com essa que eu estou mais familiarizado). Isso se dá principalmente pela presença constante do niilismo, que surge para delinear o estado psicológico das personagens.

Bob, Nina e Nelson buscam um sentido à sua existência, em todos os acontecimentos apresentados na ficção. Dada a dificuldade de os personagens não conseguirem flexibilizar o peso das coisas, cada um está a serviço do ou-tudo-ou-nada, subordinados a uma vida sistematizada no bem e no mal, no certo e no errado, no sucesso e na falência. Ainda, tomam a trajetória percorrida a partir de uma organização muito rígida que não enxerga um meio-termo entre o sucesso e o fracasso total. Dessa maneira, presenciamos personagens que chegam ao ponto máximo do desânimo e passam por um processo de tomada de consciência, compreendendo que todos os esforços são dispendiosos e levam à perda de tempo. Sobra para o leitor acompanhar os episódios de desespero das personagens e torcer pra que a viagem no espaço-tempo lhes ofereça uma alternativa de vida menos dispendiosa.

Outro destaque importante é o cuidado que a editora Pipoca & Nanquim tem com o livro enquanto objeto estético. A capa e o projeto gráfico de Giovanna Cianelli traduzem uma sensibilidade semiótica com a história contada. Cada capítulo conta com um conjunto de ilustrações que, além de brincar com a diagramação das palavras, ampliam a imersão do leitor na narrativa. O tempero final são os detalhes verdes fluorescentes na capa e na lombada.

Em linhas gerais, Gastaria tudo com pizza, de Pedro Duarte, é um livro prazeroso, que você mata em uma assentada e termina a última página com muita vontade de uma gloriosa pizza de atum.

+   +   +

Ricardo Celestino é professor e escritor, com doutorado em Linguística.

Asilo nas torres

Asilo nas torres

Ruth Bueno
Círculo do Livro
128 páginas
Lançado em 1979 pela editora Ática

Esta é uma novela alegórica, absurdista e distópica, curiosamente instalada num planeta Saturno que não é o Saturno real. Lá, habita um povo de comportamento individualista e desiludido, que vive em função das Torres, três edifícios públicos gigantescos que concentram o trabalho burocrático da sociedade. Na mais alta das torres, num andar acima das nuvens, mora o rei que quase nunca se mostra, mas concentra grande poder político.

As Torres são extremamente hierarquizadas e, como em qualquer repartição pública, os amigos do rei são sempre favorecidos. Elas são alimentadas por máquinas barulhentas, mas delicadas, que precisam de temperaturas baixas para funcionar a contento. Por isso, o ar no interior das Torres é mantido bem gelado, de forma que todos os que nelas trabalham precisam estar sempre bem agasalhados.

Os trabalhadores, chamados de asilados, têm uma relação de amor e ódio com as Torres, pois o ambiente externo, aprazível e pastoral, com arco-íris decorando o céu a cada crepúsculo, desperta o desejo de liberdade. Mas como o asilo nas Torres é a única forma de garantir o sustento, elas acabam sendo, para eles, mais reais que o belo mundo que as cerca.

As Torres foram construídas em meio a um descampado, cercadas por grades e muros. Mantêm-se em constante trabalho de ampliação, para acomodar o crescente contingente de asilados. De alturas diferentes entre si, são branquíssimas feito tudo o mais à volta, incluindo as onipresentes iúcas, plantas decorativas de flores muito brancas.

Os asilados, anônimos e nomeados apenas pela letra inicial de seus nomes, relacionam-se de forma doentia e desesperada, utilizando toda a sorte de artimanhas para manterem seus postos de trabalho e a influência que julgam ter. Amigos do rei exploram seus amigos, estes exploram os chefes de setor, que exploram seus subordinados; homens exploram mulheres etc.

O ambiente burocrático favorece a evolução de situações bizarras, como a dos trabalhadores que passam a vida toda realizando tarefas inúteis, sem que ninguém, nem os próprios, se aperceba disso. Mesmo as eventuais falhas no serviço de energia não conseguem mudar a rotina tirânica dos asilados, rigidamente controlada pelo relógio.

Duas mulheres polarizam a narrativa, as únicas com nomes. Salomé, sempre envolta em véus e acompanhada de um séquito de harpias, é uma bruxa cruel que domina os ventos e as artes da alquimia. E Assunta, mulher simples que leva a vida de forma discreta e esperançosa. Nem mesmo elas têm controle sobre a própria vida. Cada uma, a seu modo, é escrava das Torres, igual a todos os asilados.

Mas algo mais não vai bem. Filetes de água cristalina irrompem, sem explicação, nas paredes de concreto das Torres, em locais onde não há nenhum encanamento. Uma vez que os técnicos não conseguem identificar qualquer problema, a vida nas Torres segue inalterada. Contudo, esses filetes de água serão a pista para a definição do destino dos asilados, de suas Torres e principalmente de Salomé e Assunta, num desfecho dramático e simbólico.

