Piscina Livre

Piscina livre

André Carneiro
Editora Moderna
136 páginas
Lançado em 1980

Publicado pouco antes da organização do movimento que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira, Piscina Livre apresenta características marcantes da proposta literária da onda na qual Carneiro se insere.

A começar pela apresentação formal do texto que, numa ousadia modernista, não observa os convencionais recuos dos parágrafos. Não se trata de um erro editorial, uma vez que tanto o autor quanto a editora tinham muita experiência na publicação de livros. A apresentação é proposital, mas surpreende os leitores acostumados aos textos da Segunda Onda, que tiveram uma postura conservadora em relação à forma e ao estilo, com pouca ou nenhuma experimentação nesse aspecto.

Também na prosa, Piscina Livre tem um toque de elegância e uma ousadia técnica pouco comuns na FCB, características que fizeram valer os elogios que o autor recebeu e ainda recebe de editores, leitores e teóricos.

O mundo desse romance é habitado por pessoas felizes e frívolas, que vivem em cidades confortáveis, ilhas de urbanidade cercadas pela natureza selvagem. A Piscina Livre é uma casa de prostituição, onde as mulheres encontram exemplares masculinos geneticamente desenvolvidos para o sexo. São os andrs, homens artificiais que não têm direitos de cidadão. O termo piscina livre refere-se à sua vitrine, que é um enorme aquário no qual andrs nus exibem-se para a clientela num erótico balé subaquático. Em nenhum momento o romance sugere que existam andrs fêmeas e, com efeito, o discurso feminista de Carneiro, presente em muitas de suas obras, aqui condena explicitamente a prostituição feminina.

A sociedade não vê a Piscina Livre como uma atividade moralmente condenável, ao contrário. Trata-se de um lugar elegante e bem frequentado, no qual as mais destacadas mulheres da sociedade encontram complementos para sua satisfação sexual, inclusive um gorila muito requisitado. De fato, essa comunidade futura trocou as religiões pelo sexo, que é praticado livremente por homens e mulheres de todas as idades, até crianças. O prazer erótico é a linha guia da sociedade, ensinado nas escolas por especialistas, com uma infinidade de práticas variantes. Não há ciúme ou vergonha e todos desfrutam de liberdade sexual absoluta.

Os andrs, contudo, não são felizes. Anseiam pela liberdade e buscam por ela fugindo para a selva, principalmente quando, depois de algum acidente, apresentam defeitos ou aleijumes. Os fugitivos acabam servindo como caça desportiva para homens que se divertem matando-os com rifles elétricos.

Nesse cenário, encontramos um casal jovem que, no princípio da narrativa, chamam-se Blanche e Kratz. Esses nomes não duram muito além das páginas iniciais, pois os cidadãos usam braceletes identificadores que lhes mudam o nome todos os dias. O que poderia tornar-se uma confusão é tratado de forma segura pelo autor e em momento algum o leitor perde a identidade dos personagens.

Apesar de ter uma vida confortável, Blanche não está plenamente feliz, embora não saiba disso. Em uma visita à Piscina Livre, ela desfruta do andrs Several (ao contrário dos cidadãos livres, os andrs nunca mudam de nome). Na Piscina Livre, a seleção dos andrs é aleatória, mas Blanche − que a essa altura já não se chama mais assim – desenvolve uma fixação por ele. Kratz não se importa que Blanche tenha relações com outros homens, sejam eles andrs ou cidadãos, mas fica abalado quando desconfia que ela entabula diálogos lógicos com Several, uma vez que considera os andrs mentalmente inferiores.

Conforme Blanche estreita seu relacionamento com Several, Kratz fica cada vez mais abalado emocionalmente, e isso vai levá-lo a adotar medidas drásticas na tentativa de recuperar o seu amor. Sendo conselheiro da cidade, Kratz dispõe de algum poder, e o que se segue é nada menos que um holocausto.

Interessante notar o final anticlimático da trama, depois do torvelinho de situações de crime e tragédia.

O moralismo que caracteriza o genoma da ficção científica internacional mais bem-sucedida não encontra eco em Piscina Livre, que, na mais pura tradição tupiniquim, termina literalmente em pizza, sem culpa ou punição. Desse modo, o autor deixa a conclusão aberta ao leitor: trata-se de uma alegoria à impunidade que assola o país; de uma parábola para o perdão cristão; de uma proposta para a redenção espiritual através do sexo ou de outras infinitas abordagens que se possa perceber.

