O Projeto Dragão

O Projeto Dragão

Rubens Teixeira Scavone
Editora Scipione
94 páginas
Lançado em 1988

Nos anos 80, a ficção científica voltada para o público infanto-juvenil era escassa. No entanto, a editora Scipione, com sua série Diálogo, lançou uma novela de autoria de um dos mais profícuos escritores de FC do Brasil: Rubens Teixeira Scavone. Intitulada O Projeto Dragão, a história é uma adaptação de um conto escrito pelo próprio Scavone para o público adulto, intitulado O diálogo dos mundos.

Cientistas e jornalistas do mundo todo são convocados pelo professor John D. Stanley para uma importante conferência, que será realizada na região dos Grandes Lagos, nos Estados Unidos, onde localiza-se um radiotelescópio: um prato imenso que capta sinais do universo. Ninguém ao certo sabe o teor da grande demonstração que será feita, mas todos atendem ao chamado devido à importância do professor.

Embora esses personagens tenham nomes próprios e profissões relacionadas às diversas especialidades na área de ciências, são apenas secundários. Inclusive, dentre os convidados, o narrador faz questão de destacar um escritor de ficção científica, cuja presença é incompreensível para os demais profissionais.

O artifício que Scavone usa para atrair o público leitor jovem é simples: um dos cientistas convocados é brasileiro e vai acompanhado de seus dois filhos, Ana Paola, de onze anos, e James, de catorze. Embora as crianças não tenham sido convidadas para o evento, vão para a viagem, pois estão passando as férias com o pai.

Durante a estadia, as crianças ficam hospedadas em um alojamento onde se ostentam gravuras de extraterrestres famosos da literatura. Essa é a parte didática da obra: Scavone apresenta aqui uma série de livros e filmes de FC que se tornaram clássicos, aguçando a curiosidade do leitor em conhecer mais do gênero. Outros conceitos astronômicos são trabalhados de forma bastante simples, como o da magnitude das estrelas ou o de ano-luz, facilitando o entendimento do enredo.

O ponto central da obra é o recebimento de sinais da estrela Sigma, da constelação do Dragão. Segundo o professor Stanley, após o que os convidados ouviriam na conferência, estaria inaugurada uma nova era: “a era das comunicações cósmicas!”

O professor Stanley acredita que o que vai comunicar é a coroação de todos os seus sacrifícios, pois em um breve flashback lembra-se de sua infância difícil, de como amava ler livros de ficção científica, de como devorava a biblioteca pública para poder ler tudo de graça. Agora, ele está no apogeu e será para sempre lembrado como um pioneiro: “ele, John D. Stanley, será o primeiro a provar a existência de outros mundos habitados. Mais do que isso, o primeiro a comunicar-se com extraterrestres”.

Nas palavras do próprio professor:

− Meus amigos, este é um grande dia. Nossa missão obteve sucesso. Trata-se de uma notícia inacreditável para a humanidade. − Fez uma breve pausa, correu os olhos pelo recinto e aumentou a intensidade da voz. − Não estamos sós no universo. Das profundidades cósmicas alguém nos envia sinais, certamente alguém inteligente, talvez com inteligência superior à nossa. Uma nova era tem aqui, hoje, seu início. Todos sabem que há bem mais de vinte anos centenas de cientistas procuram obter sinais do espaço. Mas nós, só nós, obtivemos o triunfo. Certa estrela, na constelação do Dragão, revela que tem em sua órbita pelo menos um planeta, sem dúvida a origem dos sinais que estamos recebendo há alguns meses. Mantivemos o acontecimento em segredo, pois queríamos ter absoluta certeza dos fatos. Não poderíamos correr o risco de divulgar inverdades, fantasias, como já aconteceu por mais de uma vez.

A obra tem um final que surpreende, e Scavone escreve no posfácio que o argumento que criou, como veio a saber décadas depois, aconteceu de verdade.

O Projeto Dragão é uma obra de fácil leitura e excelente para introduzir os adolescentes no universo da FC.

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Elaine Valeria é educadora e escritora, tendo participado de dois volumes da coletânea Hiperconexões: realidade expandida.

