Piscina Livre & Amorquia

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Piscina Livre
André Carneiro

Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Amorquia
André Carneiro

Editora Aleph
200 páginas
Lançado em 1991

Da mesma maneira que só é possível dissertar sobre a felicidade quando não estamos embriagados de felicidade, só é possível dissertar sobre a utopia quando não estamos embriagados de utopia.

A felicidade é um fluxo fugaz. Quem está feliz não tem consciência de que está feliz, pois a consciência de algo exige racionalização. E a felicidade − tanto quanto o orgasmo − é pura sensação, uma experiência avessa a qualquer tipo de racionalização. Que só será possível mais tarde, quando o breve orgasmo da felicidade já começar a se dissipar.

A utopia erótica pensada por André Carneiro, apresentada em vários contos mas detalhada principalmente nos romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991), produz uma desconforto fascinante em nós que nunca tivemos a oportunidade de viver numa utopia. O desconforto de saber que a felicidade social e individual só será possível numa sociedade sem liberdade.

A utopia erótica pensada por André Carneiro só se mantém no prumo porque dispõe de eficientes mecanismos de controle social, aperfeiçoados com a ajuda de uma entidade todo-poderosa chamada Computador Central, substituta tecnológica do nosso enigmático Deus, mas igualmente enigmática.

Em Piscina livre e Amorquia temos uma sociedade hedonista que vive intensamente sua sexualidade exuberante, sem qualquer restrição moral ou religiosa. Boa parte da alta tecnologia foi desenvolvida pra atender os protocolos do poliamor e do pansexualismo. Os tabus sexuais de nossa sociedade foram abolidos, são coisa do passado, de gente infeliz e ignorante.

Não há qualquer impedimento afetivo ou jurídico: todos fazem amor com todos, porque aprenderam muito cedo que o desejo só não degenera quando é totalmente livre. Essa é a suprema felicidade social: o fim do casamento e da tradição monogâmica.

Crianças e adolescentes aprendem na escola as técnicas mais sutis do amor físico. A arte e a religião louvam a beleza estética e esotérica da cópula. Em Piscina livre, para o uso exclusivo principalmente das mulheres foram criados os atenciosos androides sexuais, que dominam todas as técnicas da sedução e do prazer. Em Amorquia, a morte é um fenômeno quase desconhecido, a pessoas vivem indefinidamente − apenas para os jogos sexuais.

É bom lembrar que não estamos falando de romances eróticos ou pornográficos, porque não há nada de libertino ou lascivo nessas narrativas futuristas. Onde não há interdição jamais haverá devassidão. A luxúria muito bem administrada dos personagens não ultrapassa os limites do mundo ficcional. São romances filosóficos, que propõem uma reflexão refinada e objetiva, livre de (nossos) preconceitos.

André Carneiro propõe que a humanidade só encontrará a sanidade física e mental quando deixar de combater o mais potente de todos os impulsos biológicos. Porém o autor introduz em sua fórmula da felicidade um elemento inaceitável pra qualquer defensor da democracia liberal e das liberdades civis: o Computador Central, uma entidade paternalista, onisciente e onipresente, que administra cada detalhe da utopia.

Qual sociedade é a melhor: a utopia erótica, caracterizada pelo bem-estar social e individual numa sociedade sem liberdade, ou a nossa, caracterizada pelo mal-estar social e individual numa sociedade com algumas liberdades? Essa é a grande questão apresentada pelos dois romances. Questão complexa, que os apressadinhos tratam de responder apressadamente, sem muita reflexão.

Os apressadinhos rapidamente consideram uma sociedade pautada pela felicidade-sem-liberdade uma distopia. Ou, na melhor das hipóteses, uma utopia triste. É o que dizem há décadas, por exemplo, da sociedade de castas bem-adaptadas e felizes apresentada no romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Nossa sociedade fracassou e continua fracassando ao lidar com nossos apetites e nossos demônios íntimos. Basta ver a quantidade absurda de psicopatas e sociopatas, tribunais e prisões, massacres locais e guerras mundiais. Mesmo assim, os apressadinhos rapidamente condenam, nas utopias futuras, a liberdade sexual e o uso de drogas perfeitas − soma (Admirável mundo novo) e mep-14 (Piscina livre) − que anulam a tristeza e a depressão, sem qualquer efeito colateral.