Piscina Livre define um modelo pouco explorado de ficção científica, que exige do autor uma ampla capacidade abstrativa e estilística, além de uma maturidade moral e filosófica capaz de lidar com o tema do sexo sem cair no escracho, no machismo ou na grosseria. Autores com essa capacidade geralmente preferem não escrever FC, enquanto os autores de FC de alguma qualidade não ousam tocar nesses assuntos, por uma questão de protocolo do gênero. Ainda bem que tivemos a ventura de ter André Carneiro na ficção científica brasileira.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

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Guerra justa

Guerra justa

Carlos Orsi
Editora Draco
150 páginas
Lançado em 2010

No futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das principais religiões, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas as religiões conhecidas. No vácuo desse cataclismo, emerge um novo profeta – o Pontífice –, que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica na órbita da Terra, numa estação espacial.

Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder graças à capacidade do Pontífice de prever o futuro. Sua igreja torna-se um governo mundial todo-poderoso, um estado policial teocrata que controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.

Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go. Com essa informação, Ma Go adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece outro polo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.

Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes ao qual sua irmã fazia parte. Ela é levada a Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu líder espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.

Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas coletâneas Medo, mistério e morte (1996) e Tempos de fúria (2006). Guerra justa é seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas cento e cinquenta páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto.

Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.

Apesar de ter apontado suas baterias contra as religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.

Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar pela premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, essas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaísmo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, à destruição de seus templos mais sagrados.

Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]

A Amazônia misteriosa

A Amazônia misteriosa

Gastão Cruls
Editora Saraiva, Coleção Saraiva nº 115, 1957
240 páginas
Publicado originalmente em 1925

A Amazônia misteriosa, romance do escritor carioca Gastão Cruls (1888-1959), instala-se nas profundezas da selva amazônica, um dos cenários mais interessantes da FC brasileira, que serviu de tabuleiro para diversos romances. Contudo, nenhum supera o de Cruls em detalhamento, tão farto, que o autor julgou apropriado acrescentar um Elucidário para explicar os nomes e termos usados ao longo da história.

O primeiro capítulo do romance mostra as páginas finais de um diário de viagem, no qual o autor, chamado durante toda a história apenas de Seu Doutor, narra os últimos progressos de uma expedição científica à floresta amazônica. Com ele viaja um pequeno grupo de homens especializados nos perigos de uma incursão desse tipo.

A partir do segundo capítulo, a narrativa assume um ritmo mais dinâmico, em primeira pessoa. Durante uma das expedições em busca de alimento, Seu Doutor, acompanhado dos mateiros Piauí e Pacatuba, perdem-se do grupo principal e são capturados por índios que os levam numa longa caminhada. Acometido de uma febre e em delírio, Piauí desaparece na mata, para não mais ser visto.

Os sobreviventes são levados para outra tribo, que o narrador vai logo identificar como sendo a aldeia das lendárias amazonas. Para surpresa do Seu Doutor, vivem ali alguns estrangeiros: um pesquisador alemão chamado Jacob Hartmann, que desenvolve algum tipo de pesquisa secreta, sua jovem esposa Rosina, e uns poucos homens. A índia Malila, encarregada de cuidar dos recém-chegados, acaba por desenvolver por eles uma afetividade importante. Também será significativa a figura de Rosina, que se ressente da condição de exilada na selva e do casamento infeliz com o frio cientista. Com ela, Seu Doutor vai estabelecer um relacionamento perigoso.

A princípio, a vida dos dois homens na aldeia das amazonas não é desagradável. Alimentados, bem tratados e na esperança de retornar à civilização, eles passam a explorar a aldeia, conhecendo seus costumes e suas histórias. Curioso sobre os segredos da pesquisa de Hartmann, Seu Doutor espiona o laboratório improvisado numa área reservada e fica horrorizado quando descobre ali crianças deformadas, mantidas em jaulas como animais, o que vai estabelecer os conflitos que darão termo à história.

