BioCyberDrama Saga

BioCyberDrama Saga

Edgar Franco (roteiro) Mozart Couto (arte)
Editora UFG
276 páginas
Lançado em 2013

Visões dentro de possessões. Transmutações dentro de revoluções. Música eletrônica, realidade aumentada, figurino exótico e imersão amorosa no corpo ancestral da natureza. Muitos ainda não sabem, mas um ciberpajé − o primeiro da Terra Brasilis − vive entre nós há quase uma década. Convergindo as habilidades mágicas e místicas de uma autoridade indígena e a curiosidade científica transformadora de um tecnoartista, nosso ciberpajé viaja no tempo e no espaço, investigando os impasses assombrosos da sociedade pós-humana que um dia substituirá a nossa.

Se você pesquisar na web, descobrirá que Edgar Franco, o Ciberpajé, é mineiro de Ituiutaba, graduado em arquitetura, mestre em multimeios pela Unicamp, doutor em artes pela USP, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB e professor da faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Mas essa é apenas sua persona acadêmica, sua identidade apolínea e civilizada. Amalgamado ao professor-pesquisador está o feiticeiro tropical, o tecnobruxo dionisíaco e delirante que organiza performances-rituais multimídias com a banda Posthuman Tantra e produz quadrinhos poético-filosóficos, sobre o evento por ele batizado de Aurora Pós-humana.

Parte importante desse projeto em progresso, BioCyberDrama Saga é uma novela gráfica produzida em parceria com o lendário quadrinista e ilustrador mineiro Mozart Couto. A saga é protagonizada por Antônio Euclides (batizado em homenagem a Antônio Conselheiro e Euclides da Cunha), um homem conservador, pertencente ao pequeno grupo dos resistentes, formado pelos poucos seres humanos que evitam qualquer aperfeiçoamento biotecnológico. Estamos no século 30 da era Cristã. Além dos resistentes, duas outras espécies disputam o domínio político do planeta: os extropianos e os tecnogenéticos.

Os extropianos são consciências humanas transferidas para máquinas de todos os tipos e complexidades, e representam sessenta por cento da população da Terra. Os tecnogenéticos são seres orgânicos híbridos − uma mistura biogenética de humano, animal e vegetal − e representam trinta e cinco por cento da população. Os cinco por cento restantes são representados pelos resistentes. As três espécies, não é preciso dizer, vivem em constante estado de tensão ideológica, sempre alimentada por ações terroristas e doutrinação radical. Esse estado de tensão compromete a vida emocional de Antônio, atrapalhando sua amizade com Orlane e Tetsuo, tecnogenéticos, e seu casamento com Michelle, uma resistente atraída pelos métodos extropianos.

O mais fascinante nessa segunda edição ampliada de BioCyberDrama Saga, lançada em 2016, e em toda a proposta multimídia da Aurora Pós-humana é a riqueza de detalhes culturais, científicos, religiosos, políticos, sociológicos, geográficos etc. Dialogando com o melhor da tecnoarte e da ficção científica contemporâneas, Edgar Franco, nosso Ciberpajé, criou uma rede densa de pormenores, que continua se expandindo e alimentando outros trabalhos individuais e coletivos.

Se a história em quadrinhos já é fascinante por si só, os paratextos que a acompanham enriquecem ainda mais a fruição estética. O prefácio de trinta e seis páginas fala da origem desse universo ficcional e apresenta uma lista de músicos, artistas, filósofos e ficcionistas do pós-humano, além de oferecer a descrição minuciosa das três espécies da nova Terra, incluindo os conflitos políticos e sociais. No posfácio, somos apresentados à galeria de personalidades da arte, da religião, da ciência e da literatura homenageadas nas entrelinhas do enredo.