Pois saibam que se pudesse escolher, eu preferiria mil vezes ser um ípsilon bem adaptado e feliz, vivendo entre ípsilons bem adaptados e felizes, num Estado Mundial futuro, do que continuar sendo um (escritor) brasileiro mal adaptado e infeliz, vivendo entre (escritores) brasileiros mal adaptados e infelizes, com algumas poucas liberdades civis. Toda a corja política que vem nos (des)governando desde as capitanias hereditárias não vale dez por cento do Computador Central.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Piscina Livre

Piscina livre

André Carneiro
Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Publicado pouco antes da organização do movimento que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira, Piscina Livre apresenta características marcantes da proposta literária da onda na qual Carneiro se insere.

A começar pela apresentação formal do texto que, numa ousadia modernista, não observa os convencionais recuos dos parágrafos. Não se trata de um erro editorial, uma vez que tanto o autor quanto a editora tinham muita experiência na publicação de livros. A apresentação é proposital, mas surpreende os leitores acostumados aos textos da Segunda Onda, que tiveram uma postura conservadora em relação à forma e ao estilo, com pouca ou nenhuma experimentação nesse aspecto.

Também na prosa, Piscina Livre tem um toque de elegância e uma ousadia técnica pouco comuns na FCB, características que fizeram valer os elogios que o autor recebeu e ainda recebe de editores, leitores e teóricos.

O mundo desse romance é habitado por pessoas felizes e frívolas, que vivem em cidades confortáveis, ilhas de urbanidade cercadas pela natureza selvagem. A Piscina Livre é uma casa de prostituição, onde as mulheres encontram exemplares masculinos geneticamente desenvolvidos para o sexo. São os andrs, homens artificiais que não têm direitos de cidadão. O termo piscina livre refere-se à sua vitrine, que é um enorme aquário no qual andrs nus exibem-se para a clientela num erótico balé subaquático. Em nenhum momento o romance sugere que existam andrs fêmeas e, com efeito, o discurso feminista de Carneiro, presente em muitas de suas obras, aqui condena explicitamente a prostituição feminina.

A sociedade não vê a Piscina Livre como uma atividade moralmente condenável, ao contrário. Trata-se de um lugar elegante e bem frequentado, no qual as mais destacadas mulheres da sociedade encontram complementos para sua satisfação sexual, inclusive um gorila muito requisitado. De fato, essa comunidade futura trocou as religiões pelo sexo, que é praticado livremente por homens e mulheres de todas as idades, até crianças. O prazer erótico é a linha guia da sociedade, ensinado nas escolas por especialistas, com uma infinidade de práticas variantes. Não há ciúme ou vergonha e todos desfrutam de liberdade sexual absoluta.

Os andrs, contudo, não são felizes. Anseiam pela liberdade e buscam por ela fugindo para a selva, principalmente quando, depois de algum acidente, apresentam defeitos ou aleijumes. Os fugitivos acabam servindo como caça desportiva para homens que se divertem matando-os com rifles elétricos.

Nesse cenário, encontramos um casal jovem que, no princípio da narrativa, chamam-se Blanche e Kratz. Esses nomes não duram muito além das páginas iniciais, pois os cidadãos usam braceletes identificadores que lhes mudam o nome todos os dias. O que poderia tornar-se uma confusão é tratado de forma segura pelo autor e em momento algum o leitor perde a identidade dos personagens.

Apesar de ter uma vida confortável, Blanche não está plenamente feliz, embora não saiba disso. Em uma visita à Piscina Livre, ela desfruta do andrs Several (ao contrário dos cidadãos livres, os andrs nunca mudam de nome). Na Piscina Livre, a seleção dos andrs é aleatória, mas Blanche − que a essa altura já não se chama mais assim – desenvolve uma fixação por ele. Kratz não se importa que Blanche tenha relações com outros homens, sejam eles andrs ou cidadãos, mas fica abalado quando desconfia que ela entabula diálogos lógicos com Several, uma vez que considera os andrs mentalmente inferiores.