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A telepatia são os outros

A telepatia são os outros

Ana Rüsche
Monomito Editorial
120 páginas
Lançado em 2019

A ficção científica é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro, é verdade, mas também é verdade que essa não é a sua principal função. Sua principal função é puramente estética, ou seja, a mesma de qualquer outra criação literária e artística. Apesar disso, ó meus irmãos, verificar nas obras-primas da FC seus acertos futurológicos não é realmente um passatempo superdivertido? E, se prestarmos bastante atenção, não há uma só tecnologia moderna − da bomba atômica à world wide web, da engenharia genética à inteligência artificial − que não tenha sido prevista pela FC.

De tudo o que as obras de ficção científica previram, mas ainda não se realizaram − por ofender as leis da física (viagem no tempo e teletransporte) ou por falta de oportunidade (civilização alienígena e colonização de Marte) −, atualmente me interessam sobremaneira o upload mental e a telepatia. Das duas tecnologias, o upload mental foi a que mais atenção recebeu dos autores talentosos, nesses duzentos anos de FC moderna. Menos comum, a comunicação direta e à distância entre duas ou mais mentes, batizada pelo consenso de telepatia, surgiu primeiro em contos obscuros dos anos 50 − segundo o saite Technovelgy − e depois esporadicamente na obra de Philip K. Dick e em alguns mangás cyberpunks, tipo Ghost in the shell. Mas nunca na condição de protagonista. E esse foi o primeiro grande acerto do romance breve de Ana Rüsche: trazer a telepatia para o centro do palco brasuca.

O segundo grande acerto foi desvincular a origem da telepatia de qualquer avançada tecnologia eletrônica. No romance, a telepatia é uma tecnologia orgânica, de origem vegetal. É um fermentado ancestral de sabor forte e enjoativo, que as camponesas do Chile preparam secretamente há séculos. Essa escolha literária intensificou na trama a mitologia dos povos ameríndios, reivindicando pra si parte do protagonismo do conceito de brain-net, esse mais novo clichê da FC anglófona. Não é por acaso que o conflito que impulsiona a narrativa − e pega de surpresa a brasileira Irene − acontece justamente no mitológico Chile, primeiro numa esotérica comunidade rural, depois na frenética e cosmopolita Santiago.

A tecnologia eletrônica entra na segunda etapa da história, quando Irene e os novos amigos já estão treinados na arte da telepatia, mas em pequena escala. O objetivo agora é expandir a capacidade humana de comunicação mental, transformando-a, com a ajuda da internet, numa atividade planetária. Nem todos são a favor dessa disseminação global. Porém um empresário ianque roubou a fórmula do fermentado, tempos atrás, a fim de patenteá-la, tornando inevitável a corrida pela conexão mente-bebida-internet.

Visto que a ficção científica ainda é um território predominantemente masculino − e machista −, também gostei de encontrar, nessa narrativa escrita por uma mulher, personagens femininas fortes e carismáticas. Os três personagens masculinos, por outro lado, são um ladrão ianque, um amigo vingativo e um amigo boa-praça mas impotente (não no sentido sexual, mas de alguém que não consegue se conectar telepaticamente). Aliás, neste livro breve, tão importante quanto o enredo (substantivo masculino) é a linguagem (substantivo feminino) que expande a subjetividade-fêmea do texto e da telepatia. Recursos da melhor prosa modernista, emprestados da poesia primeiramente pelos grandes ficcionistas do século 20, fortalecem a narrativa, criando uma atmosfera onírica, às vezes fantasmagórica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

 

Matando gigantes

Matando gigantes

Claudia Dugim
Patuá Editora
336 páginas
Lançado em 2019

Num estudo publicado em 2005, sobre o personagem do romance brasileiro contemporâneo, pesquisadores da UnB demostraram estatisticamente que no romance brasileiro do período analisado − entre 1990 e 2004 − os personagens são, em sua maioria, do sexo masculino, brancos, heterossexuais, de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade. De lá pra cá a situação melhorou um pouco, mas ainda é visível o desequilíbrio, a falta de diversidade social em nossa literatura contemporânea. Esse fenômeno reflete perfeitamente a histórica crise de representatividade na própria sociedade brasileira. Nossas elites patriarcais sempre reprimiram e silenciaram a multiplicidade de vozes das minorias e dos marginalizados.

