Paraíso líquido

Paraiso liquido

Luiz Bras
Terracota Editora
304 páginas
Lançado em 2010

Em tempos como estes, em que a política nos enoja, as pessoas nos decepcionam, a realidade começa a ficar insuportável e a vontade é de sumir do mapa, costumo recorrer à literatura que, afinal, sempre nos salva. Em momentos assim, procuro ler coisas que me tirem do eixo e me joguem muito além no tempo, ainda que esse futuro possa soar triste, cruel e melancólico.

Foi com esse estado de espírito que busquei na estante o Paraíso líquido, contemplado pelo ProAC 2010 e lançado nesse mesmo ano − meu exemplar com um autógrafo carinhoso de Luiz Bras. Embora a maior parte dos treze contos, na época, já tivesse sido impressa em coletâneas variadas, foi um imenso prazer lê-las, agrupadas, nesta obra de grande importância na carreira de Bras. E o que é melhor: editadas de forma que o leitor sente-se caminhando no tempo que gradualmente vai se tornando aterrador.

A edição se abre com Primeiro contato, texto primoroso e pungente – o meu preferido – sobre uma brincadeira entre crianças que, aos poucos e dosadamente, revela preconceito e crueldade. E segue nessa linha de alguém brincando com o destino dos outros em Memórias. Por sua vez, Nuvens de cães-cavalos nos estapeia com uma existência que pode estar na duração de um último cigarro, um show de forma e estrutura textual.

Provocador como sempre em suas antevisões distópicas, Luiz Bras fala de crianças e brinquedos assassinos em Daimons, e segue com Déjà vu, que, como ele próprio explica na orelha, pode ser lido de trás para a frente ou vice-versa, já que trata de uma máquina do tempo. São Paulo, 31 de julho de 2013 é literatura epistolar da maior qualidade em forma de um vaticínio que debocha de tudo, da política à religião e a personagens de desenhos animados – que bem poderia ser uma homenagem a Ray Bradburry. Em Nostalgia, o autor faz um alerta bastante sinistro: “Para o espírito do homem, o paraíso não pode ser parcelado.”

A obra se encerra com o conto que dá nome à coletânea, num cenário mais radical “onde não há mais Brasil, nem Ocidente nem o planeta Terra. Há apenas a paisagem, um espaço estranho e delicado, habitado por seres maravilhosos e assombrados por uma entidade chamada Nuvem”, nos dizeres de Rebecca O’Brien, da The Ohio State University, talvez mais um personagem criado por Bras, ele mesmo detentor de pelo menos cinco identidades.

A literatura futurista brasileira, mesmo que muito lentamente, está ganhando novos autores e adeptos, basta ver a recente multiplicação de lançamento de antologias com os melhores de todos os tempos. Luiz Bras faz parte desse movimento, e, mais do que produzir obras importantes na cena literária, ele tem sido mestre e fonte de inspiração para toda uma nova leva de autores preocupados em ficcionar o futuro.

Por sua iniciativa, por três anos (2008-2011) convidou quarenta e quatro escritores para produzirem textos, organizou e lançou o Projeto Portal, uma revista de ficção científica editada no sistema de cooperativa, destinada não ao grande público, mas em suas palavras “a esse pequeno grupo de aficionados mais refinados”. Foram seis números dessa publicação cujos títulos homenageavam os grandes mestres da ficção científica (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit), num total de 2.450 exemplares.

E em 2012, organizou e lançou como antologia o volume Todos os portais: realidades expandidas (também pela Terracota Editora), uma seleção de vinte e um contos dos seis números do Projeto Portal, com trabalhos de Roberto Sousa Causo, Fábio Fernandes, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Laura Fuentes, Brontops Baruq, Claudio Brites, Ana Cristina Rodrigues, Petê Rissatti, Ricardo Delfin entre outros.

O triste é saber que esses dois livros estão esgotados, idem os números dos Portais, podendo apenas ser encontrados com muita sorte em sebos. Quem sabe alguma editora esperta se interesse por relançá-los, uma vez que fazem parte da história da ficção científica brasileira contemporânea.

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Nanete Neves é jornalista e escritora, autora de De âmbar e trigo, entre outras obras.

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As Quimeras da Guerra

As Quimeras da Guerra

Ricardo A. S. Santos
Editora PenDragon
440 páginas
Lançado em 2017

Como será a humanidade no ano de 2139? Quais serão os seus hábitos, sua cultura, sua forma de vida? Segundo Ricardo A. S. Santos no livro de ficção científica com salpicadas de terror As Quimeras da Guerra, os humanos tradicionais estarão condenados. A menos que você possua um bom rifle de plasma, sua vida vai se tornar uma fuga de abrigo em abrigo para se proteger dos monstros mutantes que se multiplicaram sem controle. Isso caso você já não tenha se tornado mais um deles, obviamente.

A história trata das consequências de uma guerra nuclear que no ano de 2098 devastou o mundo que nós conhecemos. A radiação se espalhou globalmente e se os contaminados não morrem pela sua ação, na maioria das vezes passam por mutações gritantes que os transformam em seres corpulentos e animalescos. Além de ficarem com uma marcante vontade de saborear carne humana.

Contudo, as explicações dessas contaminações ainda são muito sombrias. Principalmente porque, após 2098, o conceito de nação perdeu muito do seu valor logo que o exército se uniu em escala mundial para se tornar a mais importante instituição a governar a humanidade. Afinal, são eles que constituíram as bases onde os humanos podem viver com algum sossego graças à vigilância contra a invasão de hordas de monstros famintos. Estaria o exército realizando experiências premeditadas para aumentar o seu poder? Estaria criando mutantes mais avançados para manter a população cada vez mais acuada e dependente de uma milagrosa instituição protetora que produz o veneno para depois se vangloriar por criar o próprio antídoto?

Fato é que as feras estão evoluindo prodigiosamente. Essas novas espécies estão com cada vez mais força, agilidade e até a capacidade de regeneração de membros perdidos. E a esperança da população não está no exército e em suas ações duvidosas, mas num pequeno grupo rebelde que, mesmo com escassos recursos, vem atingindo importantes vitórias: são os chamados Dogs, que possuem como principal expoente o sargento ex-líder do pelotão da morte dos Coveiros, Marcus Sedric.

Marcus é um guerreiro que perdeu os pais ainda criança para a luta contra os monstros. Foi então que decidiu se alistar para o treinamento militar a fim de se tornar capaz de cumprir sua vingança pessoal contra essas aberrações. Isso o fez um líder frio, sem piedade. Até psicopata.

Afinal, Marcus não tem muita noção se suas atitudes auxiliam ou atrapalham a população. Mas o rapaz nem se preocupa com isso: ele segue seu próprio senso de justiça, simplesmente obedece aos seus instintos. Seu destino é guerrear e todos os seus sentidos se desenvolvem para isso. Mas as Quimeras da Guerra sabem bem o que fazem. Nada acontece por acaso. Não existem coincidências uma vez que as Quimeras é que oferecem o caminho e os recursos para que seus indicados cumpram uma missão ainda maior.

Num mundo distópico repleto de batalhas, propício ao desenvolvimento de personagens, o primeiro livro de Ricardo A. S. Santos nutre-se do interesse do autor por sagas japonesas como Dragon Ball, Gantz e Berserk para nos transportar ao coração de uma sociedade caótica em que matar se torna essencial para sobreviver.

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Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.

B9

B9

Simone Saueressig
Editora Clube de Autores
316 páginas
Lançado em 2011

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul.

O romance B9 mostra uma nave de gerações chamada NCA 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave atinge um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave.

O palco para um bom romance hard de FC já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de B9. Mas quem é B9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comuns em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semiabandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando até mesmo sua morte. E assim nasce B9, nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.

Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a NCA para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente B9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Conduzida tanto pelo comandante quanto por sua neta, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é se possível tentar resgatá-lo.

O romance é intenso e com muito movimento. De saída chama a atenção, em suas primeiras páginas, a objetividade e o poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas esse é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.

Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere essas questões como leitmotiv da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges / B9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague a dor e a vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.

O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso, que sabem como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.

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Marcello Simão Branco é pesquisador de ficção científica e coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque de Arte Fantástica Brasileira. ]

QUAD 1

Quad

Diego Sanchez, Aluísio C. Santos, Eduardo Schaal e Eduardo Ferigato
Quad Comics
116 páginas
Lançado em 2013

Quadrinhos não são o foco principal do blogue Ficção Científica Brasileira, mas consegui convencer o Luiz Bras de que este excelente trabalho coletivo merecia um pouco mais da atenção de nossos leitores.

No final do século 21, o evento conhecido como A Tempestade eliminou toda a tecnologia do planeta e causou severas alterações climáticas. Nações deixaram de existir e a telecomunicação tornou-se passado. Os sobreviventes herdaram um ambiente inóspito, alguns fundando novas sociedades, outros buscando o isolamento. As quatro Naves-Arca, enviadas aos confins da galáxia por uma coalizão global de cientistas antes do cataclismo, fundaram colônias que agora vasculham o espaço a procura de um novo lar para a humanidade.

QUAD é uma antologia de quadrinhos financiada coletivamente através da plataforma Catarse, idealizada por Diego Sanchez, Aluísio Cervelle Santos, Eduardo Schaal e Eduardo Ferigato. As histórias são independentes, mas compartilham o mesmo universo ficcional pós-apocalíptico.

