A telepatia são os outros

A telepatia são os outros

Ana Rüsche
Monomito Editorial
120 páginas
Lançado em 2019

A ficção científica é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro, é verdade, mas também é verdade que essa não é a sua principal função. Sua principal função é puramente estética, ou seja, a mesma de qualquer outra criação literária e artística. Apesar disso, ó meus irmãos, verificar nas obras-primas da FC seus acertos futurológicos não é realmente um passatempo superdivertido? E, se prestarmos bastante atenção, não há uma só tecnologia moderna − da bomba atômica à world wide web, da engenharia genética à inteligência artificial − que não tenha sido prevista pela FC.

De tudo o que as obras de ficção científica previram, mas ainda não se realizaram − por ofender as leis da física (viagem no tempo e teletransporte) ou por falta de oportunidade (civilização alienígena e colonização de Marte) −, atualmente me interessam sobremaneira o upload mental e a telepatia. Das duas tecnologias, o upload mental foi a que mais atenção recebeu dos autores talentosos, nesses duzentos anos de FC moderna. Menos comum, a comunicação direta e à distância entre duas ou mais mentes, batizada pelo consenso de telepatia, surgiu primeiro em contos obscuros dos anos 50 − segundo o saite Technovelgy − e depois esporadicamente na obra de Philip K. Dick e em alguns mangás cyberpunks, tipo Ghost in the shell. Mas nunca na condição de protagonista. E esse foi o primeiro grande acerto do romance breve de Ana Rüsche: trazer a telepatia para o centro do palco brasuca.

O segundo grande acerto foi desvincular a origem da telepatia de qualquer avançada tecnologia eletrônica. No romance, a telepatia é uma tecnologia orgânica, de origem vegetal. É um fermentado ancestral de sabor forte e enjoativo, que as camponesas do Chile preparam secretamente há séculos. Essa escolha literária intensificou na trama a mitologia dos povos ameríndios, reivindicando pra si parte do protagonismo do conceito de brain-net, esse mais novo clichê da FC anglófona. Não é por acaso que o conflito que impulsiona a narrativa − e pega de surpresa a brasileira Irene − acontece justamente no mitológico Chile, primeiro numa esotérica comunidade rural, depois na frenética e cosmopolita Santiago.

A tecnologia eletrônica entra na segunda etapa da história, quando Irene e os novos amigos já estão treinados na arte da telepatia, mas em pequena escala. O objetivo agora é expandir a capacidade humana de comunicação mental, transformando-a, com a ajuda da internet, numa atividade planetária. Nem todos são a favor dessa disseminação global. Porém um empresário ianque roubou a fórmula do fermentado, tempos atrás, a fim de patenteá-la, tornando inevitável a corrida pela conexão mente-bebida-internet.

Visto que a ficção científica ainda é um território predominantemente masculino − e machista −, também gostei de encontrar, nessa narrativa escrita por uma mulher, personagens femininas fortes e carismáticas. Os três personagens masculinos, por outro lado, são um ladrão ianque, um amigo vingativo e um amigo boa-praça mas impotente (não no sentido sexual, mas de alguém que não consegue se conectar telepaticamente). Aliás, neste livro breve, tão importante quanto o enredo (substantivo masculino) é a linguagem (substantivo feminino) que expande a subjetividade-fêmea do texto e da telepatia. Recursos da melhor prosa modernista, emprestados da poesia primeiramente pelos grandes ficcionistas do século 20, fortalecem a narrativa, criando uma atmosfera onírica, às vezes fantasmagórica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.