A principal qualidade do romance Matando gigantes, de Claudia Dugim, é a diversidade social e cultural. Nessa narrativa ambientada no ano 2127, numa astronave que acaba de alcançar seu destino, o homem branco hetero de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade, também aparece, mas agora ele não é hegemônico. A romancista obrigou-o a dividir o palco não somente com indivíduos de outros gêneros e etnias, mas também com minúsculos humanoides com antenas, de pele azul-marinho ou verde-água, muito carismáticos e vingativos.

Há oitenta e cinco anos no espaço, o cruzador Frontier é a única nave que sobrou de um grupo de quatro astronaves colonizadoras. Em seu interior, trezentas e cinqüenta mil pessoas se acotovelam, reproduzindo as mesmas injustiças sociais e a mesma perversa luta de classes do planeta de origem, a Terra. Quando o Frontier finalmente alcança seu destino, Terra 2, os ânimos desse pessoal já estão bastante acirrados. Nesse momento tem início uma série de assassinatos estranhíssimos, que acaba jogando os cidadãos de segunda classe − latinos, índios, negros, amarelos, mulheres, comunidade LGBTQ+ etc. −, oprimidos desde sempre, contra a elite branquela que comanda a nave também desde sempre.

Os assassinatos são cometidos pelos minúsculos humanoides com antenas − autodenominados de povo das Estrelas Caminhantes −, em retaliação a um genocídio provocado involuntariamente pelos gigantes − os seres humanos − tempos atrás. Ignorantes desse fato, os cidadãos oprimidos se revoltam, pois acreditam que as mortes foram provocadas secretamente pela elite branquela, que estaria planejando uma manobra política às vésperas do desembarque. Formam-se então três núcleos antagônicos: o dos rebeldes haitianos, comandados por Mama Bá e Alfonsine, o dos privilegiados conselheiros da nave, defendido por Martina e Juan, e o dos pequeninos que vivem numa tubulação, comandados por Cherv, Uor e Gus.

Claudia Dugim planejou esse romance para o leitor jovem adulto, entre catorze e vinte e um anos. Mas é verdade que os bons livros escritos pra esse público costumam encantar também o público adulto. (Aliás, até mesmo a boa literatura infanto-juvenil beneficia-se desse fenômeno. “Uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”, dizia C.S. Lewis.). Em Matando gigantes, a liberdade e a fraternidade anarquistas − macunaímicas − do povo das Estrelas Caminhantes desativaram meu racionalismo, camada após camada, e me afetaram emocionalmente. Voltei a ser um jovem adulto. Voltei a sentir um pouco daquele prazer antigo, do meu primeiro contato com a literatura fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

A narrativa começa tímida, mas aos poucos vai conquistando o leitor, que se encanta com o universo apresentado. Mais do que um simples cenário, o mar é o grande protagonista do primeiro romance de Aline Valek. A autora desvenda alguns de seus mistérios, apresenta seres que o habitam e prevê sua expansão com o derretimento das calotas polares, o que obrigará o sapiens a se adaptar para, quem sabe, se tornar no futuro um novo ser marinho. O livro trata também das relações do ser humano: consigo mesmo, com os outros e com o mar.

O oceano carrega muita informação e história, inclusive para se estudar o espaço sideral. A pista para isso foi terem encontrado em uma pedra, retirada do mar, uma substância que não se forma na Terra, mas é originada na explosão de estrelas: o isótopo ferro-60, com meia-vida estimada em dois milhões e seiscentos mil anos.

No romance, cinco profissionais estão isolados em uma estação submarina, a trezentos metros de profundidade, com a missão de realizar pesquisas e testar avançados trajes de mergulho em uma região de vulcões extintos. O enredo mostra os conflitos dessas pessoas confinadas em um espaço de cinco metros de largura por doze de comprimento, cada uma com seus desejos, crenças e segredos.