Conforme Blanche estreita seu relacionamento com Several, Kratz fica cada vez mais abalado emocionalmente, e isso vai levá-lo a adotar medidas drásticas na tentativa de recuperar o seu amor. Sendo conselheiro da cidade, Kratz dispõe de algum poder, e o que se segue é nada menos que um holocausto.

Interessante notar o final anticlimático da trama, depois do torvelinho de situações de crime e tragédia.

O moralismo que caracteriza o genoma da ficção científica internacional mais bem-sucedida não encontra eco em Piscina Livre, que, na mais pura tradição tupiniquim, termina literalmente em pizza, sem culpa ou punição. Desse modo, o autor deixa a conclusão aberta ao leitor: trata-se de uma alegoria à impunidade que assola o país; de uma parábola para o perdão cristão; de uma proposta para a redenção espiritual através do sexo ou de outras infinitas abordagens que se possa perceber.

Piscina Livre define um modelo pouco explorado de ficção científica, que exige do autor uma ampla capacidade abstrativa e estilística, além de uma maturidade moral e filosófica capaz de lidar com o tema do sexo sem cair no escracho, no machismo ou na grosseria. Autores com essa capacidade geralmente preferem não escrever FC, enquanto os autores de FC de alguma qualidade não ousam tocar nesses assuntos, por uma questão de protocolo do gênero. Ainda bem que tivemos a ventura de ter André Carneiro na ficção científica brasileira.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

Diário da nave perdida

Diário da nave perdida

André Carneiro
Editora EdArt
216 páginas
Lançado em 1963

Mais de cinco décadas após seu lançamento, a primeira coletânea de contos de André Carneiro continua aguardando a segunda edição. Consegui meu exemplar amarelado e malcheiroso há poucas semanas na Estante Virtual. Não custou caro, apesar da raridade. Não há dúvida de que foi sorte.

O volume reúne oito narrativas. Cinco de ficção científica: Zinga, o robô, Noite de amor na galáxia, O começo do fim, A prostituta e Diário da nave perdida. Três de ficção fantástica: A organização do doutor Labuzze, O homem que hipnotizava e A escuridão. (Minha definição particular de ficção fantástica, sobrenatural e científica pode ser conferida em Ficção fantástica: notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças.)

Não existe ponto baixo nesse livro. O conto mais fraco do conjunto, Zinga, o robô, justamente o primeiro da sequência, apesar de datado, é uma divertida sátira de costumes. Nele um pai de família compra pra esposa, em prestações, um serviçal de metal e plástico. Mas é claro que, interpretando literalmente os comandos − cheios de imprecisões − da patroa, a máquina quase põe a casa abaixo. No final tudo se resolve, como numa sitcom convencional.

Os melhores contos são, de um lado, os que expressam a angústia paranoica tão potente e tão presente na obra literária de André Carneiro e, de outro lado, os que expõem a insatisfação do indivíduo com seu contexto sempre insuficiente.

Em A organização do doutor Labuzze e O começo do fim, os protagonistas relatam por escrito − forma muito usada pela Velha Guarda do sobrenatural, do fantástico e da ficção científica pra conferir autenticidade aos fenômenos testemunhados − a experiência insólita que vivenciaram. A realidade modifica-se, mas a verdade insiste em se esconder, forçando os heróis (?) a lidar com a dúvida sufocante.

Em O homem que hipnotizava e Diário da nave perdida os protagonistas relatam seu desacordo com as regras do jogo social. Aceitar pacificamente a realidade imposta pelo sistema deixa de ser uma boa opção quando a possibilidade de mudança ganha força. No primeiro caso, por meio da auto-hipnose, que aperfeiçoa tudo ao redor, até mesmo a aparência das pessoas. No segundo, devido ao desligamento acidental da bolha civilizatória de uma espaçonave avariada. Subtexto psicanalítico: certos impulsos cuidadosamente domesticados sempre escapam da jaula quando o carcereiro tira um cochilo.

Fora da esfera da angústia paranoica e da subversão das normas sociais, o excêntrico Noite de amor na galáxia (péssimo título para um ótimo miniconto) e o naturalista (calma, estou pensando em Émile Zola) A prostituta tratam de outro tema recorrente na ficção do autor: o sexo.

