Não chore

Não chore

Luiz Bras
Editora Patuá
152 páginas
Lançado em 2016

É a lei do mais forte: não sendo capaz de resolver por si só os problemas que ele mesmo cria, o Estado transfere o fardo para a população em massa arcar com suas inerentes ingerências. Isso pode se dar no âmbito econômico, social, legal, cultural ou em qualquer outro. Os atores dominantes e dominados desse cenário também podem ser substituídos por muitos outros diferentes. O que não muda é a relação de imposição por bem ou por mal que flui como osmose do menos para o mais concentrado. É essa questão que é trabalhada além dos seus limites imagináveis no livro Não chore, de Luiz Bras.

Não se engane: não há personagens ou cenários centrais na história. Não há mocinhos ou vilões para se agarrar com unhas e dentes. Tudo é transitório, nada é muito exato. O Estado totalitário não entende o seu próprio sistema, então o povo acha que entende e só se perde mais na maionese. Desse jeito só quem vai se espalhando de verdade é o caos em ascensão:

Alô, Yasmine?
Primeira surpresa: a voz que atende o smartphone não é de Yasmine, é de sua filha.
Só um minuto, vou chamar minha mãe, a voz diz.
Mas a amiga não tem filhos…
Passam mil minutos, dez mil minutos, Yasmine atende, Jamil dá as boas-vindas, a mulher pergunta quem está falando.
Segunda surpresa: Yasmine não conhece Jamil algum. (pág.19)

Alguém está alterando a realidade. Pequenas mudanças agora, que geram colossais mudanças futuras. Como saber que alguma coisa mudou? Se hoje você tem olhos castanhos, como ter certeza de que ontem você não tinha olhos azuis? Uma reprogramação qualquer já basta. Inserções de memória nem deixariam você acreditar que já tivesse ostentado olhos claros algum dia, assim como seria muito simples você acreditar que é um elefante caso de repente esteja no corpo de um. O passado é modelável, o futuro é o que interessa. Mas interessa para quem?

O governo poderia ser uma boa resposta a essa questão. Afinal, quando o assunto é controle, o pessoal do poder se superou com o investimento em um reality show de tortura contra presidiários. Não há passatempo melhor para a família tradicional brasileira do que assistir a uma boa dose de pancadas em um marginal sem-vergonha, sem-educação, sem-saúde, sem-transporte. A sociedade adora ver a justiça sendo cumprida. Ainda mais quando o sangue da vingança escorre fresco pelos seus dedos calejados de tanto bater. Mas quem aplaude de verdade é o Estado, que, não se contentando em criar toda a torpe estrutura para a formação de marginais em massa, no final ainda paga de herói por destruir o monstro que ele mesmo originou.

Todavia, eu sinto informar: nem o Estado é capaz de controlar tudo. Também o governo está sendo feito de bobo. É só observar o estranho fenômeno que vem ocorrendo sem o seu pleno consentimento: pessoas de carne e osso (inclusive as da classe média-alta para cima) estão simplesmente desvanecendo no ar num piscar de olhos. Piscou, sumiu, pronto. Mas não precisa se desesperar, não são todas, não. Dizem as boas e as más línguas que isso só acontece com as pessoas que choram. Por isso é preciso ficar muito atento aos seus sentimentos. O amor salva, mas a paixão mata.

O problema é que tudo isso estava fora da equação inicial: se essa pandemia não estava planejada, quem foi que a programou? Se o governo transforma o mundo todo em um presídio sem que a população perceba, por que também não pode ser manipulado por algo maior e não se dar conta das grades intransponíveis que o aprisionam?

Quem é a variável da equação de quem? Quem é o ratinho no labirinto de quem? Cadê o gerente dessa espelunca toda? As perguntas se multiplicam e mais infinitas se tornam as possibilidades. Mas uma certeza dá para ter na história de Luiz Bras: quem está cuidando dessa angustiante bagunça sabe bem o que está fazendo. Ou pelo menos deve imaginar saber.

Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.

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A era i-Racional

A era i-Racional

Leandro Dupré Cardoso
Editora Clube de Autores
328 páginas
Lançado em 2014

Você já imaginou se, depois de um leve momento de distração, tudo aquilo que você conhecesse e possuísse (e até mesmo fosse) simplesmente desaparecesse, de um trato? É sobre essa inquietante quebra de estrutura de que trata o romance A era i-Racional, do jovem escritor de ficção científica Leandro Dupré Cardoso.

A livro narra a história de Humberto, um pai de família comum: esposa, dois filhos, um bom emprego. Nada de especial. A não ser pelo seu próprio nome: Humberto provém originalmente do antigo dialeto germânico e significa algo como “homem de inteligência brilhante”. E é essa capacidade cerebral que irá transformá-lo no principal entrave (ou na principal solução?) para a revolução prestes a eclodir.

Enquanto passeia despreocupadamente com a família por um parque de diversões, Humberto adentra uma misteriosa atração, o Labirinto da Cavalgada de Hélio. Tomado pela curiosidade de percorrer os seus mágicos corredores, o homem se embrenha demais por caminhos já naturalmente emaranhados. Enrosca-se na teia da aranha. Humberto desmaia dentro da atração. E um mundo completamente novo se desenha durante o longo período em que seus olhos são mantidos bem fechados.

Com o corpo moído de tantos sonhos de aflição, Humberto enfim desperta. E tudo fica cinza: as paredes, as máquinas, a garra metálica que parece sempre prestes a comprimir impiedosamente sua cabeça. Porém, apesar desse ar de fábrica, ainda parece que o protagonista está dentro de um hospital, visto que acaba de acordar sobre um leito clínico. Seja muito bem-vindo à fábrica da juventude, o lugar onde rejuvenescer é tão simples quanto apertar alguns parafusos.

E sua esposa? Seus filhos? Seu emprego? Se estes ainda fossem os seus maiores problemas: logo o protagonista vem a descobrir que possui controle de seus movimentos apenas do pescoço para cima. Seus braços e pernas ainda podem se deslocar, contudo não pelos próprios comandos. Um sistema externo ordena as suas locomoções por um dispositivo que Humberto descobre estar implantado em sua coluna e na de todos os outros. Ou melhor, também não há mais Humberto: seu novo código para reconhecimento torna-se JÓ2719PR29, muito prazer. Este é o início de seu novo funcionamento como empregado compulsório da era i-Racional.

Mas, afinal: será tudo sonho ou realidade? Nunca se sabe até que ponto a interatividade desse lugar pode chegar…

Em uma sociedade totalmente insensível e massificada, a missão de JÓ2719PR29 não será nada fácil: descobrir o que ocorreu com sua família e fazer toda a sua vida voltar ao normal. Todavia, o prosseguir nessa batalha solitária será dificultado por um ente maior, EF217CL210, do qual nunca se tem certeza se é um sistema metafísico, um computador superpotente ou qualquer outra coisa totalmente nova.

Assim, o protagonista transformado em máquina terá de lutar contra esse adversário intangível, enfrentar alicates inflexíveis e monstros de aço inoxidável para comprovar que a sua real identidade ainda pode prevalecer. E permitir que volte a se chamar Humberto mais uma vez.

Camilo Fontana é um curador de arte em busca do melhor método para tratar as feridas da alma por meio da ressonância dialética.