Corina e Arraia são mergulhadores e exploram abismos oceânicos; Suzana, engenheira naval, administra a estação; Martin, um acadêmico, estuda o som das baleias e supõe que narrem histórias, acredita em vida inteligente no fundo do mar e secretamente quer provar sua tese, no que é apoiado pelo seu assistente, Maurício. O pesquisador registra os sons vindos das profundezas e atribuí a cada um deles uma forma, uma vida, algo que baleias e golfinhos já nascem sabendo fazer.

Ao ouvir um dos sons registrado pelo pesquisador, Corina fica intrigada. Lembra uma conversa, ou uma canção, ou talvez um violino, se o instrumento tivesse vinte cordas e pudesse ser tocado embaixo da água, interagindo com o borbulhar e as correntes marítimas. Parece vir de um lugar muito anterior a qualquer outra canção, ou mesmo de outro planeta. “O doutor sabia de algo, as baleias sabiam mais que ele, e Corina, que preferia não saber de nada, acabou enxergando.”

Muitos animais marinhos são apresentados no decorrer da trama, entre eles as eremitas, que se isolam nas profundezas, alimentam-se de bactérias e podem viver de dois a três séculos, graças à capacidade de regeneração. Elas conseguem reverter o processo de envelhecimento por meio de um mecanismo biológico, que outras criaturas também possuem, entre elas as águas-vivas, que podem viver indefinidamente, a menos que sejam feridas ou devoradas.

Há também os azúlis, seres conscientes, “que refletiam muito antes de chegar a uma conclusão”. Precisavam de calor e enxofre para viver, por isso habitavam lugares próximos a vulcões submarinos. Eles compreendiam os sons das outras espécies como idiomas próprios, e se tornaram poliglotas. “Frio e solidão, para os azúlis, representavam a morte.” No auge da sua civilização, assistiram ao próprio declínio, foram se concentrando e deixaram de saber de outros da sua espécie. E então começaram a matar uns aos outros ou a cometer suicídio.

Para a autora, tanto animais quanto seres humanos precisam uns dos outros para viver, mas estabelecer vínculos não é fácil. A tripulação da estação submarina, embora tão próxima fisicamente, não consegue estabelecer uma relação de confiança.

Quando Corina conta que tem uma doença degenerativa, não encontra solidariedade nem em seu colega Arraia. Pelo contrário, a relação fica estremecida, o que fica claro nesse trecho: “Depois de mais um dia de expedição às profundezas sem nenhum problema, Corina e Arraia fizeram os relatórios e sua refeição no mesmo horário, mas sozinhos, cada um em seu canto, envoltos por uma espessa armadura que não era o traje que usavam para trabalhar, mas o silêncio que escolheram vestir para conviver.”

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Sonia Nabarrete é jornalista e ficcionista, autora de Eretos e Contos safadinhos.

Mestre das Marés

Mestre das Marés

Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
288 páginas
Lançado em 2018

Meu primeiro contato imediato de altíssimo grau com a ficção científica foi agenciado, ainda na infância, pela televisão (em preto e branco): Viagem ao fundo do mar, Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Terra de gigantes… A ficção científica literária surgiu em meu radar somente na puberdade, anos depois das viciantes séries ianques. O início da leitura de contos e romances foi estimulado, nessa época, principalmente pelo cinema: Guerra nas estrelas, Contatos imediatos do terceiro grau, Galáctica: astronave de combate, Alien: o oitavo passageiro, Jornada nas estrelas: o filme

Quem acompanha de perto os dois modos de expressão, logo percebe que a diferença entre a FC audiovisual e a FC literária não é apenas estrutural (texto impresso numa página, de um lado − imagens em movimento e sonoplastia, do outro). Há uma perceptível diferença de inteligência narrativa. Estatisticamente, as séries e os filmes tendem a ser mais sensuais e pirotécnicos (atores bonitos, música vibrante, lutas coreografadas, explosões) e menos conceituais e abstratos (aprofundadas noções científicas, sutilezas filosóficas, inteligência tática, pragmatismo) do que os contos e os romances.

Nas space operas audiovisuais, por exemplo, nada me aborrece mais do que as batalhas no espaço. Quando duas frotas antagônicas se encontram, não há qualquer planejamento, não há a mínima estratégia. Os artilheiros e os pilotos parecem malucos chapados. Os caças voam bestamente atirando pra todos os lados. Em solo a situação não é melhor: as tropas parecem mais um bando de bárbaros desnorteados, gritando e disparando a torto e a direito.

Um dos elementos mais elaborados oferecidos pelo romance Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo, é justamente o que falta nas minisséries e nos filmes de ficção científica militar: estratégia. Partindo do pressuposto de que uma guerra interplanetária é um empreendimento caríssimo, que consome recursos impensáveis de uma civilização, cada passo precisa ser analisado exaustivamente. Como numa complexa e demorada partida de xadrez.

Estamos no século 25 e nossas humanas − demasiado humanas − disputas político-econômicas espalharam-se pela galáxia. Além da natural competição com as civilizações alienígenas, seis blocos humanos competem entre si pela soberania: Latinoamérica, Euro-Rússia, Ásia Centro-Oceânica, Aliança Transatlântico-Pacífico, Ecumênia Árabe e Federação Africana.

A nova missão do capitão Jonas Peregrino e de seu grupo armado − os Jaguares − é resgatar uma equipe de cientistas refugiados num planeta atingido pela potência devastadora de um buraco negro próximo. Mas os cientistas encontraram nos subterrâneos do planeta − cenário similar ao inferno do célebre épico de Dante Alighieri − um misterioso artefato tadai, capaz de anular as ondas de choque sísmicas e cinéticas, e de interagir com o buraco negro num nível quântico. A missão de resgate envolve também capturar essa tecnologia avançada.

Os tadais são uma raça beligerante cujo principal propósito parece ser o extermínio da humanidade e das outras raças tecnológicas. As máquinas de combate tadais são tudo o que os humanos e seus aliados conhecem dessa civilização oculta, avessa ao diálogo. Faltando pouco tempo pra destruição total do planeta pelo buraco negro, enquanto Peregrino e seu grupo combatem os robôs nos subterrâneos, as naves jaguares rechaçam as forças inimigas na órbita elevada.

Entre os antagonistas de Peregrino há ainda uma jornalista determinada a escrever um perfil depreciativo do capitão e seus Jaguares. A voz narrativa passa estrategicamente da terceira pessoa para a primeira, sempre que as inquietações da jornalista entram em cena.

Os acontecimentos narrados em Mestre das Marés ocorrem logo depois dos eventos apresentados no romance Glória sombria, lançado em 2013 (leia a resenha). Nos dois romances, a estratégia militar − entrecruzada com a estratégia moral, política e econômica − é o ponto alto. As operações são planejadas com cuidado e a argúcia administra cada lance no tabuleiro da batalha. Pra nossa sorte, a space opera militar de Roberto de Sousa Causo relaciona-se fortemente com os games-de-estratégia de ação futurista, vertente do audiovisual bem mais inteligente do que as séries e os filmes.

Outra estratégia bem conduzida fortalece Glória Sombria e Mestre das Marés: a estratégia científica e tecnológica. Mesmo quando apresentadas na forma de recorrentes info-dumps, a ciência e a tecnologia que impulsionam as naves através do espaço, ampliam os sistemas de comunicação, movimentam as armaduras de combate e refinam os implantes biocibernéticos − entre dezenas de outros equipamentos − são fascinantes, dá gosto fechar os olhos e ficar imaginando.

Também dá gosto ler uma space opera em que a maioria dos personagens é parda, negra ou índia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Back in the USSR

Back in the USSR

Fábio Fernandes
Patuá Editora
224 páginas
Lançado em 2019

O sofisticado Método Frankenstein de Ressurreição®, desenvolvido pelo doutor Victor Frankenstein na Suíça, em 1794, e patenteado dez anos depois pela empresa alemã Ewigkeit, ou simplesmente a Empresa, mudou completamente o rumo da História de nossa civilização. Agora é possível ressuscitar qualquer falecido nas primeiras horas após sua morte, ou seja, antes do início da degeneração celular, preferencialmente antes do rigor mortis.

