As águas-vivas não sabem de si

As águas-vivas não sabem de si

Aline Valek
Editora Rocco
296 páginas
Lançado em 2016

Aline Valek fez uma aposta ousada em sua estreia como romancista. As águas-vivas não sabem de si é uma obra de ficção científica com o apuro da chamada alta literatura.

Corina é uma mergulhadora experiente, contratada por uma empresa para testar trajes no mar profundo. Na estação Auris, ela se junta a uma equipe formada por outro mergulhador e pesquisadores. Durante o confinamento, Corina desconfia que há uma missão maior em curso. Ao mesmo tempo, ela também tem algo a esconder.

Logo nas primeiras páginas é inevitável lembrar de filmes como O segredo do abismo e Esfera: os mistérios do oceano ampliados por uma assustadora presença além da compreensão humana. O fundo do mar é um universo em si, ainda bastante inexplorado. Causa tanto fascínio quanto o espaço sideral. Muitas vezes, sua fauna e flora são vistas como coisas de outro mundo.

A ideia do romance não é original, mas Aline Valek quer seduzir o leitor pela maneira de contar a história. Sua intenção é bem-sucedida, em parte. Ao escrever o livro, ela tinha nas mãos um cenário com muito potencial para criar uma ficção cativante. Aproveitando a escuridão e a luminescência, essa atmosfera seria perfeita para elaborar uma leitura imersiva, em que cada linha, cada parágrafo, transmitisse a beleza e o perigo daquele lugar.

Essa tensão deveria ser predominante. Porém, os conflitos pessoais e com o ambiente perdem força em certos trechos. Páginas e páginas são preenchidas com digressões dos personagens, estendendo-se além do necessário. Outro recurso que quebra o ritmo da leitura é dar a alguns animais a condução da narrativa, mostrar o ponto de vista deles, suas observações da ação humana.

Ao longo do romance, há uma oscilação entre um texto maduro e outro, descuidado. Os melhores momentos são quando a interação dos personagens funciona, os pensamentos de cada um têm algo relevante a manifestar e o desenvolvimento da trama convence. A prosa, quando está afiada, cada frase tão bem construída, soa como poesia. Geralmente, a pesquisa da autora passa verossimilhança da rotina dos personagens, mergulhadores e cientistas.

Pelo fato do cenário ser muito recortado − a estação Auris e o entorno dela − e do pequeno número de personagens, as possibilidades de enredo são reduzidas. Um texto mais curto poderia reunir apenas o que houvesse de melhor no romance.

A editora Rocco caprichou na edição física. É um dos livros mais bonitos lançados em 2016. Capa e miolo excelentes.

Ao final da leitura, fica a certeza de que As águas-vivas não sabem de si é um livro corajoso e pioneiro. É um romance que traz algo novo à ficção científica nacional e, ao mesmo tempo, procura se comunicar com um contexto literário mais amplo. A autora já revelou que é leitora tanto de FC (Margaret Atwood, Octavia E. Butler, Emilia Freitas e outros) quanto de literatura mainstream.

Podemos considerar As águas-vivas não sabem de si como uma tentativa de ponte entre o fandom e o leitor em geral. O romance é uma ótima porta de entrada para quem deseja se aventurar no fascinante e pouco explorado universo da ficção científica brasileira.

Ricardo Santos é escritor e organizador da coletânea Estranha Bahia.

[ Resenha publicada originalmente no blogue RicardoEscreve ]

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Piritas siderais

Piritas siderais

Guilherme Kujawski
Francisco Alves
136 páginas
Lançado em 1994

Ficção científica e humor raramente se encontram na literatura brasileira. Não existe em nossa FC um equivalente ao revolucionário Macunaíma, de Mario de Andrade, ou aos irreverentes O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho. O romance de ficção científica que mais se assemelha a esses, na verve e na qualidade poética, é certamente o ciberbarroco Piritas siderais, livro de estreia de Guilherme Kujawski.