Filho de um importante médico e cientista, Gastão Cruls foi revelado na Revista do Brasil, editada por Monteiro Lobato. A Amazônia misteriosa foi sua incursão na ficção científica e está claramente inserida na tradição do romance científico de Júlio Verne. Cruls não tentou escamotear outras influências e cita, textualmente, os romances A ilha do doutor Moreau, de H.G. Wells, e As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, no que fez muito bem. Pois, em pleno 1925, compôs de forma primorosa ambas as propostas do nascente gênero da ficção científica, unindo o relato científico de Verne à fantasia de Wells, e aproveitando ainda as ideias modernistas que estavam em ebulição na literatura brasileira.

O significado de A Amazônia misteriosa para a ficção científica brasileira é incomparável, pois o romance aglutina um leque de propostas que ainda hoje estão em debate, num romance sofisticado, literariamente acima da média. Se traduzido e lançado hoje no mercado estrangeiro, certamente atrairia a atenção, não só pelo seu caráter exótico e pela sua qualidade literária, mas porque os estrangeiros estão ávidos por esse tipo de história, que boa parte dos autores nacionais de FC&F ainda insiste em desprezar.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

A espinha dorsal da memória & Mundo fantasmo

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Braulio Tavares
Editora Rocco
256 páginas
Lançado em 1996

O trabalho de estreia de Braulio Tavares na ficção foi um pequeno texto chamado Os pensadores de São Tiago, publicado em 1986 no número 11 do fanzine Hiperespaço, uma edição especial de contos. Na sequência, Tavares tornou-se colaborador regular do Somnium, boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica, com contos que posteriormente formaram a coletânea A espinha dorsal da memória. Publicada em 1990 pela editora Caminho, de Portugal, essa reunião de ficções recebeu o Prêmio Nova de melhor livro de autor brasileiro naquele ano. A edição nacional saiu em 1996, pela editora Rocco, acrescida da coletânea inédita Mundo fantasmo.

A espinha dorsal da memória é formada por doze contos que ajudaram a consolidar a identidade da geração conhecida como Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, entre eles Sympathy for the devil, ganhador do Prêmio Nova em 1989, História de Maldum, o mensageiro, que deu origem ao romance A máquina voadora (Rocco, 1994), e Príncipe das sombras, história de invasão alienígena que vai da ficção científica hard à space opera e ao cyberpunk, num passeio completo pelo gênero. Sem esquecer de Mestre-de-armas, conto vencedor do Prêmio Nova em 1990, considerado por muitos seu melhor trabalho.

Destaque para o curtinho Mare tenebrarum, que relata um drama infelizmente muito comum no Brasil: um temporal, a água entrando pela casa, cobrindo móveis e destruindo a realidade de uma família pobre, mas… e se a enxurrada fosse forte demais?

Girando o livro de ponta-cabeça e lendo de trás para frente está Mundo fantasmo, que, abrindo com uma epígrafe tirada do Grande sertão: veredas (“E vi o mundo fantasmo”), apresenta mais sete histórias inéditas até então. Oh Lord, won’t you buy me é praticamente uma homenagem ao fã brasileiro de literatura fantástica, sempre em busca de mais e mais livros pelos sebos da cidade. É impossível não se identificar com o personagem que se encontra com Deus em pleno metrô paulistano.

Mais homenagens em Exame da obra de Giuseppe Sanz, história de um escritor de sucesso que produzia suas obras dissecando trabalhos alheios e revestindo-os com uma figuração moderna. E não é o que os autores fazem o tempo todo?

História de Cassim, o peregrino, e de um crime perfeito que Deus castigou é uma espécie de sequência à História de Maldun, o mensageiro, menos assustadora mas igualmente deliciosa, na qual um homem relata aos seus companheiros de bebida um intrigante conto de amor, traição e imortalidade.

Tavares também experimentou a forma literária em Expedição às profundezas do oceano, história de horror urbano contada no único parágrafo de um relatório policial. Mas o conto mais surpreendente dessa ótima coletânea é E assim destruímos o reino do mal, no qual um guerreiro obcecado pela destruição do mal sobre a Terra acaba por tornar-se o próprio coração da maldade.

Cada história é a passagem para uma realidade diferente, repleta de sense of wonder, que, no final das contas, é o que faz de todos nós fãs da ficção fantástica e científica.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

Os livros brasileiros de ficção científica mais importantes

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Com o propósito de compor uma bibliografia básica da ficção científica brasileira, endereçada a qualquer leitor ou escritor que não conheça nada dessa tradição com mais de um século de existência, provoquei vários colegas de ofício com a seguinte pergunta:

Em sua opinião, quais são os cinco livros brasileiros de ficção científica mais importantes?