A narrativa é multifacetada, construída através de relatos breves e aleatórios de situações cotidianas dentro e ao redor das Torres, entremeados por trechos de versículos bíblicos. Ruth Bueno investe fortemente nas relações interpessoais, com surpreendentes inserções de um erotismo quase pornográfico.

Ainda que a novela seja curta – apenas cento e vinte e oito páginas – e o texto seja leve, a leitura é difícil e dolorida, embora não chegue a ser depressiva. Os episódios encadeados amarram-se frouxamente e somente certo distanciamento, obtido com uma leitura de pelo menos três quartos do texto total, consegue revelar uma imagem mais clara.

+   +   +

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

A alcova da morte

A alcova da morte

Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi e Nikelen Witter
Avec Editora
240 páginas
Lançado em 2019

Esse romance foi escrito a seis mãos pelos gaúchos Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi e Nikelen Witter. Todos os três já têm obras de steampunk publicadas, e juntaram forças para criar um novo universo retrofuturista, usando a cidade do Rio de Janeiro do final do século 19 como cenário e personagem, com direito a máquinas diferenciais, carros a vapor e próteses mecânicas. Mas também onde a magia influencia o destino dos personagens, ainda que de forma oculta do cotidiano, tudo isso em meio a um mistério detetivesco. A obra faz uma bela celebração da diversidade, sem colocá-la como o motor da história.

São vinte e um capítulos, sete de cada autor. A trama é protagonizada por três agentes da agência particular de investigações Guanabara Real, que no ano de 1892 é contratada para investigar um assassinato ocorrido durante a festa de inauguração da estátua do Cristo Redentor, financiada pelo poderoso Barão do Desterro.

Tudo é contado do ponto de vista dos três protagonistas, na primeira pessoa, que são interrompidos em alguns momentos por epístolas e recortes de jornais que os heróis leem durante a história. Inclusive podemos ver a posição política de dois jornais diferentes, ao noticiarem misteriosos desaparecimentos: o jornal A República apoiando as autoridades do governo e a Tribuna Popular discursando para o povo.

Cada capítulo é escrito alternando a voz dos protagonistas: uma mulher, um negro e um índio, ou seja, os cidadãos de segunda classe, aos olhos do patriarcado branco.

Maria Teresa Floresta é a dona da agência Guanabara Real. É cheia de contatos pela cidade, principalmente entre os pobres e marginalizados, e tem um faro investigativo apurado. Ela também promove a harmonia entre os diferentes temperamentos de seus associados e amigos da agência. Nikelen Witter, autora também de Territórios invisíveis, trouxe a influência de Agatha Christie para a construção do mistério.

Firmino Boaventura é um engenheiro positivista que acredita na ciência para resolver crimes, e de certa forma o olhar científico é um modo de autoafirmação, contra o preconceito que sofre por ser negro e pela prótese mecânica que substitui a mão direita. O personagem de A.Z. Cordenonsi, autor também de Le Chevalier e a exposição universal, é a influência do steampunk na obra.

Remi Rudá, personagem de Enéias Tavares, é quem traz a influência lovercraftiana ao livro, por ser um especialista em ocultismo, alguém que domina as artes da magia. É descendente de indígenas, com gostos extremamente requintados, e vive em constante tensão com Firmino pela discrepância de suas especialidades. É de Enéias Tavares o premiado romance A lição de anatomia do temível Dr. Louison.

A diversidade social aparece na obra de maneira bastante fluída, apesar de não ser o centro da trama. Há os protagonistas que se unem pelos seus diferentes conhecimentos e habilidades, principalmente as de Maria Teresa, que conhece muito bem as áreas marginalizadas onde nasceu e cresceu. Entre os coadjuvantes, o destaque é a requintada Madame Leocádia, uma transexual dona do prostíbulo mais luxuoso da capital da recém-proclamada república.

Quanto à trama, é bem amarrada, porém sem muito espaço para maior complexidade, tanto pelo espaço que os passado pessoal dos protagonistas ocupa nas páginas quanto pela própria característica de prólogo de uma série que certamente se estenderá por mais livros. Algo que aliás é atiçado pelo final aberto e surpreendente.

+   +   +

Davenir Viganon é ficcionista e resenhista, autor do conto O odu de Marte, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no blogue Wilbur D. ]

Blues for Mr. Name

Por que ler ficção científica brasileira? Que argumento você usaria pra convencer alguém a comprar um livro de FCB em vez de um livro de FC ianque ou britânica, ou até chinesa? Situação bastante comum: fulano visita a livraria e encontra nove títulos estrangeiros e um brasileiro. Que razão maluca levaria o gajo a comprar o livro brasuca?

Uma versão análoga dessa pergunta é: por que ler literatura brasileira contemporânea? Outra: por que ler literatura brasileira? Eu mesmo conheço dúzias de leitores que só leem autores estrangeiros; uns só leem os clássicos, outros até leem os dois: clássicos e contemporâneos, mas apenas estrangeiros.

Em 1959, naquela célebre passagem do prefácio da Formação da literatura brasileira, Antonio Candido respondeu muito bem a pergunta “por que ler literatura brasileira?”. Porque é a única capaz de nos expressar e nos definir. Somente na literatura brasileira encontramos as muitas faces do Brasil. Analogamente, somente na literatura brasileira contemporânea encontramos as muitas faces do Brasil contemporâneo. Esse raciocínio também vale pra ficção científica brasuca clássica e contemporânea.

(Quis o fluxo de consciência que essa questão mais ampla surgisse agora, neste minuto, pouco antes do início justamente da mini-resenha de um romance brasileiro-estrangeiro, coisa rara entre nós. De qualquer maneira, a diretriz primeira deste blogue − textos com quinhentas palavras, um pouco mais, um pouco menos − não será ignorada. As palavras destes quatro parágrafos não devem ser somadas às da mini-resenha abaixo.)

+   +   +

Blues for Mr. Name

Reinaldo Santos Neves
Patuá Editora
420 páginas
Lançado em 2018

Nos últimos vinte anos, em três ocasiões diferentes eu escutei, de escritores que admiro, elogios à obra de Reinaldo Santos Neves. Porém, enredado nos quiproquós da vida cotidiana, demorei pra conhecer alguma coisa dele. Então, este ano ganhei de presente seu romance mais recente, o futurista Blues for Mr. Name.

As primeiras páginas da narrativa me incomodaram bastante. Ao ficar sabendo que a protagonista era ianque, se chamava Katherine Whishaw e a trama se passava inteira nos Estados Unidos, confesso que brochei. Minha fase xenófila ficou pra trás há muito tempo, agora estou muito mais interessado em nossas infinitas e problemáticas brasilidades. Encostei o romance por uma semana. Mas algo me chamou de volta e li mais algumas páginas. Ao ficar sabendo que a mitologia cristã sustentava o enredo − que parodia momentos do Ciclo Arturiano, mais especificamente da Demanda do Graal −, tornei a ficar aborrecido e a encostar o livro. Se fosse a mitologia iorubá ou a ianomâmi, o papo seria outro.

Mas algo me chamou de volta mais uma vez. Quando dei por mim, já havia lido metade da obra, sem pressa, num ritmo homeopático. Gostando e desgostando. Desgostando e gostando. A ambientação exclusivamente ianque − sim, há neve e há jazz − continuava me arranhando os nervos, mas o carisma de Kate Whishaw, o enredo mirabolante e a potência da linguagem literária me abraçaram com força. Blues for Mr. Name é uma viciante ficção futurista encharcada de esoterismo cristão. Terminada a leitura, concordei com os amigos: Reinaldo Santos Neves é sem dúvida um de nossos melhores escritores.

A história transcorre num futuro indeterminado − ou numa realidade paralela, se o leitor preferir − em que a civilização descambou de vez para uma grande orgia consumista e a Igreja Católica está quase extinta. Nessa realidade promíscua, a jovem Kate é um dos últimos moicanos católicos e uma agente divina maldita, predestinada a atender ao derradeiro desejo trágico de uma criatura meio fantasmagórica meio alienígena chamada Deus − ou Mister Name.

As marcantes características que definem a protagonista − uma mulher de belíssima beleza feia − são a misantropia (para Kate os humanos tornaram-se os piores seres da Criação) e o estigma da não-amada (qualquer homem que tente possuí-la cai fulminado por uma força invisível). Há homens na narrativa, cumprindo um papel importante, mas esses acabam ofuscados pela importância e pelo carisma das muitas mulheres. Entre elas destaco a perigosa Hope Jessup, “o primeiro ser humano a nascer no espaço, a nascer no céu”, e a ex-prostituta Lily Van Den Poorn, agora uma artista pornográfica, por quem Kate sente um relutante afeto.

Composto por dezenas de minicapítulos de parágrafo único, narrados ora por Kate, ora por outros personagens, ora por um suposto biógrafo-testamenteiro, Blues for Mr. Name, cujo subtítulo-spoiler é Deus está doente e quer morrer, sustenta-se na ironia certeira e na linguagem sinuosa e sofisticada, cheia de surpresas poéticas. Um recurso muito usado pelo romancista − recurso que sempre me agradou, nas poucas vezes que o encontrei por aí − é a repetição intencional de palavras, fazendo do pleonasmo e da anáfora uma insistente marca de estilo.