O ringue da discórdia, em que escritores e leitores se estapeiam sem piedade, ainda é a linguagem literária. A grande maioria prefere narrativas de enredo complexo e linguagem simples (fluente, clara, objetiva). Então, quando surge uma obra de enredo simples e linguagem complexa (ambígua, obscura, subjetiva), essa inversão de golpes encanta uns poucos e enfurece a grande maioria, aquecendo o combate.

É o perene pugilato entre o registro popular e o erudito, em que perde feio quem sempre escolhe apenas um dos lados. Nesse banquete, sinal de inteligência é ficar com os dois menus, apreciar tanto as iguarias populares quanto as eruditas, que devem ser julgadas por conjuntos diferentes de critérios. (Sobre a questão dos critérios valorativos, recomendo o artigo Duas elites, publicado no jornal Rascunho).

A trama de Piritas siderais ocorre num ponto qualquer do século 21, numa Terra de Vera Cruz marcada pelo politeísmo africano. Esse detalhe singular explica porque as metrópoles têm por patrono determinado orixá. A história transcorre mais especificamente em São Paulo de Orunmilá, com uma breve incursão a Campinas de Logun Edé. Os protagonistas café-com-leite são um negro de ascendência banta, Zé Seixas, e um branquelo de ascendência armênia, Terêncio Vale, cujo nome homenageia o canastrão Terence Hill, dos faroestes italianos da Sessão da Tarde.

Os antagonistas são uma deliciosa mestiça metade txucarramãe metade sudanesa chamada Maria Gonçalves, por sinal uma ialorixá extremamente sedutora, e um misterioso astronauta ianque, morto na explosão do ônibus espacial Challenger (ops, spoiler), chamado Berzelius Baldwin, um tipo esquisitíssimo − tão retinto quanto Zé Seixas − fissurado em ouro. O casal envolve a dupla desastrada de heróis num plano mirabolante pra trazer de volta à Terra um orixá escondido num planetinha feito do precioso metal, do sistema de Alpha Centauri.

Sustentando essa comédia de erros e acertos de humor bizarro, o leitor encontra três procedimentos discursivos, um mais excêntrico que o outro. O primeiro procedimento é a própria narração em prosa labiríntica, rica em filigranas, típica das poéticas extravagantes (barroco, romantismo, surrealismo etc.). Quem narra é “um espírito estafeta de Tobias Barreto”, um fantasma preso num banco de dados (ops, outro spoiler), que usa e abusa de metáforas e trocadilhos.

O segundo procedimento são as hipergazetas: blocos de frases absurdas, linques sem linques, nonsenses políticos e sociais que funcionam como oráculos, transmitidos por hackers e semelhantes, na luta contra o sistema oficial. Um dos passatempos prediletos de Zé Seixas é decifrar as hipergazetas: Timothy Leary e Graham Bell abrem plano de expansão da consciência, Tzar atira ersatz de quartzo na perestroika, Dodecafonia é a cacofonia da sinfonia desprovida de audiometria, Seteiras de castelo de areia desmoronam com temporal de clepsidra

O terceiro procedimento é o linguajar esdrúxulo de Berzelius Baldwin, “um portunhol com sotaque de benim-luanda, grego linear-B, dravídico e indo-europeu”. Poderia reproduzir uns trechos, mas já estourei o limite de quinhentas palavras, então prefiro preservar a surpresa, caso estejam pensando em ler o romance.