Se a força poética da ficção científica, em qualquer meio de expressão, está em sua irresistível vocação pra desmascarar dogmas e quebrar paradigmas, não resta dúvida de que a novela gráfica de Edgar Franco e Mozart Couto honra corajosamente essa vocação demolidora, essa saudável força poética.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Guerra justa

Guerra justa

Carlos Orsi
Editora Draco
150 páginas
Lançado em 2010

No futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das principais religiões, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas as religiões conhecidas. No vácuo desse cataclismo, emerge um novo profeta – o Pontífice –, que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica na órbita da Terra, numa estação espacial.

Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder graças à capacidade do Pontífice de prever o futuro. Sua igreja torna-se um governo mundial todo-poderoso, um estado policial teocrata que controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.

Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go. Com essa informação, Ma Go adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece outro polo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.

Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes ao qual sua irmã fazia parte. Ela é levada a Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu líder espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.

Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas coletâneas Medo, mistério e morte (1996) e Tempos de fúria (2006). Guerra justa é seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas cento e cinquenta páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto.

Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.

Apesar de ter apontado suas baterias contra as religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.

Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar pela premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, essas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaísmo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, à destruição de seus templos mais sagrados.

Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

Subgêneros da ficção científica

Bandeira do Brasil

Afrofuturista: narrativa que combina ficção científica e cosmologia africana.
Títulos brasileiros:
O caçador cibernético da rua 13, romance de Fábio Kabral.

Cyberpunk: ficção que mescla ciência e tecnologia avançadas (cibernética, informática, neuropróteses, realidade virtual) a certo grau de desordem social. (Ver também retrofuturismo.)
Títulos brasileiros:
Além do invisível, conto de Cristina Lasaitis.
Correndo nas sombras, miniconto de Ana Cristina Rodrigues.
Distrito federal, rapsódia de Luiz Bras.
Favelost, romance de Fausto Fawcett.
Guerra justa, romance de Carlos Orsi.
Metanfetaedro, conto de Alliah.
Os dias da peste, romance de Fabio Fernandes.
REQU13M, trilogia de contos de Lidia Zuin.
Santa Clara Poltergeist, romance de Fausto Fawcett.
Silicone XXI, romance de Alfredo Sirkis.
Sob a sua árvore, conto de Rodrigo Rahmati.

Distopia: ramo da FC ambientado em um Estado futuro totalitário, em que há um opressivo controle da sociedade.
Títulos brasileiros:
Amorquia, romance de André Carneiro.
Adaptação do funcionário Ruam, romance de Mauro Chaves.
Não verás país nenhum, romance de Ignácio de Loyola Brandão.
Piscina livre, romance de André Carneiro.
Réquiem: sonhos proibidos, romance de Petê Rissatti.

Esotérica: narrativa que aproxima o conhecimento mensurável (ciência) do conhecimento paranormal (ocultismo).
Títulos brasileiros:

Exobiológica: ramo da FC que trata das excêntricas formas de vida alienígena.
Títulos brasileiros:
Quando Murgau A.M.A. Murgau, conto de Ivan Carlos Regina.

FC hard: subgênero caracterizado por seu interesse nas leis da biologia, da química e da física, no detalhe tecnológico e na absoluta precisão científica.
Títulos brasileiros:
Padrões de contato, romance de Jorge Luiz Calife.

FC soft (também chamada de new wave): subgênero cujas tramas tendem a privilegiar os dramas humanos, os relacionamentos e sentimentos, deixando em segundo plano os detalhes do instrumental tecnológico e das leis físicas.
Títulos brasileiros:
Acúmulo de Skinnot em Megamerc, conto de Ivan Carlos Regina.
Mestre-de-armas, conto de Braulio Tavares.
Não chore, novela de Luiz Bras.
O caipora caipira, conto de Ivan Carlos Regina.
O esplendor, romance de Alexey Dodsworth.
O fruto maduro da civilização, conto de Ivan Carlos Regina.
O Templo do Amor, conto de Ana Cristina Rodrigues.
Octopusgarden, romance de Gerson Lodi-Ribeiro.
Zitz e a rede etérea, romance de Giovanna Picillo.

Feminista: narrativa que veicula a crítica feminista contra as situações patriarcais.
Títulos brasileiros:
Deixe as estrelas falarem, romance de Lady Sybylla.

História alternativa: ficção cuja trama transcorre num mundo em que a História possui um ponto de divergência em relação à História como nós a conhecemos.
Títulos brasileiros:
A ética da traição, conto de Gerson Lodi-Ribeiro.
A segunda pátria, romance de Miguel Sanches Neto.
E de extermínio, romance de Cirilo S. Lemos.
Método prático da guerrilha, romance de Marcelo Ferroni.
O alferes de ferro, conto de Fabio Fernandes.
Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo.
Tudo de novo no front, conto de Fabio Fernandes.

Imortalidade: narrativa em que a biotecnologia investiga certos meios de neutralizar o processo de envelhecimento, com o objetivo de aumentar indefinidamente a expectativa de vida.
Títulos brasileiros:
Paraiso líquido, conto de Luiz Bras.

Império galáctico: narrativa sobre um império disseminado por toda uma galáxia, conectando centenas de planetas e milhares de civilizações.
Títulos brasileiros:

Inteligência artificial: subgênero que trata de softwares, robôs e androides tão ou mais inteligentes do que os seres humanos que os criaram.
Títulos brasileiros:

Invasão alienígena: subgênero no qual uma sociedade extraterrestre tecnologicamente superior invade a Terra com o intuito de tomar o lugar da espécie humana ou de escravizá-la ou, em alguns casos, para usar os humanos como comida.
Títulos brasileiros:
(História com desenho e diálogo), conto de Brontops Baruq.

Mundo perdido: narrativa sobre a descoberta de uma civilização perdida (Eldorado, Shangri-la etc.) ou de um território anacrônico, geralmente pré-histórico, num local totalmente isolado da civilização moderna.
A Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls.
A República 3000 ou A filha do inca, de Menotti Del Picchia.
A cidade perdida, de Jeronymo Monteiro.

New weird: ficção que mistura os três gêneros da literatura especulativa: ficção científica, horror e fantasia, não raro absorvendo elementos também da ficção policial.
Títulos brasileiros:
Mnemomáquina, romance de Ronaldo Bressane.
O alienado, romance de Cirilo S. Lemos.
Será, romance de Ivan Hegenberg.

Pós-apocalipse: narrativa ambientada em um mundo quase sem ninguém, devastado por uma guerra ou uma pandemia.
Títulos brasileiros:
A espingarda, conto de André Carneiro.
O último artilheiro, conto de Levy Menezes.
Sozinho no deserto extremo, romance de Luiz Bras.

Primeiro contato: narrativa sobre o primeiro encontro entre humanos e alienígenas.
Títulos brasileiros:
A nuvem, conto de Ricardo Teixeira.
As águas-vivas não sabem de si, romance de Aline Valek.
Dezoito de Escorpião, romance de Alexey Dodsworth.

Realidade paralela: subgênero que trata das outras realidades que coexistem e se comunicam com a nossa, podendo ser acessadas por meio de portais físicos ou mentais.
Títulos brasileiros:

Retrofuturismo: ramo da FC que reúne os diversos punks retrôs derivados do cyberpunk e do steampunk: stonepunk, clockpunk, decopunk, dieselpunk, atompunk e solarpunk (quando as histórias são ambientadas num passado alternativo).
Títulos brasileiros:
Era uma vez um mundo, conto de Antonio Luiz M. C. Costa.
Venezia em chamas, conto de Ana Cristina Rodrigues.

Satírica: ficção que se apropria dos principais elementos dos outros subgêneros, exagerando-os ou distorcendo-os.
Títulos brasileiros:
Piritas siderais, romance de Guilherme Kujawski.
O senhor Info e dona Ninfo, conto de Ivan Carlos Regina.

Space opera: ramo da FC que enfatiza a aventura heroica, a ação interplanetária, os cenários exóticos e o enfrentamento épico.
Títulos brasileiros:
Da astúcia dos amigos improváveis, conto de Santiago Santos.
Glória sombria, romance de Roberto de Sousa Causo.
Obliterati, conto de Fabio Fernandes.
Pendão da esperança, conto de Flávio Medeiros Jr.
Viva muito, morra jovem, conto de Lidia Zuin.