Utilizado em larga escala, o Método® beneficia praticamente todas as classes sociais. Reis, príncipes, magnatas, pop stars e também gente comum são ressuscitados cotidianamente. Só não é trazido de volta à vida as pessoas que, por razões filosóficas ou religiosas, assinam previamente um termo proibindo a ressurreição. John Lennon é uma dessas pessoas. A ressurreição nunca lhe interessou. Depois que o maluco do Mark Chapman o assassinou com cinco tiros a curta distância, em frente ao edifício Dakota, o esperado era que Lennon permanecesse pra sempre mortinho da silva. Mas Lennon ressuscitou. Ou pior, foi ressuscitado contra a sua vontade.

Nas orelhas do livro, o escritor Santiago Santos resume muito bem o contexto delirante desse thriller surrealista de Fábio Fernandes:

Aqui, os Estados Unidos não se tornaram uma grande potência depois da Segunda Guerra Mundial. Porque ela não aconteceu, e o país se dividiu em três. Como resultado, a Rússia, parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde os Bea­tles fizeram o seu melhor show nos anos 60, protagoniza a Guerra Fria com outra potência: a República de Weimar, formada por Alemanha, Áustria e Luxemburgo.

Não é só isso que causa bastante estranheza.

Há uma base secreta que estuda a vida alienígena, chamada Área 71, na Islândia. A Semana de Arte Moderna no Brasil aconteceu em 1925 e viu surgir o Manifesto necrofágico. Lee Harvey Oswald assassinou o presidente Truman. Ringo nunca tocou bateria nos Beatles. Cortázar escreveu O jogo de xadrez, Wells escreveu A ilha do dr. Favreau, Beckett escreveu Esperando Fausto e Bioy Casares escreveu A invenção de Frankenstein. Este último não por acaso, pois o cientista Victor Frankenstein realmente existiu.

O romance que Mary Shelley publicou é na verdade a biografia do homem mais importante da história moderna.

O famoso experimento que cria o monstro de retalhos humanos e energia elétrica é aperfeiçoado pela Ewigkeit, empresa alemã que patenteia em 1815 a Ressurreição®, ou o Método Frankenstein®. Um século mais tarde, durante a Grande Guerra, o método se populariza de vez e altera as ramificações históricas.

As pessoas podem voltar à vida. Não é à toa que Marx dedica um capítulo à empresa em seu O capital, ou que Baudrillard e Foucault se dediquem aos desdobramentos filosóficos dessa nova ciência, ou que Hitler nunca passe de um soldado raso.

Fato é que após o assassinato Lennon está vivo. E envolvido num intrincado jogo de espionagem industrial nesse mundo eletrificado de Fábio Fernandes, autor que há décadas vem estabelecendo quebra-cabeças literários irreverentes e cativantes, cravejados de referências ao universo pop.

Fábio Fernandes é um dos autores mais importantes da ficção científica brasileira e, em minha opinião, Back in the USSR é a sua narrativa mais instigante. Porque extrapola os limites do gênero, incorporando a malandragem, a metalinguagem, a antropofagia e o tropicalismo de nossas melhores vanguardas.

Nesse romance de humor insólito, muitos arquétipos antropológicos, históricos e científicos convergem vigorosamente, expressando um painel tragicômico de nossa milenar busca pela imortalidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Piscina Livre & Amorquia

piscinalivre-amorquia

Piscina Livre
André Carneiro

Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Amorquia
André Carneiro

Editora Aleph
200 páginas
Lançado em 1991

Da mesma maneira que só é possível dissertar sobre a felicidade quando não estamos embriagados de felicidade, só é possível dissertar sobre a utopia quando não estamos embriagados de utopia.

A felicidade é um fluxo fugaz. Quem está feliz não tem consciência de que está feliz, pois a consciência de algo exige racionalização. E a felicidade − tanto quanto o orgasmo − é pura sensação, uma experiência avessa a qualquer tipo de racionalização. Que só será possível mais tarde, quando o breve orgasmo da felicidade já começar a se dissipar.