Exemplos: “tempestade de relâmpago sem trovão e trovão sem relâmpago”, “seu corpo níveo se confundia nu com a nua neve”, “sem nem perguntar se podia sentar-se ou mesmo sentar-se sem nem perguntar se podia”, “amaldiçoada por toda a eterna eternidade”, “irada de ira”, “o que era possivelmente impossível”, “mas nem a Desobediência desobedece nem a Negação nega”, “honra das mais honrosas honrarias”, “um protocolo protocolar”, “no grande e grandioso salão”, “sem o menor dos menores esforços”, “os irmãos de José veneraram José no sonho de José”, “pediu que esclarecesse claramente”, “Kate vê que é impossivelmente impossível intervir”, “ela sente isso na alma de sua própria alma”…

+   +   +

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

O Projeto Dragão

O Projeto Dragão

Rubens Teixeira Scavone
Editora Scipione
94 páginas
Lançado em 1988

Nos anos 80, a ficção científica voltada para o público infanto-juvenil era escassa. No entanto, a editora Scipione, com sua série Diálogo, lançou uma novela de autoria de um dos mais profícuos escritores de FC do Brasil: Rubens Teixeira Scavone. Intitulada O Projeto Dragão, a história é uma adaptação de um conto escrito pelo próprio Scavone para o público adulto, intitulado O diálogo dos mundos.

Cientistas e jornalistas do mundo todo são convocados pelo professor John D. Stanley para uma importante conferência, que será realizada na região dos Grandes Lagos, nos Estados Unidos, onde localiza-se um radiotelescópio: um prato imenso que capta sinais do universo. Ninguém ao certo sabe o teor da grande demonstração que será feita, mas todos atendem ao chamado devido à importância do professor.

Embora esses personagens tenham nomes próprios e profissões relacionadas às diversas especialidades na área de ciências, são apenas secundários. Inclusive, dentre os convidados, o narrador faz questão de destacar um escritor de ficção científica, cuja presença é incompreensível para os demais profissionais.

O artifício que Scavone usa para atrair o público leitor jovem é simples: um dos cientistas convocados é brasileiro e vai acompanhado de seus dois filhos, Ana Paola, de onze anos, e James, de catorze. Embora as crianças não tenham sido convidadas para o evento, vão para a viagem, pois estão passando as férias com o pai.

Durante a estadia, as crianças ficam hospedadas em um alojamento onde se ostentam gravuras de extraterrestres famosos da literatura. Essa é a parte didática da obra: Scavone apresenta aqui uma série de livros e filmes de FC que se tornaram clássicos, aguçando a curiosidade do leitor em conhecer mais do gênero. Outros conceitos astronômicos são trabalhados de forma bastante simples, como o da magnitude das estrelas ou o de ano-luz, facilitando o entendimento do enredo.

O ponto central da obra é o recebimento de sinais da estrela Sigma, da constelação do Dragão. Segundo o professor Stanley, após o que os convidados ouviriam na conferência, estaria inaugurada uma nova era: “a era das comunicações cósmicas!”

O professor Stanley acredita que o que vai comunicar é a coroação de todos os seus sacrifícios, pois em um breve flashback lembra-se de sua infância difícil, de como amava ler livros de ficção científica, de como devorava a biblioteca pública para poder ler tudo de graça. Agora, ele está no apogeu e será para sempre lembrado como um pioneiro: “ele, John D. Stanley, será o primeiro a provar a existência de outros mundos habitados. Mais do que isso, o primeiro a comunicar-se com extraterrestres”.

Nas palavras do próprio professor:

− Meus amigos, este é um grande dia. Nossa missão obteve sucesso. Trata-se de uma notícia inacreditável para a humanidade. − Fez uma breve pausa, correu os olhos pelo recinto e aumentou a intensidade da voz. − Não estamos sós no universo. Das profundidades cósmicas alguém nos envia sinais, certamente alguém inteligente, talvez com inteligência superior à nossa. Uma nova era tem aqui, hoje, seu início. Todos sabem que há bem mais de vinte anos centenas de cientistas procuram obter sinais do espaço. Mas nós, só nós, obtivemos o triunfo. Certa estrela, na constelação do Dragão, revela que tem em sua órbita pelo menos um planeta, sem dúvida a origem dos sinais que estamos recebendo há alguns meses. Mantivemos o acontecimento em segredo, pois queríamos ter absoluta certeza dos fatos. Não poderíamos correr o risco de divulgar inverdades, fantasias, como já aconteceu por mais de uma vez.

A obra tem um final que surpreende, e Scavone escreve no posfácio que o argumento que criou, como veio a saber décadas depois, aconteceu de verdade.

O Projeto Dragão é uma obra de fácil leitura e excelente para introduzir os adolescentes no universo da FC.

+   +   +

Elaine Valeria é educadora e escritora, tendo participado de dois volumes da coletânea Hiperconexões: realidade expandida.