Steampunk: ficção ambientada numa Era Vitoriana (meados do século 19) alternativa, tecnologicamente avançada, em que máquinas complexas são movidas não pela eletricidade, mas pelo vapor. (Ver também retrofuturismo.)
Títulos brasileiros:
A lição de anatomia do temível Dr. Louison, romance de Enéias Tavares.
Uma vida possível atrás das barricadas, conto de Jacques Barcia.

Ufológica: narrativa sobre o fenômeno dos discos voadores, normalmente avistados em condições imprecisas, podendo ou não ocorrer uma abdução alienígena.
Títulos brasileiros:
Estação Terra, romance de Odimer F. Nogueira.
Dunkerque universal, romance de João Ribas da Costa.
O 31º peregrino, romance de Rubens Teixeira Scavone.
O homem que viu o disco voador, romance de Rubens Teixeira Scavone.

Universo paralelo: subgênero sobre outro(s) universo(s), separado(s) de nosso próprio universo, mas com pontos de contato, em certos casos formando um multiverso.
Títulos brasileiros:

Viagem no tempo: ficção baseada no conceito de mover-se para trás e para frente na linha do tempo, em um modo análogo à mobilidade pelo espaço.
Títulos brasileiros:
Eu matei Paolo Rossi, conto de Octavio Aragão.
Paradoxo de Narciso, conto de Ivanir Calado.

Vida extraterrestre: narrativa sobre a viagem a outros planetas, e sobre os seres vivos, inteligentes ou não, que vivem lá.
Títulos brasileiros:
Exercícios de silêncio, conto de Finisia Fideli.

[ Luiz Bras + colaboradores ]

Zitz e a rede etérea

Zitz e a rede etérea

Giovanna Picillo
Editora Scortecci
224 páginas
Lançado em 2016

Giovanna Picillo estreia na literatura e na ficção futurista com um romance conduzido por nossas principais inquietações existenciais, sempre incômodas, distribuídas no difuso cruzamento geométrico em que a ciência, a filosofia e a religião se encontram por um minuto, sem se repelir. Nessa narrativa genuinamente otimista, a autora projeta em seus personagens os medos e as incertezas que a civilização humana vem tentando resolver há milênios, sem sucesso.

Vitimados por uma catástrofe ecológica, num futuro indeterminado os países, as cidades, as florestas e os rios foram reduzidos a escombros. O que sobrou da civilização agora vive em dois núcleos isolados: a Tecnourbe, uma metrópole-fortaleza altamente tecnológica, protegida por uma bolha eletromagnética, e a distante Newrbe, instalada nos subterrâneos de um antigo centro urbano, pra se proteger do clima perigoso que castiga a superfície.

O protagonista do romance, Zitz, é um eficiente funcionário da Tecnourbe comandada pelo pragmático e racionalista Conselho diretor. Conectado ao complexo sistema de comunicação da metrópole-fortaleza, o pesquisador dedica todo o seu tempo à procura de soluções técnicas e científicas, auxiliado apenas por sua assistente pessoal, uma I.A. chamada Diuly. Tudo segue o extenuante protocolo imposto pelo Conselho e administrado pelo Sistema, até que a rotina de trabalho é perturbada por sabotagens e mensagens misteriosas, que empurram Zitz na direção da Newrbe.

E se o pensamento tiver dupla natureza, semelhante à luz: ora sequência de ondas, ora feixe de partículas? A principal pesquisa de Zitz, no momento, é a teletemática, uma forma total de comunicação, que permitiria às pessoas trocar não somente dados da linguagem (verbal, matemática, musical etc.), mas experiências emocionais profundas, em duplas e até em grupos. Esse também é o eixo filosófico do romance: a comunicação mental, ou telepatia, tão desejava por místicos, artistas, alquimistas e cientistas − estes também! − de todas as épocas.