Em Terah & Elvis, de Schaal, uma técnica em manutenção é contratada para realizar um trabalho em uma região hostil, a Zona Sete. Terah e seu gato Elvis enfrentam mutados e a desolação para realizar reparos para uma cliente suspeita.

Santos apresenta ESP-Tret sobre um androide exorcista de softwares paranormais que investiga a violação das Três Leis da Robótica de Isaac Asimov, resultando na morte de duzentas pessoas, causada por construtores mecanizados na metrópole FZ-402, de onde ninguém entra e ninguém sai e a maioria dos humanos é castrada para manter o controle populacional.

Eko é um trabalhador em uma cidade regida por robôs em Muros, de Sanchez, onde a vida é dominada pela monotonia e a única ocupação é o trabalho. Ao encontrar uma gangue de motoqueiros conhecidos como os Lixeiros, ele tem o primeiro contato com o conceito de liberdade. A edição fecha com Sally, de Ferigato. A Explorer 202 está presa em um sistema solar distante devido a danos no sistema de dobra. O capitão Lucas e o imediato R. Daniel encontram em um planeta desconhecido os destroços de um cargueiro que pode conter as peças necessárias para o reparo de sua nave.

O projeto QUAD foi lançado no Catarse em 2013 e logo se tornou um sucesso de arrecadação. A meta de quinze mil reais foi ultrapassada, atingindo o impressionante valor de vinte e seis mil reais, oferecidos por quase seiscentos colaboradores. Outras duas edições foram financiadas entre 2014 e 2015, explorando os personagens e seu fascinante universo. Ainda foi lançado pelo selo Quad Comics o quadrinho Svalbard (2016) de Diego Sanchez, com uma história dos Lixeiros.

O volume ainda traz uma galeria com artes de André Toma, Marcelo Braga, Octavio Cariello, Roger Cruz, Julia Bax, Marcelo Campos e Mateus Santolouco.

As HQs da Quad Comics podem ser encontradas aqui.

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Ricardo Delfin é escritor, roteirista e – até onde se sabe – terráqueo.

Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Sozinho no deserto extremo

Sozinho no deserto extremo

Luiz Bras
Editora Prumo
320 páginas
Lançado em 2012

A despeito dos que sofrem de misantropia, viemos ao mundo para viver em sociedade. Nada somos sem o outro para nos descobrir. Se em nossa existência aprendemos realmente a conviver, é outra questão. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. E esse labiríntico estado psicológico causado, entre outras coisas, pela solidão, é a premissa de Luiz Bras em seu romance Sozinho no deserto extremo.

Nessa grande obra, o autor nos presenteia com um enredo alucinado, em que o espetáculo da loucura é a melhor companhia para o leitor.

Sozinho no deserto extremo surpreende. Especialmente por tratar a ficção científica com a seriedade que merece. Luiz Bras exercita o gênero com o cuidado e a sabedoria de quem não só conhece o ofício da escrita, mas da literatura. Tanto que o livro não se parece com um desses clichês. O conceito de Matrix, por exemplo, está mais dentro do que fora da personagem.

Davi – propositadamente o estereótipo da maioria de nós –, certa manhã se vê sozinho no mundo. Ao acordar, é invadido pela realidade do nada. Onde, todos? Mulher, filhos, vizinhos do prédio, da rua, da São Paulo inteira. Onde? Aqueles que um dia existiram se foram. O deserto que tem o caos como paisagem invadiu o universo de Davi.

Ao despertar num admirável mundo novo tudo está à disposição do protagonista, basta pegar e aproveitar. A vida realmente parece perfeita, vista por esse prisma. Será bela, a solidão? Por estar sozinho no mundo, Davi dispõe de tudo, a qualquer hora. E pode ir a qualquer lugar sem ser incomodado por ninguém. Assim, passado o susto de se ver sozinho, Davi faz exatamente igual ao personagem de Ray Bradbury, abandonado em Marte: perambula pela cidade e aproveita. O mundo é todo seu. As pessoas se foram. Restaram apenas montinhos de roupas pelo chão.

No entanto, o importante não é descobrir como todos sumiram. O mais contundente é acompanhar a trajetória de Davi e observar o poder aterrador da solidão. Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo, descansou. E no oitavo dia (que é o primeiro dia na obra de Luiz) a solidão começou a mostrar seu lado irascível, preparando-se para exterminar tudo o que foi feito.

Para matar a solidão, é preciso estar acompanhado. E uma batalha precisa ter propósitos. Não é sem razão que Davi, sozinho no deserto extremo, encontra companhia e motivos para guerrear.

Um telefonema. Depois mais. Uma mulher do outro lado da linha. Se é verdade ou imaginação de Davi, o leitor descobrirá. De todo modo, o protagonista se vê num dilema: ser um herói ou um covarde? A mulher precisa ser salva. Valerá a pena? Será ela merecedora? Existe a mulher perfeita, capaz de arrancar o homem de sua raiz com o intuito de salvá-la?