As indicações abaixo começam a desenhar o paideuma da FC brasuca. Mas esse resultado é parcial, pois a enquete ainda não terminou. Se você não enviou sua lista, agora é a hora.

Alvaro Domingues
1. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)
2. A cidade perdida, de Jeronymo Monteiro (1948)
3. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
4. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
5. O grito do sol sobre a cabeça, de Brontops Baruq (2012)

Ana Cristina Rodrigues
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. O doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1875)
3. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)
4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
5. A lição de anatomia do temível dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)

Ataíde Tartari
1. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
2. Todos os portais, organização de Nelson de Oliveira (2012)
3. O fruto maduro da civilização, de Ivan Carlos Regina (1993)
4. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1997)
5. Estranhos contatos, organização de Roberto de Sousa Causo (1998)

Braulio Tavares
1. As noites marcianas, de Fausto Cunha (1960)
2. Histórias do acontecerá, organização de Gumercindo Rocha Dórea (1961)
3. Além do tempo e do espaço, organização de Álvaro Malheiros (1965)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
5. O vampiro de Nova Holanda, de Gerson Lodi-Ribeiro (1998)

Brontops Baruq
1. Diário da Guerra de São Paulo, de Fernando Bonassi (2007)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
3. Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (2012)
4. Caçador de apóstolos, de Leonel Caldela (2010)
5. O homem fragmentado, de Tibor Moricz (2014)

Caio Bezarias
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. Fome, de Tibor Moricz (2008)
3. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
4. Os melhores contos brasileiros de ficção científica, organização de Roberto de Sousa Causo (2007)
5. O alienista, de Machado de Assis (1881)

Carlos Angelo
1. Projeto Evolução, de Henrique Villibor Flory (1990)
2. Linha terminal, de Jorge Luiz Calife (1991)
3. Horizonte de eventos, de Jorge Luiz Calife (1986)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
5. Fuga para parte alguma, de Jeronymo Monteiro (1961)

Carlos Orsi
1. Intempol, organização de Octavio Aragão (2000)
2. Histórias de Carla Cristina Pereira, de Gerson Lodi-Ribeiro (2012)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)
5. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)

Cesar Silva
1. O alienista, de Machado de Assis (1881)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. O doutor Benignus, de Augusto Emilio Zaluar (1875)
4. Tangentes da realidade, de Jeronymo Monteiro (1969)
5. Diário da nave perdida, de André Carneiro (1963)

Cláudia Oliveira
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. As cidades indizíveis, organização de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira (2011)
3. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
4. Universo desconstruído, organização de Lady Sybylla e Aline Valek (2013)
5. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)

Davenir Viganon
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)
3. Os dias da peste, de Fábio Fernandes (2009)
4. O alienista, de Machado de Assis (1881)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Dorva Rezende
1. A espinha dorsal da memória / Mundo fantasmo, de Braulio Tavares (1996)
2. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)
3. Comba Malina, de Dinah Silveira de Queiroz (1969)
4. Tempos de fúria, de Carlos Orsi (2005)
5. A Terceira Expedição, de Daniel Fresnot (1987)

Fábio Fernandes
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Zigurate, de Max Mallmann (2003)
5. A Terceira Expedição, de Daniel Fresnot (1987)

Gerson Lodi-Ribeiro
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Os dias da peste, de Fábio Fernandes (2009)
3. Guerra justa, de Carlos Orsi (2010)
4. E de extermínio, de Cirilo Lemos (2015)
5. O esplendor, de Alexey Dodsworth (2016)

Gianpaolo Celli
1. Antologia FCdoB 2006-2007, organização de Pedro Rangel (2007)
2. Portal Solaris, organização de Nelson de Oliveira (2008)
3. Retrofuturismo, organização de Romeu Martins e Gianpaolo Celli (2012)
4. A mão que cria, de Octávio Aragão (2006)
5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)

Ivo Heinz
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Intempol, organização de Octavio Aragão (2000)
3. A espinha dorsal da memória, de Bráulio Tavares (1989)
4. O dia da nuvem, de Fausto Cunha (1980)
5. Diário da guerra de São Paulo, de Fernando Bonassi(2007)