A experimentação narrativa de Piritas siderais ampliou o território da ficção científica brasileira. Seu fluxo promove curtos-circuitos principalmente na sensibilidade do leitor pouco acostumado com a transgressão das vanguardas literárias. Considerando apenas o viés formal, é fácil ver que no breve romance de Guilherme Kujawski corre o mesmo sangue azul das Galáxias, de Haroldo de Campos, e do Catatau, de Paulo Leminski.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Mnemomáquina

mnemomaquina

Ronaldo Bressane
Selo Demônio Negro
340 páginas
Lançado em 2014

Mnemomáquina abre com uma palavra que pode sintetizar a reação do leitor ao navegar pelas narrativas desse romance-mosaico, tentando organizá-lo numa estrutura coerente: “Fodeu”. É a fala de um entrevistado ao alter-ego do autor, o jornalista e escritor Ronaldo Bressane. Na sequência somos mergulhados em uma São Paulo futurista tomada pelas águas no ano 2054: “Você veio entrevistar um ex-Big Brother e agora vai ter que ouvir tudo. Estou praticamente me transformando em um peixe abissal! Bem, tudo começou quando eu caí no Buraco Quente… Olha. Calma. Eu explico. Marluce, a água está subindo! O Plano B! Essa chuva do inferno… vem cá, você não deveria estar lá embaixo, cobrindo as enchentes pra tua emissora?”

O alter-ego reaparece em alguns dos outros quarenta e cinco capítulos do livro, junto de uma pletora de personagens tão irreverentes e múltiplos como a cidade que os abriga, onde trocas de identidade, implantes robóticos, órgãos artificiais, mutação genética, animais falantes e premonição são lugar-comum.

A Divisão dos Não-Lineares, um grupo de espiões (entre outras finalidades nebulosas), que tem em sua linha de frente os reanimados Philip K. Dick e J. D. Salinger, puxa o enredo. A Divisão é abastecida pelas leituras que o agente Fabrizio Fabrizzianni faz do sol refletido na pele do tubarão-tigre hermafrodita e telepata Hannah durante os crepúsculos, dentro de um grande aquário no topo do edifício Copan. Zed Stein, um agente desmemoriado, tenta relembrar qual é afinal a sua missão. Baby Gasoline (na verdade sua sexta identidade, comprada no Neverland Institute, símbolo corporativo contra o qual se coloca o subversivo Butthole Kongo, que planeja uma invasão à Cidade-Olho) se envolve com Zed e o auxilia. Adavilsom, designer da TXT e criador do FutCuca, em que os Coisos, humanos desprivilegiados que vivem além das fronteiras da Cidade-Olho, controlam os jogadores durante as partidas de futebol, tenta não ser despedido. Luk e Iza, irmãos que vivem numa palafita no pântano, vão à procura do amigo imaginário Sandiliche.

É em meio a esse caos que Bressane se revela um artesão hábil, guiando o leitor com segurança por um terreno esburacado, destilando devaneios estilísticos impressionantes. Além da fluência entre as muitas formas de narrar, com uma oralidade sempre marcada e convincente (ler o livro em voz alta é um barato), há trechos em portunhol e até inglês; há uma riqueza de referências pop; há as contrações de quem se articula com as migalhas de linguagem onde tudo foi pras caralhas; e há trechos convencionais igualmente bem executados, como na viagem que Adavilsom faz à família fora da Cidade-Olho, no capítulo Morumbigo, onde você é mais você.

O preço a se pagar numa narrativa tão fragmentada, experimental e com tamanha amplitude de vozes é a confusão, contornada pelo leitor mais maduro ou persistente. É para esse leitor, claramente, que Bressane escreve. O que não é demérito; narrativas lineares e com linguagem mais acessível existem aos montes. Para o leitor que chega ao fim do Mnemomáquina, há a recompensa, para além do próprio percurso (em si um jogo literário rico): as narrativas entrecruzadas revelam um esqueleto que não é tão fragmentado quanto se imaginava.

O selo Demônio Negro caprichou na produção do livro. A capa de um vermelho chapado, com fonte sóbria, traz no centro um pequeno tubarão que parece feito em estêncil. É um modelo dos desenhos que surgem na abertura de cada capítulo, feitos pela artista Eva Uviedo, um charme à parte. O tamanho, a parrudez e a própria mancha de leitura lembram bastante as obras da Alfaguara. Infelizmente, não são apenas elogios: o livro carece de maior apuro na revisão para acertar errinhos gramaticais, alterações de tempo narrativo e uma ou outra lombada (Adavilsom grafado Adavilson, por exemplo). Mesmo assim, nada tão recorrente que prejudique a leitura.