A busca de Zitz está alinhadíssima com a do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que escreveu no livro Muito além do nosso eu:

Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.

Na verdade, os escritores de FC de nosso tempo estão se atrevendo a conceber e descrever, pois a rede etérea investigada por Zitz, antes dos atentados e das mensagens misteriosas, era exatamente esse colosso de consciência coletiva de que fala Miguel Nicolelis com tanto entusiasmo.

O romance é narrado basicamente por Zitz, mas o foco narrativo também acolhe a voz de outros personagens. Outra característica que me fascinou, nessa obra de estreia, foi a atmosfera humanista, o espírito francamente otimista do enredo e dos personagens. Em todos os níveis: político, social e pessoal. Confesso que aprecio mais as narrativas sombrias, sobre Estados opressores e indivíduos dominados pelo sistema. Talvez por isso mesmo me fez tão bem ler uma história em que a força dos seres humanos e dos seres sintéticos está na empatia e na generosidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Selva Brasil

Selva Brasil

Roberto de Sousa Causo
Editora Draco
112 páginas
Lançado em 2010

Selva Brasil é uma ficção de realidade alternativa, que especula como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, ordenada pelo presidente Jânio Quadros. Nessa outra realidade, a consequência da invasão brasileira é a formação de uma coalizão constituída pelas nações Inglaterra, França, Holanda e Estados Unidos, que ataca os nossos soldados e domina parte significativa da Amazônia brasileira.

Causo nos apresenta uma história militar que conta com personagens profundos, distantes do estereótipo soldado-Rambo-overpower, se assemelhando mais a um soldado-Spielberg-será-que-sei-mesmo-o-que-estou-fazendo-aqui? Ao longo de sua narrativa, o autor demonstra conhecer profundamente os pormenores da vida militar, desde a descrição das armas utilizadas na época, até particularidades como o vestuário dos soldados, os costumes típicos do Amapá e as variantes linguísticas comuns na rotina de um desbravador das matas amazônicas de fronteira.

Reflexões como “Chega um momento em que você quer mesmo é deixar o corpo cair e escorregar encosta abaixo, se encolher atrás de uma pedra e apagar. É como um sujeito perdido num deserto. Se ele achar um arbusto com uma sombra ele deita ali e morre.”, ou ainda “Matar é amputar de alguém essa extensão toda da existência.” oferecem um pouco da imersão que a obra convida o leitor a desfrutar.

O tempero de ficção científica ao longo do romance não fica só na especulação de uma realidade alternativa. Há também todo um mistério em torno de um experimento militar que pode ser o elo entre a realidade paralela criada pelo autor e a nossa. O arco narrativo é bem construído, a ponto de ficarmos curiosos para saber como seria a vida privada naquela nova realidade de brasileiros um tanto quanto mais críticos e participativos na vida pública e política do país.

Fato igualmente curioso é que o personagem central da obra é um Souza outro, esse grafado com Z e não S, que remete a um simulacro possível de Roberto de Sousa Causo, em uma realidade na qual ele não teria desistido de sua carreira militar nem enveredado pela carreira de escritor. Dessa maneira, trata-se não só de uma realidade alternativa que muda o fluxo de macro-realidades, como também interfere nas micro-realidades interpessoais, de expressões micro-subjetivas.

Confesso que, no início da leitura, imaginei que algumas situações enfrentadas pelos personagens fossem gorduras desnecessárias na obra. No entanto, na medida em que o arco narrativo foi pouco a pouco se desvelando, passei a legitimar aquelas situações como experiências essenciais para potencializar toda a ambientação daquele espaço desconhecido para um garoto paulista de apartamento como eu.

O que também existe de voz crítica no livro é a reflexão em torno da complexa situação das fronteiras brasileiras na perspectiva geográfica, política e cultural. Enquanto brasileiro, senti ao longo da leitura que perdemos a sensibilidade em relação às etnias indígenas, e desconhecemos as complexidades e as riquezas de sua arqueologia cultural.