A mulher perfeita para Davi não é a do telefone. É Graça, sua amante. Graça, a boneca inflável que o acompanharia nos bons e nos maus momentos. Apesar disso (Adão e Eva – Davi e Graça), o mundo não se faz somente com um homem e uma mulher. A menina-santa, uma garota de dez anos que é encontrada brincando com um vibrador no sex shop, também povoa a solidão de Davi e se torna a razão maior de sua batalha contra os perseguidores.

Mas, afinal, quem são essas pessoas? Seriam tão-somente fruto do delírio solitário? Só há um jeito de você saber: ficar acompanhado de Sozinho no deserto extremo.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Germina. ]

Fome

Fome

Tibor Moricz
Tarja Editorial
128 páginas
Lançado em 2008

Imagine um mundo devastado por uma guerra ou uma catástrofe de proporções gigantescas. Um mundo onde não há mais ordem, governo, civilização. E principalmente onde não há mais comida. Acredite, esse mundo não é tão fácil de se imaginar. E, mesmo se você conseguir, vai ser difícil imaginar um mundo tão chocante quanto o que Tibor Moricz criou.

Fome é um fix-up, um conjunto de contos que podem ser lidos separadamente, mas se relacionam durante a leitura. Em cada um dos quinze contos apresentados, o autor nos mostra cenas diferentes de uma cidade devastada pela guerra e pela doença. Simplesmente não há mais alimento disponível, e as pessoas passam então a ter que se virar como podem.

Esse “se virar como podem” significa que o ser humano deixou de se importar com as relações familiares ou de amizade. O próximo passa a ser um concorrente pelo alimento, ou na maioria dos casos o próprio alimento. Quando a fome aperta, vale tudo: papel, terra, insetos e, é claro, outras pessoas.

Cada um dos contos-capítulos mostra um personagem diferente. Há o caçador, que sai diariamente em busca do alimento e é impulsionado pela adrenalina de matar outras pessoas. Há o erudito, que alimenta corpo e mente com o papel de grandes clássicos da literatura. Há a sedutora, que usa o que restou de beleza para atrair os homens. O renitente, que insiste em não comer carne humana, mesmo sabendo que não existe outra saída. O demente, que não sabe mais o que é real ou ilusão. Os que atacam em bando. Os que se defendem em bando. E os religiosos: pregadores, messias e salvadores, que usam o temor dos homens em benefício próprio.

A descrição que o autor faz de cada um desses personagens é fantástica. Seus medos e sentimentos são expostos de maneira chocante e assustadora.

Conversando certa vez com Tibor, ele contou que a ideia para escrever Fome veio do conto O caçador, o primeiro do livro, e um dos melhores. Essa narrativa é muito forte, e deixou o autor tão impressionado a ponto de sonhar com o que tinha escrito e na manhã seguinte concluir que ainda havia muito mais a ser explorado a partir do mesmo tema.

Não vou fazer um resumo de todos os contos, mas posso mencionar os meus preferidos:

O caçador: o conto é realmente chocante, talvez por ser o primeiro e já nos jogar nesse mundo maluco. A frieza do caçador é assustadora, e o final é surpreendente. Eu não esperava um livro tão forte e violento, e essa narrativa é uma boa amostra do que está por vir.

O pregador: gosto do apelo religioso desse conto. O discurso do pregador convence e mostra que o ser humano muitas vezes só escuta o que lhe interessa.

O obsessivo: dá para imaginar um sujeito metódico e cheio de manias vivendo num mundo assim? Pode apostar que dá.

O prisioneiro: medo e terror. É isso o que sente quem sabe que está perto da morte. O protagonista desse conto sabe que vai morrer logo, mas não sabe quando, nem como. Mas sabe que vai morrer. E ainda assim, apesar do medo, sente conforto ao crer em algo superior.

A matilha: uma verdadeira guerra de gangues entre dois grupos de caçadores. Muito sangue e violência.

O messias: no meio da sangrenta batalha entre dois grupos de caçadores, surge o messias trazendo promessas de uma vida melhor. Acredita quem quer.

Fome é um livro muito bom, muito bem escrito, mas é um livro forte. Assim como os protagonistas de cada conto, o leitor precisa ter um estômago resistente. Ao final da leitura, carne rasgada com os próprios dentes, sangue para matar a sede, nervos e músculos sendo devorados com apetite, tudo isso passa a ser coisa normal.

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Daniel Borba é ficcionista e resenhista, tendo participado da coletânea Nevermore e organizado a coletânea 2013: Ano Um, com Alícia Azevedo.

[ Resenha publicada originalmente no blogue Além das estrelas. ]