Santiago Santos é escritor, tradutor e publica drops no flashfiction.com.br

Será

Será

Ivan Hegenberg
Editora Ragnarok
240 páginas
Lançado em 2007

O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.

O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.

Dezenas de personagens, posicionados pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, os romances A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.

Todos os fatos aqui revelados se passam no século 23. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e temporal (os indivísduos podem viajar artificialmente pra qualquer lugar ou época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macro e do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).

Nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Porém, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século 20. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, as ideologias de direita e esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.

O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança pra esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura por esse contato último reunirá e separará muitas das dezenas de personagens do romance. Eles precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fábulas do tempo e da eternidade

Fábulas do tempo e da eternidade

Cristina Lasaitis
Editora Dandelion
176 páginas
Lançado em 2008 pela Tarja Editorial

A literatura brasileira de fantasia e ficção científica tem mostrado uma vitalidade que lhe faltava desde o fim dos anos 60, quando se esgotou a novidade da chamada Primeira Onda. Houve novos autores e obras dignas de menção nas últimas três décadas do século que passou, mas a chamada Segunda Onda, em comparação à anterior, mais pareceu uma marola, menos por falta de talento e empenho dos autores do que pelas condições desfavoráveis.

Desde o início do milênio, novos escritores e novas obras têm surgido em um ritmo que, mais que firme, parece crescer em quantidade e qualidade, superando décadas de lamentos e frustrações. O gênero consegue novamente ser publicado fora de fanzines dirigidos a círculos estreitos e rígidos. Com mais retorno de leitores e editoras e mais diálogo a estimular a produção e o desenvolvimento técnico dos autores, a ficção especulativa brasileira está deixando de ser uma seita para voltar a ser um gênero capaz de interessar leitores com algum gosto, iniciados ou não. Muita coisa continua e continuará medíocre, como em qualquer ramo da literatura e da arte. Mas também há textos que merecem ser lidos.

Destas novas safras, não há como deixar de recomendar Fábulas do tempo e da eternidade. Primeiro livro da iniciante Cristina Lasaitis, nascida em 1983, pouco ou nada deixa a dever às melhores obras da ficção especulativa brasileira. Até monstros sagrados de reputação global, como Philip K. Dick e Ray Bradbury, ou monstras, como Ursula K. Le Guin e Marion Zimmer Bradley, teriam orgulho de poder contar com um ou outro desses contos entre suas primeiras obras.

Com muita sensibilidade, doze contos exploram personagens ricos e insólitos que se debatem com o tema do tempo e dos limites que lhe são postos pela condição mortal humana ou mesmo algo mais que humana, em diferentes universos imaginários da ficção científica e da fantasia.

Há mundos futuros regidos pela realidade virtual mais complicada que a de Matrix, alquimistas atrás de uma maneira de driblar o tempo, capaz de superar o velho elixir da longa vida, um inca obcecado pelo futuro de seu império, uma cientista que assassina o tempo, intelectuais frustrados na noite paulistana, uma vida solidária e duríssima em um deserto de Atacama pós-apocalíptico, e duas entidades inimagináveis de zilhões de anos no futuro a enfrentar juntas os últimos momentos de um universo entrópico a dar seu derradeiro suspiro. Há até um mundo de caçadores especializados em desvirginar anjos (daqueles mesmos que têm asinhas e costumavam viver no céu).

Seria exagero dizer que há para todos os gostos: não se encontram heróis invencíveis e insensíveis, caçadores de tesouros e recompensas, ou exaltações bélicas contra monstros de olhos esbugalhados. Mas a variedade é impressionante.