A utopia erótica pensada por André Carneiro, apresentada em vários contos mas detalhada principalmente nos romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991), produz uma desconforto fascinante em nós que nunca tivemos a oportunidade de viver numa utopia. O desconforto de saber que a felicidade social e individual só será possível numa sociedade sem liberdade.

A utopia erótica pensada por André Carneiro só se mantém no prumo porque dispõe de eficientes mecanismos de controle social, aperfeiçoados com a ajuda de uma entidade todo-poderosa chamada Computador Central, substituta tecnológica do nosso enigmático Deus, mas igualmente enigmática.

Em Piscina livre e Amorquia temos uma sociedade hedonista que vive intensamente sua sexualidade exuberante, sem qualquer restrição moral ou religiosa. Boa parte da alta tecnologia foi desenvolvida pra atender os protocolos do poliamor e do pansexualismo. Os tabus sexuais de nossa sociedade foram abolidos, são coisa do passado, de gente infeliz e ignorante.

Não há qualquer impedimento afetivo ou jurídico: todos fazem amor com todos, porque aprenderam muito cedo que o desejo só não degenera quando é totalmente livre. Essa é a suprema felicidade social: o fim do casamento e da tradição monogâmica.

Crianças e adolescentes aprendem na escola as técnicas mais sutis do amor físico. A arte e a religião louvam a beleza estética e esotérica da cópula. Em Piscina livre, para o uso exclusivo principalmente das mulheres foram criados os atenciosos androides sexuais, que dominam todas as técnicas da sedução e do prazer. Em Amorquia, a morte é um fenômeno quase desconhecido, a pessoas vivem indefinidamente − apenas para os jogos sexuais.

É bom lembrar que não estamos falando de romances eróticos ou pornográficos, porque não há nada de libertino ou lascivo nessas narrativas futuristas. Onde não há interdição jamais haverá devassidão. A luxúria muito bem administrada dos personagens não ultrapassa os limites do mundo ficcional. São romances filosóficos, que propõem uma reflexão refinada e objetiva, livre de (nossos) preconceitos.

André Carneiro propõe que a humanidade só encontrará a sanidade física e mental quando deixar de combater o mais potente de todos os impulsos biológicos. Porém o autor introduz em sua fórmula da felicidade um elemento inaceitável pra qualquer defensor da democracia liberal e das liberdades civis: o Computador Central, uma entidade paternalista, onisciente e onipresente, que administra cada detalhe da utopia.

Qual sociedade é a melhor: a utopia erótica, caracterizada pelo bem-estar social e individual numa sociedade sem liberdade, ou a nossa, caracterizada pelo mal-estar social e individual numa sociedade com algumas liberdades? Essa é a grande questão apresentada pelos dois romances. Questão complexa, que os apressadinhos tratam de responder apressadamente, sem muita reflexão.

Os apressadinhos rapidamente consideram uma sociedade pautada pela felicidade-sem-liberdade uma distopia. Ou, na melhor das hipóteses, uma utopia triste. É o que dizem há décadas, por exemplo, da sociedade de castas bem-adaptadas e felizes apresentada no romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Nossa sociedade fracassou e continua fracassando ao lidar com nossos apetites e nossos demônios íntimos. Basta ver a quantidade absurda de psicopatas e sociopatas, tribunais e prisões, massacres locais e guerras mundiais. Mesmo assim, os apressadinhos rapidamente condenam, nas utopias futuras, a liberdade sexual e o uso de drogas perfeitas − soma (Admirável mundo novo) e mep-14 (Piscina livre) − que anulam a tristeza e a depressão, sem qualquer efeito colateral.

Pois saibam que se pudesse escolher, eu preferiria mil vezes ser um ípsilon bem adaptado e feliz, vivendo entre ípsilons bem adaptados e felizes, num Estado Mundial futuro, do que continuar sendo um (escritor) brasileiro mal adaptado e infeliz, vivendo entre (escritores) brasileiros mal adaptados e infelizes, com algumas poucas liberdades civis. Toda a corja política que vem nos (des)governando desde as capitanias hereditárias não vale dez por cento do Computador Central.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.