Fui educado pela estética sul-sudeste e Selva Brasil me proporcionou uma imersão inusitada em um território nacional pouco explorado por outras literaturas de ficção científica a que tive contato. Parafraseando Chimamanda Adichie: enquanto leitores críticos, devemos perseguir aquelas obras que nos convidam a fugir das histórias únicas sobre as culturas e as civilizações. Selva Brasil é, sem dúvida, uma ótima opção imersiva para esse exercício.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com mestrado em Linguística.

Erox ex machina

Eros ex machina

Luiz Bras (organização)
Editora @link
152 páginas
Lançado em 2018

No passado, a ficção científica era o espaço para a humanidade sonhar com uma utopia diante dos enormes saltos tecnológicos desde a revolução industrial ou temer um futuro criado por uma humanidade que pela primeira vez na história tem a capacidade de aniquilar a sua própria existência.

A maioria das previsões não se concretizou, pois não eram profecias, mas sim espelhos de uma sociedade pós-guerra assombrada por governos totalitários e bombas nucleares. Então qual é o futuro imaginado pela geração que cresceu nesse distante século 21 sonhado nos clássicos do passado?

Se depender da coletânea Eros ex machina, lançada em fevereiro, os nossos medos e esperanças não estão mais nos foguetes, mas sim debaixo do lençol. E eles podem ser ainda mais assustadores do que uma bomba nuclear.

São dezoito contos escritos pelos participantes do ateliê Escrevendo o Futuro, cada qual uma reflexão sobre como será o sexo na era dos robôs. O tema ganha na maioria das histórias um ar quase freudiano, com o sexo refletindo as fobias de uma geração que enfrenta todos os dias o dilema da desumanização diante da tecnologia e pautas como o feminismo e a ampliação dos direitos LGBT, além do crescimento da resistência diante dessas bandeiras.

Um exemplo desse lado negro do sexo está em VeriDIANA, de Alex Xavier, a história de uma criança que descobre da pior forma possível o que é sexo, pelo menos na cabeça do seu pai. Já em Ela é tão bonita desligada, de Nathalie Lourenço, é discutido o quanto dos outros ainda existe em nós após o fim de um relacionamento (seja ele carnal ou de silicone).

Nem todas as histórias são sobre relações físicas. Delete, de Nathan Elias-Elias, por exemplo, revela um mundo em que os aplicativos mostram mais interesse e compreensão no outro do que o distante e preconceituoso mundo real. Há também espaço para tons mais leves, como Vaaaiii, Coriiinthians!, em que Sonia Nabarrete narra de forma cômica a homofobia no futebol, usando como personagem um robô que acaba apaixonado pelo esporte em um momento inesperado.

Diante dessa distopia psicológica, cabe a Luiz Bras, orientador do ateliê, encerrar a coletânea com o conto Sob a cúpula. Nele, a ficção científica ganha um tom mítico e místico, sobre uma comunidade que usa a tecnologia para transformar o sexo não em um ato de hierarquização, mas sim de união social. Ali, não importa o seu gênero ou qualquer outra orientação sexual usada para segregar a sociedade, há apenas uma comunhão em uníssono de uma tribo em busca do prazer não individual, mas coletivo.

É possível interpretar essa conclusão da coletânea como uma última lição de Luiz aos seus alunos. Assim como não entramos no novo século sob as chamas das bombas nucleares temidas no passado, é possível que os nossos netos não vivam em um mundo em que o sexo seja apenas o reflexo dos impulsos mais sombrios da humanidade. Imaginar esse futuro não é apenas esperá-lo, mas sim tentar realizá-lo.

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Evandro Furoni é jornalista e colabora com a revista Galileu e outras publicações culturais.