O ponteiro do relógio passa da fantasia mágica mais delirante à ficção científica mais rigorosa, e nesta o estado da arte do conhecimento e da especulação teórica é levado a sério de maneira pouco comum nos autores brasileiros (principalmente os da Primeira Onda). Em todos os casos tratam-se de histórias escritas com sensibilidade, verossimilhança e muito carinho e respeito pelo leitor exigente. Várias delas parecem completar-se mutuamente, sugerindo um quebra-cabeça que se estende do começo ao fim dos tempos, a ser ampliado por futuros desenvolvimentos.

Surgem situações das mais insólitas, como apenas o sonho mais desregrado ou a ciência mais disciplinada podem conceber, mas o foco está sempre em como podem ser vividas com sentimentos humanos, dos mais delicados aos mais brutos. É uma ficção científica orgulhosamente humanista dentro da melhor tradição brasileira do gênero, escrita sem concessões às tentativas de imitar clichês hollywoodianos que agradam um público fiel, mas embotam a veracidade e empobrecem a criatividade do gênero.

Antonio Luiz M. C. Costa é jornalista e ficcionista, autor dos romances da série Crônicas de Atlântida.

[ Resenha publicada originalmente na revista Carta Capital. ]

A era i-Racional

A era i-Racional

Leandro Dupré Cardoso
Editora Clube de Autores
328 páginas
Lançado em 2014

Você já imaginou se, depois de um leve momento de distração, tudo aquilo que você conhecesse e possuísse (e até mesmo fosse) simplesmente desaparecesse, de um trato? É sobre essa inquietante quebra de estrutura de que trata o romance A era i-Racional, do jovem escritor de ficção científica Leandro Dupré Cardoso.

A livro narra a história de Humberto, um pai de família comum: esposa, dois filhos, um bom emprego. Nada de especial. A não ser pelo seu próprio nome: Humberto provém originalmente do antigo dialeto germânico e significa algo como “homem de inteligência brilhante”. E é essa capacidade cerebral que irá transformá-lo no principal entrave (ou na principal solução?) para a revolução prestes a eclodir.

Enquanto passeia despreocupadamente com a família por um parque de diversões, Humberto adentra uma misteriosa atração, o Labirinto da Cavalgada de Hélio. Tomado pela curiosidade de percorrer os seus mágicos corredores, o homem se embrenha demais por caminhos já naturalmente emaranhados. Enrosca-se na teia da aranha. Humberto desmaia dentro da atração. E um mundo completamente novo se desenha durante o longo período em que seus olhos são mantidos bem fechados.

Com o corpo moído de tantos sonhos de aflição, Humberto enfim desperta. E tudo fica cinza: as paredes, as máquinas, a garra metálica que parece sempre prestes a comprimir impiedosamente sua cabeça. Porém, apesar desse ar de fábrica, ainda parece que o protagonista está dentro de um hospital, visto que acaba de acordar sobre um leito clínico. Seja muito bem-vindo à fábrica da juventude, o lugar onde rejuvenescer é tão simples quanto apertar alguns parafusos.

E sua esposa? Seus filhos? Seu emprego? Se estes ainda fossem os seus maiores problemas: logo o protagonista vem a descobrir que possui controle de seus movimentos apenas do pescoço para cima. Seus braços e pernas ainda podem se deslocar, contudo não pelos próprios comandos. Um sistema externo ordena as suas locomoções por um dispositivo que Humberto descobre estar implantado em sua coluna e na de todos os outros. Ou melhor, também não há mais Humberto: seu novo código para reconhecimento torna-se JÓ2719PR29, muito prazer. Este é o início de seu novo funcionamento como empregado compulsório da era i-Racional.

Mas, afinal: será tudo sonho ou realidade? Nunca se sabe até que ponto a interatividade desse lugar pode chegar…

Em uma sociedade totalmente insensível e massificada, a missão de JÓ2719PR29 não será nada fácil: descobrir o que ocorreu com sua família e fazer toda a sua vida voltar ao normal. Todavia, o prosseguir nessa batalha solitária será dificultado por um ente maior, EF217CL210, do qual nunca se tem certeza se é um sistema metafísico, um computador superpotente ou qualquer outra coisa totalmente nova.