Também está nesse volume inaugural o conto mais festejado de André Carneiro, A escuridão, sobre um fenômeno sem explicação, que rouba vagarosamente a luminosidade do sol e das estrelas, e de qualquer coisa que emita luz, fagulha e calor luminoso. O planeta fica às escuras. O fogo e a eletricidade deixam de aquecer a água e os alimentos.

Excelente exemplo de nossa ficção fantástica, esse conto já foi acolhido em antologias daqui e do exterior.

O que estaria provocando a escuridão? O narrador e os personagens hesitam entre três ou quatro suposições divergentes, físicas e metafísicas, sem chegar a uma conclusão definitiva, e é essa hesitação que caracteriza a boa ficção fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Amorquia

amorquia

André Carneiro
Editora Aleph
200 páginas
Lançado em 1991

O quase esquecido Antônio Fraga, autor do iconoclasta Desabrigo, lançado em 1945, colocou na boca de uma de suas personagens mais interessantes − a Ana Tereza do miniconto Equívocos ou A natureza de Ana Tereza, de 1946 − a seguinte consideração: “Complexo de Édipo é besteira, papai. A única razão que encontraram pra justificar o repúdio aos amores consangüíneos é mendeliana: filhos hereditariamente monstruosos.” Logo vem a conclusão óbvia: em nossa época, Édipo, munido de um preservativo ou um anticoncepcional, poderia amar sem culpa qualquer parenta: mãe, irmã, tia, sobrinha…

Sempre me lembro dessa passagem, quando penso no igualmente transgressor Amorquia, do mestre André Carneiro. Publicada em 1991, essa utopia anarco-erótica, sobre uma sociedade futura em que a morte e o trabalho foram abolidos, e a dedicação total às sutilezas do sexo representa o grau máximo de civilidade e civilização, é um dos melhores romances brasileiros dos anos 90. Tão importante quanto o cultuado Não verás país nenhum, da década anterior.

Em Amorquia, André Carneiro oferece um narrador em terceira pessoa descomplicado, que simplesmente registra, de maneira transparente e objetiva, o que viu e ouviu dos personagens. Mas esse narrador impessoal habita um sistema complexo: o contraponto, também chamado de polifonia. O romance é feito de dezenas de capítulos curtos e a maioria são quase minicontos autônomos. Esses capítulos reúnem-se em poucos núcleos de personagens (aparentemente) imortais. Por ordem de entrada: Túnia, Pércus, Karlow, Marta, Játera, Philte e Philomene.

Na sociedade hedonista de Amorquia as crianças têm aulas de prática sexual desde pequenas e a religião reforça o tempo todo, de modo até agressivo, o sentido sagrado do prazer carnal. Além da morte e do trabalho, também foram abolidos o amor, o casamento e a fidelidade. Semelhante ao Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, a promiscuidade (anarquia amorosa) é a regra. Todos transam sistematicamente com todos, em duplas, trios ou grupos, sem se importarem com qualquer laço de sangue.

O toque de humor fica por conta da inversão dos papeis: agora as mulheres são as caçadoras insaciáveis, enquanto os homens se queixam da cobrança absurda que a nova cultura impõe, de fazer sexo várias vezes por dia. Essa ditadura da vagina (expressão de um dos personagens, Karlow) cria muitos momentos de tensão.

Reforçando a polifonia, há certos capítulos aparentemente desconectados da trama principal, que abrem uma brecha nessa realidade futura, levando o leitor a outro tempo e espaço. São capítulos que citam livros bastante conhecidos (O antigo testamento, Robinson Crusoé, Teresa filósofa) ou voltam no tempo (Idade Média, Renascimento, anos 60) pra avaliar como a morte e o sexo eram encarados em outras sociedades.

O narrador do romance é descomplicado e transparente, mas não sabe tudo. A onisciência não é seu ponto forte. Caráter marcado pela crise modernista da epistemologia, ele sabe tanto quanto os personagens e o leitor. A trama é cheia de elipses e segredos, cuja soma revela, mais para o final, a sombra perversa da distopia (tortura, corrupção, morte) no coração da utopia (imortalidade, prazer, sabedoria).

O desenlace é puro André Carneiro: surpreendente, lírico, subjetivo, hermético, ao mesmo tempo belo e terrível. Tudo isso faz de Amorquia um clássico não apenas de nossa ficção científica, mas da literatura brasileira.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.