[ Resenha publicada originalmente na revista Galileu. ]

Delacroix escapa das chamas

Delacroix escapa das chamas

Edson Aran
Editora Record
176 páginas
Lançado em 2009

Que Brasil você quer para o futuro? Eis o questionamento direcionado a telespectadores, e para o qual conta-se com o envio de vídeo-resposta. Fosse eu responder à renomada emissora – você sabe qual – antes de ler Delacroix escapa das chamas, a minha resposta seria uma. Agora, é outra. Eu quero um Brasil com mais escritores feito Edson Aran, autor desse inusitado livro. O Brasil que ele imaginou para o futuro, uma São Paulo (ano 2068) refém do apartheid social, pode ser delirante mas, em muitos aspectos, é uma metáfora deliciosa e bem-humorada do nosso presente.

Essa mistura de ficção científica bem-sucedida com sátira e crítica social, que Aran prefere classificar como sátira política, é uma obra ágil, fértil em possibilidades (inúmeras associações e interpretações), e não flerta com a mesmice. Da leitura chata, o leitor está livre!

Um dos personagens, Ibr Barn Scrid, após sucessivas reeleições, decide transformar a França num califado. Ele, presidente aclamado califa, manda queimar todos os museus por violarem as leis do Alcorão ao exporem figuras humanas, mulheres peladas, deuses e deusas pagãos. Um quadro legítimo do pintor francês Eugène Delacroix escapa das chamas e vai parar em São Paulo. Eis o argumento que intitula o livro e presenteia o leitor com diferentes tramas, usando a arte como fio condutor do novelo imaginativo.

Nessa sua novela em quatro tempos (ou, para ficar mais claro, quatro contos interligados que, justapostos, podem ser denominadas de novela) a sociedade sofre brutal ruptura, de tal sorte que a classe alta repudia a baixa que, por sua vez, vive uma guerra civil.

Na distopia do autor, a high society concentra-se, na verdade, em redomas. Se no mundo atual as pessoas abastadas vivem em condomínios fechados, passeiam, consomem e se entretêm nos shoppings, na ficção de Aran, para se viver dignamente com segurança e desfrutar de tudo o que o crédito pode pagar (sem crédito você está excluído), só se for nas shopping cities. Estas separam a sociedade em dois mundos, os consumistas e os que não podem consumir, restando aos excluídos uma só alternativa, a barbárie.

Na Shopping City 22 vivem cinquenta mil consumidores, entre eles o protagonista: o crítico de arte Wagner Krupa. Shopping City 22 é o lugar onde o autor dá vida, não só a Wagner, mas a prostitutas cibernéticas, origamis assassinos, uma despachante sexy, padres inescrupulosos, obra de arte que come gente e até gente que usa a mutação genética para virar porco e tatuar o corpo. Sim, a arte nessa ficção é viva, orgânica. Ou, de acordo com o autor, é bioarte. “Você chama isso de arte? (…) Tatuar um porco?” “Não. (…) Arte é alterar geneticamente o seu corpo para parecer um porco. E depois ser tatuado com desenhos renascentistas…” (páginas 143-144).

Essa sociedade onde os sem crédito não podem entrar lembrou-me o filme Elysium. Quem conhece essa ficção científica sabe que a Terra, devastada, é o reduto da escória e da classe pobre. Elysium, o mundo perfeito, acima da Terra (redoma no céu) é habitado apenas pelos ricos.

Não dá para dizer que Aran bebeu da fonte de Elysium, claro que não. Delacroix escapa das chamas, afinal, é de 2009 e Neill Blomkamp escreveu e dirigiu o filme depois, em 2013. Coincidências à parte, não existe nada como essa ficção. “Edson Aran é diferente de tudo o que você já leu. Em qualquer língua”, escreveu Ivan Lessa.

Há quem diga que esse não é um livro profundo, desses de se levar a sério. Outros adoram. Alguns classificam a linguagem como confusa. Não importa qual opinião pese mais na balança, cada leitor, afinal, tem a sua. A minha é a de que essa ficção em que a França assumiu a forma islâmica de governar, e por isso mesmo queimou museus, traz ingredientes de leitura que vão além das palavras. Ler o não escrito, só para lembrar, é ler. E ler Delacroix escapa das chamas é entender que o delírio narrativo proposto, além de nos fazer pensar e rir, nos livra de um mundo cada vez mais chato.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.