Assim, o protagonista transformado em máquina terá de lutar contra esse adversário intangível, enfrentar alicates inflexíveis e monstros de aço inoxidável para comprovar que a sua real identidade ainda pode prevalecer. E permitir que volte a se chamar Humberto mais uma vez.

Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.

A Amazônia misteriosa

A Amazônia misteriosa

Gastão Cruls
Editora Saraiva, Coleção Saraiva nº 115, 1957
240 páginas
Publicado originalmente em 1925

A Amazônia misteriosa, romance do escritor carioca Gastão Cruls (1888-1959), instala-se nas profundezas da selva amazônica, um dos cenários mais interessantes da FC brasileira, que serviu de tabuleiro para diversos romances. Contudo, nenhum supera o de Cruls em detalhamento, tão farto, que o autor julgou apropriado acrescentar um Elucidário para explicar os nomes e termos usados ao longo da história.

O primeiro capítulo do romance mostra as páginas finais de um diário de viagem, no qual o autor, chamado durante toda a história apenas de Seu Doutor, narra os últimos progressos de uma expedição científica à floresta amazônica. Com ele viaja um pequeno grupo de homens especializados nos perigos de uma incursão desse tipo.

A partir do segundo capítulo, a narrativa assume um ritmo mais dinâmico, em primeira pessoa. Durante uma das expedições em busca de alimento, Seu Doutor, acompanhado dos mateiros Piauí e Pacatuba, perdem-se do grupo principal e são capturados por índios que os levam numa longa caminhada. Acometido de uma febre e em delírio, Piauí desaparece na mata, para não mais ser visto.

Os sobreviventes são levados para outra tribo, que o narrador vai logo identificar como sendo a aldeia das lendárias amazonas. Para surpresa do Seu Doutor, vivem ali alguns estrangeiros: um pesquisador alemão chamado Jacob Hartmann, que desenvolve algum tipo de pesquisa secreta, sua jovem esposa Rosina, e uns poucos homens. A índia Malila, encarregada de cuidar dos recém-chegados, acaba por desenvolver por eles uma afetividade importante. Também será significativa a figura de Rosina, que se ressente da condição de exilada na selva e do casamento infeliz com o frio cientista. Com ela, Seu Doutor vai estabelecer um relacionamento perigoso.

A princípio, a vida dos dois homens na aldeia das amazonas não é desagradável. Alimentados, bem tratados e na esperança de retornar à civilização, eles passam a explorar a aldeia, conhecendo seus costumes e suas histórias. Curioso sobre os segredos da pesquisa de Hartmann, Seu Doutor espiona o laboratório improvisado numa área reservada e fica horrorizado quando descobre ali crianças deformadas, mantidas em jaulas como animais, o que vai estabelecer os conflitos que darão termo à história.

Filho de um importante médico e cientista, Gastão Cruls foi revelado na Revista do Brasil, editada por Monteiro Lobato. A Amazônia misteriosa foi sua incursão na ficção científica e está claramente inserida na tradição do romance científico de Júlio Verne. Cruls não tentou escamotear outras influências e cita, textualmente, os romances A ilha do doutor Moreau, de H.G. Wells, e As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, no que fez muito bem. Pois, em pleno 1925, compôs de forma primorosa ambas as propostas do nascente gênero da ficção científica, unindo o relato científico de Verne à fantasia de Wells, e aproveitando ainda as ideias modernistas que estavam em ebulição na literatura brasileira.

O significado de A Amazônia misteriosa para a ficção científica brasileira é incomparável, pois o romance aglutina um leque de propostas que ainda hoje estão em debate, num romance sofisticado, literariamente acima da média. Se traduzido e lançado hoje no mercado estrangeiro, certamente atrairia a atenção, não só pelo seu caráter exótico e pela sua qualidade literária, mas porque os estrangeiros estão ávidos por esse tipo de história, que boa parte dos autores nacionais de FC&F ainda insiste em desprezar.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.