Luiz Bras
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. Mnemomáquina, de Ronaldo Bressane (2014)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Amorquia, de André Carneiro (1991)
5. Os melhores contos brasileiros de ficção científica, organização de Roberto de Sousa Causo (2007)

Marcia Olivieri
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)
3. Diário da nave perdida, de André Carneiro (1963)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)

Miguel Carqueija
1. Os bruzundangas, de Lima Barreto (1922)
2. Fuga para parte alguma, de Jeronymo Monteiro (1961)
3. 9225, de Sylvia Regina (1989)
4. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
5. Dário da nave perdida, de André Carneiro (1963)

Mustafá Ali Kanso
1. Confissões do inexplicável, de André Carneiro (2007)
2. Amorquia, de André Carneiro (1991)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1991)
5. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)

Octavio Aragão
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1996)
2. Tempos de fúria, de Carlos Orsi (2005)
3. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1997)
4. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Ramiro Giroldo
1. Amorquia, de André Carneiro (1991)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. As noites marcianas, de Fausto Cunha (1960)
4. O diálogo dos mundos, de Rubens Teixeira Scavone (1961)
5. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)

Ricardo Celestino
1. Favelost, de Fausto Fawcett (2012)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
4. Distrito federal, de Luiz Bras (2014)
5. Caçador cibernético da rua 13, de Fabio Kabral (2017)

Ricardo Santos
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni (2010)
3. Encruzilhada, de Lúcio Manfredi (2015)
4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyolla Brandão (1981)
5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)

Roberto de Sousa Causo
1. A Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls (1925)
2. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
3. O 31º peregrino, de Rubens Teixeira Scavone (1993)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (2008)
5. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)

Rodrigo van Kampen
1. Filhos do fim do mundo, de Fábio Barreto (2013)
2. Metanfetaedro, de Alliah (2012)
3. Universo desconstruído, organização de Lady Sybylla e Aline Valek (2013)
4. A torre acima do véu, de Roberta Spindler (2014)
5. As cidades indizíveis, organização de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira (2011)

Ronaldo Bressane
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
3. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (2012)

Sid Castro
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Glória sombria, de Roberto de Sousa Causo (2013)
3. Portal Fahrenheit, organização de Nelson de Oliveira (2010)
4. A República 3000, de Menotti del Picchia (1930)
5. Dieselpunk, organização de Gerson Lodi-Ribeiro (2011)

Silvio Alexandre
1. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
2. Antologia brasileira de ficção científica, organização de Gumercindo Rocha Dorea (1961)
3. Amorquia, de André Carneiro (1991)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Outras histórias, de Gerson Lodi-Ribeiro (1997)

Tiago Castro
1. Fome, de Tibor Moricz (2008)
2. Os reis do Rio, de Rafael Lima (2012)
3. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
4. Espada da galáxia, de Marcelo Cassaro (1995)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Tibor Moricz
1. Amorquia, de André Carneiro (1991)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
3. O par, de Roberto de Sousa Causo (2008)
5. Interface com o vampiro, de Fábio Fernandes (2000)

O 31º peregrino

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Rubens Teixeira Scavone
Editora Estação Liberdade
64 páginas
Lançado em 1993

Rubens Teixeira Scavone foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no país. Foi o autor do romance O homem que viu o disco voador, de 1958, possivelmente o mais bem-sucedido livro da FC brasileira, e da coletânea de contos O diálogo dos mundos, de 1963, entre outros trabalhos.

Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone buscou inspiração no clássico Os contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer, obra escrita há mais de seiscentos anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino.

Trata-se de uma história extremamente significativa em termos humanos. Uma narrativa tocante, de estilo incomum, que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da FC convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras hoje em desuso. Esse estilo, com um quê de barroco, estranho ao leitor moderno, se deve à escolha do autor, que se fez passar pelo próprio Chaucer.

Os contos de Canterbury reúnem as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, no sul de Londres. Cada romeiro assume um arquétipo social e é por ele batizado. Os personagens não têm nome, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro e assim por diante.

Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone), que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo, que justifica perfeitamente a releitura que Scavone faz da obra de Chaucer.

Chaucer-Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os supersticiosos peregrinos católicos.

A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma joia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.

Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de ficção científica. O componente explícito do gênero surge quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer-Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor-personagem.

A novela ainda guarda muitas outras qualidades. É uma narrativa que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou rejeita, fica a cargo do leitor decidir.

Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira